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Equipe da esperança dá leveza ao hospital de campanha

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Psicólogas, assistentes sociais e profissionais da humanização têm papel fundamental


Dérek Bittencourt
Do Diário do Grande ABC

11/05/2020 | 07:00


 Com apenas cinco meses de existência, a Covid-19 ainda pode ser considerada uma doença nova, desconhecida e que não conta com uma vacina capaz de impedir que o novo coronavírus se instale, seja tão impactante e, em muitos casos, fatal. Consequentemente, pacientes que são diagnosticados positivamente acabam se deparando com as incertezas da enfermidade, remetendo a confirmação com a possibilidade de morrer. É neste ponto que a atuação de profissionais como psicólogos e assistentes sociais acaba se tornando fundamental. No hospital de campanha do Complexo Esportivo Dell’Antonia, em Santo André, por exemplo, os internados contam com assistência destes experts quando o assunto está relacionado ao lado emocional e humanizado.

O local conta com 180 leitos, dispostos para todas as complexidades em tratamento específico contra a Covid-19. E, diariamente, os pacientes recebem a visita das psicólogas que, além de conversarem e buscarem através de sua experiência ajudar e fortalecer estes enfermos, proporcionam momentos de conforto, esperança e também equilíbrio. “Os pacientes chegam com muito medo de morrer. Na nossa conversa, a primeira coisa que surge de angústia é isso. O que tem todo sentido, primeiro porque a gente está acompanhando as notícias e sabe que não é uma brincadeira, então quando pessoa recebe o diagnóstico, se defronta com essa realidade e dá aquele baque. Um dos principais sintomas é falta de ar, cansaço. Isso é super agonizante, deixa o paciente mais ansioso, porque quando a gente não consegue respirar a gente se fragiliza emocionalmente no ponto de vista de ‘será que vou conseguir passar disso?’”, conta a psicóloga Rita Caligari, 50. “Há vários relatos de pessoas que não acreditavam que iam pegar, que não iam contaminar e aí começa a vir a culpa. Muitos pacientes resgatam histórias pessoais, acham que erraram e aqui é meio que um castigo, que está vivendo esse momento porque merece e agora vai ter chance de se redimir”, salienta a também psicóloga Pollyana Camilo, 32.

Outra ação muito especial promovida pela equipe é a realização de vídeo chamadas, através de tablets (não são permitidas visitas). Este momento virtual serve para diminuir um pouco da distância ocasionada por toda a situação. “Uma das pessoas que estava internada com a gente disse assim: ‘quando eu vim para cá, meu mundo desabou. Não sabia para onde estava indo, quem ia encontrar, se a equipe ia cuidar bem de mim, não sabia nada sobre o espaço. Mas quando entrei aqui e encontrei essa equipe, tive visão transformada e melhor parte do meu dia é quando vejo a equipe da vídeo chamada. Eles têm a cara da esperança. É o momento mais feliz do meu dia’. Então esse momento é um dos mais significativos e que colaboram para todo o processo terapêutico, na questão da saúde mental para evolução clínica da doença”, relata o sanitarista e responsável pela equipe de humanização, Felipe Daiko Fraga, 25. “É nítido: quando a gente vai passando nos corredores, eles veem a gente e vemos os olhinhos brilhando, de longe”, emenda a psicóloga Pollyanna.

O momento virtual também serve para desabafo dos pacientes. “Um deles disse querer fazer muito a vídeo chamada para poder dizer à família que tudo o que ouviu lá fora era mentira. Porque quando informaram a família que iriam trazê-lo ao hospital de campanha, falaram ‘agora esquece, vai morrer, vai estar abandonado, vão largar num canto, você perdeu seu pai’. Os filhos ficaram em desespero. Quando chegou aqui, foi acolhido, equipe passou a atender, viu o movimento e não era aquilo que tinha ouvido. Quando o paciente chega e encontra assistência digna e equipe que acolhe, também vai se tranquilizando”, exalta Rita.

Dia das Mães tem ações especiais
A equipe de humanização do hospital de campanha do Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia preparou ações para que o Dia das Mães não passasse em branco. Assim, profissionais fizeram surpresa às pacientes e levaram um violão para as áreas de internação. O enfermeiro Diego Oliveira, que integra a rede de urgência do município, fez o show. Músicas como Anunciação, de Alceu Valença, e Como é Grande o Meu Amor por Você, de Roberto Carlos, fizeram parte do repertório, animando e emocionando as enfermas.

“Quando vi no calendário que estaria de plantão, fiquei feliz. Porque a honra, a gratidão por trabalhar neste momento com o que gosta. No meu Dia das Mães também não ia me reunir com minha família, por estar cumprindo isolamento social. Então que bom que estou à serviço do outro”, declara a psicóloga Rita Caligari, que participou ativamente da ação.

A profissional, inclusive, tem uma filha e uma enteada, que entendem este momento de distanciamento físico imposto pela quarentena e admiram o trabalham de Rita. “Têm orgulho porque sabem que é trabalho que com grande significado não só para mim, pensando no coletivo. Recebo apoio delas. Tudo o que acontece em torno disso gera sentimento importante de cidadania, de olhar para pessoa da família e entender que a gente é capaz de fazer sacrifícios pessoais pelo bem de pessoas que a gente nem conhece. Isso é valor que a gente passa, também estamos educando na medida que digo ‘eu te amo mais do que qualquer coisa mas, apesar disso, vou me afastar de você neste momento porque não quero que você corra risco e também vou fazer aquilo que estudei com tanto amor, que tem significado para mim e é papel importante na sociedade pensando no coletivo’. Isso também forma o caráter delas”, ressalta.

Mãe e avó, a assistente social Antonia Onofre admite a preocupação da família, mas justifica. “Meu marido e filhos falam para tomar cuidado. Não vou me omitir da situação (do trabalho), vou cuidar (dos pacientes) e também vou me cuidar”, compromete-se.

Saúde mental em ordem beneficia recuperação na luta contra a Covid-19
Os profissionais que estão atuando no combate ao novo coronavírus merecem respeito e méritos. Todos, desde a equipe da limpeza até os mais renomados médicos, têm sua importância e relevância para a recuperação dos pacientes. “Não dá para tratar o corpo das pessoas e esquecer que, por trás, tem um lado emocional que influencia absurdamente e uma parte social que faz toda diferença. Não adianta dar a melhor assistência médica, com equipamentos e remédios, se pessoa estiver ansiosa, deprimida ou com algum transtorno emocional”, salienta a psicóloga Rita Caligari. “O grupo todo cuida de todas as pessoas”, endossa o sanitarista Felipe Daiko Fraga.

Quando a assistente social Antonia Onofre, 50, pega o telefone, é um momento de alegria. Ela é a responsável por entrar em contato com as famílias para informar a alta médica. “A melhor notícia sou eu quem dou, com certeza”, brinca a profissional, de poucas palavras, mas de grande coração. “Me sinto feliz em fazer parte dessa história e executar meu trabalho como mediadora entre médico, paciente e família.”

A cada pessoa que recebe a liberação para ir embora do hospital de campanha, todos os profissionais formam corredor por onde o paciente passa, sob aplausos. “É uma mobilização”, diz Felipe. “Aqui é lugar de tensão, então o que tem de positivo a gente deve valorizar. Quando um paciente sai é a nossa festa, quando a gente extravasa, mostra que dá certo, que é possível fazer cada vez melhor para salvar mais e mais vidas. Uma família trouxe cartazes com agradecimentos para a gente. Foi bem incrível”, recorda a psicóloga Pollyanna Camilo.

Afinal, por debaixo daquela paramentação, estão também seres humanos, sentimentos e corações. “Quando a gente vê paciente que estava acompanhando indo embora ficamos tão felizes, porque nos colocamos no lugar daquela família que está recebendo a notícia do serviço social, da pessoa que está voltando para casa. A gente também tem família e sabe como é ruim quando se separa dela”, compara Rita.

O sanitarista Felipe chama atenção para o momento de aprendizado e valorização ao qual a pandemia está proporcionando. “O que a gente está vivendo demonstra o quanto a saúde é coletiva e não é de domínio privado. E o quanto ter responsabilidade sanitária envolve esse pensamento do eu para o outro. SUS (Sistema Único de Saúde), universidades públicas e ciência vão ajudar a gente a superar este momento. E mais que isso: nossa solidariedade, nosso compromisso social. São esses pilares que a gente precisa fortalecer enquanto sociedade para conseguir superar e sair vitorioso da pandemia do coronavírus”, afirma. “Espero que os hospitais de campanha não lotem, porque quando estão lotados demonstra que a gente falhou em algum momento na promoção e prevenção da doença. Se não lotarem, não significa que a gente não teve pandemia tão grave, mas, sim, que nosso sistema de saúde foi o melhor e a gente conseguiu proteger a nossa população desse vírus que está matando muita gente.”



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Equipe da esperança dá leveza ao hospital de campanha

Psicólogas, assistentes sociais e profissionais da humanização têm papel fundamental

Dérek Bittencourt
Do Diário do Grande ABC

11/05/2020 | 07:00


 Com apenas cinco meses de existência, a Covid-19 ainda pode ser considerada uma doença nova, desconhecida e que não conta com uma vacina capaz de impedir que o novo coronavírus se instale, seja tão impactante e, em muitos casos, fatal. Consequentemente, pacientes que são diagnosticados positivamente acabam se deparando com as incertezas da enfermidade, remetendo a confirmação com a possibilidade de morrer. É neste ponto que a atuação de profissionais como psicólogos e assistentes sociais acaba se tornando fundamental. No hospital de campanha do Complexo Esportivo Dell’Antonia, em Santo André, por exemplo, os internados contam com assistência destes experts quando o assunto está relacionado ao lado emocional e humanizado.

O local conta com 180 leitos, dispostos para todas as complexidades em tratamento específico contra a Covid-19. E, diariamente, os pacientes recebem a visita das psicólogas que, além de conversarem e buscarem através de sua experiência ajudar e fortalecer estes enfermos, proporcionam momentos de conforto, esperança e também equilíbrio. “Os pacientes chegam com muito medo de morrer. Na nossa conversa, a primeira coisa que surge de angústia é isso. O que tem todo sentido, primeiro porque a gente está acompanhando as notícias e sabe que não é uma brincadeira, então quando pessoa recebe o diagnóstico, se defronta com essa realidade e dá aquele baque. Um dos principais sintomas é falta de ar, cansaço. Isso é super agonizante, deixa o paciente mais ansioso, porque quando a gente não consegue respirar a gente se fragiliza emocionalmente no ponto de vista de ‘será que vou conseguir passar disso?’”, conta a psicóloga Rita Caligari, 50. “Há vários relatos de pessoas que não acreditavam que iam pegar, que não iam contaminar e aí começa a vir a culpa. Muitos pacientes resgatam histórias pessoais, acham que erraram e aqui é meio que um castigo, que está vivendo esse momento porque merece e agora vai ter chance de se redimir”, salienta a também psicóloga Pollyana Camilo, 32.

Outra ação muito especial promovida pela equipe é a realização de vídeo chamadas, através de tablets (não são permitidas visitas). Este momento virtual serve para diminuir um pouco da distância ocasionada por toda a situação. “Uma das pessoas que estava internada com a gente disse assim: ‘quando eu vim para cá, meu mundo desabou. Não sabia para onde estava indo, quem ia encontrar, se a equipe ia cuidar bem de mim, não sabia nada sobre o espaço. Mas quando entrei aqui e encontrei essa equipe, tive visão transformada e melhor parte do meu dia é quando vejo a equipe da vídeo chamada. Eles têm a cara da esperança. É o momento mais feliz do meu dia’. Então esse momento é um dos mais significativos e que colaboram para todo o processo terapêutico, na questão da saúde mental para evolução clínica da doença”, relata o sanitarista e responsável pela equipe de humanização, Felipe Daiko Fraga, 25. “É nítido: quando a gente vai passando nos corredores, eles veem a gente e vemos os olhinhos brilhando, de longe”, emenda a psicóloga Pollyanna.

O momento virtual também serve para desabafo dos pacientes. “Um deles disse querer fazer muito a vídeo chamada para poder dizer à família que tudo o que ouviu lá fora era mentira. Porque quando informaram a família que iriam trazê-lo ao hospital de campanha, falaram ‘agora esquece, vai morrer, vai estar abandonado, vão largar num canto, você perdeu seu pai’. Os filhos ficaram em desespero. Quando chegou aqui, foi acolhido, equipe passou a atender, viu o movimento e não era aquilo que tinha ouvido. Quando o paciente chega e encontra assistência digna e equipe que acolhe, também vai se tranquilizando”, exalta Rita.

Dia das Mães tem ações especiais
A equipe de humanização do hospital de campanha do Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia preparou ações para que o Dia das Mães não passasse em branco. Assim, profissionais fizeram surpresa às pacientes e levaram um violão para as áreas de internação. O enfermeiro Diego Oliveira, que integra a rede de urgência do município, fez o show. Músicas como Anunciação, de Alceu Valença, e Como é Grande o Meu Amor por Você, de Roberto Carlos, fizeram parte do repertório, animando e emocionando as enfermas.

“Quando vi no calendário que estaria de plantão, fiquei feliz. Porque a honra, a gratidão por trabalhar neste momento com o que gosta. No meu Dia das Mães também não ia me reunir com minha família, por estar cumprindo isolamento social. Então que bom que estou à serviço do outro”, declara a psicóloga Rita Caligari, que participou ativamente da ação.

A profissional, inclusive, tem uma filha e uma enteada, que entendem este momento de distanciamento físico imposto pela quarentena e admiram o trabalham de Rita. “Têm orgulho porque sabem que é trabalho que com grande significado não só para mim, pensando no coletivo. Recebo apoio delas. Tudo o que acontece em torno disso gera sentimento importante de cidadania, de olhar para pessoa da família e entender que a gente é capaz de fazer sacrifícios pessoais pelo bem de pessoas que a gente nem conhece. Isso é valor que a gente passa, também estamos educando na medida que digo ‘eu te amo mais do que qualquer coisa mas, apesar disso, vou me afastar de você neste momento porque não quero que você corra risco e também vou fazer aquilo que estudei com tanto amor, que tem significado para mim e é papel importante na sociedade pensando no coletivo’. Isso também forma o caráter delas”, ressalta.

Mãe e avó, a assistente social Antonia Onofre admite a preocupação da família, mas justifica. “Meu marido e filhos falam para tomar cuidado. Não vou me omitir da situação (do trabalho), vou cuidar (dos pacientes) e também vou me cuidar”, compromete-se.

Saúde mental em ordem beneficia recuperação na luta contra a Covid-19
Os profissionais que estão atuando no combate ao novo coronavírus merecem respeito e méritos. Todos, desde a equipe da limpeza até os mais renomados médicos, têm sua importância e relevância para a recuperação dos pacientes. “Não dá para tratar o corpo das pessoas e esquecer que, por trás, tem um lado emocional que influencia absurdamente e uma parte social que faz toda diferença. Não adianta dar a melhor assistência médica, com equipamentos e remédios, se pessoa estiver ansiosa, deprimida ou com algum transtorno emocional”, salienta a psicóloga Rita Caligari. “O grupo todo cuida de todas as pessoas”, endossa o sanitarista Felipe Daiko Fraga.

Quando a assistente social Antonia Onofre, 50, pega o telefone, é um momento de alegria. Ela é a responsável por entrar em contato com as famílias para informar a alta médica. “A melhor notícia sou eu quem dou, com certeza”, brinca a profissional, de poucas palavras, mas de grande coração. “Me sinto feliz em fazer parte dessa história e executar meu trabalho como mediadora entre médico, paciente e família.”

A cada pessoa que recebe a liberação para ir embora do hospital de campanha, todos os profissionais formam corredor por onde o paciente passa, sob aplausos. “É uma mobilização”, diz Felipe. “Aqui é lugar de tensão, então o que tem de positivo a gente deve valorizar. Quando um paciente sai é a nossa festa, quando a gente extravasa, mostra que dá certo, que é possível fazer cada vez melhor para salvar mais e mais vidas. Uma família trouxe cartazes com agradecimentos para a gente. Foi bem incrível”, recorda a psicóloga Pollyanna Camilo.

Afinal, por debaixo daquela paramentação, estão também seres humanos, sentimentos e corações. “Quando a gente vê paciente que estava acompanhando indo embora ficamos tão felizes, porque nos colocamos no lugar daquela família que está recebendo a notícia do serviço social, da pessoa que está voltando para casa. A gente também tem família e sabe como é ruim quando se separa dela”, compara Rita.

O sanitarista Felipe chama atenção para o momento de aprendizado e valorização ao qual a pandemia está proporcionando. “O que a gente está vivendo demonstra o quanto a saúde é coletiva e não é de domínio privado. E o quanto ter responsabilidade sanitária envolve esse pensamento do eu para o outro. SUS (Sistema Único de Saúde), universidades públicas e ciência vão ajudar a gente a superar este momento. E mais que isso: nossa solidariedade, nosso compromisso social. São esses pilares que a gente precisa fortalecer enquanto sociedade para conseguir superar e sair vitorioso da pandemia do coronavírus”, afirma. “Espero que os hospitais de campanha não lotem, porque quando estão lotados demonstra que a gente falhou em algum momento na promoção e prevenção da doença. Se não lotarem, não significa que a gente não teve pandemia tão grave, mas, sim, que nosso sistema de saúde foi o melhor e a gente conseguiu proteger a nossa população desse vírus que está matando muita gente.”

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