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A bala de prata e o lento moinho


Carlos Brickmann

17/06/2020 | 00:01


As afirmações de Sergio Moro não foram a bala de prata que iria liquidar o governo Bolsonaro. A grotesca reunião do ministério em que se tratou de tudo, menos de administração e de combate à pandemia, também não foi o tiro decisivo. Bolsonaro buscou apoio nas Forças Armadas, lançou ameaças, disse várias vezes que sua paciência estava finda. Bem, há mais de 100 anos o Leão da Metro ruge nas telas, e até hoje nunca feriu ninguém.

Empate? Não: a grande ameaça ao governo Bolsonaro vem sendo forjada aos poucos. O moinho da Justiça mói lentamente, mas o que mói vira farinha. Bala de prata para quê? O maior risco que Bolsonaro corre é ser corroído pelas beiradas, por inquéritos sobre apoiadores, financiadores e movimentos ilegais na campanha eleitoral. O general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, um dos primeiros a sentir a direção dos ventos, advertiu indiretamente o Tribunal Superior Eleitoral a “não esticar a corda”. O problema é que há mais de uma corda: o inquérito das fake news ameaça o Gabinete do Ódio, área de propaganda onde se movem com facilidade dois dos filhos do presidente; o inquérito no Rio sobre as rachadinhas, pelas quais um parlamentar se apropria de parte dos salários de assessores, é um risco para Queiroz – lembra-se dele? – que já disse que seu chefe Flávio Bolsonaro de nada sabia, mas que o dinheiro ilegal pagava mais gente para auxiliá-lo. Talvez surja uma bala de prata, mas não é essencial.

Em nome do filho
Até agora, sabia-se que no fim do arco-íris dos inquéritos estavam os filhos ‘01’, ‘02’ e ‘03’ do presidente da República – mas isso não era dito por ninguém. O silêncio terminou: o procurador Sérgio Pinel, do Ministério Público do Rio, citou “fortes indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro” contra Flávio Bolsonaro. Segundo o jornal O Globo, desde 2003, quando assumiu seu primeiro mandato, Flávio comprou 19 imóveis.

O moinho mói
Há dois inquéritos em que o resultado das investigações é intercambiável: o do TSE, no qual corre o pedido de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, e o das fake news, do STF. Há quem conteste a legalidade do inquérito das fake news, por ter sido aberto no Supremo sem que alguém o acionasse. Mas, quando Sergio Moro deixou escapar a gravação da conversa em que Dilma prometia a Lula que o “Bessias” lhe levaria a nomeação para o ministério, evitando que os federais o incomodassem, estava na ilegalidade (a gravação foi feita fora do prazo permitido), tanto que pediu desculpas e foi advertido, mas Lula não virou ministro e o governo Dilma acabou em impeachment. E quem julga a legalidade de um inquérito no Supremo? O próprio Supremo.

Virando farelo
A constatação de que Bolsonaro ocupou todo o espaço político, a ponto de fazer oposição a si mesmo, vale também para apoiadores e ministros. Sair disfarçado de Ku Klux Klan, grupo racista e criminoso dos Estados Unidos, jogar fogos de artifício no Supremo, desafiar um ministro do STF para uma briga de rua... nem se a oposição fosse competente desgastaria tanto o governo. E aí vem o ministro Weintraub apoiar os desordeiros. Até Bolsonaro, sempre beligerante, disse que Weintraub se tornou um problema. Mas resolvê-lo é difícil. Os filhos do presidente e o escritor Olavo de Carvalho, a quem muito prezam, apoiam Weintraub. Há militares dentro do governo que adorariam afastá-lo. Olavo ataca os militares, que não reagem publicamente. Curioso é que tanto os que querem manter Weintraub quanto os que querem afastá-lo não discutem seu desempenho na educação (talvez porque não haja nada a discutir). Discute-se quem manda mais, quem são os favoritos de Bolsonaro.

Para as duas alas e para o ministro, educação é apenas um detalhe.

Multa para poucos
Por decreto do governador Ibaneis Rocha, é proibido andar nas ruas de Brasília sem máscara facial. Bom, os 20 ou 30 ativistas comandados por Sara Winter montaram um acampamento em lugar proibido e ficaram lá por vários dias; quando desalojados, montaram tranquilamente as bases para o lançamento de fogos de artifício contra o edifício do Supremo. Nenhum jamais usou máscara, exceto quando se disfarçaram de Ku Klux Klan, com tochas e tudo, para manifestar-se contra o Supremo. O presidente Bolsonaro cansou de circular sem máscara pela cidade. Aliás, em um mês de vigência da obrigatoriedade da máscara, só três multas foram aplicadas. O terceiro dos multados foi Weintraub, quando se juntou a um grupo de manifestantes.

Por que só ele, e não os manifestantes também? Por que só ele, e não o presidente Bolsonaro, que deveria dar o exemplo? Parece perseguição. E é.

Sem fantasia
Cinco partidos (Cidadania, PSB, PDT, PV e Rede) apresentaram pedido de impeachment de Bolsonaro. Não é para valer. Rodrigo Maia vai deixá-lo em banho-maria. Só anda se houver uma tremenda crise, além das atuais. 



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A bala de prata e o lento moinho

Carlos Brickmann

17/06/2020 | 00:01


As afirmações de Sergio Moro não foram a bala de prata que iria liquidar o governo Bolsonaro. A grotesca reunião do ministério em que se tratou de tudo, menos de administração e de combate à pandemia, também não foi o tiro decisivo. Bolsonaro buscou apoio nas Forças Armadas, lançou ameaças, disse várias vezes que sua paciência estava finda. Bem, há mais de 100 anos o Leão da Metro ruge nas telas, e até hoje nunca feriu ninguém.

Empate? Não: a grande ameaça ao governo Bolsonaro vem sendo forjada aos poucos. O moinho da Justiça mói lentamente, mas o que mói vira farinha. Bala de prata para quê? O maior risco que Bolsonaro corre é ser corroído pelas beiradas, por inquéritos sobre apoiadores, financiadores e movimentos ilegais na campanha eleitoral. O general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo, um dos primeiros a sentir a direção dos ventos, advertiu indiretamente o Tribunal Superior Eleitoral a “não esticar a corda”. O problema é que há mais de uma corda: o inquérito das fake news ameaça o Gabinete do Ódio, área de propaganda onde se movem com facilidade dois dos filhos do presidente; o inquérito no Rio sobre as rachadinhas, pelas quais um parlamentar se apropria de parte dos salários de assessores, é um risco para Queiroz – lembra-se dele? – que já disse que seu chefe Flávio Bolsonaro de nada sabia, mas que o dinheiro ilegal pagava mais gente para auxiliá-lo. Talvez surja uma bala de prata, mas não é essencial.

Em nome do filho
Até agora, sabia-se que no fim do arco-íris dos inquéritos estavam os filhos ‘01’, ‘02’ e ‘03’ do presidente da República – mas isso não era dito por ninguém. O silêncio terminou: o procurador Sérgio Pinel, do Ministério Público do Rio, citou “fortes indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro” contra Flávio Bolsonaro. Segundo o jornal O Globo, desde 2003, quando assumiu seu primeiro mandato, Flávio comprou 19 imóveis.

O moinho mói
Há dois inquéritos em que o resultado das investigações é intercambiável: o do TSE, no qual corre o pedido de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, e o das fake news, do STF. Há quem conteste a legalidade do inquérito das fake news, por ter sido aberto no Supremo sem que alguém o acionasse. Mas, quando Sergio Moro deixou escapar a gravação da conversa em que Dilma prometia a Lula que o “Bessias” lhe levaria a nomeação para o ministério, evitando que os federais o incomodassem, estava na ilegalidade (a gravação foi feita fora do prazo permitido), tanto que pediu desculpas e foi advertido, mas Lula não virou ministro e o governo Dilma acabou em impeachment. E quem julga a legalidade de um inquérito no Supremo? O próprio Supremo.

Virando farelo
A constatação de que Bolsonaro ocupou todo o espaço político, a ponto de fazer oposição a si mesmo, vale também para apoiadores e ministros. Sair disfarçado de Ku Klux Klan, grupo racista e criminoso dos Estados Unidos, jogar fogos de artifício no Supremo, desafiar um ministro do STF para uma briga de rua... nem se a oposição fosse competente desgastaria tanto o governo. E aí vem o ministro Weintraub apoiar os desordeiros. Até Bolsonaro, sempre beligerante, disse que Weintraub se tornou um problema. Mas resolvê-lo é difícil. Os filhos do presidente e o escritor Olavo de Carvalho, a quem muito prezam, apoiam Weintraub. Há militares dentro do governo que adorariam afastá-lo. Olavo ataca os militares, que não reagem publicamente. Curioso é que tanto os que querem manter Weintraub quanto os que querem afastá-lo não discutem seu desempenho na educação (talvez porque não haja nada a discutir). Discute-se quem manda mais, quem são os favoritos de Bolsonaro.

Para as duas alas e para o ministro, educação é apenas um detalhe.

Multa para poucos
Por decreto do governador Ibaneis Rocha, é proibido andar nas ruas de Brasília sem máscara facial. Bom, os 20 ou 30 ativistas comandados por Sara Winter montaram um acampamento em lugar proibido e ficaram lá por vários dias; quando desalojados, montaram tranquilamente as bases para o lançamento de fogos de artifício contra o edifício do Supremo. Nenhum jamais usou máscara, exceto quando se disfarçaram de Ku Klux Klan, com tochas e tudo, para manifestar-se contra o Supremo. O presidente Bolsonaro cansou de circular sem máscara pela cidade. Aliás, em um mês de vigência da obrigatoriedade da máscara, só três multas foram aplicadas. O terceiro dos multados foi Weintraub, quando se juntou a um grupo de manifestantes.

Por que só ele, e não os manifestantes também? Por que só ele, e não o presidente Bolsonaro, que deveria dar o exemplo? Parece perseguição. E é.

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