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A hora do terno marrom


Carlos Brickmann

05/01/2020 | 07:00


Diz a lenda que o navio de um grande comandante foi atacado por grande número de piratas. Antes do início da luta, pediu que lhe trouxessem calças vermelhas. Vestiu-as e logo aniquilou os piratas. Alguns dias depois, navios pesadamente armados o cercaram. Pediu as calças vermelhas e destruiu os inimigos. Um alto funcionário do governo perguntou-lhe por que as calças vermelhas. Simples: os marinheiros, disse o comandante, confiavam em suas ordens. Se fosse ferido, a calça vermelha ocultaria o sangue e os marinheiros não se assustariam. Mais algum tempo, surgiram frotas e frotas de piratas armados com o que havia de mais moderno. O comandante, tranquilo, pediu: “Tragam-me as calças marrons”.

O ataque norte-americano que matou Qassim Suleimani, o comandante militar mais importante do Irã, responsável pelas tropas iranianas e as subordinadas a elas espalhadas pela Síria, Iêmen, Gaza, Iraque e Líbano, é um sinal de que chegou a hora, para quem lida com economia, de usar calças marrons. Não que o Irã tenha condições de desafiar o poderio militar norte-americano, nem que possa revidar com um atentado de igual importância. Mas pode atrapalhar o fluxo mundial de petróleo, bloqueando o Estreito de Ormuz (o que tem condições de fazer afundando navios). A área por onde passam de 30% a 40% do tráfego marítimo de petróleo, tem dez quilômetros de largura. O prejuízo econômico é grande. Mas perde-se tempo e dinheiro, não vidas.

Guerra por procuração
O Irã – e essas ações eram controladas por Qassim Suleimani – já estava no ataque há tempos. Os houthis, iemenitas armados, financiados e controlados pelo Irã, bombardearam a maior refinaria do mundo, na Arábia Saudita. Os sauditas bombardearam os houthis, no Iêmen – sem atingir o Irã. Em maio último, quatro petroleiros ancorados foram atingidos por minas de contato. Em junho, os petroleiros Front Altair, norueguês, e Kokuka Courageous, japonês, foram alvejados, sem afundar, mas com grandes danos. Tudo indicava a responsabilidade do Irã, mas não houve represálias. Há dias, as milícias iraquianas de Abu Mahdi al-Muhandis, obediente a Suleimani, atacaram a embaixada norte-americana em Bagdá e foram repelidos após duros combates. Trump avisou que haveria represália. E houve.

O alvo do drone
O general Qassim Suleimani dirigia a Guarda Revolucionária Al Quds, tropa de elite iraniana, encarregada, entre outras coisas, de vigiar a fidelidade do Exército. Tinha verbas secretas, com as quais manteve a fidelidade de tropas estrangeiras a serviço do Irã. No Líbano, colocou o Hezbollah no jogo político, apoiado em tropas bem armadas. Trabalhava com xiitas, vertente do islamismo que é maioria no Irã e no Iraque, mas também com sunitas no Hamas e alawitas na Síria. Aliou-se aos turcos sunitas, inimigos dos alawitas sírios, mantendo-se bem com todos. Guerreou o Estado Islâmico, sunita, ao lado dos Estados Unidos. Por suas características, será difícil substituí-lo.

Matando o inimigo
Pelas leis da guerra, matar um inimigo é legítimo. Escolher um inimigo para matar equivale a assassínio – a menos que o inimigo escolhido tenha papel-chave na guerra. Quando os norte-americanos decifraram o código japonês na Segunda Guerra Mundial, consideraram legítimo matar Yamamoto, o almirante que comandou o ataque a Pearl Harbour (envolvendo o Japão na Segunda Guerra Mundial), por considerar que o Japão não tinha ninguém à altura para substituí-lo. Quando o presidente egípcio Nasser recrutou cientistas para desenvolver foguetes que aniquilassem Israel, os israelenses os consideraram alvos legítimos. No caso EUA-Irã, há dificuldade adicional: tecnicamente, os dois países não estão em guerra. Mas há uma questão de fato: quem condenaria e puniria o presidente norte-americano?

O preço do combustível
Bolsonaro disse que o ataque deve afetar o preço dos combustíveis. Tem razão: o bloqueio no fluxo causa problemas. E o Irã, embora vendedor clandestino (os grandes países não compram dele, temendo o embargo norte-americano), tem sua importância: se não fizer vendas clandestinas, será o petróleo disponível no mercado que irá abastecer seus clientes. Por quanto tempo? Depende: o bloqueio de Ormuz por navios afundados vai dar trabalho, exigir tempo – e, eventualmente, escolta armada para impedir que os iranianos atrapalhem a desobstrução. Quanto antes terminar a crise, mais cedo terminarão seus efeitos sobre a produção e o fluxo do petróleo.

A situação
Como ficarão as bolsas? Em princípio, devem cair. O petróleo, já no início do pregão de sexta-feira, tinha subido 4%. Para o Brasil, há ainda mais problemas, além da queda nas bolsas e na alta do petróleo. Qualquer crise é ruim para as exportações. E só para o Irã o Brasil exporta pouco menos de US$ 3 bilhões anuais. Não é muito, no total de exportações, mas é dinheiro.



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A hora do terno marrom

Carlos Brickmann

05/01/2020 | 07:00


Diz a lenda que o navio de um grande comandante foi atacado por grande número de piratas. Antes do início da luta, pediu que lhe trouxessem calças vermelhas. Vestiu-as e logo aniquilou os piratas. Alguns dias depois, navios pesadamente armados o cercaram. Pediu as calças vermelhas e destruiu os inimigos. Um alto funcionário do governo perguntou-lhe por que as calças vermelhas. Simples: os marinheiros, disse o comandante, confiavam em suas ordens. Se fosse ferido, a calça vermelha ocultaria o sangue e os marinheiros não se assustariam. Mais algum tempo, surgiram frotas e frotas de piratas armados com o que havia de mais moderno. O comandante, tranquilo, pediu: “Tragam-me as calças marrons”.

O ataque norte-americano que matou Qassim Suleimani, o comandante militar mais importante do Irã, responsável pelas tropas iranianas e as subordinadas a elas espalhadas pela Síria, Iêmen, Gaza, Iraque e Líbano, é um sinal de que chegou a hora, para quem lida com economia, de usar calças marrons. Não que o Irã tenha condições de desafiar o poderio militar norte-americano, nem que possa revidar com um atentado de igual importância. Mas pode atrapalhar o fluxo mundial de petróleo, bloqueando o Estreito de Ormuz (o que tem condições de fazer afundando navios). A área por onde passam de 30% a 40% do tráfego marítimo de petróleo, tem dez quilômetros de largura. O prejuízo econômico é grande. Mas perde-se tempo e dinheiro, não vidas.

Guerra por procuração
O Irã – e essas ações eram controladas por Qassim Suleimani – já estava no ataque há tempos. Os houthis, iemenitas armados, financiados e controlados pelo Irã, bombardearam a maior refinaria do mundo, na Arábia Saudita. Os sauditas bombardearam os houthis, no Iêmen – sem atingir o Irã. Em maio último, quatro petroleiros ancorados foram atingidos por minas de contato. Em junho, os petroleiros Front Altair, norueguês, e Kokuka Courageous, japonês, foram alvejados, sem afundar, mas com grandes danos. Tudo indicava a responsabilidade do Irã, mas não houve represálias. Há dias, as milícias iraquianas de Abu Mahdi al-Muhandis, obediente a Suleimani, atacaram a embaixada norte-americana em Bagdá e foram repelidos após duros combates. Trump avisou que haveria represália. E houve.

O alvo do drone
O general Qassim Suleimani dirigia a Guarda Revolucionária Al Quds, tropa de elite iraniana, encarregada, entre outras coisas, de vigiar a fidelidade do Exército. Tinha verbas secretas, com as quais manteve a fidelidade de tropas estrangeiras a serviço do Irã. No Líbano, colocou o Hezbollah no jogo político, apoiado em tropas bem armadas. Trabalhava com xiitas, vertente do islamismo que é maioria no Irã e no Iraque, mas também com sunitas no Hamas e alawitas na Síria. Aliou-se aos turcos sunitas, inimigos dos alawitas sírios, mantendo-se bem com todos. Guerreou o Estado Islâmico, sunita, ao lado dos Estados Unidos. Por suas características, será difícil substituí-lo.

Matando o inimigo
Pelas leis da guerra, matar um inimigo é legítimo. Escolher um inimigo para matar equivale a assassínio – a menos que o inimigo escolhido tenha papel-chave na guerra. Quando os norte-americanos decifraram o código japonês na Segunda Guerra Mundial, consideraram legítimo matar Yamamoto, o almirante que comandou o ataque a Pearl Harbour (envolvendo o Japão na Segunda Guerra Mundial), por considerar que o Japão não tinha ninguém à altura para substituí-lo. Quando o presidente egípcio Nasser recrutou cientistas para desenvolver foguetes que aniquilassem Israel, os israelenses os consideraram alvos legítimos. No caso EUA-Irã, há dificuldade adicional: tecnicamente, os dois países não estão em guerra. Mas há uma questão de fato: quem condenaria e puniria o presidente norte-americano?

O preço do combustível
Bolsonaro disse que o ataque deve afetar o preço dos combustíveis. Tem razão: o bloqueio no fluxo causa problemas. E o Irã, embora vendedor clandestino (os grandes países não compram dele, temendo o embargo norte-americano), tem sua importância: se não fizer vendas clandestinas, será o petróleo disponível no mercado que irá abastecer seus clientes. Por quanto tempo? Depende: o bloqueio de Ormuz por navios afundados vai dar trabalho, exigir tempo – e, eventualmente, escolta armada para impedir que os iranianos atrapalhem a desobstrução. Quanto antes terminar a crise, mais cedo terminarão seus efeitos sobre a produção e o fluxo do petróleo.

A situação
Como ficarão as bolsas? Em princípio, devem cair. O petróleo, já no início do pregão de sexta-feira, tinha subido 4%. Para o Brasil, há ainda mais problemas, além da queda nas bolsas e na alta do petróleo. Qualquer crise é ruim para as exportações. E só para o Irã o Brasil exporta pouco menos de US$ 3 bilhões anuais. Não é muito, no total de exportações, mas é dinheiro.

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