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 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Ambulante Pira se transforma em celebridade em Santo André após doação viralizar


Dérek Bittencourt
Do Diário do Grande ABC

29/03/2020 | 23:30


Um afetuoso abraço em um até então desconhecido. Quebrando todos os protocolos de orientação da luta contra o novo coronavírus, mas de maneira genuína e carinhosa, foi exatamente desta maneira que Prescílio Nunes, 77 anos, chegou para a entrevista ao Diário, sexta-feira, em uma praça do Parque Capuava, próxima da pensão onde mora. Na semana passada, o ambulante de Santo André recebeu R$ 200 do empresário Thiago Iuga para deixar o semáforo no cruzamento das ruas Catequese e Figueiras para voltar para casa e se proteger da Covid-19, em situação que foi filmada e acabou viralizando nas redes sociais. O vendedor de bala seguiu o combinado nos dias seguintes. Porém, ao voltar às ruas para seus afazeres do dia a dia, uma surpresa: havia se tornado celebridade.

“Vou sair para vereador nas próximas eleições. E serei eleito sem precisar de papel (santinho)”, brincou Prescílio, mais conhecido como Pira. “As pessoas estão me reconhecendo na rua. Desci do ônibus e duas mulheres me perguntaram o que eu havia feito com os R$ 200. Hoje, eu estava fazendo palavra cruzada e um senhor que mora aqui na esquina me trouxe um recorte de jornal com minha foto e disse: ‘está bonitão, hein?’ Eu estava no anonimato e agora estou até saindo no jornal. Estou perdido (com este sucesso repentino). Mas sou muito agradecido.”

A simplicidade, o sorriso e, em certos momentos, a teimosia fazem parte do perfil do idoso, que tem filhos, netos e até bisnetos. “Igual a mim não existe, senhor. Sou diferente. É meu gênio”, bradou. “Gosto de ser assim, sozinho, independente, simples. Meus três filhos querem me ajudar, eu agradeço, mas gosto de fazer minhas próprias coisas, defender minha janta vendendo minhas balinhas”, declarou ele, acompanhado pelo filho Ubirajara, o Bira. “Ele sempre foi assim: trabalhou e correu atrás das coisas dele. É difícil tirar ele da rua, gosta da independência e de trabalhar. Tenho muito orgulho e sou igual a ele.”

Pira estudou até o terceiro ano do ensino fundamental. Ainda na juventude, começou a trabalhar. Fez de tudo. Já quebrou calçada e instalou ladrilho em Santo André, foi cordista (realizou pintura em prédios por 32 anos, até sofrer uma queda de 12 metros de altura) e colou papel em poste até começar a vender balas. “Estou ali (no cruzamento do bairro Jardim) há dois anos e meio ganhando meu dinheirinho. Não fortuna, R$ 40, R$ 50. Pago minha janta. No dia seguinte tomo café da manhã com meu filho. Todos os dias faço uma compra de R$ 15, R$ 20 de bala. Sempre bala nova, nada de bala de um dia para o outro. Acordo às 4 horas da manhã para preparar”, contou o metódico ambulante.

Empresário faz novas contribuições

No vídeo em que viralizou, Prescílio Nunes, o Pira, disse a Thiago Iuga que estava vendendo balas no semáforo por não ser aposentado. Ao Diário, o empresário assumiu o compromisso de aposentar o idoso. E na sexta-feira, foi além: enviou mais R$ 2.000 e se comprometeu a doar quatro cestas básicas ao ambulante.

“Guardo o compromisso de fazer a doação de mais quatro cestas básicas. E o corpo jurídico do Grupo Golden Sat vai cuidar da aposentadoria dele. Vamos dedicar toda energia para, dentro dos meios legais, ampará-lo e dar tranquilidade futura para ele, de coração”, disse Thiago Iuga.

Ao receber o dinheiro, Pira não escondeu a surpresa e a emoção. “Vou ficar mais um tempo sem ir lá, sem trabalhar. Atendendo à solicitação dele. Ele foi muito bom para mim. É uma amizade que ganhei”, disse o vendedor de balas que, por mais de uma vez, perguntou se iria rever Thiago para poder agradecer.

Pira explicou que durante os anos em que trabalhou como cordista, pagou o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Entretanto, como parou com os pagamentos após sofrer acidente – que lhe causou afundamento na face, prejudicou a visão e o afastou do ofício –, não conseguiu se aposentar. Agora, porém, tem essa possibilidade através do empresário. “Dá uma boa melhorada, não é?”, brincou o ambulante andreense.

Covid-19 aproxima um e afasta outro

A quarentena do novo coronavírus foi um dos motivos que aproximaram Precílio Nunes, o Pira, e Thiago Iuga. Afinal, foi a preocupação com o idoso, que integra o grupo de risco, que levou o empresário a ofertar os R$ 200 e sugerir que fosse para casa. E, curiosamente, os riscos da doença fez com que o ambulante se afastasse do irmão, Edson.

“Ele já falou para não ir lá nos próximos três meses. Está em quarentena. É o único irmão que sobrou dos cinco que tinha”, contou Pira, que recebeu máscaras e outros itens de uma das filhas, que é enfermeira. “Mas eu não pego”, brincou ele, que tomou a vacina de gripe na sexta-feira. “Não fico doente há 32 anos”, orgulha-se.

RECIPROCIDADE
Para quem acredita que a vida é feita de atos recíprocos, esta pode ser uma explicação para o momento vivido pelo ambulante. Durante dez anos, Pira realizou trabalho assistencial em uma casa de idosos em São Bernardo. “Uma vez por semana eu mandava uma carga de roupas, alimentos, remédios. Era voluntário”, recordou.

Recentemente, inclusive, Pira contou que – mesmo sem ter muito – ajudou uma pessoa conhecida que precisava de dinheiro. “Estendi a mão para ela. Me sinto bem fazendo isso. Ajudei de coração, mesmo sem ter condições. A minha bala ajudou. Dá um prazer fazer alguma coisa por alguém mesmo nessa situação”, concluiu. Gentileza gera gentileza.<TL> 



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Sou muito agradecido

Ambulante Pira se transforma em celebridade em Santo André após doação viralizar

Dérek Bittencourt
Do Diário do Grande ABC

29/03/2020 | 23:30


Um afetuoso abraço em um até então desconhecido. Quebrando todos os protocolos de orientação da luta contra o novo coronavírus, mas de maneira genuína e carinhosa, foi exatamente desta maneira que Prescílio Nunes, 77 anos, chegou para a entrevista ao Diário, sexta-feira, em uma praça do Parque Capuava, próxima da pensão onde mora. Na semana passada, o ambulante de Santo André recebeu R$ 200 do empresário Thiago Iuga para deixar o semáforo no cruzamento das ruas Catequese e Figueiras para voltar para casa e se proteger da Covid-19, em situação que foi filmada e acabou viralizando nas redes sociais. O vendedor de bala seguiu o combinado nos dias seguintes. Porém, ao voltar às ruas para seus afazeres do dia a dia, uma surpresa: havia se tornado celebridade.

“Vou sair para vereador nas próximas eleições. E serei eleito sem precisar de papel (santinho)”, brincou Prescílio, mais conhecido como Pira. “As pessoas estão me reconhecendo na rua. Desci do ônibus e duas mulheres me perguntaram o que eu havia feito com os R$ 200. Hoje, eu estava fazendo palavra cruzada e um senhor que mora aqui na esquina me trouxe um recorte de jornal com minha foto e disse: ‘está bonitão, hein?’ Eu estava no anonimato e agora estou até saindo no jornal. Estou perdido (com este sucesso repentino). Mas sou muito agradecido.”

A simplicidade, o sorriso e, em certos momentos, a teimosia fazem parte do perfil do idoso, que tem filhos, netos e até bisnetos. “Igual a mim não existe, senhor. Sou diferente. É meu gênio”, bradou. “Gosto de ser assim, sozinho, independente, simples. Meus três filhos querem me ajudar, eu agradeço, mas gosto de fazer minhas próprias coisas, defender minha janta vendendo minhas balinhas”, declarou ele, acompanhado pelo filho Ubirajara, o Bira. “Ele sempre foi assim: trabalhou e correu atrás das coisas dele. É difícil tirar ele da rua, gosta da independência e de trabalhar. Tenho muito orgulho e sou igual a ele.”

Pira estudou até o terceiro ano do ensino fundamental. Ainda na juventude, começou a trabalhar. Fez de tudo. Já quebrou calçada e instalou ladrilho em Santo André, foi cordista (realizou pintura em prédios por 32 anos, até sofrer uma queda de 12 metros de altura) e colou papel em poste até começar a vender balas. “Estou ali (no cruzamento do bairro Jardim) há dois anos e meio ganhando meu dinheirinho. Não fortuna, R$ 40, R$ 50. Pago minha janta. No dia seguinte tomo café da manhã com meu filho. Todos os dias faço uma compra de R$ 15, R$ 20 de bala. Sempre bala nova, nada de bala de um dia para o outro. Acordo às 4 horas da manhã para preparar”, contou o metódico ambulante.

Empresário faz novas contribuições

No vídeo em que viralizou, Prescílio Nunes, o Pira, disse a Thiago Iuga que estava vendendo balas no semáforo por não ser aposentado. Ao Diário, o empresário assumiu o compromisso de aposentar o idoso. E na sexta-feira, foi além: enviou mais R$ 2.000 e se comprometeu a doar quatro cestas básicas ao ambulante.

“Guardo o compromisso de fazer a doação de mais quatro cestas básicas. E o corpo jurídico do Grupo Golden Sat vai cuidar da aposentadoria dele. Vamos dedicar toda energia para, dentro dos meios legais, ampará-lo e dar tranquilidade futura para ele, de coração”, disse Thiago Iuga.

Ao receber o dinheiro, Pira não escondeu a surpresa e a emoção. “Vou ficar mais um tempo sem ir lá, sem trabalhar. Atendendo à solicitação dele. Ele foi muito bom para mim. É uma amizade que ganhei”, disse o vendedor de balas que, por mais de uma vez, perguntou se iria rever Thiago para poder agradecer.

Pira explicou que durante os anos em que trabalhou como cordista, pagou o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Entretanto, como parou com os pagamentos após sofrer acidente – que lhe causou afundamento na face, prejudicou a visão e o afastou do ofício –, não conseguiu se aposentar. Agora, porém, tem essa possibilidade através do empresário. “Dá uma boa melhorada, não é?”, brincou o ambulante andreense.

Covid-19 aproxima um e afasta outro

A quarentena do novo coronavírus foi um dos motivos que aproximaram Precílio Nunes, o Pira, e Thiago Iuga. Afinal, foi a preocupação com o idoso, que integra o grupo de risco, que levou o empresário a ofertar os R$ 200 e sugerir que fosse para casa. E, curiosamente, os riscos da doença fez com que o ambulante se afastasse do irmão, Edson.

“Ele já falou para não ir lá nos próximos três meses. Está em quarentena. É o único irmão que sobrou dos cinco que tinha”, contou Pira, que recebeu máscaras e outros itens de uma das filhas, que é enfermeira. “Mas eu não pego”, brincou ele, que tomou a vacina de gripe na sexta-feira. “Não fico doente há 32 anos”, orgulha-se.

RECIPROCIDADE
Para quem acredita que a vida é feita de atos recíprocos, esta pode ser uma explicação para o momento vivido pelo ambulante. Durante dez anos, Pira realizou trabalho assistencial em uma casa de idosos em São Bernardo. “Uma vez por semana eu mandava uma carga de roupas, alimentos, remédios. Era voluntário”, recordou.

Recentemente, inclusive, Pira contou que – mesmo sem ter muito – ajudou uma pessoa conhecida que precisava de dinheiro. “Estendi a mão para ela. Me sinto bem fazendo isso. Ajudei de coração, mesmo sem ter condições. A minha bala ajudou. Dá um prazer fazer alguma coisa por alguém mesmo nessa situação”, concluiu. Gentileza gera gentileza.<TL> 

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