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Escolas apostam em fortalecimento de vínculo

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Jornal semanal e envio de objetos do ambiente escolar para casa estão entre as estratégias


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

24/05/2020 | 23:59


De uma hora para outra, o mundo quase parou e muitas atividades que eram feitas de maneira externa passaram a ser realizadas dentro de casa. A quarentena para tentar contar o avanço da pandemia de Covid-19 afastou alunos e professores e, além da manutenção do aprendizado, manter o vínculo também surgiu como um desafio para escolas e famílias. Com criatividade e muito carinho, instituições e professores têm lançado mão de diferentes estratégias para continuar presentes nas vidas dos estudantes.

Na Escola Stagium, em Diadema, a tristeza de ver as salas vazias com a suspensão das aulas presenciais deu à equipe a ideia de levar para cada um dos 31 alunos com até 3 anos a cadeira que eles usavam na escola. “Cadeira vem do Latim cathedra e significa assento especial. Apoio, base, amparo, alicerce, lugar. Em nossa escola esses lugares têm nomes, têm funções, têm vidas”, relata a diretora pedagógica Fernanda Costa. 

Mandar as cadeiras para a casa, explica Fernanda, foi a forma encontrada de levar aos estudantes esse lugar da escola, transportando também sons, artes, brincadeiras e até mesmo encontro em família. “Essa cadeira é um lugar importante. É um dos diversos lugares da escola que pertencem às crianças. Lugares onde o aluno constrói suas relações consigo, com o outro e com o mundo. Lugar que em breve, será ocupado por todos. E num suspiro de alívio, fecharemos nossos olhos novamente... e desta vez os sons serão reais. Todos estarão ali para sentir a infância vibrando outra vez”, completa.

Na casa do pequeno Eduardo, 3 anos, a cadeira chegou para apaziguar. O pai estava isolado no quarto, contaminado pela Covid-19. A mãe, cuidando dele e do irmão, Leonardo, 7. Um cano da sala achou que era uma boa data para estourar e inundar a casa. “Tudo havia acontecido. Quando o porteiro deixou a cadeira, os materiais, os papéis e as tintas na nossa porta, foi realmente uma tábua de salvação”, relata a mãe, a coordenadora pedagógica Viviane Vieira, 42. “Achei fantástico, porque papéis a gente consegue em qualquer lugar, mas aquela cadeira, é a da escola dele e ele a usa para tudo, o tempo todo”, pontua.

A administradora Mariana Parucci, 35, desceu com Joaquim, 2, para receber a cadeira, entregue pela própria professora. “Foi de surpresa e ele adorou. Era um pedacinho da escola em casa”, rememora. Joaquim já estava fazendo atividades de maneira on-line e a mãe elogiou a postura da instituição desde o início da pandemia. “O tempo todo a gente tem se sentido acolhido, como se fôssemos uma grande família”, conclui.

Em São Bernardo, o Parque Escola Infantil enviou para casa, além de materiais, vasos que eram da própria escola para que os estudantes cuidassem das plantas. Também tem produzido um jornal semanal, que antes era enviado apenas para os pais dos alunos do 1º ano do fundamental, e agora também é feito para as turmas do infantil. Reúne as atividades que estão sendo feitas pelos alunos, não somente cumprindo o currículo escolar, mas em suas brincadeiras.

Mantenedora da escola, a pedagoga Cassia Mattos destaca que a proposta da instituição parte da brincadeira, sem deixar de lado a base nacional comum curricular. “Os pequenos precisaram de um pouco mais de tempo para se adaptarem, mas temos feitos encontros curtos por vídeo e os pais relatam que as crianças ficam ansiosas pelo momento de estarmos juntos”, pontua. “É importante ter em mente que tudo o que está acontecendo é uma oportunidade de aprendizado, devemos ouvir as crianças e podemos trabalhar conteúdos a partir de tudo que elas questionam”, complementa. 

A empresária Thais Gutierrez Ferreira, 37, mãe de Juan, 6, e Marcelo, 4, ressalta que os encontros virtuais têm sido alegres e gostosos de acompanhar. “Vemos as famílias e nos aproximamos da escola. Construindo juntos coisa que deveria ser sempre. Além disso, nos dão ideias de atividades e brincadeiras para fazer com as crianças. Após mais de 60 dias nosso repertório certamente está escasso”, cita.

Especialistas listam importância da afetividade no aprendizado

A psicóloga Dandara Zamba, do Instituto Ser +, ressalta que para que ocorra aprendizagem é necessário que haja afetividade. “Falando da primeira infância é muito importante o vínculo professor aluno, pois esse é o primeiro contato de nossas crianças com a escola. Quanto melhor essa experiência, melhor será seu desenvolvimento e mais prazer terá em assuntos relacionados a vida acadêmica”, pontua a especialista. 

Dandara relata que, diante disso, é muito válido manter este contato em tempo de isolamento físico, pois este vínculo ajuda a manter o que já foi conquistado antes do início da pandemia. “E de acordo com as diretrizes do MEC (Ministério da Educação) se faz necessária a construção deste vínculo afetivo em tempos de pandemia”, conclui.

Especialista em desenvolvimento humano, Ester Gomes salienta que, no contexto da quarentena devido ao distanciamento físico, o vínculo criado entre alunos e professores se torna uma espécie de desafio. “Este fortalecimento é muito importante. É por meio da construção de uma relação afetiva e acolhedora que a criança se sente segura e disponível para as atividades e, consequentemente, para o desenvolvimento de suas potencialidades”, aponta.

Especificamente sobre o envio de objetos das escolas para casa, Ester destaca que são iniciativas de grande valia e de aprendizado para as crianças, especialmente na primeira infância, que vai até os 6 anos de idade. “Tais ações são de extrema relevância, pois fortalece a relação entre professor e aluno. A fase em questão é a principal para a ocorrência do desenvolvimento cerebral e consequente da memória afetiva”, finaliza Ester.

Iniciativas registram avanços no cotidiano

Como saber se a criança está aprendendo durante a quarentena? Essa é uma dúvida que povoa a cabeça de muitos pais. Pedagoga e professora da rede municipal de Santo André, na Creche Angela Masiero, Eliane Chagas, 42, explica que a educação infantil não ocorre a distância, uma vez que é pautada pelas interações e pelas brincadeiras. “Fizemos uma reunião e decidimos que iríamos contactar as famílias, cada professora com a sua referência, para que houvesse a manutenção dos vínculos.”

Por uma semana, a professora Elly ligou para todas as mães e um pai de 24 crianças para saber como estava sendo o período de quarentena e explicando para os pais por que na educação infantil o conceito de educação on-line não se aplica, mas que era importante que a escola seguisse presente, de alguma forma, na vida das crianças. “Expliquei que não era saudável que a gente, de repente, desaparecesse e se a família aceitava integrar grupo no WhatsApp”, pontua.

Todas as famílias aceitaram e, diariamente, às 13h, a professora abre o grupo que até então fica autorizado apenas para administradores, conversa com os pais e pede registros e manifestações de como todos têm se sentido. “Canto com as crianças a música que cantávamos em cada dia da semana, andando pela escola, para elas entenderem a minha presença e não terem que ficar muito tempo usando as telas. Elas mandam áudios e vídeos contando o que têm feito, o que estão comendo e tudo isso é currículo dentro da educação infantil”, completa.

“Logo no início percebi que algumas famílias estavam exigindo das crianças tarefas que não eram adequadas para a faixa etária, então passei a propor que deixem as crianças brincar de forma espontânea e fazendo pequenas intervenções. Pedi que os pais dessem giz e tijolos para que as crianças deixem suas marcas no espaço”, cita. O material é registrado pelos pais e, ao fim de cada semana, Elly reúne o conteúdo e faz vídeos que são relacionados com os aprendizados previstos no currículo. “Tenho o cuidado de não institucionalizar a casa e a rotina das famílias e o resultado tem sido bem bacana”, completa.

A dona de casa Fabiana Inácio Pinto, 40, é mãe da Kimberly, 3, aluna da professora Elly. A mãe relata que a criança estava triste porque não tinha como ter contato com os colegas e a professora, mas que depois da criação do grupo ela ficou muito feliz e animada. “Amo essa professora porque o método de ensino dela é muito diferente e explora a cultura. Isso é muito importante para o desenvolvimento dos nossos filhos”, elogia.  



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Escolas apostam em fortalecimento de vínculo

Jornal semanal e envio de objetos do ambiente escolar para casa estão entre as estratégias

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

24/05/2020 | 23:59


De uma hora para outra, o mundo quase parou e muitas atividades que eram feitas de maneira externa passaram a ser realizadas dentro de casa. A quarentena para tentar contar o avanço da pandemia de Covid-19 afastou alunos e professores e, além da manutenção do aprendizado, manter o vínculo também surgiu como um desafio para escolas e famílias. Com criatividade e muito carinho, instituições e professores têm lançado mão de diferentes estratégias para continuar presentes nas vidas dos estudantes.

Na Escola Stagium, em Diadema, a tristeza de ver as salas vazias com a suspensão das aulas presenciais deu à equipe a ideia de levar para cada um dos 31 alunos com até 3 anos a cadeira que eles usavam na escola. “Cadeira vem do Latim cathedra e significa assento especial. Apoio, base, amparo, alicerce, lugar. Em nossa escola esses lugares têm nomes, têm funções, têm vidas”, relata a diretora pedagógica Fernanda Costa. 

Mandar as cadeiras para a casa, explica Fernanda, foi a forma encontrada de levar aos estudantes esse lugar da escola, transportando também sons, artes, brincadeiras e até mesmo encontro em família. “Essa cadeira é um lugar importante. É um dos diversos lugares da escola que pertencem às crianças. Lugares onde o aluno constrói suas relações consigo, com o outro e com o mundo. Lugar que em breve, será ocupado por todos. E num suspiro de alívio, fecharemos nossos olhos novamente... e desta vez os sons serão reais. Todos estarão ali para sentir a infância vibrando outra vez”, completa.

Na casa do pequeno Eduardo, 3 anos, a cadeira chegou para apaziguar. O pai estava isolado no quarto, contaminado pela Covid-19. A mãe, cuidando dele e do irmão, Leonardo, 7. Um cano da sala achou que era uma boa data para estourar e inundar a casa. “Tudo havia acontecido. Quando o porteiro deixou a cadeira, os materiais, os papéis e as tintas na nossa porta, foi realmente uma tábua de salvação”, relata a mãe, a coordenadora pedagógica Viviane Vieira, 42. “Achei fantástico, porque papéis a gente consegue em qualquer lugar, mas aquela cadeira, é a da escola dele e ele a usa para tudo, o tempo todo”, pontua.

A administradora Mariana Parucci, 35, desceu com Joaquim, 2, para receber a cadeira, entregue pela própria professora. “Foi de surpresa e ele adorou. Era um pedacinho da escola em casa”, rememora. Joaquim já estava fazendo atividades de maneira on-line e a mãe elogiou a postura da instituição desde o início da pandemia. “O tempo todo a gente tem se sentido acolhido, como se fôssemos uma grande família”, conclui.

Em São Bernardo, o Parque Escola Infantil enviou para casa, além de materiais, vasos que eram da própria escola para que os estudantes cuidassem das plantas. Também tem produzido um jornal semanal, que antes era enviado apenas para os pais dos alunos do 1º ano do fundamental, e agora também é feito para as turmas do infantil. Reúne as atividades que estão sendo feitas pelos alunos, não somente cumprindo o currículo escolar, mas em suas brincadeiras.

Mantenedora da escola, a pedagoga Cassia Mattos destaca que a proposta da instituição parte da brincadeira, sem deixar de lado a base nacional comum curricular. “Os pequenos precisaram de um pouco mais de tempo para se adaptarem, mas temos feitos encontros curtos por vídeo e os pais relatam que as crianças ficam ansiosas pelo momento de estarmos juntos”, pontua. “É importante ter em mente que tudo o que está acontecendo é uma oportunidade de aprendizado, devemos ouvir as crianças e podemos trabalhar conteúdos a partir de tudo que elas questionam”, complementa. 

A empresária Thais Gutierrez Ferreira, 37, mãe de Juan, 6, e Marcelo, 4, ressalta que os encontros virtuais têm sido alegres e gostosos de acompanhar. “Vemos as famílias e nos aproximamos da escola. Construindo juntos coisa que deveria ser sempre. Além disso, nos dão ideias de atividades e brincadeiras para fazer com as crianças. Após mais de 60 dias nosso repertório certamente está escasso”, cita.

Especialistas listam importância da afetividade no aprendizado

A psicóloga Dandara Zamba, do Instituto Ser +, ressalta que para que ocorra aprendizagem é necessário que haja afetividade. “Falando da primeira infância é muito importante o vínculo professor aluno, pois esse é o primeiro contato de nossas crianças com a escola. Quanto melhor essa experiência, melhor será seu desenvolvimento e mais prazer terá em assuntos relacionados a vida acadêmica”, pontua a especialista. 

Dandara relata que, diante disso, é muito válido manter este contato em tempo de isolamento físico, pois este vínculo ajuda a manter o que já foi conquistado antes do início da pandemia. “E de acordo com as diretrizes do MEC (Ministério da Educação) se faz necessária a construção deste vínculo afetivo em tempos de pandemia”, conclui.

Especialista em desenvolvimento humano, Ester Gomes salienta que, no contexto da quarentena devido ao distanciamento físico, o vínculo criado entre alunos e professores se torna uma espécie de desafio. “Este fortalecimento é muito importante. É por meio da construção de uma relação afetiva e acolhedora que a criança se sente segura e disponível para as atividades e, consequentemente, para o desenvolvimento de suas potencialidades”, aponta.

Especificamente sobre o envio de objetos das escolas para casa, Ester destaca que são iniciativas de grande valia e de aprendizado para as crianças, especialmente na primeira infância, que vai até os 6 anos de idade. “Tais ações são de extrema relevância, pois fortalece a relação entre professor e aluno. A fase em questão é a principal para a ocorrência do desenvolvimento cerebral e consequente da memória afetiva”, finaliza Ester.

Iniciativas registram avanços no cotidiano

Como saber se a criança está aprendendo durante a quarentena? Essa é uma dúvida que povoa a cabeça de muitos pais. Pedagoga e professora da rede municipal de Santo André, na Creche Angela Masiero, Eliane Chagas, 42, explica que a educação infantil não ocorre a distância, uma vez que é pautada pelas interações e pelas brincadeiras. “Fizemos uma reunião e decidimos que iríamos contactar as famílias, cada professora com a sua referência, para que houvesse a manutenção dos vínculos.”

Por uma semana, a professora Elly ligou para todas as mães e um pai de 24 crianças para saber como estava sendo o período de quarentena e explicando para os pais por que na educação infantil o conceito de educação on-line não se aplica, mas que era importante que a escola seguisse presente, de alguma forma, na vida das crianças. “Expliquei que não era saudável que a gente, de repente, desaparecesse e se a família aceitava integrar grupo no WhatsApp”, pontua.

Todas as famílias aceitaram e, diariamente, às 13h, a professora abre o grupo que até então fica autorizado apenas para administradores, conversa com os pais e pede registros e manifestações de como todos têm se sentido. “Canto com as crianças a música que cantávamos em cada dia da semana, andando pela escola, para elas entenderem a minha presença e não terem que ficar muito tempo usando as telas. Elas mandam áudios e vídeos contando o que têm feito, o que estão comendo e tudo isso é currículo dentro da educação infantil”, completa.

“Logo no início percebi que algumas famílias estavam exigindo das crianças tarefas que não eram adequadas para a faixa etária, então passei a propor que deixem as crianças brincar de forma espontânea e fazendo pequenas intervenções. Pedi que os pais dessem giz e tijolos para que as crianças deixem suas marcas no espaço”, cita. O material é registrado pelos pais e, ao fim de cada semana, Elly reúne o conteúdo e faz vídeos que são relacionados com os aprendizados previstos no currículo. “Tenho o cuidado de não institucionalizar a casa e a rotina das famílias e o resultado tem sido bem bacana”, completa.

A dona de casa Fabiana Inácio Pinto, 40, é mãe da Kimberly, 3, aluna da professora Elly. A mãe relata que a criança estava triste porque não tinha como ter contato com os colegas e a professora, mas que depois da criação do grupo ela ficou muito feliz e animada. “Amo essa professora porque o método de ensino dela é muito diferente e explora a cultura. Isso é muito importante para o desenvolvimento dos nossos filhos”, elogia.  

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