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Idosas usam bom humor para driblar o isolamento

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Após isolamento físico como medida de precaução para frear a pandemia da Covid-19, atividades comuns cessaram


Vinícius Castelli
Do Diário do Grande ABC

26/04/2020 | 23:58


Passear pela região da Praça do Carmo, no Centro de Santo André, comprar uma revista, um livro, aproveitar para dar caminhada e ver o movimento são atividades que Rita Maria Garcia, 82 anos, adora fazer. Antes, realizava essas situações do cotidiano com bem mais frequência, mas, depois que começou a sentir sintomas da labirintite, passou a fazer seus passeios uma vez por semana. Da agenda da aposentada faz parte ainda um curso de literatura na Casa da Palavra Mário Quintana, algo que a deixa muito feliz.

Mas desde que foi pedido pelo poder público o isolamento físico como medida de precaução para frear a pandemia da Covid-19, todas essas coisas comuns cessaram. E Rita tem cumprido a quarentena com rigor, apesar de estar sentindo falta das atividades que lhe fazem tão bem. Para passar o tempo, ela tem feito algo que gosta muito: ler e escrever. O Diário, do qual é assinante e que chega em sua residência desde a metade dos anos 1970, também faz parte de seu dia a dia. “Adoro a Palavra do Leitor, a coluna Memória”, diz. Mas o que tem lhe feito muito bem é a prática de bordado. “Gosto muito, isso me faz viver”, enfatiza.

Rita mora há 50 anos no mesmo endereço na Vila Floresta. Vive na casa dos fundos. Na residência da frente fica seu filho, João – junto da mulher, enteada e o filho dele –, que é quem tem saído para comprar os mantimentos para Rita. Até mesmo coisas mais básicas, como pão na padaria.

Mas ela não se assusta diante da pandemia. Lembra que, no início dos anos 1940, quando vivia em Paranapiacaba, onde cresceu, seu pai lia reportagens sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Vivenciou também surto de meningite no País. Era 1974. À época trabalhava na recepção de um hospital em Santo André. “Vejo a situação, é triste. Me preocupo com tudo isso e fico chateada. Mas sei que vai passar”, frisa.

Assim como Rita, Hilda de Barros Gripa, 79, também de Santo André – no Jardim Oriental –, precisou deixar de lado várias de suas atividades. Na academia estava indo cinco vezes por semana. Após uma caminhada de meia hora, encarava aula de musculação e outra de pilates. Os passeios pelo Centro de Santo André para comprar material para costura, sua profissão, também ficaram de lado, pelo menos por enquanto.

No início, Hilda estranhou um pouco o fato de ter de ficar dentro de casa. “Mas devagar fui entendendo que é para o nosso bem”, diz. Hilda tem sentido falta do convívio da família, de receber os netos em casa aos domingos. Outra coisa que lhe entristece é por não poder ir à igreja. Acompanha sempre as missas e faz parte do coral.

Para passar o tempo, começou a fazer máscaras (para se proteger na pandemia). “Fiz uma para mim. Minha filha Rita postou no Facebook. Tenho feito e preenche meus dias”, comenta. Quem tem encomendado paga o valor que quiser. Geralmente entre R$ 2 e R$ 5 a unidade. Mas doa, caso seja necessário. Fazer palavras cruzadas, conversar com a filha e ver novelas também lhe ajudam a passar bem pelo isolamento físico. “Vou ao portão, de máscara e digo oi aos vizinhos.”

Vez ou outra Hilda sente medo do atual momento que o mundo atravessa. Mas passa por cima. “É algo novo, mas temos de superar esse medo. Tem de entender o que está acontecendo e se acalmar. Quando acabar tudo isso quero ir à igreja e agradecer”, projeta.

Assim como Hilda, Rita também espera dias melhores e já faz planos para quando puder retomar sua rotina pelas ruas. “Quando tudo passar, quero sair, comprar minhas revistas, passear no Centro de Santo André. E quero aprender fotografia. Não pude quando era mais jovem, então vou aprender agora. Quero que isso passe logo para o bem do povo. Se todo mundo se esforçar, vai dar certo.”

Infectada, enfermeira se isola por obrigação

Yasmin Assagra

Nem todo mundo está isolado por precaução. Enfermeira de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Ribeirão Pires, Iracy Rodrigues (nome fictício a pedido da entrevistada), 60 anos, foi contaminada pela Covid-19 e agora tenta arrumar maneiras de passar o tempo sem sair do quarto.

Ela trabalhava na linha de frente contra o novo coronavírus desde março, mas os sintomas só apareceram no dia 7 de abril. “Meu marido trabalha como bombeiro e chegou em casa com febre e se sentindo muito mal. Desde então os sintomas logo apareceram para mim”, relatou.

Iracy comenta que chegou a ir ao hospital duas vezes por não se sentir bem e, se precisasse ir pela terceira vez, teria de ser internada. “Depois disso ficamos por 14 dias em isolamento. Meu marido ficou poucos dias se sentindo mal e depois ficou assintomático. Eu permaneço com a tosse e não consigo, ainda, sentir cheiro de nada”, lamentou a enfermeira. 

Logo no início da pandemia, Iracy destacou que tomou todos os cuidados quando chegava do trabalho dentro de casa e respeitou todas as precauções diante do distanciamento físico. “Chorei muito quando descobri que tinha testado positivo, pois sabia dos riscos que eu estava enfrentando. Lembro de que, quando chegava da UPA, deixava a roupa inteira na lavanderia e lavava separada das outras peças. Mesmo assim, aconteceu. Todo cuidado é pouco”, observou. 

“O meu medo era se eu tinha passado para o meu filho e meu neto. É um misto de angústia e insegurança, todo tempo. Alguns dias chorei bastante e ainda choro. Mas confio muito em Deus e isso me conforta”, comentou Iracy. 

Agora, a enfermeira retoma, aos poucos, as atividades que fazia diariamente e, principalmente, agradece por ter enfrentado fase ruim. “O que eu vou levar de experiência para minha vida é o cuidado com a família, meu bem maior. E o que me motiva é saber que vou encerrar essa etapa para ver meus familiares”, finalizou. 

Estresse e medo do vírus podem baixar imunidade dos mais velhos

Além dos cuidados fundamentais com os idosos – pessoas acima dos 60 anos estão no grupo de risco por causa do novo coronavírus –, o estresse, a angústia e o medo podem ser fatores que baixam a imunidade dessas pessoas. Isso porque pode afetar diretamente o lado psicológico. 

A geriatra do residencial Club Leger, casa de acolhimento de idosos, Simone Henriques destacou que qualquer atividade fora da rotina pode amenizar a ansiedade e o suporte psicológico é fundamental durante a quarentena. “Algumas destas pessoas estão extremamente assustadas, muitas, inclusive, assistem demais os noticiários o que pode colaborar nessa angústia”, comentou. 

Simone avaliou que as atividades devem ser feitas tanto para os idosos que estão em lares ou institutos, quanto para as pessoas que estejam em casa. “Muitos idosos acabam ficando isolados da própria família para não correr risco de contraírem a Covid-19. Então é necessário que filhos incentivem essas distrações, como ler livros, ouvir músicas diferentes, organizar guarda-roupas e rever fotos”, observou. 

Já para os idosos que são mais ativos, a especialista indica cozinhar, realizar cursos on-line e retomar, aos poucos, as atividades físicas dentro de casa. “Tudo em paralelo com alimentação saudável e reforçar com alimentos que melhorem a imunidade. Alimentos ricos em vitamina C, como maçã, couve e demais nutrientes que somem na refeição”, relatou. 

Ainda de acordo com a geriatra, muitos idosos acabam sendo mais confiantes do que outros. “Vejo que alguns passaram por guerras e até outras epidemias e acabam ficando mais confiantes e resistentes a essa quarentena. O importante é que permaneçam otimistas, o que é um fator muito positivo”, finalizou.  



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Idosas usam bom humor para driblar o isolamento

Após isolamento físico como medida de precaução para frear a pandemia da Covid-19, atividades comuns cessaram

Vinícius Castelli
Do Diário do Grande ABC

26/04/2020 | 23:58


Passear pela região da Praça do Carmo, no Centro de Santo André, comprar uma revista, um livro, aproveitar para dar caminhada e ver o movimento são atividades que Rita Maria Garcia, 82 anos, adora fazer. Antes, realizava essas situações do cotidiano com bem mais frequência, mas, depois que começou a sentir sintomas da labirintite, passou a fazer seus passeios uma vez por semana. Da agenda da aposentada faz parte ainda um curso de literatura na Casa da Palavra Mário Quintana, algo que a deixa muito feliz.

Mas desde que foi pedido pelo poder público o isolamento físico como medida de precaução para frear a pandemia da Covid-19, todas essas coisas comuns cessaram. E Rita tem cumprido a quarentena com rigor, apesar de estar sentindo falta das atividades que lhe fazem tão bem. Para passar o tempo, ela tem feito algo que gosta muito: ler e escrever. O Diário, do qual é assinante e que chega em sua residência desde a metade dos anos 1970, também faz parte de seu dia a dia. “Adoro a Palavra do Leitor, a coluna Memória”, diz. Mas o que tem lhe feito muito bem é a prática de bordado. “Gosto muito, isso me faz viver”, enfatiza.

Rita mora há 50 anos no mesmo endereço na Vila Floresta. Vive na casa dos fundos. Na residência da frente fica seu filho, João – junto da mulher, enteada e o filho dele –, que é quem tem saído para comprar os mantimentos para Rita. Até mesmo coisas mais básicas, como pão na padaria.

Mas ela não se assusta diante da pandemia. Lembra que, no início dos anos 1940, quando vivia em Paranapiacaba, onde cresceu, seu pai lia reportagens sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Vivenciou também surto de meningite no País. Era 1974. À época trabalhava na recepção de um hospital em Santo André. “Vejo a situação, é triste. Me preocupo com tudo isso e fico chateada. Mas sei que vai passar”, frisa.

Assim como Rita, Hilda de Barros Gripa, 79, também de Santo André – no Jardim Oriental –, precisou deixar de lado várias de suas atividades. Na academia estava indo cinco vezes por semana. Após uma caminhada de meia hora, encarava aula de musculação e outra de pilates. Os passeios pelo Centro de Santo André para comprar material para costura, sua profissão, também ficaram de lado, pelo menos por enquanto.

No início, Hilda estranhou um pouco o fato de ter de ficar dentro de casa. “Mas devagar fui entendendo que é para o nosso bem”, diz. Hilda tem sentido falta do convívio da família, de receber os netos em casa aos domingos. Outra coisa que lhe entristece é por não poder ir à igreja. Acompanha sempre as missas e faz parte do coral.

Para passar o tempo, começou a fazer máscaras (para se proteger na pandemia). “Fiz uma para mim. Minha filha Rita postou no Facebook. Tenho feito e preenche meus dias”, comenta. Quem tem encomendado paga o valor que quiser. Geralmente entre R$ 2 e R$ 5 a unidade. Mas doa, caso seja necessário. Fazer palavras cruzadas, conversar com a filha e ver novelas também lhe ajudam a passar bem pelo isolamento físico. “Vou ao portão, de máscara e digo oi aos vizinhos.”

Vez ou outra Hilda sente medo do atual momento que o mundo atravessa. Mas passa por cima. “É algo novo, mas temos de superar esse medo. Tem de entender o que está acontecendo e se acalmar. Quando acabar tudo isso quero ir à igreja e agradecer”, projeta.

Assim como Hilda, Rita também espera dias melhores e já faz planos para quando puder retomar sua rotina pelas ruas. “Quando tudo passar, quero sair, comprar minhas revistas, passear no Centro de Santo André. E quero aprender fotografia. Não pude quando era mais jovem, então vou aprender agora. Quero que isso passe logo para o bem do povo. Se todo mundo se esforçar, vai dar certo.”

Infectada, enfermeira se isola por obrigação

Yasmin Assagra

Nem todo mundo está isolado por precaução. Enfermeira de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Ribeirão Pires, Iracy Rodrigues (nome fictício a pedido da entrevistada), 60 anos, foi contaminada pela Covid-19 e agora tenta arrumar maneiras de passar o tempo sem sair do quarto.

Ela trabalhava na linha de frente contra o novo coronavírus desde março, mas os sintomas só apareceram no dia 7 de abril. “Meu marido trabalha como bombeiro e chegou em casa com febre e se sentindo muito mal. Desde então os sintomas logo apareceram para mim”, relatou.

Iracy comenta que chegou a ir ao hospital duas vezes por não se sentir bem e, se precisasse ir pela terceira vez, teria de ser internada. “Depois disso ficamos por 14 dias em isolamento. Meu marido ficou poucos dias se sentindo mal e depois ficou assintomático. Eu permaneço com a tosse e não consigo, ainda, sentir cheiro de nada”, lamentou a enfermeira. 

Logo no início da pandemia, Iracy destacou que tomou todos os cuidados quando chegava do trabalho dentro de casa e respeitou todas as precauções diante do distanciamento físico. “Chorei muito quando descobri que tinha testado positivo, pois sabia dos riscos que eu estava enfrentando. Lembro de que, quando chegava da UPA, deixava a roupa inteira na lavanderia e lavava separada das outras peças. Mesmo assim, aconteceu. Todo cuidado é pouco”, observou. 

“O meu medo era se eu tinha passado para o meu filho e meu neto. É um misto de angústia e insegurança, todo tempo. Alguns dias chorei bastante e ainda choro. Mas confio muito em Deus e isso me conforta”, comentou Iracy. 

Agora, a enfermeira retoma, aos poucos, as atividades que fazia diariamente e, principalmente, agradece por ter enfrentado fase ruim. “O que eu vou levar de experiência para minha vida é o cuidado com a família, meu bem maior. E o que me motiva é saber que vou encerrar essa etapa para ver meus familiares”, finalizou. 

Estresse e medo do vírus podem baixar imunidade dos mais velhos

Além dos cuidados fundamentais com os idosos – pessoas acima dos 60 anos estão no grupo de risco por causa do novo coronavírus –, o estresse, a angústia e o medo podem ser fatores que baixam a imunidade dessas pessoas. Isso porque pode afetar diretamente o lado psicológico. 

A geriatra do residencial Club Leger, casa de acolhimento de idosos, Simone Henriques destacou que qualquer atividade fora da rotina pode amenizar a ansiedade e o suporte psicológico é fundamental durante a quarentena. “Algumas destas pessoas estão extremamente assustadas, muitas, inclusive, assistem demais os noticiários o que pode colaborar nessa angústia”, comentou. 

Simone avaliou que as atividades devem ser feitas tanto para os idosos que estão em lares ou institutos, quanto para as pessoas que estejam em casa. “Muitos idosos acabam ficando isolados da própria família para não correr risco de contraírem a Covid-19. Então é necessário que filhos incentivem essas distrações, como ler livros, ouvir músicas diferentes, organizar guarda-roupas e rever fotos”, observou. 

Já para os idosos que são mais ativos, a especialista indica cozinhar, realizar cursos on-line e retomar, aos poucos, as atividades físicas dentro de casa. “Tudo em paralelo com alimentação saudável e reforçar com alimentos que melhorem a imunidade. Alimentos ricos em vitamina C, como maçã, couve e demais nutrientes que somem na refeição”, relatou. 

Ainda de acordo com a geriatra, muitos idosos acabam sendo mais confiantes do que outros. “Vejo que alguns passaram por guerras e até outras epidemias e acabam ficando mais confiantes e resistentes a essa quarentena. O importante é que permaneçam otimistas, o que é um fator muito positivo”, finalizou.  

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