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Do boi para o porco em segundos


Rodolfo de Souza

26/12/2019 | 07:00


 Pedi no mercado um quilo de contra-filé. Espantado, ouvi do atendente a revelação que o simpático freguês sempre teme ouvir. O rapaz, sorriso na cara, gentilmente avisou-me do preço, gesto um tanto incomum, tendo em vista o costume de se pesar a carne, retirar da balança a etiqueta, colocá-la na embalagem e concluir com o clássico “mais alguma coisa?”.

Mas ali a situação era diferente. O atendente sentiu na carne a necessidade de me alertar quanto ao preço do produto. Talvez eu tenha mesmo cara de professor, razão pela qual o funcionário foi incisivo ao alertar-me que o quilinho daquele bife atraente custava a bagatela de cinquenta reais. Isso mesmo, meu caro, cinquenta paus por um quilo de carne bovina! O moço, diante do meu olhar estarrecido, certamente concluiu que acertara em avisar-me. Estava preocupado com o meu coração que, ao que tudo indica, não suportaria ler na etiqueta a cifra impressa pela máquina. 

Diacho! Disseram que o preço da carne havia subido, mas pensei que o salto fosse mais modesto, não estratosférico como conferia no açougue do mercado. Diante do abuso, então, perdi a vontade de comer bife, imagine. Parti logo para a bisteca de porco, solução ao meu alcance, e que haveria de satisfazer-me e à minha família também. Aliás, bastou que eu revelasse o motivo que me levou a mudar de ideia, e pronto, todos sentiram o mesmo desejo pela carne suína.

Confesso que fiquei humilhado com o ocorrido ali, mas o consolo foi perceber que outros clientes, assim como eu, correram para o porco, para o frango e para o peixe. Até as verduras estiveram em alta de consumo naquele dia memorável. O que dirá os ovos.

Os veganos de plantão por certo que aplaudiram a medida, seja ela qual for, que elevou barbaramente o preço da carne. Nada tenho contra eles, justamente porque imagino que um dia essa gente toda, que caminha sem rumo por esta Terra redondinha, passará a viver tão somente de plantas. Talvez seja mesmo a sua natureza, afinal. E, verdade seja dita, não foi a alta do preço que influenciou-me. Há tempos venho pensando a respeito, sobretudo quando observo toda aquela carne dependurada nos açougues. Apesar de termos sido criados amando o cheiro da iguaria bem temperada, frita, cozida ou assada, há qualquer coisa de estranho no fato de sermos carnívoros. Claro que, depois da mamadeira, veio o bifinho, que deu origem ao nosso gosto, e deu no que deu. Prefiro botar a culpa nos nossos ancestrais, que decidiram, por conta própria, o futuro do nosso paladar.

Estranho ou não se alimentar dela, mas a carne vermelha faz parte da nossa mesa há tempos, e sou obrigado a confessar a minha revolta com relação ao seu preço, haja vista que o rebanho bovino desta rica e empobrecida nação é o maior do mundo. Tão ultrajante quanto cobrar o olho da cara pela gasolina um país riquíssimo em petróleo. Aliás, por falar em preço alto e em gasolina... Não. É bom parar por aqui.



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Do boi para o porco em segundos

Rodolfo de Souza

26/12/2019 | 07:00


 Pedi no mercado um quilo de contra-filé. Espantado, ouvi do atendente a revelação que o simpático freguês sempre teme ouvir. O rapaz, sorriso na cara, gentilmente avisou-me do preço, gesto um tanto incomum, tendo em vista o costume de se pesar a carne, retirar da balança a etiqueta, colocá-la na embalagem e concluir com o clássico “mais alguma coisa?”.

Mas ali a situação era diferente. O atendente sentiu na carne a necessidade de me alertar quanto ao preço do produto. Talvez eu tenha mesmo cara de professor, razão pela qual o funcionário foi incisivo ao alertar-me que o quilinho daquele bife atraente custava a bagatela de cinquenta reais. Isso mesmo, meu caro, cinquenta paus por um quilo de carne bovina! O moço, diante do meu olhar estarrecido, certamente concluiu que acertara em avisar-me. Estava preocupado com o meu coração que, ao que tudo indica, não suportaria ler na etiqueta a cifra impressa pela máquina. 

Diacho! Disseram que o preço da carne havia subido, mas pensei que o salto fosse mais modesto, não estratosférico como conferia no açougue do mercado. Diante do abuso, então, perdi a vontade de comer bife, imagine. Parti logo para a bisteca de porco, solução ao meu alcance, e que haveria de satisfazer-me e à minha família também. Aliás, bastou que eu revelasse o motivo que me levou a mudar de ideia, e pronto, todos sentiram o mesmo desejo pela carne suína.

Confesso que fiquei humilhado com o ocorrido ali, mas o consolo foi perceber que outros clientes, assim como eu, correram para o porco, para o frango e para o peixe. Até as verduras estiveram em alta de consumo naquele dia memorável. O que dirá os ovos.

Os veganos de plantão por certo que aplaudiram a medida, seja ela qual for, que elevou barbaramente o preço da carne. Nada tenho contra eles, justamente porque imagino que um dia essa gente toda, que caminha sem rumo por esta Terra redondinha, passará a viver tão somente de plantas. Talvez seja mesmo a sua natureza, afinal. E, verdade seja dita, não foi a alta do preço que influenciou-me. Há tempos venho pensando a respeito, sobretudo quando observo toda aquela carne dependurada nos açougues. Apesar de termos sido criados amando o cheiro da iguaria bem temperada, frita, cozida ou assada, há qualquer coisa de estranho no fato de sermos carnívoros. Claro que, depois da mamadeira, veio o bifinho, que deu origem ao nosso gosto, e deu no que deu. Prefiro botar a culpa nos nossos ancestrais, que decidiram, por conta própria, o futuro do nosso paladar.

Estranho ou não se alimentar dela, mas a carne vermelha faz parte da nossa mesa há tempos, e sou obrigado a confessar a minha revolta com relação ao seu preço, haja vista que o rebanho bovino desta rica e empobrecida nação é o maior do mundo. Tão ultrajante quanto cobrar o olho da cara pela gasolina um país riquíssimo em petróleo. Aliás, por falar em preço alto e em gasolina... Não. É bom parar por aqui.

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