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Pandemia muda rotina e intensifica busca por psicólogos

Pixabay Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Profissionais relatam alta na procura e retorno de pacientes; ansiedade está entre sintomas mais comuns


Aline Melo
Do Diário do ABC

16/07/2020 | 00:40


A pandemia da Covid-19 provocou mudanças drásticas na rotina. Pessoas pararam de sair para se encontrar, reduziram idas ao mercado e o home office virou realidade para muita gente, mesmo que dividindo espaço com a criação dos filhos. Além disso, salários foram reduzidos, contratos suspensos e clima de insegurança foi quase que generalizado. Em meio a isso, psicólogos e psiquiatras viram a demanda de clientes aumentar, seja com pacientes novos, seja com novas questões de quem já estava em acompanhamento.

A educadora Katia Malta, 39 anos, mora em Santo André e já fazia terapia, mas, após a pandemia, sentiu necessidade de buscar atendimento com psiquiatrica e uma psicóloga focada na questão familiar e no cuidado com os filhos. A maior convivência familiar, com todos em casa durante o dia inteiro, trouxe necessidade de adaptação emocional. “As sombras de todo mundo aparecem com mais força”, relatou. “Todas essas questões já existiam, a quarentena só intensificou tudo”, concluiu.

Funcionária na ouvidoria de um banco, Bruna Silva, 25, moradora de Diadema, passou a levar mais a sério o acompanhamento com psicólogo desde o início da pandemia. As consultas que aconteciam a cada dois meses passaram a ser semanais para que ela pudesse lidar com a insegurança em relação ao futuro do seu trabalho, ao medo e incertezas deste período. “Comecei a ficar muito ansiosa, com pensamentos super negativos. Tudo isso já existia em proporção muito menor, a pandemia acabou externalizando e começou a me atrapalhar no dia a dia”, explicou. Bruna avalia que nada será como antes e pretende continuar com a terapia mesmo após a crise sanitária.

A veterinária Thaís Antunes, 26, mora em São Caetano e também sentiu a necessidade de retomar a terapia durante a quarentena. Questões no seu relacionamento – fez o período inicial de isolamento junto com o namorado –, sentimento de angústia por causa da rotina, perda de produtividade e desânimo para sair da cama, somados à queda na autoestima motivaram sua decisão. “Sentia como se já não tivesse controle de nada na vida”, explicou. A jovem está em acompanhamento com dois profissionais, um com abordagem mais comportamental e outra, que oferta tratamento holístico e voltado também ao equilíbrio espiritual. “Melhorei muito e já sinto alguns resultados”, celebrou.

Analista de growth marketing (marketing de crescimento) e moradora de Santo André, Maria Eduarda Valim, 24, ainda não tinha feito terapia, apesar de ter psicólogos na família. Mas a mudança de rotina e a necessidade de distanciamento físico de outras pessoas trouxeram a sensação de que a jovem teria perdido o controle da sua vida e, principalmente, do seu futuro. “A terapia tem me ajudado muito a lidar com essa sensação e a entender que muitas coisas não estão sob o meu controle”, afirmou. Maria Eduarda pretende dar continuidade ao acompanhamento, mesmo quando a pandemia acabar. “Antes tinha a vontade de fazer terapia, mas não lidava como uma prioridade”, concluiu.

Integrante do Ambulatório de Medicina e Estilo de Vida do HC (Hospital das Clínicas), a psicóloga clínica Daniela de Oliveira cita que, muito embora cada pessoa seja única, existe uma dificuldade comum em se lidar com o recolhimento que o momento exige. “Cada um tem que lidar com suas vidas, suas questões, seus filhos, seus pais, companheiros. E também consigo mesmo”, pontuou.

Cidades da região ofertam 21 mil atendimentos no período

Cinco das sete cidades do Grande ABC – Mauá e Rio Grande da Serra não responderam – ofertaram cerca de 21 mil atendimentos psicológicos e psiquiátricos para a população durante a quarentena ocasionada pela Covid-19.

Em Santo André, os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) trabalham na lógica multiprofissional e transdisciplinar sem especificidades das categorias profissionais. A produção é focada nas ações de cuidado oferecidas aos munícipes e não na produtividade de cada profissional. Durante o período de pandemia, os atendimentos presenciais foram limitados aos casos crônicos e em crise. Os demais foram acompanhados por atendimentos pontuais, quando necessário, além dos recursos de telecomunicação: telefone, Skype e WhatsApp. Casos novos foram acolhidos e seguiram o fluxo conforme gravidade do quadro. Para os profissionais de saúde, também estão sendo ofertados cuidados pela equipe do Caps e dos Nasf (Núcleos de Apoio à Saúde da Família).

São Bernardo conta com nove Caps e um pronto atendimento psiquiátrico, onde as equipes multidisciplinares mantiveram contato telefônico com os usuários dos serviços, no sentido de diminuir o impacto da pandemia em sua saúde mental e solicitando atendimento presencial quando identificada necessidade. Para os profissionais na linha de frente do combate à Covid-19, o projeto Cuidando de Quem Cuida oferece auxílio psicológico durante o enfrentamento da pandemia, bem como identifica possíveis transtornos mentais, muitas vezes, associados ao medo e seus tratamentos.

São Caetano readequou o sistema e passou a ofertar atendimentos por telefone após o início da pandemia, com atendimento presencial em caso de necessidade. Desde 1º de junho, os atendimentos individuais e presenciais foram retomados, mas as atividades em duplas e grupos seguem suspensas. Para os profissionais que lidam com a Covid-19, foi criado o projeto Escuta, para acolhimento dos trabalhadores.

Em Diadema, as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) mantiveram-se abertas para atendimentos de livre demanda, incluindo aqueles em saúde mental. Os profissionais realizam o monitoramento de seus pacientes, via telefone ou WhatsApp, e atendimento presencial de casos graves, quando necessário. Para os funcionários, foram realizados encontros para prática de relaxamento e meditação e, desde abril, um canal telefônico para que os trabalhadores possam desabafar, sem ter que se identificar.

Os Caps de Ribeirão Pires adotaram teleatendimento aos usuários, com envio de vídeos para as oficinas de dança e música e também vídeos com proposta de atividades físicas. O Caps II está realizando atendimento e teleatendimento aos profissionais de saúde que estão à frente dos casos de Covid-19 no município, proporcionando apoio, escuta e troca.


Isolamento físico jogou luz sobre importância da saúde mental

A pandemia e a necessidade de isolamento – e todas as dificuldade em decorrência disso – jogaram luz sobre a necessidade de se cuidar da saúde mental, avaliam profissionais do setor. Integrante do Ambulatório de Medicina e Estilo de Vida do HC (Hospital das Clínicas), a psicóloga clínica Daniela de Oliveira pondera que a saúde mental sempre esteve em um lugar de “negligenciamento”, até por envolver questões mais abstratas. “Diferentemente de quando a gente quebra um braço e tem a dor física, a dor emocional é encarada como algo a se superar e não a se vivenciar”, afirmou.

Daniela lembrou que o ritmo de vida da sociedade ocidental, em busca desenfreada pela produção, se chocou com a necessidade “de olhar para dentro” que a pandemia trouxe. “E aí, tudo que já existia, a ansiedade, a angústia, fica muito mais evidente”, completou. “Minha esperança é que a gente possa olhar para nós mesmos enquanto seres humanos, o que construiu a nossa cultura são emoções. Precisamos de inteligência emocional”, concluiu.

Terapeuta holística, Lilia Reis relata que viu aumentar a busca pelos seus serviços durante a quarentena e que as pessoas trazem muitas questões sobre relacionamentos e prosperidade. “Todo mundo está com medo, com preocupação, não sabe o que pode acontecer amanhã, então buscam se concentrar mais em si”, relatou. As duas profissionais recomendam técnicas como a meditação para ajudar a lidar com as angústias deste período. “Existem diversos aplicativos gratuitos que podem auxiliar”, 

Desconectar-se das redes sociais e dos aparelhos também é uma indicação. “Muitas vezes as pessoas se perdem quando começam a se comparar à vida ‘perfeita’ que o outro publica em redes sociais. Desliguem a televisão, o computador e o celular pelo menos meia hora antes de dormir para ter um sono de qualidade”, aconselha a terapeuta.

Daniela fala em “lentificar”, ou seja, tornar os dias mais lentos. “O que a gente pode fazer e estou fazendo. O que é a ansiedade? Eu me aperto, eu acelero, eu me cobro? Como nós estamos fazendo, o que estou chamando de ansiedade, tristeza, e como estou fazendo isso? Quando a gente consegue observar isso, podemos parar e fazer um grau a menos, uma velocidade a menos”, relatou. “Essa é observar como estou fazendo e o quauto observação é o primeiro passo para a gente entender as emoções, e criar uma variação desses comportamentos”, concluiu. 



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Pandemia muda rotina e intensifica busca por psicólogos

Profissionais relatam alta na procura e retorno de pacientes; ansiedade está entre sintomas mais comuns

Aline Melo
Do Diário do ABC

16/07/2020 | 00:40


A pandemia da Covid-19 provocou mudanças drásticas na rotina. Pessoas pararam de sair para se encontrar, reduziram idas ao mercado e o home office virou realidade para muita gente, mesmo que dividindo espaço com a criação dos filhos. Além disso, salários foram reduzidos, contratos suspensos e clima de insegurança foi quase que generalizado. Em meio a isso, psicólogos e psiquiatras viram a demanda de clientes aumentar, seja com pacientes novos, seja com novas questões de quem já estava em acompanhamento.

A educadora Katia Malta, 39 anos, mora em Santo André e já fazia terapia, mas, após a pandemia, sentiu necessidade de buscar atendimento com psiquiatrica e uma psicóloga focada na questão familiar e no cuidado com os filhos. A maior convivência familiar, com todos em casa durante o dia inteiro, trouxe necessidade de adaptação emocional. “As sombras de todo mundo aparecem com mais força”, relatou. “Todas essas questões já existiam, a quarentena só intensificou tudo”, concluiu.

Funcionária na ouvidoria de um banco, Bruna Silva, 25, moradora de Diadema, passou a levar mais a sério o acompanhamento com psicólogo desde o início da pandemia. As consultas que aconteciam a cada dois meses passaram a ser semanais para que ela pudesse lidar com a insegurança em relação ao futuro do seu trabalho, ao medo e incertezas deste período. “Comecei a ficar muito ansiosa, com pensamentos super negativos. Tudo isso já existia em proporção muito menor, a pandemia acabou externalizando e começou a me atrapalhar no dia a dia”, explicou. Bruna avalia que nada será como antes e pretende continuar com a terapia mesmo após a crise sanitária.

A veterinária Thaís Antunes, 26, mora em São Caetano e também sentiu a necessidade de retomar a terapia durante a quarentena. Questões no seu relacionamento – fez o período inicial de isolamento junto com o namorado –, sentimento de angústia por causa da rotina, perda de produtividade e desânimo para sair da cama, somados à queda na autoestima motivaram sua decisão. “Sentia como se já não tivesse controle de nada na vida”, explicou. A jovem está em acompanhamento com dois profissionais, um com abordagem mais comportamental e outra, que oferta tratamento holístico e voltado também ao equilíbrio espiritual. “Melhorei muito e já sinto alguns resultados”, celebrou.

Analista de growth marketing (marketing de crescimento) e moradora de Santo André, Maria Eduarda Valim, 24, ainda não tinha feito terapia, apesar de ter psicólogos na família. Mas a mudança de rotina e a necessidade de distanciamento físico de outras pessoas trouxeram a sensação de que a jovem teria perdido o controle da sua vida e, principalmente, do seu futuro. “A terapia tem me ajudado muito a lidar com essa sensação e a entender que muitas coisas não estão sob o meu controle”, afirmou. Maria Eduarda pretende dar continuidade ao acompanhamento, mesmo quando a pandemia acabar. “Antes tinha a vontade de fazer terapia, mas não lidava como uma prioridade”, concluiu.

Integrante do Ambulatório de Medicina e Estilo de Vida do HC (Hospital das Clínicas), a psicóloga clínica Daniela de Oliveira cita que, muito embora cada pessoa seja única, existe uma dificuldade comum em se lidar com o recolhimento que o momento exige. “Cada um tem que lidar com suas vidas, suas questões, seus filhos, seus pais, companheiros. E também consigo mesmo”, pontuou.

Cidades da região ofertam 21 mil atendimentos no período

Cinco das sete cidades do Grande ABC – Mauá e Rio Grande da Serra não responderam – ofertaram cerca de 21 mil atendimentos psicológicos e psiquiátricos para a população durante a quarentena ocasionada pela Covid-19.

Em Santo André, os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) trabalham na lógica multiprofissional e transdisciplinar sem especificidades das categorias profissionais. A produção é focada nas ações de cuidado oferecidas aos munícipes e não na produtividade de cada profissional. Durante o período de pandemia, os atendimentos presenciais foram limitados aos casos crônicos e em crise. Os demais foram acompanhados por atendimentos pontuais, quando necessário, além dos recursos de telecomunicação: telefone, Skype e WhatsApp. Casos novos foram acolhidos e seguiram o fluxo conforme gravidade do quadro. Para os profissionais de saúde, também estão sendo ofertados cuidados pela equipe do Caps e dos Nasf (Núcleos de Apoio à Saúde da Família).

São Bernardo conta com nove Caps e um pronto atendimento psiquiátrico, onde as equipes multidisciplinares mantiveram contato telefônico com os usuários dos serviços, no sentido de diminuir o impacto da pandemia em sua saúde mental e solicitando atendimento presencial quando identificada necessidade. Para os profissionais na linha de frente do combate à Covid-19, o projeto Cuidando de Quem Cuida oferece auxílio psicológico durante o enfrentamento da pandemia, bem como identifica possíveis transtornos mentais, muitas vezes, associados ao medo e seus tratamentos.

São Caetano readequou o sistema e passou a ofertar atendimentos por telefone após o início da pandemia, com atendimento presencial em caso de necessidade. Desde 1º de junho, os atendimentos individuais e presenciais foram retomados, mas as atividades em duplas e grupos seguem suspensas. Para os profissionais que lidam com a Covid-19, foi criado o projeto Escuta, para acolhimento dos trabalhadores.

Em Diadema, as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) mantiveram-se abertas para atendimentos de livre demanda, incluindo aqueles em saúde mental. Os profissionais realizam o monitoramento de seus pacientes, via telefone ou WhatsApp, e atendimento presencial de casos graves, quando necessário. Para os funcionários, foram realizados encontros para prática de relaxamento e meditação e, desde abril, um canal telefônico para que os trabalhadores possam desabafar, sem ter que se identificar.

Os Caps de Ribeirão Pires adotaram teleatendimento aos usuários, com envio de vídeos para as oficinas de dança e música e também vídeos com proposta de atividades físicas. O Caps II está realizando atendimento e teleatendimento aos profissionais de saúde que estão à frente dos casos de Covid-19 no município, proporcionando apoio, escuta e troca.


Isolamento físico jogou luz sobre importância da saúde mental

A pandemia e a necessidade de isolamento – e todas as dificuldade em decorrência disso – jogaram luz sobre a necessidade de se cuidar da saúde mental, avaliam profissionais do setor. Integrante do Ambulatório de Medicina e Estilo de Vida do HC (Hospital das Clínicas), a psicóloga clínica Daniela de Oliveira pondera que a saúde mental sempre esteve em um lugar de “negligenciamento”, até por envolver questões mais abstratas. “Diferentemente de quando a gente quebra um braço e tem a dor física, a dor emocional é encarada como algo a se superar e não a se vivenciar”, afirmou.

Daniela lembrou que o ritmo de vida da sociedade ocidental, em busca desenfreada pela produção, se chocou com a necessidade “de olhar para dentro” que a pandemia trouxe. “E aí, tudo que já existia, a ansiedade, a angústia, fica muito mais evidente”, completou. “Minha esperança é que a gente possa olhar para nós mesmos enquanto seres humanos, o que construiu a nossa cultura são emoções. Precisamos de inteligência emocional”, concluiu.

Terapeuta holística, Lilia Reis relata que viu aumentar a busca pelos seus serviços durante a quarentena e que as pessoas trazem muitas questões sobre relacionamentos e prosperidade. “Todo mundo está com medo, com preocupação, não sabe o que pode acontecer amanhã, então buscam se concentrar mais em si”, relatou. As duas profissionais recomendam técnicas como a meditação para ajudar a lidar com as angústias deste período. “Existem diversos aplicativos gratuitos que podem auxiliar”, 

Desconectar-se das redes sociais e dos aparelhos também é uma indicação. “Muitas vezes as pessoas se perdem quando começam a se comparar à vida ‘perfeita’ que o outro publica em redes sociais. Desliguem a televisão, o computador e o celular pelo menos meia hora antes de dormir para ter um sono de qualidade”, aconselha a terapeuta.

Daniela fala em “lentificar”, ou seja, tornar os dias mais lentos. “O que a gente pode fazer e estou fazendo. O que é a ansiedade? Eu me aperto, eu acelero, eu me cobro? Como nós estamos fazendo, o que estou chamando de ansiedade, tristeza, e como estou fazendo isso? Quando a gente consegue observar isso, podemos parar e fazer um grau a menos, uma velocidade a menos”, relatou. “Essa é observar como estou fazendo e o quauto observação é o primeiro passo para a gente entender as emoções, e criar uma variação desses comportamentos”, concluiu. 

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