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Jefferson da Conceição: ‘Resistência para manter a Ford tinha de ser maior’

Divulgação Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

25/11/2019 | 07:00


Atual coordenador do Conjuscs, o economista Jefferson José da Conceição já foi secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo na gestão do prefeito Luiz Marinho (PT) e é conhecedor da situação econômica da região. Ao Diário, ele fala sobre a transformação do emprego e da indústria automotiva no Grande ABC.

Na próxima semana, dia 4 de dezembro, ele lança o livro <CF50>Entre a Mão Invisível e o Leviatã: Contribuições Heterodoxas à Economia Brasileira</CF>, na Livraria Alpharrabio (Rua Dr. Eduardo Monteiro, 151, Jardim Bela Vista, Santo André). O conteúdo é relacionado a sugestões de caminhos rumo ao desenvolvimento.

Como o senhor classifica o atual momento pelo qual o Grande ABC passa, com fechamento de indústrias e redução no número de empregos deste setor? Estamos vivendo uma era de desindustrialização?

No mundo inteiro, a indústria perde participação relativa no PIB (Produto Interno Bruto). Em meados do século 20, entre as dez maiores marcas de empresas no mundo, estavam GM (General Motors), GE (General Electric), Standard Oil, IBM, Kodak e Texaco. Hoje, entre as dez maiores empresas estão a Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Facebook e JP Morgan. Não há nenhuma da indústria de transformação. Entretanto, o mais grave é que, especificamente, a indústria brasileira vive, nos últimos anos, um distanciamento do padrão de competitividade da indústria dos países avançados, uma desconexão com as cadeias globais de valor e uma crise sem precedentes. A participação do setor industrial brasileiro no PIB caiu de 21,8% em 1985 para aproximadamente 11% atualmente. Há quadro de estrangulamento do setor industrial brasileiro. A indústria do Grande ABC, centrada no parque automobilístico, metal-mecânico e químico e com layouts fabris estruturados na segunda metade do século 20, sofre agudamente a crise. No caso do Grande ABC, a tudo isso se junta a crise internacional vivida pela indústria automobilística e os nossos problemas de logística, derivados do adensamento urbano.

É comum ouvir a tese de que o Grande ABC pode se tornar uma Detroit, que perdeu as indústrias e viveu período de crise profunda na economia. Há esse risco?

Esse risco de a região tornar-se um brownfield, ou ‘área de ferrugem’, já estava colocado no início dos anos de 1990, quando a indústria se defrontou com a abertura econômica acelerada e não seletiva, os juros draconianos, o congelamento de câmbio e novo regime automotivo, que reduziu abruptamente as alíquotas de importação de autopeças, em muitos dos casos para cerca de 2%. Na década de 1990, um total de 83 mil postos de trabalho industriais foi eliminado, o que representou cerca de 50% do emprego na indústria da região. O Grande ABC, contudo, mostrou forte capacidade de reação, e, por meio de inéditas iniciativas de aproximação entre governos, representações empresariais, sindicatos de trabalhadores e universidades, conseguiu construir iniciativas que ajudaram a encontrar respostas e superar os efeitos mais duros daquele momento. O Fórum da Cidadania, a Câmara Regional e a constituição do Consórcio Intermunicipal e da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC são frutos desse rico processo de inovação institucional, que a literatura econômica chama de novas formas de governança e fortalecimento do capital social. Assim, com a retomada do crescimento, a indústria da região, entre 2002 e 2011, apresentou um saldo positivo de 72 mil empregos a mais. Mas, entre 2010 e 2019, a crise voltou a se abater no Grande ABC, de tal forma que o valor adicionado pela indústria da região sofreu redução de 50% no período. A crise atual é mais séria que a dos anos de 1990, porque é maior a desconexão da indústria brasileira das cadeias globais e porque o fortalecimento da indústria terá que passar por novas bases tecnológicas. Considero que hoje estamos novamente diante de um quadro grave, mas, agora, com novos desafios a serem enfrentados e novas soluções a serem encontradas. O Grande ABC está diante de bifurcação e precisa saber para que lado quer ir.

Outra crítica na região é a de não entender o timing de investir em polo tecnológico ou em posto de pensamento de inovação. Perdemos o bonde da história?

Os esforços e iniciativas da região no campo da pesquisa, desenvolvimento e inovação não foram desprezíveis nas últimas décadas. No interior das fábricas, empresários e sindicatos atuaram para modernizar o parque produtivo, por meio de negociações e acordos inéditos, como PLR (Participação nos Lucros e Resultados), banco de horas, trabalho em grupos semiautônomos etc. Fora das fábricas, tivemos a conquista da UFABC (Universidade Federal do ABC), fruto de longa luta regional. Mas, não resta dúvida, para projetar um Grande ABC próspero no século XXI, precisávamos e ainda precisamos ir muito mais além. Para mim, aproximação radical entre educação – representada pelas universidades, escolas técnicas, Sistema S e outros –, setor produtivo e governos locais é essencial. As representações empresariais têm que estar diariamente dentro das universidades, apoiando e orientando os problemas que querem que sejam resolvidos pelas turmas, grades disciplinares, pesquisas. As universidades e escolas devem estar diariamente dentro das empresas, por meio dos estágios efetivamente enriquecedores de ensino e aprendizagem e da presença, no interior das empresas, de pesquisadores de mestrado e doutorado, com seus trabalhos tratando de questões relacionadas à indústria local. Tudo isso apoiado e incrementado pelos governos. Entendo também que devemos sair do impasse da estruturação física de um parque tecnológico. Isso fica para o futuro. No momento, já seria enorme avanço a estruturação de parque tecnológico em rede, que envolvesse instituições de ensino e pesquisa, empresas e os sete municípios, e que aproveitasse as instalações físicas, como laboratórios, equipamentos e salas já existentes em universidades e empresas.

A Ford encerrou atividades em São Bernardo. A região perdeu uma de suas seis montadoras e, consequentemente, 2.800 empregos diretos. Caso as negociações com a Caoa não evoluam, o que a região terá de enfrentar?

A região, o Estado e o Brasil perderam mais do que 2.800 empregos. Entre diretos, indiretos e terceirizados, calculam-se em 4.300 trabalhadores. Isso significa impacto total anual negativo entre 15 mil e 30 mil empregos perdidos em toda a cadeia. Considerando-se a cadeia produtiva e os familiares que dependiam desta renda, é possível estimar em mais de 100 mil pessoas atingidas. O efeito multiplicador na economia potencializa ainda mais essa perda, pois significa menos demanda de produtos e serviços e menos arrecadação. A perda situa-se entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3,5 bilhões. Em dez anos, o impacto pode ser superior a R$ 35 bilhões. Suponho que entre 50% e 60% desses números referem-se ao Grande ABC. Contudo, a perda mais expressiva é a que ocorre no campo das inovações e tecnologias. A fábrica da Ford em São Bernardo lançou tendências no mercado automotivo, implementou melhorias tecnológicas em motores, representou espaço de carreira para inúmeros jovens qualificados. E também inovou nas relações de trabalho. Foi, por exemplo, a primeira a lançar o banco de horas e o regime de lay-off, e uma das primeiras a negociar a PLR. O fechamento da Ford traz preocupação nova, pois ela pode levar a decisões empresariais semelhantes em outras empresas. Por isso, era importante que a resistência por parte do Estado, municípios e entidades empresariais tivesse sido ainda maior do que foi. Espero que com a Caoa ou com outro grupo as negociações evoluam. E que os governos municipal e estadual considerem que a continuidade da atividade industrial naquela planta fabril é de suma importância ao desenvolvimento local, ainda que com reformulações e olhando para a frente.

O setor automotivo continuará sendo o maior da região em valor agregado?

As estatísticas de mensuração de geração de riqueza, como valor agregado, PIB, empregos etc, precisam sofrer atualizações, diante das inúmeras transformações no mundo da produção, do trabalho e do consumo. É difícil hoje saber a linha divisória entre a atividade industrial e a atividade de serviços para a indústria. O valor do projeto de um ferramental automotivo feito por um escritório terceirizado utilizando softwares avançados deve ser computado na indústria ou no serviço? Esta linha ficará ainda mais tênue com a chamada indústria 4.0, no qual a presença de serviços de TI (Tecnologia da Informação), manutenção, impressão 3D etc, crescerão acentuadamente. Pelas estatísticas atuais, a indústria de transformação representa entre 20% e 25% do total do PIB do Grande ABC. Portanto, serviços já são a parcela majoritária. Mas o peso do setor industrial é grande, e essa linha demarcatória entre um setor e outro não é tão clara. Entendo que a indústria – a automotiva sim, mas não apenas ela – deveria ser tomada como eixo de uma política ativa de desenvolvimento por parte dos atores e instituições locais. Evidentemente que estou falando de uma indústria do futuro, fortemente calcada em tecnologias de ponta, interação com as áreas de pesquisa, desenvolvimento e inovação na região, formação de profissionais qualificados, forte interação com a economia digital e com empresas do tipo startups. Neste sentido, a região tem que estruturar políticas de aproximação entre as empresas industriais e as de serviços. Deve também buscar atrair para a região serviços avançados como TI, design e simulações, isso em ambientes interativos como condomínios industriais e coworkings. 

Como o senhor enxerga o Grande ABC economicamente daqui a 30 anos?

Em vez de diagnóstico frio e distante, creio que o ideal é reforçar que nosso futuro pode ser construído a partir de hoje, isto é, a partir da nossa capacidade de fazer planejamento estratégico de longo, médio e curto prazos, e executá-lo e monitorá-lo, com os devidos ajustes a cada momento. Esse planejamento não pode ser fruto da cabeça de alguns tecnocratas, mas a várias mãos a partir de um esforço regional, com participação de associações empresariais, universidades, sindicatos de trabalhadores. Se assim for, teremos a chance de um Grande ABC economicamente moderno, atualizado tecnologicamente e competitivo, bem como de qualidade de vida para os seus moradores. 

RAIO X

Nome: Jefferson José da Conceição

Estado civil: Casado

Idade: 57 anos

Local de nascimento: Corumbá, Mato Grosso do Sul

Formação: Graduação em economia pela UFRJ; mestrado em administração pelo Imes; doutorado em sociologia pela USP

Hobby: corridas de rua 

Local predileto: Gosto de lugares que lembrem a história, como antiga estrada que liga o Grande ABC à Baixada Santista; Ouro Preto, em Minas; Roma, Paris e Berlim, no Exterior.

Livro que recomenda: Ele Está de Volta, de Timur Vermes (2012) e A Grande Transformação, de Karl Polanyi (1944).

Artista que marcou sua vida: Chico Buarque

Profissão: economista e professor universitário

Onde trabalha: Universidade Municipal de São Caetano



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Jefferson da Conceição: ‘Resistência para manter a Ford tinha de ser maior’

Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

25/11/2019 | 07:00


Atual coordenador do Conjuscs, o economista Jefferson José da Conceição já foi secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de São Bernardo na gestão do prefeito Luiz Marinho (PT) e é conhecedor da situação econômica da região. Ao Diário, ele fala sobre a transformação do emprego e da indústria automotiva no Grande ABC.

Na próxima semana, dia 4 de dezembro, ele lança o livro <CF50>Entre a Mão Invisível e o Leviatã: Contribuições Heterodoxas à Economia Brasileira</CF>, na Livraria Alpharrabio (Rua Dr. Eduardo Monteiro, 151, Jardim Bela Vista, Santo André). O conteúdo é relacionado a sugestões de caminhos rumo ao desenvolvimento.

Como o senhor classifica o atual momento pelo qual o Grande ABC passa, com fechamento de indústrias e redução no número de empregos deste setor? Estamos vivendo uma era de desindustrialização?

No mundo inteiro, a indústria perde participação relativa no PIB (Produto Interno Bruto). Em meados do século 20, entre as dez maiores marcas de empresas no mundo, estavam GM (General Motors), GE (General Electric), Standard Oil, IBM, Kodak e Texaco. Hoje, entre as dez maiores empresas estão a Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Facebook e JP Morgan. Não há nenhuma da indústria de transformação. Entretanto, o mais grave é que, especificamente, a indústria brasileira vive, nos últimos anos, um distanciamento do padrão de competitividade da indústria dos países avançados, uma desconexão com as cadeias globais de valor e uma crise sem precedentes. A participação do setor industrial brasileiro no PIB caiu de 21,8% em 1985 para aproximadamente 11% atualmente. Há quadro de estrangulamento do setor industrial brasileiro. A indústria do Grande ABC, centrada no parque automobilístico, metal-mecânico e químico e com layouts fabris estruturados na segunda metade do século 20, sofre agudamente a crise. No caso do Grande ABC, a tudo isso se junta a crise internacional vivida pela indústria automobilística e os nossos problemas de logística, derivados do adensamento urbano.

É comum ouvir a tese de que o Grande ABC pode se tornar uma Detroit, que perdeu as indústrias e viveu período de crise profunda na economia. Há esse risco?

Esse risco de a região tornar-se um brownfield, ou ‘área de ferrugem’, já estava colocado no início dos anos de 1990, quando a indústria se defrontou com a abertura econômica acelerada e não seletiva, os juros draconianos, o congelamento de câmbio e novo regime automotivo, que reduziu abruptamente as alíquotas de importação de autopeças, em muitos dos casos para cerca de 2%. Na década de 1990, um total de 83 mil postos de trabalho industriais foi eliminado, o que representou cerca de 50% do emprego na indústria da região. O Grande ABC, contudo, mostrou forte capacidade de reação, e, por meio de inéditas iniciativas de aproximação entre governos, representações empresariais, sindicatos de trabalhadores e universidades, conseguiu construir iniciativas que ajudaram a encontrar respostas e superar os efeitos mais duros daquele momento. O Fórum da Cidadania, a Câmara Regional e a constituição do Consórcio Intermunicipal e da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC são frutos desse rico processo de inovação institucional, que a literatura econômica chama de novas formas de governança e fortalecimento do capital social. Assim, com a retomada do crescimento, a indústria da região, entre 2002 e 2011, apresentou um saldo positivo de 72 mil empregos a mais. Mas, entre 2010 e 2019, a crise voltou a se abater no Grande ABC, de tal forma que o valor adicionado pela indústria da região sofreu redução de 50% no período. A crise atual é mais séria que a dos anos de 1990, porque é maior a desconexão da indústria brasileira das cadeias globais e porque o fortalecimento da indústria terá que passar por novas bases tecnológicas. Considero que hoje estamos novamente diante de um quadro grave, mas, agora, com novos desafios a serem enfrentados e novas soluções a serem encontradas. O Grande ABC está diante de bifurcação e precisa saber para que lado quer ir.

Outra crítica na região é a de não entender o timing de investir em polo tecnológico ou em posto de pensamento de inovação. Perdemos o bonde da história?

Os esforços e iniciativas da região no campo da pesquisa, desenvolvimento e inovação não foram desprezíveis nas últimas décadas. No interior das fábricas, empresários e sindicatos atuaram para modernizar o parque produtivo, por meio de negociações e acordos inéditos, como PLR (Participação nos Lucros e Resultados), banco de horas, trabalho em grupos semiautônomos etc. Fora das fábricas, tivemos a conquista da UFABC (Universidade Federal do ABC), fruto de longa luta regional. Mas, não resta dúvida, para projetar um Grande ABC próspero no século XXI, precisávamos e ainda precisamos ir muito mais além. Para mim, aproximação radical entre educação – representada pelas universidades, escolas técnicas, Sistema S e outros –, setor produtivo e governos locais é essencial. As representações empresariais têm que estar diariamente dentro das universidades, apoiando e orientando os problemas que querem que sejam resolvidos pelas turmas, grades disciplinares, pesquisas. As universidades e escolas devem estar diariamente dentro das empresas, por meio dos estágios efetivamente enriquecedores de ensino e aprendizagem e da presença, no interior das empresas, de pesquisadores de mestrado e doutorado, com seus trabalhos tratando de questões relacionadas à indústria local. Tudo isso apoiado e incrementado pelos governos. Entendo também que devemos sair do impasse da estruturação física de um parque tecnológico. Isso fica para o futuro. No momento, já seria enorme avanço a estruturação de parque tecnológico em rede, que envolvesse instituições de ensino e pesquisa, empresas e os sete municípios, e que aproveitasse as instalações físicas, como laboratórios, equipamentos e salas já existentes em universidades e empresas.

A Ford encerrou atividades em São Bernardo. A região perdeu uma de suas seis montadoras e, consequentemente, 2.800 empregos diretos. Caso as negociações com a Caoa não evoluam, o que a região terá de enfrentar?

A região, o Estado e o Brasil perderam mais do que 2.800 empregos. Entre diretos, indiretos e terceirizados, calculam-se em 4.300 trabalhadores. Isso significa impacto total anual negativo entre 15 mil e 30 mil empregos perdidos em toda a cadeia. Considerando-se a cadeia produtiva e os familiares que dependiam desta renda, é possível estimar em mais de 100 mil pessoas atingidas. O efeito multiplicador na economia potencializa ainda mais essa perda, pois significa menos demanda de produtos e serviços e menos arrecadação. A perda situa-se entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3,5 bilhões. Em dez anos, o impacto pode ser superior a R$ 35 bilhões. Suponho que entre 50% e 60% desses números referem-se ao Grande ABC. Contudo, a perda mais expressiva é a que ocorre no campo das inovações e tecnologias. A fábrica da Ford em São Bernardo lançou tendências no mercado automotivo, implementou melhorias tecnológicas em motores, representou espaço de carreira para inúmeros jovens qualificados. E também inovou nas relações de trabalho. Foi, por exemplo, a primeira a lançar o banco de horas e o regime de lay-off, e uma das primeiras a negociar a PLR. O fechamento da Ford traz preocupação nova, pois ela pode levar a decisões empresariais semelhantes em outras empresas. Por isso, era importante que a resistência por parte do Estado, municípios e entidades empresariais tivesse sido ainda maior do que foi. Espero que com a Caoa ou com outro grupo as negociações evoluam. E que os governos municipal e estadual considerem que a continuidade da atividade industrial naquela planta fabril é de suma importância ao desenvolvimento local, ainda que com reformulações e olhando para a frente.

O setor automotivo continuará sendo o maior da região em valor agregado?

As estatísticas de mensuração de geração de riqueza, como valor agregado, PIB, empregos etc, precisam sofrer atualizações, diante das inúmeras transformações no mundo da produção, do trabalho e do consumo. É difícil hoje saber a linha divisória entre a atividade industrial e a atividade de serviços para a indústria. O valor do projeto de um ferramental automotivo feito por um escritório terceirizado utilizando softwares avançados deve ser computado na indústria ou no serviço? Esta linha ficará ainda mais tênue com a chamada indústria 4.0, no qual a presença de serviços de TI (Tecnologia da Informação), manutenção, impressão 3D etc, crescerão acentuadamente. Pelas estatísticas atuais, a indústria de transformação representa entre 20% e 25% do total do PIB do Grande ABC. Portanto, serviços já são a parcela majoritária. Mas o peso do setor industrial é grande, e essa linha demarcatória entre um setor e outro não é tão clara. Entendo que a indústria – a automotiva sim, mas não apenas ela – deveria ser tomada como eixo de uma política ativa de desenvolvimento por parte dos atores e instituições locais. Evidentemente que estou falando de uma indústria do futuro, fortemente calcada em tecnologias de ponta, interação com as áreas de pesquisa, desenvolvimento e inovação na região, formação de profissionais qualificados, forte interação com a economia digital e com empresas do tipo startups. Neste sentido, a região tem que estruturar políticas de aproximação entre as empresas industriais e as de serviços. Deve também buscar atrair para a região serviços avançados como TI, design e simulações, isso em ambientes interativos como condomínios industriais e coworkings. 

Como o senhor enxerga o Grande ABC economicamente daqui a 30 anos?

Em vez de diagnóstico frio e distante, creio que o ideal é reforçar que nosso futuro pode ser construído a partir de hoje, isto é, a partir da nossa capacidade de fazer planejamento estratégico de longo, médio e curto prazos, e executá-lo e monitorá-lo, com os devidos ajustes a cada momento. Esse planejamento não pode ser fruto da cabeça de alguns tecnocratas, mas a várias mãos a partir de um esforço regional, com participação de associações empresariais, universidades, sindicatos de trabalhadores. Se assim for, teremos a chance de um Grande ABC economicamente moderno, atualizado tecnologicamente e competitivo, bem como de qualidade de vida para os seus moradores. 

RAIO X

Nome: Jefferson José da Conceição

Estado civil: Casado

Idade: 57 anos

Local de nascimento: Corumbá, Mato Grosso do Sul

Formação: Graduação em economia pela UFRJ; mestrado em administração pelo Imes; doutorado em sociologia pela USP

Hobby: corridas de rua 

Local predileto: Gosto de lugares que lembrem a história, como antiga estrada que liga o Grande ABC à Baixada Santista; Ouro Preto, em Minas; Roma, Paris e Berlim, no Exterior.

Livro que recomenda: Ele Está de Volta, de Timur Vermes (2012) e A Grande Transformação, de Karl Polanyi (1944).

Artista que marcou sua vida: Chico Buarque

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