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Aos poucos, mulheres ocupam mais espaço na segurança pública

 Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Minoria nas corporações, elas destacam o amor pela carreira e a satisfação
com a profissão; Sto. André e S.Bernardo contam com comandantes femininas


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

07/03/2020 | 23:04


As mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço e ocupando cargos que até poucas décadas eram exclusividade dos homens. Na área de segurança pública, ambiente predominantemente masculino, elas se destacam pelo amor à profissão, a dedicação e o chamado “olhar holístico”, aquela capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Apesar de reconhecerem que ainda existe muito campo de atuação para conquistar, não dão bola para discriminação e preconceito.

Na região, as GCMs (guardas-civis municipais) de Santo André e de São Bernardo são comandadas por mulheres: Vincenzina De Simone e Cláudia Atanásio, respectivamente. Santo André foi a primeira cidade do País a ter uma mulher no comando da corporação, Lilian Gouvêa, entre 1989 e 1991. Em São Caetano, o cargo também já foi ocupado por Vanessa Herrera Pacheco, que chegou ao posto em 2016.

Em Santo André, a GCM 1ª classe Valéria Passini, 40 anos, é a única a fazer parte da equipe do Romu (Rondas Ostensivas Municipais). Há quase 20 anos na corporação, é filha de militar e lembra que quando ingressou, eram poucas as mulheres atuando na segurança da cidade. “Claro que havia alguma resistência, mas isso foi sendo superado”, relata.

“De fato é um ambiente masculino, mas quem tiver essa vontade de fazer parte da guarda, será bem-vinda”, pontuou. “Existe aceitação da população e necessidade de um efetivo feminino. Especialmente em ocorrências com pessoas em situação de vulnerabilidade, a mulher tem mais trato”, completou.
Pós-graduada em direito penal, a guarda está se especializando em criminologia e é professora do método Giraldi (tiro defensivo na preservação da vida), instrutora de uso e manuseio de armas e almeja chegar ao comando da corporação.

A GCM 3ª classe Veneranda Lívani de Campos, 56, está na guarda de São Caetano desde 1999 e fez parte da primeira turma feminina da cidade. Apesar de afirmar que nunca sentiu dificuldade na profissão por ser mulher, lembrou a postura hostil de alguns colegas. “Fui a primeira a fazer parte da ronda motorizada. Amo o que faço e consegui me impor”, relatou. Em 2017, Lívani enfrentou câncer de mama. “Fiz como em toda ocorrência: levantei a cabeça e enfrentei com coragem”, concluiu. Mãe de dois meninos, a guarda esperou até os 35 anos para realizar seu sonho profissional. “Nas ruas, as mulheres nos procuram e têm mais segurança para pedir ajuda. A guarda feminina é necessária”, citou.

O sorriso fácil é a marca da GCM 1ª classe de Diadema Simone dos Santos, 42. há 20 anos na profissão. “A mulher tem essa sensibilidade natural, uma percepção. A equipe mista, com homens e mulheres, faz o trabalho ainda melhor”, opinou. Casada e mãe de dois filhos, Simone se declara realizada na profissão e na vida pessoal. “Amo o que faço. Agora que as crianças cresceram (os filhos têm 16 e 10 anos) penso em estudar, fazer direito ou jornalismo”, comentou. Com experiência em diferentes funções, a guarda já atuou em atendimento a mulheres vítimas de violência domestica e lembrou como era gratificante contribuir com a segurança de quem estava em situação de vulnerabilidade.

No comando do 2º grupamento do Corpo de Bombeiros de São Bernardo e Diadema está a capitã Kelly Fernanda e Silva, 37. Policial militar desde 2001, ingressou nos Bombeiros em 2008, já como tenente. “A mulher ainda é minoria, mas me sinto muito bem. Se existe preconceito e barreira, tenho vencido todos”, afirmou.  

Apenas 15,7% dos cargos são ocupados por mulheres

Apesar de ser 51% da população do Grande ABC, de acordo com dados da Fundação Seade ( Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos), as mulheres ocupam apenas 15,7% dos cargos em segurança pública da região. São 22% das guardas municipais (exceto Rio Grande da Serra, que não informou os dados); 9% da Polícia Civil, 13% da Polícia Militar e 7% do Corpo de Bombeiros. Em números absolutos, são cerca de 1.100 trabalhadoras em efetivo de 7.100 profissionais.

Consultora em segurança, Regina Jasinowodolinski, que foi secretária de Defesa Social em Diadema (2002 a 2008) e secretária nacional de Segurança Pública (2011 a 2016), relatou que apesar de ainda ocupar poucos cargos, a presença de mulheres nas forças de segurança tem aumentado ano a ano. “É crescente o número de coroneis, tenentes, e isso me deixa muito satisfeita, mas ainda temos menos oportunidade de ascenção”, apontou.

Para a especialista, mulheres estão aptas a qualquer cargo, e na Polícia Civil, por exemplo, não precisam estar exclusivamente nas DDMs (delegacias de defesa da mulher). “A visão holística feminina, nossa capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, contribui muito para as investigações”, afirmou.
Com vasta experiência de gestão na área, Regina pontuou que a profissional feminina, quando ocupa cargos de comando, atua como líder, colocando a mão na massa e atuando em conjunto com os subordinados.

Regina analisou que em concursos futuros já é tempo de avaliar a necessidade de manter a cota de 30% para candidatas femininas, como rege a legislação. “Acredito que já superamos essa fase. Claro que as condições econômicas têm limitado os concursos, mas para novos certames deveríamos aumentar a proporção de mulheres que poderão concorrer aos cargos.” 

Presença feminina provoca mudança nas corporações

A despeito da pequena proporção de mulheres nas forças de segurança, a presença feminina provoca mudanças nas corporações. Essa é a avaliação da socióloga e integrante da Rede Feminista de Saúde Carmem Ribeiro. “Ao longo do tempo houve a contribuição para atividades mais voltadas à prevenção”, aponta Carmem. “A presença feminina na segurança pública pode contribuir para a construção de uma nova visão sobre o papel das forças de segurança, mais voltada para a proteção da população”, conclui.

Gestora de carreira, Andrea Deis destaca que as mulheres têm sido melhor avaliadas nas negociações de conflitos e a capacidade de administrar várias tarefas ao mesmo tempo, porque desde cedo são treinadas para isso. “Ainda são vistas como muito emocionais, o que as distanciam de cargos de comando na segurança, que apresenta histórico machista. Porém, isto é uma vantagem competitiva”, argumenta.

Psicóloga e mestre pela Unifesp, Bia Sant’Anna cita que “pode existir pressão para que as mulheres que trabalham na segurança pública resolvam as questões de uma forma frequentemente associada à masculinidade, o que seria uma pena, visto que a visão feminina pode contribuir e muito para estes contextos.”

Pesquisadora de questões relativas à segurança e justiça com recorte de gênero, Clara Machado é autora de artigo científico que analisa os ideais de masculinidade da PM em relação a suas agentes. “Sempre que uma mulher ocupa um lugar que não foi pensado para ela existem mudanças”, pontua.
Clara também faz um contraponto. “Em alguns casos, a ótica da corporação também se sobrepõe à socialização feminina e, não raro, as atitudes dessas policiais também serão de mais agressividade.”


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Aos poucos, mulheres ocupam mais espaço na segurança pública

Minoria nas corporações, elas destacam o amor pela carreira e a satisfação
com a profissão; Sto. André e S.Bernardo contam com comandantes femininas

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

07/03/2020 | 23:04


As mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço e ocupando cargos que até poucas décadas eram exclusividade dos homens. Na área de segurança pública, ambiente predominantemente masculino, elas se destacam pelo amor à profissão, a dedicação e o chamado “olhar holístico”, aquela capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Apesar de reconhecerem que ainda existe muito campo de atuação para conquistar, não dão bola para discriminação e preconceito.

Na região, as GCMs (guardas-civis municipais) de Santo André e de São Bernardo são comandadas por mulheres: Vincenzina De Simone e Cláudia Atanásio, respectivamente. Santo André foi a primeira cidade do País a ter uma mulher no comando da corporação, Lilian Gouvêa, entre 1989 e 1991. Em São Caetano, o cargo também já foi ocupado por Vanessa Herrera Pacheco, que chegou ao posto em 2016.

Em Santo André, a GCM 1ª classe Valéria Passini, 40 anos, é a única a fazer parte da equipe do Romu (Rondas Ostensivas Municipais). Há quase 20 anos na corporação, é filha de militar e lembra que quando ingressou, eram poucas as mulheres atuando na segurança da cidade. “Claro que havia alguma resistência, mas isso foi sendo superado”, relata.

“De fato é um ambiente masculino, mas quem tiver essa vontade de fazer parte da guarda, será bem-vinda”, pontuou. “Existe aceitação da população e necessidade de um efetivo feminino. Especialmente em ocorrências com pessoas em situação de vulnerabilidade, a mulher tem mais trato”, completou.
Pós-graduada em direito penal, a guarda está se especializando em criminologia e é professora do método Giraldi (tiro defensivo na preservação da vida), instrutora de uso e manuseio de armas e almeja chegar ao comando da corporação.

A GCM 3ª classe Veneranda Lívani de Campos, 56, está na guarda de São Caetano desde 1999 e fez parte da primeira turma feminina da cidade. Apesar de afirmar que nunca sentiu dificuldade na profissão por ser mulher, lembrou a postura hostil de alguns colegas. “Fui a primeira a fazer parte da ronda motorizada. Amo o que faço e consegui me impor”, relatou. Em 2017, Lívani enfrentou câncer de mama. “Fiz como em toda ocorrência: levantei a cabeça e enfrentei com coragem”, concluiu. Mãe de dois meninos, a guarda esperou até os 35 anos para realizar seu sonho profissional. “Nas ruas, as mulheres nos procuram e têm mais segurança para pedir ajuda. A guarda feminina é necessária”, citou.

O sorriso fácil é a marca da GCM 1ª classe de Diadema Simone dos Santos, 42. há 20 anos na profissão. “A mulher tem essa sensibilidade natural, uma percepção. A equipe mista, com homens e mulheres, faz o trabalho ainda melhor”, opinou. Casada e mãe de dois filhos, Simone se declara realizada na profissão e na vida pessoal. “Amo o que faço. Agora que as crianças cresceram (os filhos têm 16 e 10 anos) penso em estudar, fazer direito ou jornalismo”, comentou. Com experiência em diferentes funções, a guarda já atuou em atendimento a mulheres vítimas de violência domestica e lembrou como era gratificante contribuir com a segurança de quem estava em situação de vulnerabilidade.

No comando do 2º grupamento do Corpo de Bombeiros de São Bernardo e Diadema está a capitã Kelly Fernanda e Silva, 37. Policial militar desde 2001, ingressou nos Bombeiros em 2008, já como tenente. “A mulher ainda é minoria, mas me sinto muito bem. Se existe preconceito e barreira, tenho vencido todos”, afirmou.  

Apenas 15,7% dos cargos são ocupados por mulheres

Apesar de ser 51% da população do Grande ABC, de acordo com dados da Fundação Seade ( Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos), as mulheres ocupam apenas 15,7% dos cargos em segurança pública da região. São 22% das guardas municipais (exceto Rio Grande da Serra, que não informou os dados); 9% da Polícia Civil, 13% da Polícia Militar e 7% do Corpo de Bombeiros. Em números absolutos, são cerca de 1.100 trabalhadoras em efetivo de 7.100 profissionais.

Consultora em segurança, Regina Jasinowodolinski, que foi secretária de Defesa Social em Diadema (2002 a 2008) e secretária nacional de Segurança Pública (2011 a 2016), relatou que apesar de ainda ocupar poucos cargos, a presença de mulheres nas forças de segurança tem aumentado ano a ano. “É crescente o número de coroneis, tenentes, e isso me deixa muito satisfeita, mas ainda temos menos oportunidade de ascenção”, apontou.

Para a especialista, mulheres estão aptas a qualquer cargo, e na Polícia Civil, por exemplo, não precisam estar exclusivamente nas DDMs (delegacias de defesa da mulher). “A visão holística feminina, nossa capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, contribui muito para as investigações”, afirmou.
Com vasta experiência de gestão na área, Regina pontuou que a profissional feminina, quando ocupa cargos de comando, atua como líder, colocando a mão na massa e atuando em conjunto com os subordinados.

Regina analisou que em concursos futuros já é tempo de avaliar a necessidade de manter a cota de 30% para candidatas femininas, como rege a legislação. “Acredito que já superamos essa fase. Claro que as condições econômicas têm limitado os concursos, mas para novos certames deveríamos aumentar a proporção de mulheres que poderão concorrer aos cargos.” 

Presença feminina provoca mudança nas corporações

A despeito da pequena proporção de mulheres nas forças de segurança, a presença feminina provoca mudanças nas corporações. Essa é a avaliação da socióloga e integrante da Rede Feminista de Saúde Carmem Ribeiro. “Ao longo do tempo houve a contribuição para atividades mais voltadas à prevenção”, aponta Carmem. “A presença feminina na segurança pública pode contribuir para a construção de uma nova visão sobre o papel das forças de segurança, mais voltada para a proteção da população”, conclui.

Gestora de carreira, Andrea Deis destaca que as mulheres têm sido melhor avaliadas nas negociações de conflitos e a capacidade de administrar várias tarefas ao mesmo tempo, porque desde cedo são treinadas para isso. “Ainda são vistas como muito emocionais, o que as distanciam de cargos de comando na segurança, que apresenta histórico machista. Porém, isto é uma vantagem competitiva”, argumenta.

Psicóloga e mestre pela Unifesp, Bia Sant’Anna cita que “pode existir pressão para que as mulheres que trabalham na segurança pública resolvam as questões de uma forma frequentemente associada à masculinidade, o que seria uma pena, visto que a visão feminina pode contribuir e muito para estes contextos.”

Pesquisadora de questões relativas à segurança e justiça com recorte de gênero, Clara Machado é autora de artigo científico que analisa os ideais de masculinidade da PM em relação a suas agentes. “Sempre que uma mulher ocupa um lugar que não foi pensado para ela existem mudanças”, pontua.
Clara também faz um contraponto. “Em alguns casos, a ótica da corporação também se sobrepõe à socialização feminina e, não raro, as atitudes dessas policiais também serão de mais agressividade.”

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