Fechar
Publicidade

Domingo, 31 de Maio

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

|

A certeza de Platão


Do Diário do Grande ABC

17/05/2020 | 09:02


O jovem e inteligente Platão admirava Sócrates, que não temia a morte, mas sim vida sem questionamentos. Viver é conhecer e conhecer é lembrar. Lembrar das formas perfeitas em universo perfeito e imutável. E viver o mais próximo possível dessa ideia é poder compartilhá-la. E, assim, com a morte – desejada e não temida –- juntar-se às outras almas nesse mundo de perfeição e eternidade.

Semana passada vivi experiência inédita. Internei meu pai em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para realizar operação contra o câncer. Meu pai, militar, homem orgulhoso e de ideias acabadas, capaz de julgar os outros de forma definitiva, agora sucumbia a defeito do corpo quase octogenário. Vi então a dúvida em seus olhos e busquei respondê-la com a fé que roubei dele porque nunca a tive. Assumi a pose dele: firme, decidido, certo, incapaz de erro. ‘Vai dar tudo certo, pai’.

Platão morreu aos 80 anos e, em suas últimas obras, imaginou a figura de um demiurgo, de um criador de todas as coisas perfeitas. O que moveria esse Criador a criar foi a pergunta que atravessou os séculos e provocou discussões infindáveis. Se faltava alguma coisa, como a criação pode ter sido de coisas perfeitas? Se era apenas um capricho do Criador, como essa veleidade pode ser tão admirada? Platão deve ter tido suas amarguras de fim de vida, queimando por dentro diante da dúvida que é a mais humana das questões: e se?

No momento em que escrevo este texto, meu pai ainda está na UTI e ainda há risco para ele. Médicos e enfermeiros debruçam-se sobre os exames, discutem, saem e entram com ampolas e cateteres e mexem no corpo dele – e meu pai, como cachorro molhado, com o canto do olho, me procura até enquadrar-me em seu campo de visão, buscando aquela certeza, aquela convicção que agora deposita em mim como vaso frágil, com as trincas escondidas, viradas para trás. Sorrio, faço sinal de afirmativo e brinco com a situação e os médicos e enfermeiros reverberam meu otimismo: ‘Tá quase bom, é só consertar mais essa besteirinha aqui e pronto’. Depois saem e meu pai tenta se acomodar e volta o corpo para o outro lado. A bata se abre e mostra o corpo do qual ele já não parece se importar tanto.

Platão disse que o corpo é o cárcere da alma, o obstáculo para a segunda navegação. Platão era homem forte e viveu até a idade que meu pai tem agora. O que terá pensado Platão quando sua vida fluiu de seu corpo? Terá se sentido aliviado? Animado? Ou o terror da dúvida pôs por terra suas convicções e ele inteirou-se de sua humanidade frágil e efêmera? Não posso saber. Busco animar meu pai e dizer que logo estaremos em casa.

Daniel Medeiros é doutor em educação histórica e professor no Curso Positivo.

PALAVRA DO LEITOR

Diário – 62 anos – 1
Só me sinto completa quando, junto com meu café da manhã, folheio as páginas deste Diário, principalmente esta Palavra do Leitor, e me divirto com cartas com todo tipo de conteúdo. Parabéns também por não vetarem nenhum tipo de mensagem, mesmo as que criticam o jornal, como a de um senhor de 80 anos que não entendeu a palavra em inglês no texto (Lockdown, dia 11). Continuem assim.
Marilza Aparecida Sperandio
Mauá

Diário – 62 anos – 2
Parabéns, Diário, por pensar em toda família, pelo profissionalismo, pelo jornalismo sério, e por disponibilizar o Diarinho, que meus netos tanto gostam. Enquanto lia, eles se divertiam com as historinhas. Agora, infelizmente, por causa da pandemia, estamos ‘distantes’. Sinto falta de meus netos, mas entendo a situação. Sei que logo estaremos juntos de novo: eu, meus netos e o Diário.
Tânia Teixeira
São Bernardo

Diário – 62 anos – 3
Parabéns a este Diário pelos 62 anos! Que venham muitos outros aniversários e que o jornal se fortaleça cada vez mais. E possa trazer de volta as páginas de esportes, mais reportagens de polícia, de beleza, de informática e receitas, que seriam muito úteis nesta época em que temos de ficar em casa. Sugiro que façam uma página só com boas notícias, de pessoas que se recuperaram desta doença, com nome e mostrando o rosto, assim como profissionais que estão na linha de frente no combate a esse mal.
Abedias Barbato
São Caetano

Moro x ‘Bolso’
Dureza mesmo é o que estão passando os viúvos de Luiz Inácio Lula da Silva. Na briga Bolsonaro x Moro, ter que torcer para o juiz, que botou o ídolo deles, viúvos, no xadrez, só para ser contra o ‘Bolso’ é dose. Mas, no fundo, acho que merecem. Nesses últimos dias um dos viúvos chegou a dizer que a facada em Bolsonaro foi <CF51>fake</CF>. Então vamos dar o Oscar de interpretação para o ‘Bolso’ e para toda a população de Juiz de Fora, equipe do Sírio-Libanês etc. Outro afirma categoricamente que votei em Jair Bolsonaro. O voto, que eu saiba, é secreto. Ou não? Só para informar, a quem tiver interesse, devido à minha idade, não voto já há muitos anos. Mas se tivesse votado não seria no ‘poste’, com certeza. Quanto a ‘Bolso’ x Moro, se continuarem baixando o nível, vão acabar se comparando a Lula. Se bem que é difícil.
Donaldo Dagnone
Santo André

Fique em casa!
Moradores do Grande ABC, é o seguinte: fiquem em casa, porque estamos à deriva, sem presidente, sem ministros, sem testes, sem vacinas, sem vagas em hospitais, sem leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), sem remédio para cura da Covid-19, sem vacina e, além de tudo isso, estamos perdendo a paciência com gente teimosa que insiste em ir para as ruas sem necessidade!
Mário Campos
Santo André

Só mais um?
Do jeito que anda a política no Brasil, acho que só existem duas saídas: ou Bolsonaro e sua equipe começam a separar o joio do trigo para dar rumo à Nação, ou o presidente marcará sua passagem pelo Palácio do Planalto por nada ter feito, como tantos outros que passaram e bem pouco ou quase nada fizeram para dar esperança, respeito, justiça e dignidade ao povo brasileiro. Caso contrário, e infelizmente, será somente mais um.
Sérgio Antônio Ambrósio
Mauá

Arrogância
Novo significado para este substantivo: ‘atitude sombria, obsessiva e bélica, usada por uma pessoa para impor a todo um país conceitos técnicos, sobre os quais nunca estudou nem possui autorização profissional, técnica ou universitária na área; e que ainda pode ser agravada pelo fato de a imposição afetar a saúde e a própria vida de mais de 200 milhões de pessoas’. Sem dúvida, esta é a pior qualidade que o presidente de uma nação pode possuir, e o torna seriamente passível de ser destituído pela sua atitude, que o pode tornar criminoso perante o País.
Ruben J. Moreira
São Caetano 



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

A certeza de Platão

Do Diário do Grande ABC

17/05/2020 | 09:02


O jovem e inteligente Platão admirava Sócrates, que não temia a morte, mas sim vida sem questionamentos. Viver é conhecer e conhecer é lembrar. Lembrar das formas perfeitas em universo perfeito e imutável. E viver o mais próximo possível dessa ideia é poder compartilhá-la. E, assim, com a morte – desejada e não temida –- juntar-se às outras almas nesse mundo de perfeição e eternidade.

Semana passada vivi experiência inédita. Internei meu pai em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para realizar operação contra o câncer. Meu pai, militar, homem orgulhoso e de ideias acabadas, capaz de julgar os outros de forma definitiva, agora sucumbia a defeito do corpo quase octogenário. Vi então a dúvida em seus olhos e busquei respondê-la com a fé que roubei dele porque nunca a tive. Assumi a pose dele: firme, decidido, certo, incapaz de erro. ‘Vai dar tudo certo, pai’.

Platão morreu aos 80 anos e, em suas últimas obras, imaginou a figura de um demiurgo, de um criador de todas as coisas perfeitas. O que moveria esse Criador a criar foi a pergunta que atravessou os séculos e provocou discussões infindáveis. Se faltava alguma coisa, como a criação pode ter sido de coisas perfeitas? Se era apenas um capricho do Criador, como essa veleidade pode ser tão admirada? Platão deve ter tido suas amarguras de fim de vida, queimando por dentro diante da dúvida que é a mais humana das questões: e se?

No momento em que escrevo este texto, meu pai ainda está na UTI e ainda há risco para ele. Médicos e enfermeiros debruçam-se sobre os exames, discutem, saem e entram com ampolas e cateteres e mexem no corpo dele – e meu pai, como cachorro molhado, com o canto do olho, me procura até enquadrar-me em seu campo de visão, buscando aquela certeza, aquela convicção que agora deposita em mim como vaso frágil, com as trincas escondidas, viradas para trás. Sorrio, faço sinal de afirmativo e brinco com a situação e os médicos e enfermeiros reverberam meu otimismo: ‘Tá quase bom, é só consertar mais essa besteirinha aqui e pronto’. Depois saem e meu pai tenta se acomodar e volta o corpo para o outro lado. A bata se abre e mostra o corpo do qual ele já não parece se importar tanto.

Platão disse que o corpo é o cárcere da alma, o obstáculo para a segunda navegação. Platão era homem forte e viveu até a idade que meu pai tem agora. O que terá pensado Platão quando sua vida fluiu de seu corpo? Terá se sentido aliviado? Animado? Ou o terror da dúvida pôs por terra suas convicções e ele inteirou-se de sua humanidade frágil e efêmera? Não posso saber. Busco animar meu pai e dizer que logo estaremos em casa.

Daniel Medeiros é doutor em educação histórica e professor no Curso Positivo.

PALAVRA DO LEITOR

Diário – 62 anos – 1
Só me sinto completa quando, junto com meu café da manhã, folheio as páginas deste Diário, principalmente esta Palavra do Leitor, e me divirto com cartas com todo tipo de conteúdo. Parabéns também por não vetarem nenhum tipo de mensagem, mesmo as que criticam o jornal, como a de um senhor de 80 anos que não entendeu a palavra em inglês no texto (Lockdown, dia 11). Continuem assim.
Marilza Aparecida Sperandio
Mauá

Diário – 62 anos – 2
Parabéns, Diário, por pensar em toda família, pelo profissionalismo, pelo jornalismo sério, e por disponibilizar o Diarinho, que meus netos tanto gostam. Enquanto lia, eles se divertiam com as historinhas. Agora, infelizmente, por causa da pandemia, estamos ‘distantes’. Sinto falta de meus netos, mas entendo a situação. Sei que logo estaremos juntos de novo: eu, meus netos e o Diário.
Tânia Teixeira
São Bernardo

Diário – 62 anos – 3
Parabéns a este Diário pelos 62 anos! Que venham muitos outros aniversários e que o jornal se fortaleça cada vez mais. E possa trazer de volta as páginas de esportes, mais reportagens de polícia, de beleza, de informática e receitas, que seriam muito úteis nesta época em que temos de ficar em casa. Sugiro que façam uma página só com boas notícias, de pessoas que se recuperaram desta doença, com nome e mostrando o rosto, assim como profissionais que estão na linha de frente no combate a esse mal.
Abedias Barbato
São Caetano

Moro x ‘Bolso’
Dureza mesmo é o que estão passando os viúvos de Luiz Inácio Lula da Silva. Na briga Bolsonaro x Moro, ter que torcer para o juiz, que botou o ídolo deles, viúvos, no xadrez, só para ser contra o ‘Bolso’ é dose. Mas, no fundo, acho que merecem. Nesses últimos dias um dos viúvos chegou a dizer que a facada em Bolsonaro foi <CF51>fake</CF>. Então vamos dar o Oscar de interpretação para o ‘Bolso’ e para toda a população de Juiz de Fora, equipe do Sírio-Libanês etc. Outro afirma categoricamente que votei em Jair Bolsonaro. O voto, que eu saiba, é secreto. Ou não? Só para informar, a quem tiver interesse, devido à minha idade, não voto já há muitos anos. Mas se tivesse votado não seria no ‘poste’, com certeza. Quanto a ‘Bolso’ x Moro, se continuarem baixando o nível, vão acabar se comparando a Lula. Se bem que é difícil.
Donaldo Dagnone
Santo André

Fique em casa!
Moradores do Grande ABC, é o seguinte: fiquem em casa, porque estamos à deriva, sem presidente, sem ministros, sem testes, sem vacinas, sem vagas em hospitais, sem leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), sem remédio para cura da Covid-19, sem vacina e, além de tudo isso, estamos perdendo a paciência com gente teimosa que insiste em ir para as ruas sem necessidade!
Mário Campos
Santo André

Só mais um?
Do jeito que anda a política no Brasil, acho que só existem duas saídas: ou Bolsonaro e sua equipe começam a separar o joio do trigo para dar rumo à Nação, ou o presidente marcará sua passagem pelo Palácio do Planalto por nada ter feito, como tantos outros que passaram e bem pouco ou quase nada fizeram para dar esperança, respeito, justiça e dignidade ao povo brasileiro. Caso contrário, e infelizmente, será somente mais um.
Sérgio Antônio Ambrósio
Mauá

Arrogância
Novo significado para este substantivo: ‘atitude sombria, obsessiva e bélica, usada por uma pessoa para impor a todo um país conceitos técnicos, sobre os quais nunca estudou nem possui autorização profissional, técnica ou universitária na área; e que ainda pode ser agravada pelo fato de a imposição afetar a saúde e a própria vida de mais de 200 milhões de pessoas’. Sem dúvida, esta é a pior qualidade que o presidente de uma nação pode possuir, e o torna seriamente passível de ser destituído pela sua atitude, que o pode tornar criminoso perante o País.
Ruben J. Moreira
São Caetano 

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;