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Morando sabia de tudo, diz denunciante sobre contratos da merenda

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Rogério da Lupa garante ter alertado prefeito de S.Bernardo acerca das irregularidades que resultaram em operação da PF e denúncia do MPF


Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

20/08/2020 | 00:24


Em uma sexta-feira, dia 9 de dezembro de 2016, o prefeito eleito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB), recebeu uma mensagem em seu WhatsApp. O conteúdo indicava que o contrato com a Convida Refeições, para fornecimento de merenda escolar na cidade, tinha falhas e que lhe traria problemas ainda maiores se nada fosse feito. O mesmo mensageiro apontou, meses depois, que o acordo emergencial para substituir a Convida era obscuro.

A crítica à época havia sido feita por Rogério e Silva, 50 anos. Militante da área da educação há 16 anos, Silva ficou conhecido como Rogério da Lupa em São Bernardo. No passado, havia denunciado irregularidades que atingiram os governos de William Dib (sem partido) e Luiz Marinho (PT) – esse último, na compra de uniformes, resultou em ação penal contra Cleuza Repulho, então secretária de Educação do petista.

“Avisei que tinha problemas e que traria problemas. O prefeito sabia”, disse Rogério, ao Diário. Ele comentou que, no dia anterior à mensagem de alerta, havia recebido, como usualmente acontece, relatório do TCE (Tribunal de Contas do Estado) acerca dos contratos da Prefeitura de São Bernardo. O com a Convida tinha sido firmado no governo Marinho, em abril de 2016, com duração de um ano. Já tinha sido alvo de representação ao Ministério Público de Pery Cartola (PSDB), vereador mais bem votado em 2016 e que, em janeiro de 2017, assumiu a presidência da Câmara com a bênção de Morando. Pery tinha indicado suspeita de direcionamento naquela concorrência a favor da empresa do grupo De Nadai.

“Que m...! Logo resolveremos”, respondeu Morando, ao alerta feito por Rogério no dia 9 de dezembro. “Ou ele estendia o contrato com a Convida ou promovia licitação”, discorreu o denunciante, que, com o passar dos meses – Morando havia tomado posse no dia 1º de janeiro de 2017 –, achou estranho que nenhuma movimentação de licitação tinha sido publicada pela Prefeitura.

Rogério passou a pedir via Lei de Acesso à Informação qualquer dado a respeito da merenda escolar. Ficou sabendo que o contrato com a Convida, em abril, havia sido prorrogado por três meses, embora oficialmente o Paço negasse tal informação. Em 21 de julho, a surpresa: o governo Morando publicara acordo emergencial com a Pró-Saúde Alimentação Saudável, por seis meses.
“Neste dia mandei outra mensagem para o Orlando. O edital já tinha problemas. Mas a empresa tinha problemas ainda maiores. Respondia a série de processos. Era a antiga Filog (Comércio e Serviço de Refeições), tinha mudado de nome, nem funcionário tinha”, relembrou Rogério. “Ele me garantiu que o contrato traria economia de R$ 500 mil ao mês e que aquilo era gestão.”

No mesmo dia, Rogério afirmou ter recebido a ligação do então presidente da FUABC (Fundação do ABC) e secretário de Assuntos Governamentais de São Bernardo, Carlos Maciel. O secretário defendeu a empresa, assegurou que estava tudo certo com a documentação.

A entrada de Maciel na conversa àquela altura era incógnita, uma vez que Rogério tratava com Morando sobre o assunto e queria falar com a secretária de Educação à época, Suzana Dechechi – Rogério apoiou a candidatura de Morando em 2016. A razão pela participação de Maciel viria dias depois.

Rogério decidiu publicar trecho da conversa que mantinha com Morando em uma rede social. Recebeu ligação do prefeito quase que na sequência. “Ele me xingou, me ameaçou”, rememorou. O caso é alvo de inquérito policial que corre no 1º DP (Centro). Depois, foi convidado a ir ao 18º andar do Paço, onde está o gabinete do prefeito. Ao chegar, além do tucano, Maciel estava à mesa. Lavaram roupa suja sobre o episódio do vazamento da conversa. No meio do diálogo, sustenta Rogério, Morando falou: “Você precisa ir ver como está melhor a comida do pronto-socorro”. “Até então não sabia de nada da saúde. Pedi ao pessoal que me ajuda para ver o que era. Ao puxarem os contratos e o relatório das empresas, viram que era tudo da família Maciel.”

Em julho, via FUABC, a Nutrivida Alimentação e Serviços passou a distribuir alimentação hospitalar a equipamentos de São Bernardo. Embora a Nutrivida tivesse Alexandre Lopes Ribeiro como dono, filhas de Maciel – Millena e Melissa – tinham relação com a firma. O mesmo foi constatado na Pró-Saúde, comandada oficialmente por Nivaldo Inácio de Oliveira. Logo foi constatado que Fábio Mathias Favaretto, genro de Maciel e marido de Millena, dono do bufê Le Garçon, comandava às escondidas.

“Montamos um dossiê com 500 páginas”, citou Rogério. Esse dossiê foi protocolado no Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) ABC, no setor de crime de prefeitos do Ministério Público e no MPF (Ministério Público Federal) em agosto de 2017. Como se sabe, o MPF, junto com a PF (Polícia Federal), deflagrou a Operação Prato Feito, em 9 de maio de 2018, que abalou o governo Morando, resultou na demissão de Maciel e trouxe à luz as relações suspeitas – Morando e Maciel foram denunciados por corrupção. “Era impossível o prefeito não saber da relação do Maciel com as empresas. Acredito que sabia de tudo”, afirmou Rogério.

Ele admite que foi convidado a trabalhar no governo Morando – “disse que sabia ver os contratos, pedi para ir à comissão de licitações, não aceitaram” –, mas garantiu que sua atuação não é retaliação ao prefeito. Também refutou interesse político, embora declare que “faço pelo bem da cidade. São Bernardo não merece mais quatro anos de governo do Orlando”.

Em nota, o governo tucano disse que “não comenta ‘impressões’ de terceiros sobre o processo”. “A atual gestão teve seus contratos julgados regulares pelo TCE e por sentença proferida pela Justiça Estadual, que condenou empresa contratada na gestão do PT por prática de sobrepreço. O indivíduo em questão divulgou um falso concurso público para a Secretaria de Educação e um boletim de ocorrência foi registrado contra ele por parte da Prefeitura. Na ocasião, um advogado ligado ao PT se apresentou para representá-lo, o que deixa claro sua predisposição política contra a atual administração.” 



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Morando sabia de tudo, diz denunciante sobre contratos da merenda

Rogério da Lupa garante ter alertado prefeito de S.Bernardo acerca das irregularidades que resultaram em operação da PF e denúncia do MPF

Raphael Rocha
Do Diário do Grande ABC

20/08/2020 | 00:24


Em uma sexta-feira, dia 9 de dezembro de 2016, o prefeito eleito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB), recebeu uma mensagem em seu WhatsApp. O conteúdo indicava que o contrato com a Convida Refeições, para fornecimento de merenda escolar na cidade, tinha falhas e que lhe traria problemas ainda maiores se nada fosse feito. O mesmo mensageiro apontou, meses depois, que o acordo emergencial para substituir a Convida era obscuro.

A crítica à época havia sido feita por Rogério e Silva, 50 anos. Militante da área da educação há 16 anos, Silva ficou conhecido como Rogério da Lupa em São Bernardo. No passado, havia denunciado irregularidades que atingiram os governos de William Dib (sem partido) e Luiz Marinho (PT) – esse último, na compra de uniformes, resultou em ação penal contra Cleuza Repulho, então secretária de Educação do petista.

“Avisei que tinha problemas e que traria problemas. O prefeito sabia”, disse Rogério, ao Diário. Ele comentou que, no dia anterior à mensagem de alerta, havia recebido, como usualmente acontece, relatório do TCE (Tribunal de Contas do Estado) acerca dos contratos da Prefeitura de São Bernardo. O com a Convida tinha sido firmado no governo Marinho, em abril de 2016, com duração de um ano. Já tinha sido alvo de representação ao Ministério Público de Pery Cartola (PSDB), vereador mais bem votado em 2016 e que, em janeiro de 2017, assumiu a presidência da Câmara com a bênção de Morando. Pery tinha indicado suspeita de direcionamento naquela concorrência a favor da empresa do grupo De Nadai.

“Que m...! Logo resolveremos”, respondeu Morando, ao alerta feito por Rogério no dia 9 de dezembro. “Ou ele estendia o contrato com a Convida ou promovia licitação”, discorreu o denunciante, que, com o passar dos meses – Morando havia tomado posse no dia 1º de janeiro de 2017 –, achou estranho que nenhuma movimentação de licitação tinha sido publicada pela Prefeitura.

Rogério passou a pedir via Lei de Acesso à Informação qualquer dado a respeito da merenda escolar. Ficou sabendo que o contrato com a Convida, em abril, havia sido prorrogado por três meses, embora oficialmente o Paço negasse tal informação. Em 21 de julho, a surpresa: o governo Morando publicara acordo emergencial com a Pró-Saúde Alimentação Saudável, por seis meses.
“Neste dia mandei outra mensagem para o Orlando. O edital já tinha problemas. Mas a empresa tinha problemas ainda maiores. Respondia a série de processos. Era a antiga Filog (Comércio e Serviço de Refeições), tinha mudado de nome, nem funcionário tinha”, relembrou Rogério. “Ele me garantiu que o contrato traria economia de R$ 500 mil ao mês e que aquilo era gestão.”

No mesmo dia, Rogério afirmou ter recebido a ligação do então presidente da FUABC (Fundação do ABC) e secretário de Assuntos Governamentais de São Bernardo, Carlos Maciel. O secretário defendeu a empresa, assegurou que estava tudo certo com a documentação.

A entrada de Maciel na conversa àquela altura era incógnita, uma vez que Rogério tratava com Morando sobre o assunto e queria falar com a secretária de Educação à época, Suzana Dechechi – Rogério apoiou a candidatura de Morando em 2016. A razão pela participação de Maciel viria dias depois.

Rogério decidiu publicar trecho da conversa que mantinha com Morando em uma rede social. Recebeu ligação do prefeito quase que na sequência. “Ele me xingou, me ameaçou”, rememorou. O caso é alvo de inquérito policial que corre no 1º DP (Centro). Depois, foi convidado a ir ao 18º andar do Paço, onde está o gabinete do prefeito. Ao chegar, além do tucano, Maciel estava à mesa. Lavaram roupa suja sobre o episódio do vazamento da conversa. No meio do diálogo, sustenta Rogério, Morando falou: “Você precisa ir ver como está melhor a comida do pronto-socorro”. “Até então não sabia de nada da saúde. Pedi ao pessoal que me ajuda para ver o que era. Ao puxarem os contratos e o relatório das empresas, viram que era tudo da família Maciel.”

Em julho, via FUABC, a Nutrivida Alimentação e Serviços passou a distribuir alimentação hospitalar a equipamentos de São Bernardo. Embora a Nutrivida tivesse Alexandre Lopes Ribeiro como dono, filhas de Maciel – Millena e Melissa – tinham relação com a firma. O mesmo foi constatado na Pró-Saúde, comandada oficialmente por Nivaldo Inácio de Oliveira. Logo foi constatado que Fábio Mathias Favaretto, genro de Maciel e marido de Millena, dono do bufê Le Garçon, comandava às escondidas.

“Montamos um dossiê com 500 páginas”, citou Rogério. Esse dossiê foi protocolado no Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) ABC, no setor de crime de prefeitos do Ministério Público e no MPF (Ministério Público Federal) em agosto de 2017. Como se sabe, o MPF, junto com a PF (Polícia Federal), deflagrou a Operação Prato Feito, em 9 de maio de 2018, que abalou o governo Morando, resultou na demissão de Maciel e trouxe à luz as relações suspeitas – Morando e Maciel foram denunciados por corrupção. “Era impossível o prefeito não saber da relação do Maciel com as empresas. Acredito que sabia de tudo”, afirmou Rogério.

Ele admite que foi convidado a trabalhar no governo Morando – “disse que sabia ver os contratos, pedi para ir à comissão de licitações, não aceitaram” –, mas garantiu que sua atuação não é retaliação ao prefeito. Também refutou interesse político, embora declare que “faço pelo bem da cidade. São Bernardo não merece mais quatro anos de governo do Orlando”.

Em nota, o governo tucano disse que “não comenta ‘impressões’ de terceiros sobre o processo”. “A atual gestão teve seus contratos julgados regulares pelo TCE e por sentença proferida pela Justiça Estadual, que condenou empresa contratada na gestão do PT por prática de sobrepreço. O indivíduo em questão divulgou um falso concurso público para a Secretaria de Educação e um boletim de ocorrência foi registrado contra ele por parte da Prefeitura. Na ocasião, um advogado ligado ao PT se apresentou para representá-lo, o que deixa claro sua predisposição política contra a atual administração.” 

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