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‘Covid só deixará de ser desafio com vacina para todos’

José Cruz/Agência Brasil Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Arthur Chioro, professor universitário e ex-ministro da Saúde


Wilson Moço
Diário do Grande ABC

07/06/2020 | 23:00


Professor de medicina preventiva e do programa de pós-graduação em saúde coletiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ex-secretário de Saúde em São Bernardo (2009 a 2013) e ex-ministro da pasta (2014 a 2015), o santista Arthur Chioro, 56 anos, avalia que “faltaram coerência e coragem” ao governador João Doria (PSDB) quando decidiu afrouxar o isolamento físico e permitir à Capital reabrir setores da economia. E afirma que a Covid-19 só “deixará de ser um desafio quando tivermos vacina disponível para todos, em um ou dois anos”.

O senhor foi coordenador do Grupo de Trabalho Saúde do Consórcio Intermunicipal. Pela sua experiência, é possível avaliar qual o real quadro da Covid-19 no Grande ABC?
Nenhum estudo de soro-prevalência foi produzido no Grande ABC até agora. A pandemia tem sido conduzida praticamente às cegas, por falta de informações qualificadas, já que as disponíveis retratam a ocorrência de casos e óbitos com duas a três semanas de atraso. Com base em pesquisas efetuadas em outras regiões, é possível estimar que 108 mil pessoas já podem ter sido infectadas na região. A diferença em relação aos casos notificados se deve ao fato de que não são testados os leves e assintomáticos. É também muito preocupante a alta taxa de letalidade da região, superior à média nacional.

Como está a rede pública da região para atender pacientes de Covid-19?
Ainda que oferta de leitos hospitalares e de UTI na região seja elevada quando comparada a outras regiões, não se pode desdenhar da capacidade da Covid-19 de produzir saturação dos sistemas de saúde, público e privado. É só observar o colapso que aconteceu por falta de leitos de UTI em países que possuem elevada capacidade instalada, como Itália, Espanha e Estados Unidos, que viveram trágica situação de não conseguir garantir acesso a recursos médicos necessários a milhares de pacientes, que morreram sem assistência. A principal função do isolamento físico é impedir essa saturação, o que pode ocorrer muito rapidamente.

As prefeituras da região têm agido corretamente no enfrentamento da doença?
Em um cenário em que o Ministério da Saúde, que deveria coordenar as ações, está ausente, e que quando se manifesta é para criar confusão e atrapalhar os esforços de enfrentamento da Covid-19, é preciso reconhecer os esforços dos prefeitos, gestores da saúde e, principalmente, dos trabalhadores do SUS. O risco, no entanto, é a adoção de medidas sem a necessária harmonização de procedimentos. Se cada um faz o que quer, a chance de dar certo e avançarmos para o controle regional da Covid é pequena. As ações precisam ser coordenadas e integradas. A lentidão e a frágil capacidade para proporcionar EPI e testes sorológicos em quantidades suficientes, expandir leitos hospitalares e de UTI, e alocar profissionais qualificados para cuidados críticos se transformaram em pesadelos para os gestores municipais, em particular pela falta de apoio dos governos estadual e federal e visíveis fragilidades da gestão municipal. Com exceções honrosas, acho tímidas e insuficientes as medidas adotadas para enfrentar os impactos da Covid e garantir a subsistência dos mais pobres, desempregados ou que vivem na informalidade. Esperava ação mais efetiva para amparar os pequenos e médios empresários, e os trabalhadores dessas empresas.

O senhor, que foi secretário de Saúde em São Bernardo, acredita que a rede municipal está preparada para enfrentar a pandemia?
São Bernardo, graças aos investimentos que foram feitos na gestão do Luiz Marinho (ex-prefeito), transformou-se numa ilha de excelência em termos de saúde. A construção do Hospital de Clínicas foi uma revolução na saúde do Grande ABC. Marinho também planejou, licitou, garantiu recursos e deu a ordem de serviço para a construção do Hospital de Emergência. Essas transformações fizeram da cidade um exemplo de como é possível garantir a saúde como direito de cidadania. O atual governo tem conseguido piorar quase tudo. É uma façanha... O Hospital Anchieta ficou fechado praticamente a gestão inteira. A protelação da inauguração do Hospital de Urgência em quase dois anos é um crime contra a saúde da população. A situação só não é pior porque deixamos estrutura invejável e a cidade conta com trabalhadores da saúde competentes e dedicados.

O senhor acredita que inaugurar o Hospital de Urgência como equipamento destinado exclusivamente ao atendimento de Covid-19 foi o correto?
O Hospital de Urgência deveria ter sido inaugurado há dois anos. Inaceitável seria continuar fechado em plena crise da pandemia, desperdiçando os recursos que foram aplicados nesse hospital moderníssimo e qualificado. E falo isso com convicção, porque foi no governo Marinho que foi concebido e teve início sua construção. Mas há uma ação que a Prefeitura teria que ter adotado, e não o fez, de baixo custo e alto impacto na redução da transmissão da Covid-19. Trata-se da implantação de centros de isolamentos para pessoas infectadas, assintomáticas ou com casos leves, que não precisam de cuidados hospitalares, e que vivem em moradias precárias, sem condições de cumprir as medidas necessárias para evitar a transmissão para suas famílias e vizinhos. Estima-se que entre 44 mil e 50 mil vivam em São Bernardo nessas condições. Centros de isolamento poderiam ser feitos em escolas, ginásios e outros estabelecimentos, nas regiões mais carentes da cidade, exigindo apenas estrutura com camas, alimentação, higiene e cuidados de enfermagem, por até 14 dias, quando cessa o risco de transmissão.

Já estamos no pico da doença no País? É realmente isso?
As análises epidemiológicas iniciais projetavam o pico para meados de junho e início da regressão a partir de julho. Observo, porém, que no Brasil, dadas suas características continentais e a forma negligenciada como a pandemia foi conduzida pelo governo, podemos verificar processos epidêmicos ocorrendo em ritmos diferentes, em regiões distintas. É inegável que já vivemos a periferização da Covid nas grandes cidades e a sua interiorização. É possível que recrudesça no Norte, Nordeste e nas regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio e avance para outras, como ondas assíncronas, persistindo por mais tempo entre nós.

Existe pressão forte, principalmente do comércio, para que lojas e shoppings voltem a funcionar. É seguro ceder a essa pressão neste momento?
Não tenho dúvida de que a Covid-19 ainda se encontra em fase de progressão e alta transmissibilidade no Grande ABC. Apostar na flexibilização do isolamento físico sem a redução segura e consistente da taxa de transmissão não é seguro, e poderá resultar em uma tragédia.

Muitos comerciantes usam o argumento de que supermercados, por exemplo, funcionam, enquanto lojas menores estão fechadas.
O critério para definir o que deve permanecer aberto, e que setores devem ser priorizados na retomada, é o da essencialidade e segurança para a sociedade. Ao reabrirem precisarão fazê-lo sob regras de adaptação para proteger funcionários e clientes. Um dos desafios que as autoridades precisam desenvolver, junto com entidades representativas dos empresários e trabalhadores, é pactuar essas regras para cada setor.

Aliás, como o senhor avalia a decisão inicial do governador João Doria de isolar a Capital da Região Metropolitana, de modo a permitir que pudesse iniciar a reabertura?
A decisão não se ampara em critérios técnicos e científicos. Os países que estão tendo sucesso no combate à Covid-19 só começaram a flexibilização após duas semanas de regressão consistente da transmissão da doença e com base em informações seguras. Faltaram coerência e coragem para manter o isolamento. Doria não suportou a pressão de setores econômicos e dos prefeitos, estes também tensionados pelos empresários. Infelizmente, parecem estar mais preocupados com as eleições do que com a proteção da vida. Considerar a cidade de São Paulo uma ilha na Região Metropolitana é inexplicável e terá graves consequências.

A decisão provocou críticas na região. Inclusive, foi das poucas vezes em que se viu os sete prefeitos unirem esforços para cobrar o mesmo tratamento. Como o senhor avalia a iniciativa dos prefeitos?
A mesma energia demonstrada para contestar a decisão do governador poderia ser utilizada na busca de soluções para problemas regionais. A União e o governo estadual podem, com a transferência de recursos financeiros e outras medidas, apoiar a produção de políticas econômicas e sociais emergenciais que socorram os trabalhadores, com ou sem vínculo formal, os desempregados e os pequenos e médios empresários. A União destinou R$ 1,2 trilhão para socorrer bancos e grandes empresas. O governador e os prefeitos precisam liderar a implementação de ações emergenciais que atendam às necessidades da maioria do povo e que possam garantir sua sobrevivência, dando-lhe condições de cumprir o isolamento. É preciso defender as pequenas e médias empresas. Mas para isso é necessário romper com a política econômica vigente. Além de coordenar as ações de enfrentamento da pandemia, essa deveria ser a principal ação política dos prefeitos. A pressa para retomar a normalidade a qualquer custo poderá custar muito caro.

Tema que tem gerado muita polêmica é o uso da cloroquina. O senhor tem opinião formada sobre a prescrição desse medicamento?
A cloroquina é usada há muito tempo para indicações específicas e com manejo criterioso. Não há evidências científicas que sustentem seu uso. Impor o uso do medicamento para a profilaxia ou tratamento de casos de Covid-19 sem eficácia comprovada, e com potencial de causar reações adversas graves e até fatais, é uma atitude irresponsável e criminosa.
 

O senhor tem ideia sobre quanto tempo ainda levará para que se descubra uma vacina para o coronavírus?
Nunca se produziu tanta pesquisa científica em tão pouco tempo. Nesse momento, 123 vacinas estão sendo desenvolvidas em todo o mundo, sendo duas aqui no Brasil. Dessas, dez estão entrando em fase 3, ou seja, em estudo de eficácia. Duas delas, uma chinesa e outra desenvolvida pela Universidade de Oxford, e que será testada no Brasil pela Unifesp, são muito promissoras, mas serão necessários ainda 12 meses de pesquisa para comprovar se são mesmo eficazes.

Para finalizar, quanto tempo o senhor acredita que levará para nos livrarmos de vez da pandemia? E que cuidados devem virar rotina a partir de agora?
A Covid-19 deixará de ser um desafio quando tivermos vacina disponível para todos, em um ou dois anos, ou quando a maioria da população mundial for infectada pelo coronavírus, o que poderia demorar anos. Até lá, a vida pós-pandemia exigirá a adoção de cuidados sanitários individuais e coletivos, como o uso permanente das máscaras, de álcool gel e a lavagem frequente das mãos. Eventos públicos com aglomerações precisarão ser evitados. O distanciamento físico necessário nas escolas, igrejas, cinemas e teatros, por exemplo, exigirá repensar a ocupação dos espaços e a forma de organização das atividades. O teletrabalho veio para ficar. Melhorar as condições de higiene e enfrentar a superlotação dos transportes coletivos serão imperativo, assim como garantir moradia digna para a população vulnerável.

RAIO-X

Nome: Arthur Chioro
Estado civil: Casado
Idade: 56 anos
Local de nascimento: Santos
Formação: Graduado em medicina, residência em medicina preventiva e social (Unesp), com mestrado (Unicamp) e doutorado (Unifesp) em saúde coletiva</CS>
Hobby: Jogar futebol
Local predileto: Praia
Livro que recomenda: O Problema do Ser e do Destino (Leon Denis)
Artista que marcou sua vida: Milton Nascimento e o Clube da Esquina
Profissão: Médico e professor
Onde trabalha: Escola Paulista de Medicina (Unifesp)

 



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‘Covid só deixará de ser desafio com vacina para todos’

Arthur Chioro, professor universitário e ex-ministro da Saúde

Wilson Moço
Diário do Grande ABC

07/06/2020 | 23:00


Professor de medicina preventiva e do programa de pós-graduação em saúde coletiva da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), ex-secretário de Saúde em São Bernardo (2009 a 2013) e ex-ministro da pasta (2014 a 2015), o santista Arthur Chioro, 56 anos, avalia que “faltaram coerência e coragem” ao governador João Doria (PSDB) quando decidiu afrouxar o isolamento físico e permitir à Capital reabrir setores da economia. E afirma que a Covid-19 só “deixará de ser um desafio quando tivermos vacina disponível para todos, em um ou dois anos”.

O senhor foi coordenador do Grupo de Trabalho Saúde do Consórcio Intermunicipal. Pela sua experiência, é possível avaliar qual o real quadro da Covid-19 no Grande ABC?
Nenhum estudo de soro-prevalência foi produzido no Grande ABC até agora. A pandemia tem sido conduzida praticamente às cegas, por falta de informações qualificadas, já que as disponíveis retratam a ocorrência de casos e óbitos com duas a três semanas de atraso. Com base em pesquisas efetuadas em outras regiões, é possível estimar que 108 mil pessoas já podem ter sido infectadas na região. A diferença em relação aos casos notificados se deve ao fato de que não são testados os leves e assintomáticos. É também muito preocupante a alta taxa de letalidade da região, superior à média nacional.

Como está a rede pública da região para atender pacientes de Covid-19?
Ainda que oferta de leitos hospitalares e de UTI na região seja elevada quando comparada a outras regiões, não se pode desdenhar da capacidade da Covid-19 de produzir saturação dos sistemas de saúde, público e privado. É só observar o colapso que aconteceu por falta de leitos de UTI em países que possuem elevada capacidade instalada, como Itália, Espanha e Estados Unidos, que viveram trágica situação de não conseguir garantir acesso a recursos médicos necessários a milhares de pacientes, que morreram sem assistência. A principal função do isolamento físico é impedir essa saturação, o que pode ocorrer muito rapidamente.

As prefeituras da região têm agido corretamente no enfrentamento da doença?
Em um cenário em que o Ministério da Saúde, que deveria coordenar as ações, está ausente, e que quando se manifesta é para criar confusão e atrapalhar os esforços de enfrentamento da Covid-19, é preciso reconhecer os esforços dos prefeitos, gestores da saúde e, principalmente, dos trabalhadores do SUS. O risco, no entanto, é a adoção de medidas sem a necessária harmonização de procedimentos. Se cada um faz o que quer, a chance de dar certo e avançarmos para o controle regional da Covid é pequena. As ações precisam ser coordenadas e integradas. A lentidão e a frágil capacidade para proporcionar EPI e testes sorológicos em quantidades suficientes, expandir leitos hospitalares e de UTI, e alocar profissionais qualificados para cuidados críticos se transformaram em pesadelos para os gestores municipais, em particular pela falta de apoio dos governos estadual e federal e visíveis fragilidades da gestão municipal. Com exceções honrosas, acho tímidas e insuficientes as medidas adotadas para enfrentar os impactos da Covid e garantir a subsistência dos mais pobres, desempregados ou que vivem na informalidade. Esperava ação mais efetiva para amparar os pequenos e médios empresários, e os trabalhadores dessas empresas.

O senhor, que foi secretário de Saúde em São Bernardo, acredita que a rede municipal está preparada para enfrentar a pandemia?
São Bernardo, graças aos investimentos que foram feitos na gestão do Luiz Marinho (ex-prefeito), transformou-se numa ilha de excelência em termos de saúde. A construção do Hospital de Clínicas foi uma revolução na saúde do Grande ABC. Marinho também planejou, licitou, garantiu recursos e deu a ordem de serviço para a construção do Hospital de Emergência. Essas transformações fizeram da cidade um exemplo de como é possível garantir a saúde como direito de cidadania. O atual governo tem conseguido piorar quase tudo. É uma façanha... O Hospital Anchieta ficou fechado praticamente a gestão inteira. A protelação da inauguração do Hospital de Urgência em quase dois anos é um crime contra a saúde da população. A situação só não é pior porque deixamos estrutura invejável e a cidade conta com trabalhadores da saúde competentes e dedicados.

O senhor acredita que inaugurar o Hospital de Urgência como equipamento destinado exclusivamente ao atendimento de Covid-19 foi o correto?
O Hospital de Urgência deveria ter sido inaugurado há dois anos. Inaceitável seria continuar fechado em plena crise da pandemia, desperdiçando os recursos que foram aplicados nesse hospital moderníssimo e qualificado. E falo isso com convicção, porque foi no governo Marinho que foi concebido e teve início sua construção. Mas há uma ação que a Prefeitura teria que ter adotado, e não o fez, de baixo custo e alto impacto na redução da transmissão da Covid-19. Trata-se da implantação de centros de isolamentos para pessoas infectadas, assintomáticas ou com casos leves, que não precisam de cuidados hospitalares, e que vivem em moradias precárias, sem condições de cumprir as medidas necessárias para evitar a transmissão para suas famílias e vizinhos. Estima-se que entre 44 mil e 50 mil vivam em São Bernardo nessas condições. Centros de isolamento poderiam ser feitos em escolas, ginásios e outros estabelecimentos, nas regiões mais carentes da cidade, exigindo apenas estrutura com camas, alimentação, higiene e cuidados de enfermagem, por até 14 dias, quando cessa o risco de transmissão.

Já estamos no pico da doença no País? É realmente isso?
As análises epidemiológicas iniciais projetavam o pico para meados de junho e início da regressão a partir de julho. Observo, porém, que no Brasil, dadas suas características continentais e a forma negligenciada como a pandemia foi conduzida pelo governo, podemos verificar processos epidêmicos ocorrendo em ritmos diferentes, em regiões distintas. É inegável que já vivemos a periferização da Covid nas grandes cidades e a sua interiorização. É possível que recrudesça no Norte, Nordeste e nas regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio e avance para outras, como ondas assíncronas, persistindo por mais tempo entre nós.

Existe pressão forte, principalmente do comércio, para que lojas e shoppings voltem a funcionar. É seguro ceder a essa pressão neste momento?
Não tenho dúvida de que a Covid-19 ainda se encontra em fase de progressão e alta transmissibilidade no Grande ABC. Apostar na flexibilização do isolamento físico sem a redução segura e consistente da taxa de transmissão não é seguro, e poderá resultar em uma tragédia.

Muitos comerciantes usam o argumento de que supermercados, por exemplo, funcionam, enquanto lojas menores estão fechadas.
O critério para definir o que deve permanecer aberto, e que setores devem ser priorizados na retomada, é o da essencialidade e segurança para a sociedade. Ao reabrirem precisarão fazê-lo sob regras de adaptação para proteger funcionários e clientes. Um dos desafios que as autoridades precisam desenvolver, junto com entidades representativas dos empresários e trabalhadores, é pactuar essas regras para cada setor.

Aliás, como o senhor avalia a decisão inicial do governador João Doria de isolar a Capital da Região Metropolitana, de modo a permitir que pudesse iniciar a reabertura?
A decisão não se ampara em critérios técnicos e científicos. Os países que estão tendo sucesso no combate à Covid-19 só começaram a flexibilização após duas semanas de regressão consistente da transmissão da doença e com base em informações seguras. Faltaram coerência e coragem para manter o isolamento. Doria não suportou a pressão de setores econômicos e dos prefeitos, estes também tensionados pelos empresários. Infelizmente, parecem estar mais preocupados com as eleições do que com a proteção da vida. Considerar a cidade de São Paulo uma ilha na Região Metropolitana é inexplicável e terá graves consequências.

A decisão provocou críticas na região. Inclusive, foi das poucas vezes em que se viu os sete prefeitos unirem esforços para cobrar o mesmo tratamento. Como o senhor avalia a iniciativa dos prefeitos?
A mesma energia demonstrada para contestar a decisão do governador poderia ser utilizada na busca de soluções para problemas regionais. A União e o governo estadual podem, com a transferência de recursos financeiros e outras medidas, apoiar a produção de políticas econômicas e sociais emergenciais que socorram os trabalhadores, com ou sem vínculo formal, os desempregados e os pequenos e médios empresários. A União destinou R$ 1,2 trilhão para socorrer bancos e grandes empresas. O governador e os prefeitos precisam liderar a implementação de ações emergenciais que atendam às necessidades da maioria do povo e que possam garantir sua sobrevivência, dando-lhe condições de cumprir o isolamento. É preciso defender as pequenas e médias empresas. Mas para isso é necessário romper com a política econômica vigente. Além de coordenar as ações de enfrentamento da pandemia, essa deveria ser a principal ação política dos prefeitos. A pressa para retomar a normalidade a qualquer custo poderá custar muito caro.

Tema que tem gerado muita polêmica é o uso da cloroquina. O senhor tem opinião formada sobre a prescrição desse medicamento?
A cloroquina é usada há muito tempo para indicações específicas e com manejo criterioso. Não há evidências científicas que sustentem seu uso. Impor o uso do medicamento para a profilaxia ou tratamento de casos de Covid-19 sem eficácia comprovada, e com potencial de causar reações adversas graves e até fatais, é uma atitude irresponsável e criminosa.
 

O senhor tem ideia sobre quanto tempo ainda levará para que se descubra uma vacina para o coronavírus?
Nunca se produziu tanta pesquisa científica em tão pouco tempo. Nesse momento, 123 vacinas estão sendo desenvolvidas em todo o mundo, sendo duas aqui no Brasil. Dessas, dez estão entrando em fase 3, ou seja, em estudo de eficácia. Duas delas, uma chinesa e outra desenvolvida pela Universidade de Oxford, e que será testada no Brasil pela Unifesp, são muito promissoras, mas serão necessários ainda 12 meses de pesquisa para comprovar se são mesmo eficazes.

Para finalizar, quanto tempo o senhor acredita que levará para nos livrarmos de vez da pandemia? E que cuidados devem virar rotina a partir de agora?
A Covid-19 deixará de ser um desafio quando tivermos vacina disponível para todos, em um ou dois anos, ou quando a maioria da população mundial for infectada pelo coronavírus, o que poderia demorar anos. Até lá, a vida pós-pandemia exigirá a adoção de cuidados sanitários individuais e coletivos, como o uso permanente das máscaras, de álcool gel e a lavagem frequente das mãos. Eventos públicos com aglomerações precisarão ser evitados. O distanciamento físico necessário nas escolas, igrejas, cinemas e teatros, por exemplo, exigirá repensar a ocupação dos espaços e a forma de organização das atividades. O teletrabalho veio para ficar. Melhorar as condições de higiene e enfrentar a superlotação dos transportes coletivos serão imperativo, assim como garantir moradia digna para a população vulnerável.

RAIO-X

Nome: Arthur Chioro
Estado civil: Casado
Idade: 56 anos
Local de nascimento: Santos
Formação: Graduado em medicina, residência em medicina preventiva e social (Unesp), com mestrado (Unicamp) e doutorado (Unifesp) em saúde coletiva</CS>
Hobby: Jogar futebol
Local predileto: Praia
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