Fechar
Publicidade

Terça-Feira, 4 de Agosto

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Setecidades

setecidades@dgabc.com.br | 4435-8319

Cultura do desmame ainda é obstáculo durante amamentação

Mães relatam falta de orientação no pré-natal e após o parto, além da desinformação relacionada ao uso de chupetas e mamadeiras pelos bebês


Flavia Kurotori

02/08/2020 | 00:59


Considerado ‘padrão ouro’ em razão dos benefícios que oferece ao bebê, o leite materno deve ser o único alimento até os seis meses de vida. Ainda que o aleitamento materno faça parte do ciclo natural, a cultura do desmame está presente no cotidiano de mães, que relatam falta de orientação sobre o tema desde o pré-natal. A Semana Mundial do Aleitamento Materno vai até sexta-feira e, neste ano, tem como tema; ‘Apoie a amamentação por um planeta mais saudável’. Agosto, sob a cor dourada, é o mês destinado a proteção, apoio e promoção da amamentação.

“Ainda falta muita orientação por parte dos profissionais de saúde e também viemos de uma cultura muito forte do desmame, na qual são muito comuns a mamadeira e a chupeta. Isso acaba não normalizando a amamentação”, explicou Fabiana Cainé Alves da Graça, consultora internacional de aleitamento materno. “A amamentação é muito difícil e a mulher precisa de muito apoio neste momento. Cada dia que ela consegue, é uma vitória.”

Moradora de Santo André, Caren Chieppa, 29 anos, conta que não recebeu orientações sobre o assunto enquanto estava grávida, período em que buscou informações na internet. “Quando ele nasceu (Cauan, em julho de 2019), a enfermeira me orientou rapidamente logo depois que voltei da anestesia, então, não lembrava de muita coisa e (a enfermeira) não apareceu mais para prestar algum apoio ou verificar se eu estava fazendo corretamente. Minha sorte foi que eu tinha me informado muito sobre o assunto durante a gestação”, detalhou.

Emillyn Oliveira, 21, de São Bernardo, teve experiência parecida durante a gravidez de Lucca, que nasceu em julho. “Pesquisei sobre amamentação, mas no pré-natal não me instruíram como achei que explicariam”, relatou ela, que recorreu a vídeos sobre o tema para aprender sobre a pega correta do peito, por exemplo. “A primeira pega do meu filho foi errada, tive algumas fissuras e ficou super machucado.”

Gleise Aparecida Moraes Costa, pediatra, neonatologista e docente da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), explicou que o crescimento das indústrias alimentícias durante a revolução industrial deu a oportunidade para as mulheres começarem a utilizar a fórmula infantil. “Era mais fácil porque a mulher não precisava ficar 24 horas em contato com o bebê ou ficar levantando a noite e isso foi tomando uma proporção muito grande. Até que na década de 1970, tivemos uma alta da mortalidade infantil e os especialistas concluíram que tinha relação com o desmame precoce.”

Inclusive, para Caren, a cultura do desmame foi um obstáculo. “Me convenceram que a chupeta acalmaria meu filho e eu dei, mas logo tirei porque, mais uma vez, me informei na internet que pode ocorrer confusão de bico em qualquer idade e com o uso de qualquer bico”, lembrou. “As mães precisam de orientação e ajuda, de rede de apoio sem a pressão da indústria e de familiares que vêm da cultura de que mamadeira não faz mal”, adicionou Fabiana.

A consultora salienta que a rede de apoio, composta por familiares e amigos, tem a missão de facilitar este período para a mãe. A recomendação é que essas pessoas busquem informações sobre o assunto, evitando gerar mais dúvidas à mãe, além de auxiliá-la, principalmente, nas questões domésticas e a lidar com as demais crianças da casa, ajudando com os deveres de casa, por exemplo.

Embora o assunto tenha tabus que precisam ser quebrados, as especialistas avaliam que a discussão sobre a amamentação avançou nas últimas décadas. Para Fabiana, o debate ganha corpo conforme as mulheres compartilham suas experiências e os profissionais da saúde se atualizam. Gleise complementa que um dos principais passos no combate ao desmame precoce foi a criação dos hospitais Amigo da Criança pela OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja primeira unidade no Brasil foi implementada em 1992. “Nestes hospitais, chupeta e mamadeira não entram e o contato pele a pele e o aleitamento são incentivados ainda na sala de parto”, observou.

Região tem três bancos de leite; estoque é suficiente

A região conta com três bancos de leite humano, o do Hospital da Mulher e do Hospital Estadual Mário Covas, ambos em Santo André, e do HMU (Hospital Municipal Universitário), em São Bernardo. O estoque atende recém-nascidos que estão internados e precisam se alimentar por sondas. 

Além das mães de bebês internados, que podem ordenhar afim de manter a lactação, mulheres com leite excedente também podem doar desde que apresentem boas condições de saúde. “O controle é tão rigoroso quanto em um banco de sangue. Depois de coletado, o leite será pasteurizado, passará por avaliação de cultura, classificado e, em seguida, será distribuído de acordo com a necessidade de cada bebê”, explicou Gleise Aparecida Moraes Costa, pediatra, neonatologista e docente da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC).

No Hospital da Mulher, o estoque atual de leite humano é suficiente para suprir a demanda de 60 dias, já que armazena 98,5 litros de leite cru e 77,86 litros de leite pasteurizado – o local tem capacidade para 200 litros. Segundo a Prefeitura de Santo André, o aumento das doações em junho em comparação ao mesmo mês do ano passado foi de 102% em razão da campanha Doação de Leite Humano em tempos de pandemia do Ministério da Saúde.

No Hospital Mário Covas, 87 litros, dos 160 litros de capacidade, estão armazenados, duas vezes mais do que o consumo mensal da unidade. Conforme administração, durante a pandemia, houve aumento das doações de leite, já que faz a coleta do leite na residência das doadoras.

No HMU, a Prefeitura de São Bernardo assinalou que as campanhas para doação de leite na pandemia estão contribuindo para o abastecimento. A capacidade é de 500 litros e a média coletada é de 300 litros por mês. A administração não informou o estoque, apenas apontou que possui 150 doadoras.

INSUBSTITUÍVEL

O leite materno é considerado alimento ‘padrão ouro’ porque oferece benefícios ao bebê, como, por exemplo, melhora no sistema digestivo, reduzindo cólicas; diminuição de ocorrência de alergias, obesidade e intolerância ao glúten, além de estimular e fortalecer a arcada dentária, prevenir anemia e melhorar o sistema imunológico, evitando doenças contagiosas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) orienta que o leite materno deve ser o único alimento para bebês de até seis meses de vida e como complemento para crianças de até 2 anos.

Para a mãe, amamentar também contribui com a saúde, já que diminui o sangramento, evitando, consequentemente, anemia, além de reduzir o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares, câncer de mama, endometrio e ovário, osteoporose e a depressão pós-parto.

Fabiana Cainé Alves da Graça, consultora internacional em aleitamento materno, adiciona que o leite produzido pela mãe é o mais seguro e está relacionado ao desenvolvimento do cérebro. “É o melhor alimento porque ele é vivo e muda de acordo com as necessidades da criança. Outro ponto é que o aleitamento fortalece o vínculo entre a mãe e o bebê e também entre o bebê e outros familiares que acompanhem este momento.”

Para marcar a importância do alimento, foi criada a Semana Mundial do Aleitamento Materno e a campanha Agosto Dourado. Por causa da pandemia do coronavírus, as prefeituras irão realizar ações on-line e nas unidades de saúde.  



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Cultura do desmame ainda é obstáculo durante amamentação

Mães relatam falta de orientação no pré-natal e após o parto, além da desinformação relacionada ao uso de chupetas e mamadeiras pelos bebês

Flavia Kurotori

02/08/2020 | 00:59


Considerado ‘padrão ouro’ em razão dos benefícios que oferece ao bebê, o leite materno deve ser o único alimento até os seis meses de vida. Ainda que o aleitamento materno faça parte do ciclo natural, a cultura do desmame está presente no cotidiano de mães, que relatam falta de orientação sobre o tema desde o pré-natal. A Semana Mundial do Aleitamento Materno vai até sexta-feira e, neste ano, tem como tema; ‘Apoie a amamentação por um planeta mais saudável’. Agosto, sob a cor dourada, é o mês destinado a proteção, apoio e promoção da amamentação.

“Ainda falta muita orientação por parte dos profissionais de saúde e também viemos de uma cultura muito forte do desmame, na qual são muito comuns a mamadeira e a chupeta. Isso acaba não normalizando a amamentação”, explicou Fabiana Cainé Alves da Graça, consultora internacional de aleitamento materno. “A amamentação é muito difícil e a mulher precisa de muito apoio neste momento. Cada dia que ela consegue, é uma vitória.”

Moradora de Santo André, Caren Chieppa, 29 anos, conta que não recebeu orientações sobre o assunto enquanto estava grávida, período em que buscou informações na internet. “Quando ele nasceu (Cauan, em julho de 2019), a enfermeira me orientou rapidamente logo depois que voltei da anestesia, então, não lembrava de muita coisa e (a enfermeira) não apareceu mais para prestar algum apoio ou verificar se eu estava fazendo corretamente. Minha sorte foi que eu tinha me informado muito sobre o assunto durante a gestação”, detalhou.

Emillyn Oliveira, 21, de São Bernardo, teve experiência parecida durante a gravidez de Lucca, que nasceu em julho. “Pesquisei sobre amamentação, mas no pré-natal não me instruíram como achei que explicariam”, relatou ela, que recorreu a vídeos sobre o tema para aprender sobre a pega correta do peito, por exemplo. “A primeira pega do meu filho foi errada, tive algumas fissuras e ficou super machucado.”

Gleise Aparecida Moraes Costa, pediatra, neonatologista e docente da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), explicou que o crescimento das indústrias alimentícias durante a revolução industrial deu a oportunidade para as mulheres começarem a utilizar a fórmula infantil. “Era mais fácil porque a mulher não precisava ficar 24 horas em contato com o bebê ou ficar levantando a noite e isso foi tomando uma proporção muito grande. Até que na década de 1970, tivemos uma alta da mortalidade infantil e os especialistas concluíram que tinha relação com o desmame precoce.”

Inclusive, para Caren, a cultura do desmame foi um obstáculo. “Me convenceram que a chupeta acalmaria meu filho e eu dei, mas logo tirei porque, mais uma vez, me informei na internet que pode ocorrer confusão de bico em qualquer idade e com o uso de qualquer bico”, lembrou. “As mães precisam de orientação e ajuda, de rede de apoio sem a pressão da indústria e de familiares que vêm da cultura de que mamadeira não faz mal”, adicionou Fabiana.

A consultora salienta que a rede de apoio, composta por familiares e amigos, tem a missão de facilitar este período para a mãe. A recomendação é que essas pessoas busquem informações sobre o assunto, evitando gerar mais dúvidas à mãe, além de auxiliá-la, principalmente, nas questões domésticas e a lidar com as demais crianças da casa, ajudando com os deveres de casa, por exemplo.

Embora o assunto tenha tabus que precisam ser quebrados, as especialistas avaliam que a discussão sobre a amamentação avançou nas últimas décadas. Para Fabiana, o debate ganha corpo conforme as mulheres compartilham suas experiências e os profissionais da saúde se atualizam. Gleise complementa que um dos principais passos no combate ao desmame precoce foi a criação dos hospitais Amigo da Criança pela OMS (Organização Mundial da Saúde), cuja primeira unidade no Brasil foi implementada em 1992. “Nestes hospitais, chupeta e mamadeira não entram e o contato pele a pele e o aleitamento são incentivados ainda na sala de parto”, observou.

Região tem três bancos de leite; estoque é suficiente

A região conta com três bancos de leite humano, o do Hospital da Mulher e do Hospital Estadual Mário Covas, ambos em Santo André, e do HMU (Hospital Municipal Universitário), em São Bernardo. O estoque atende recém-nascidos que estão internados e precisam se alimentar por sondas. 

Além das mães de bebês internados, que podem ordenhar afim de manter a lactação, mulheres com leite excedente também podem doar desde que apresentem boas condições de saúde. “O controle é tão rigoroso quanto em um banco de sangue. Depois de coletado, o leite será pasteurizado, passará por avaliação de cultura, classificado e, em seguida, será distribuído de acordo com a necessidade de cada bebê”, explicou Gleise Aparecida Moraes Costa, pediatra, neonatologista e docente da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC).

No Hospital da Mulher, o estoque atual de leite humano é suficiente para suprir a demanda de 60 dias, já que armazena 98,5 litros de leite cru e 77,86 litros de leite pasteurizado – o local tem capacidade para 200 litros. Segundo a Prefeitura de Santo André, o aumento das doações em junho em comparação ao mesmo mês do ano passado foi de 102% em razão da campanha Doação de Leite Humano em tempos de pandemia do Ministério da Saúde.

No Hospital Mário Covas, 87 litros, dos 160 litros de capacidade, estão armazenados, duas vezes mais do que o consumo mensal da unidade. Conforme administração, durante a pandemia, houve aumento das doações de leite, já que faz a coleta do leite na residência das doadoras.

No HMU, a Prefeitura de São Bernardo assinalou que as campanhas para doação de leite na pandemia estão contribuindo para o abastecimento. A capacidade é de 500 litros e a média coletada é de 300 litros por mês. A administração não informou o estoque, apenas apontou que possui 150 doadoras.

INSUBSTITUÍVEL

O leite materno é considerado alimento ‘padrão ouro’ porque oferece benefícios ao bebê, como, por exemplo, melhora no sistema digestivo, reduzindo cólicas; diminuição de ocorrência de alergias, obesidade e intolerância ao glúten, além de estimular e fortalecer a arcada dentária, prevenir anemia e melhorar o sistema imunológico, evitando doenças contagiosas. A OMS (Organização Mundial da Saúde) orienta que o leite materno deve ser o único alimento para bebês de até seis meses de vida e como complemento para crianças de até 2 anos.

Para a mãe, amamentar também contribui com a saúde, já que diminui o sangramento, evitando, consequentemente, anemia, além de reduzir o risco de doenças metabólicas e cardiovasculares, câncer de mama, endometrio e ovário, osteoporose e a depressão pós-parto.

Fabiana Cainé Alves da Graça, consultora internacional em aleitamento materno, adiciona que o leite produzido pela mãe é o mais seguro e está relacionado ao desenvolvimento do cérebro. “É o melhor alimento porque ele é vivo e muda de acordo com as necessidades da criança. Outro ponto é que o aleitamento fortalece o vínculo entre a mãe e o bebê e também entre o bebê e outros familiares que acompanhem este momento.”

Para marcar a importância do alimento, foi criada a Semana Mundial do Aleitamento Materno e a campanha Agosto Dourado. Por causa da pandemia do coronavírus, as prefeituras irão realizar ações on-line e nas unidades de saúde.  

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;