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Paulo Scott discute questão racial sem deixar trama de lado em 'Marrom e Amarelo'



20/11/2019 | 08:00


Paulo Scott acaba de voltar da China. O escritor gaúcho - que nos últimos anos passou a vida no litoral catarinense, mas agora fixou residência em São Paulo - participou de uma residência literária em Xangai. Isso pouco depois de lançar por aqui seu quinto romance, Marrom e Amarelo, pela editora Alfaguara.

Scott participa de alguns eventos no Rio e em São Paulo nos próximos dias.

Nesta quarta-feira, 20 - o feriado da Consciência Negra - ele fala na Mercearia São Pedro (Rua Rodésia, 34), em São Paulo, às 17h. Também nesta quarta começa no Rio a 3ª edição do LER - Salão Carioca do Livro (leia mais abaixo), do qual ele é um dos convidados. Na quinta, 21, ele lança o livro no Rio, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97), às 19h.

O livro é focado na trajetória de dois irmãos, Federico e Lourenço, de classe média e boa instrução, filhos de um homem negro. Mas o primeiro tem o tom de pele mais claro - objeto de reflexões ao longo do livro, motivado pelo relacionamento que ele empreende com o irmão e com a sociedade. O fato de ter virado ativista antirracismo - chamado, no início do romance, para compor uma comissão fictícia do governo federal para discutir o sistema de ações afirmativas nas universidades - não se dá por acaso.

Uma ação inconsequente da juventude da dupla volta para causar uma confusão nas suas vidas, e nessa nova situação velhas feridas são abertas e dissecadas pelo narrador em primeira pessoa. O pano de fundo é essencialmente Porto Alegre, e a discussão racial é feita evitando tom panfletário ou maniqueísta.

De acordo com o escritor, o livro não é estritamente autobiográfico (embora, reconheça, "o autor sempre está lá em algum lugar da narrativa"). "(Federico) ficou preso nas consequências de uma situação extrema na qual se envolveu ao acaso quando tinha 17 anos, uma situação em que, pelos seus próprios critérios, deveria ter agido e se posicionado como negro e não agiu", diz Scott ao jornal O Estado de S. Paulo, por e-mail, escrito com a mesma sintaxe criativa do seu texto fictício, num emaranhado elegante de frases recheadas de vírgulas. "Nunca me envolvi em situação semelhante."

O autor conta que realizou uma pesquisa extensa para formular o conflito, cheio de peculiaridades, da questão étnica no livro - "estudos, ensaios, livros e materiais jornalísticos produzidos ao longo das últimas quatro décadas tratando do lugar dos pardos na cultura racista brasileira".

Marrom e Amarelo nunca perde a trilha da narrativa, porém, e o livro é recheado de episódios memoráveis que colocam as questões de fundo em discussão sem deixar a trama de lado.

Na primeira reunião da comissão de que o protagonista participa - composta por advogados, ativistas, professores universitários - alguém menciona a autoestima dos estudantes de intercâmbio angolanos e moçambicanos, e como era diferente para eles, especialmente por saberem de onde vinham, da sua ancestralidade, a história de sua etnia. Para Scott, já não é possível recuperar a identidade das pessoas brasileiras atingidas pelo processo cruel da escravidão, ou a de seus descendentes.

"O que se pode é reelaborar espaços que promovam, catalisem, uma nova identidade para os negros brasileiros, um novo orgulho, ainda mais forte do que este manifestado, constatado, em nossos dias", reflete. "Boa educação é o que pode ser o elemento decisivo na busca por tal identidade, não a literatura por si. Penso, entretanto, que se as pessoas negras pudessem se enxergar com mais frequência no protagonismo de narrativas longas, ou curtas, de ficção publicadas pelas pequenas e pelas grandes editoras, longe dos velhos estereótipos - por meios dos quais os negros são contemplados ou como bandidos ou como subalternos -, seria algo relevante."

Em outro capítulo, um delegado de polícia fala sobre um conflito online que vai mover a narrativa. "É uma guerra de versões, de inversões, de subversões, de mentiras, guerra que está sendo travada nesse momento na internet", diz o personagem. Mas para o escritor, as dicotomias - parte tão fundamental da discussão na web - nunca são simples ou maniqueístas.

"Sempre busquei evitar o caminho do maniqueísmo, do bom-mocismo, na escrita dos meus livros", diz Scott. "Uma boa personagem precisa ser marcada por contradições relevantes, ter profundidade. No Marrom e Amarelo, a cadeia de causa e efeito que faz de todos nós vítimas e opressores na enorme corrente da opressão social brasileira é posta, mais do que pressuposta, de maneira a rejeitar conclusões simplificadoras."

Em outro momento do livro, um grupo discute o "partido do kaos", de Jorge Mautner - uma formulação filosófica sobre o Brasil. Na leitura de Scott, em um momento em que as liberdades criativas são ameaças no País, a literatura pode ter um papel de incorporar conflitos. "Não acho que a literatura possa fazer muito mais do que incorporar esse conflito, transfigurá-lo a seu tempo, conduzindo talvez a uma projeção singular, onde não se possa esconder o conjunto imenso de absurdos que sempre pautaram nossa sociedade, subjugadora, atrasada, desigual."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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Paulo Scott discute questão racial sem deixar trama de lado em 'Marrom e Amarelo'


20/11/2019 | 08:00


Paulo Scott acaba de voltar da China. O escritor gaúcho - que nos últimos anos passou a vida no litoral catarinense, mas agora fixou residência em São Paulo - participou de uma residência literária em Xangai. Isso pouco depois de lançar por aqui seu quinto romance, Marrom e Amarelo, pela editora Alfaguara.

Scott participa de alguns eventos no Rio e em São Paulo nos próximos dias.

Nesta quarta-feira, 20 - o feriado da Consciência Negra - ele fala na Mercearia São Pedro (Rua Rodésia, 34), em São Paulo, às 17h. Também nesta quarta começa no Rio a 3ª edição do LER - Salão Carioca do Livro (leia mais abaixo), do qual ele é um dos convidados. Na quinta, 21, ele lança o livro no Rio, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97), às 19h.

O livro é focado na trajetória de dois irmãos, Federico e Lourenço, de classe média e boa instrução, filhos de um homem negro. Mas o primeiro tem o tom de pele mais claro - objeto de reflexões ao longo do livro, motivado pelo relacionamento que ele empreende com o irmão e com a sociedade. O fato de ter virado ativista antirracismo - chamado, no início do romance, para compor uma comissão fictícia do governo federal para discutir o sistema de ações afirmativas nas universidades - não se dá por acaso.

Uma ação inconsequente da juventude da dupla volta para causar uma confusão nas suas vidas, e nessa nova situação velhas feridas são abertas e dissecadas pelo narrador em primeira pessoa. O pano de fundo é essencialmente Porto Alegre, e a discussão racial é feita evitando tom panfletário ou maniqueísta.

De acordo com o escritor, o livro não é estritamente autobiográfico (embora, reconheça, "o autor sempre está lá em algum lugar da narrativa"). "(Federico) ficou preso nas consequências de uma situação extrema na qual se envolveu ao acaso quando tinha 17 anos, uma situação em que, pelos seus próprios critérios, deveria ter agido e se posicionado como negro e não agiu", diz Scott ao jornal O Estado de S. Paulo, por e-mail, escrito com a mesma sintaxe criativa do seu texto fictício, num emaranhado elegante de frases recheadas de vírgulas. "Nunca me envolvi em situação semelhante."

O autor conta que realizou uma pesquisa extensa para formular o conflito, cheio de peculiaridades, da questão étnica no livro - "estudos, ensaios, livros e materiais jornalísticos produzidos ao longo das últimas quatro décadas tratando do lugar dos pardos na cultura racista brasileira".

Marrom e Amarelo nunca perde a trilha da narrativa, porém, e o livro é recheado de episódios memoráveis que colocam as questões de fundo em discussão sem deixar a trama de lado.

Na primeira reunião da comissão de que o protagonista participa - composta por advogados, ativistas, professores universitários - alguém menciona a autoestima dos estudantes de intercâmbio angolanos e moçambicanos, e como era diferente para eles, especialmente por saberem de onde vinham, da sua ancestralidade, a história de sua etnia. Para Scott, já não é possível recuperar a identidade das pessoas brasileiras atingidas pelo processo cruel da escravidão, ou a de seus descendentes.

"O que se pode é reelaborar espaços que promovam, catalisem, uma nova identidade para os negros brasileiros, um novo orgulho, ainda mais forte do que este manifestado, constatado, em nossos dias", reflete. "Boa educação é o que pode ser o elemento decisivo na busca por tal identidade, não a literatura por si. Penso, entretanto, que se as pessoas negras pudessem se enxergar com mais frequência no protagonismo de narrativas longas, ou curtas, de ficção publicadas pelas pequenas e pelas grandes editoras, longe dos velhos estereótipos - por meios dos quais os negros são contemplados ou como bandidos ou como subalternos -, seria algo relevante."

Em outro capítulo, um delegado de polícia fala sobre um conflito online que vai mover a narrativa. "É uma guerra de versões, de inversões, de subversões, de mentiras, guerra que está sendo travada nesse momento na internet", diz o personagem. Mas para o escritor, as dicotomias - parte tão fundamental da discussão na web - nunca são simples ou maniqueístas.

"Sempre busquei evitar o caminho do maniqueísmo, do bom-mocismo, na escrita dos meus livros", diz Scott. "Uma boa personagem precisa ser marcada por contradições relevantes, ter profundidade. No Marrom e Amarelo, a cadeia de causa e efeito que faz de todos nós vítimas e opressores na enorme corrente da opressão social brasileira é posta, mais do que pressuposta, de maneira a rejeitar conclusões simplificadoras."

Em outro momento do livro, um grupo discute o "partido do kaos", de Jorge Mautner - uma formulação filosófica sobre o Brasil. Na leitura de Scott, em um momento em que as liberdades criativas são ameaças no País, a literatura pode ter um papel de incorporar conflitos. "Não acho que a literatura possa fazer muito mais do que incorporar esse conflito, transfigurá-lo a seu tempo, conduzindo talvez a uma projeção singular, onde não se possa esconder o conjunto imenso de absurdos que sempre pautaram nossa sociedade, subjugadora, atrasada, desigual."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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