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Econovírus


Jefferson José da Conceição

20/03/2020 | 00:04


O Brasil entrou 2020 com expectativa de recuperação, ainda que tímida, do nível de produção e emprego. As projeções do mercado apontavam para uma taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) entre 2,5% e 3%. Se atingida, esta taxa será superior às verificadas entre 2015 e 2019, quando o Brasil passou a viver grave crise econômica e política, e o PIB anual cresceu entre zero e 1,5%.

Em 2019, a taxa foi de 1,1%, bem inferior à de outros países emergentes como China e Índia, de cerca de 6% a 7%. Estas projeções refletem a aprovação da reforma previdenciária, que, na visão dos investidores, contribuirá para o equacionamento das finanças públicas e para expansão do investimento privado, em razão da queda dos juros e otimismo com as reformas.

Antes da crise do coronavirus, já não me incluía entre os ‘otimistas’, porque as âncoras que seguram a economia brasileira não podem ser subestimadas.

Os elementos já eram desfavoráveis ao crescimento: a – o gasto público é contido pela aprovação da emenda constitucional 95, que estabeleceu teto para os gastos públicos no patamar de 2016, bem como pela visão de Estado mínimo prevalente na atual gestão federal; b – o consumo agregado é limitado pelo baixo crescimento econômico e pela precarização do trabalho (baixo nível de renda e segurança no trabalho), fruto da reforma trabalhista de 2017; c – as exportações caem, mesmo com a desvalorização do real, em razão da desaceleração da economia internacional e dos conflitos comerciais entre Estados Unidos e China; d – o investimento privado não se eleva, em que pese a redução das taxas de juros, pois é muito grande a incerteza reinante na economia. A atual gestão federal pouco contribui para resgatar a confiança.

Alguns economistas apontam que a queda das taxas de juros é fator do sucesso da política econômica. A Selic caiu de 6,75% para 3,75%. No entanto, a Selic é a taxa básica de juros, cobrada nos títulos públicos.

A taxa paga pelas famílias e empresas, ao tomarem crédito, na forma de cheque especial, credito consignado, empréstimos pessoais etc, é superior a 300% ao ano! Os bancos incrementaram os spreads nos empréstimos a famílias e empresas.

A crise do coronavirus rebate na economia da seguinte maneira: 1 – redução da produção das cadeias produtivas globais. As peças e componentes, hoje feitas em várias partes do mundo, têm seu fluxo prejudicado pela redução da atividade em países como a China, a ‘fábrica do mundo’. Cerca de 50% a 60% das peças, componentes e maquinários necessários para se produzir manufaturados no Brasil vêm da China e da Ásia. Isto acontece em automobilística, eletroeletrônicos, têxtil, calçados etc; 2 – redução das viagens e do turismo internacional. A Associação Internacional de Transportes Aéreos prevê queda de receitas de US$ 60 bilhões em 2020, podendo chegar a US$ 113 bilhões, se houver maior disseminação do vírus; 3 – instabilidade dos fluxos financeiros internacionais, sendo que os países emergentes, como o Brasil, são os mais prejudicados. Os investimentos estrangeiros preferem se refugiar em títulos mais seguros (como os títulos norte-americanos). Países como o Brasil sofrem com a elevada saída de dinheiro internacional; o dólar dispara!; 4 – há, no mundo, redução da mobilidade das pessoas. Escolas e empresas interrompem suas atividades. Sempre que possível, adotam o home office.

O Brasil já possui mais de 11 milhões de desempregados. A crise agrava o desemprego e os problemas sociais. Os trabalhadores ‘flexíveis’ (por conta própria, MEIs, intermitentes, uberizados), que já contam com baixa proteção social, sofrerão com perda de renda.

No Grande ABC, a crise pode ser mais aguda. A indústria já vinha sofrendo forte queda desde 2015, com perda de 25% de valor adicionado entre 2015 e 2019.

É possível que o crescimento da indústria regional em 2020 situe-se entre zero e 1%. O quadro pode piorar, se comércio e serviços forem afetados também.

Qual é a saída para o Brasil? A equipe econômica responde que é aprofundar as reformas, apontando para a redução do Estado. Eu acredito em outra direção. É preciso que haja um papel mais ativo do Estado brasileiro no planejamento de ações, coordenação de expectativas e estímulos à economia.

A política monetária deveria incentivar o crédito mais barato. A política fiscal deveria prever e realizar gastos públicos expressivos em áreas como saúde, educação, meio ambiente e construção civil, pesquisa e Inovação.

Uma política anticíclica ajudaria a manter o nível de atividade e gerar forças para uma nova retomada mais na frente. Infelizmente, até o momento os indícios da ação governamental não apontam neste sentido.
 



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Econovírus

Jefferson José da Conceição

20/03/2020 | 00:04


O Brasil entrou 2020 com expectativa de recuperação, ainda que tímida, do nível de produção e emprego. As projeções do mercado apontavam para uma taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) entre 2,5% e 3%. Se atingida, esta taxa será superior às verificadas entre 2015 e 2019, quando o Brasil passou a viver grave crise econômica e política, e o PIB anual cresceu entre zero e 1,5%.

Em 2019, a taxa foi de 1,1%, bem inferior à de outros países emergentes como China e Índia, de cerca de 6% a 7%. Estas projeções refletem a aprovação da reforma previdenciária, que, na visão dos investidores, contribuirá para o equacionamento das finanças públicas e para expansão do investimento privado, em razão da queda dos juros e otimismo com as reformas.

Antes da crise do coronavirus, já não me incluía entre os ‘otimistas’, porque as âncoras que seguram a economia brasileira não podem ser subestimadas.

Os elementos já eram desfavoráveis ao crescimento: a – o gasto público é contido pela aprovação da emenda constitucional 95, que estabeleceu teto para os gastos públicos no patamar de 2016, bem como pela visão de Estado mínimo prevalente na atual gestão federal; b – o consumo agregado é limitado pelo baixo crescimento econômico e pela precarização do trabalho (baixo nível de renda e segurança no trabalho), fruto da reforma trabalhista de 2017; c – as exportações caem, mesmo com a desvalorização do real, em razão da desaceleração da economia internacional e dos conflitos comerciais entre Estados Unidos e China; d – o investimento privado não se eleva, em que pese a redução das taxas de juros, pois é muito grande a incerteza reinante na economia. A atual gestão federal pouco contribui para resgatar a confiança.

Alguns economistas apontam que a queda das taxas de juros é fator do sucesso da política econômica. A Selic caiu de 6,75% para 3,75%. No entanto, a Selic é a taxa básica de juros, cobrada nos títulos públicos.

A taxa paga pelas famílias e empresas, ao tomarem crédito, na forma de cheque especial, credito consignado, empréstimos pessoais etc, é superior a 300% ao ano! Os bancos incrementaram os spreads nos empréstimos a famílias e empresas.

A crise do coronavirus rebate na economia da seguinte maneira: 1 – redução da produção das cadeias produtivas globais. As peças e componentes, hoje feitas em várias partes do mundo, têm seu fluxo prejudicado pela redução da atividade em países como a China, a ‘fábrica do mundo’. Cerca de 50% a 60% das peças, componentes e maquinários necessários para se produzir manufaturados no Brasil vêm da China e da Ásia. Isto acontece em automobilística, eletroeletrônicos, têxtil, calçados etc; 2 – redução das viagens e do turismo internacional. A Associação Internacional de Transportes Aéreos prevê queda de receitas de US$ 60 bilhões em 2020, podendo chegar a US$ 113 bilhões, se houver maior disseminação do vírus; 3 – instabilidade dos fluxos financeiros internacionais, sendo que os países emergentes, como o Brasil, são os mais prejudicados. Os investimentos estrangeiros preferem se refugiar em títulos mais seguros (como os títulos norte-americanos). Países como o Brasil sofrem com a elevada saída de dinheiro internacional; o dólar dispara!; 4 – há, no mundo, redução da mobilidade das pessoas. Escolas e empresas interrompem suas atividades. Sempre que possível, adotam o home office.

O Brasil já possui mais de 11 milhões de desempregados. A crise agrava o desemprego e os problemas sociais. Os trabalhadores ‘flexíveis’ (por conta própria, MEIs, intermitentes, uberizados), que já contam com baixa proteção social, sofrerão com perda de renda.

No Grande ABC, a crise pode ser mais aguda. A indústria já vinha sofrendo forte queda desde 2015, com perda de 25% de valor adicionado entre 2015 e 2019.

É possível que o crescimento da indústria regional em 2020 situe-se entre zero e 1%. O quadro pode piorar, se comércio e serviços forem afetados também.

Qual é a saída para o Brasil? A equipe econômica responde que é aprofundar as reformas, apontando para a redução do Estado. Eu acredito em outra direção. É preciso que haja um papel mais ativo do Estado brasileiro no planejamento de ações, coordenação de expectativas e estímulos à economia.

A política monetária deveria incentivar o crédito mais barato. A política fiscal deveria prever e realizar gastos públicos expressivos em áreas como saúde, educação, meio ambiente e construção civil, pesquisa e Inovação.

Uma política anticíclica ajudaria a manter o nível de atividade e gerar forças para uma nova retomada mais na frente. Infelizmente, até o momento os indícios da ação governamental não apontam neste sentido.
 

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