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Filme de Zaragoza mostra Sao Paulo de ponta-cabeça


Do Diário do Grande ABC

23/05/1999 | 15:00


A primeira imagem do filme Até Que a Vida nos Separe mostra Sao Paulo de ponta-cabeça. A câmera de Rodolfo Sanchez voa sobre a cidade para revelar as matrizes da relaçao do realizador, o publicitário José Zaragoza, com a realidade: sexo, poder e dinheiro. Nao é, afinal, atrás dessas três coisas que correm todos os seres humanos, como já disse o dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt. Mas esse vôo alucinante mostra que Zaragoza está atrás de uma quarta: transcendência.

O sexo, em seu primeiro longa-metragem, que estréia na sexta-feira, funciona como diagnose para revelar que os habitantes dessa cidade vivem uma contradiçao em movimento. Eles nao querem criar uma família, mas nao podem viver sem ela.

Os cinco amigos do filme de Zaragoza enfrentam o mesmo dilema. Correm atrás de sexo, poder e dinheiro, administram de maneira satisfatória suas necessidades materiais, mas falta algo que transforme essa orgia em valor permanente, resistente ao cinismo e à brutalidade do mundo moderno. O título do filme traduz, assim, a crença na redençao dessa sociedade hedonista por intermédio da consciência do outro, de um laço de amizade que substitua a frágil corda familiar, pronta a se romper ao menor movimento. Nao é a morte que separa as pessoas, mas o estilo de vida. Nossos protoparentes foram expulsos do paraíso justamente quando descobriram que vida em família exige o exorcismo do demônio que corrompe a todos. Freud, muito sabiamente, apontou para a caverna interior onde morava o anjo caído. A consciência esconde o que a natureza insiste em mostrar.

Zaragoza, um cineasta sensual que também pinta (outro traço de sensualidade), filtra questoes metafísicas pelo corpo. Segundo Zaragoza, o filme pretende mostrar que "a amizade é a única recompensa para aqueles que vivem numa cidade impessoal e violenta como Sao Paulo". Entre esses cinco amigos a relaçao é quase incestuosa, segundo a interpretaçao quase calvinista da licenciosa Lulu. É ela que, no limite da paciência, acusa seus quatro amigos de uso e abuso sexual do semelhante, após descobrir que o sexto personagem do roteiro, Tônio (Murilo Benício), aproximou-se dela por causa de uma promoçao profissional.

Como em "Teorema", de Pasolini, que também tinha cinco personagens familiares do capitalismo moderno (a mae, o pai, o filho, a filha e a empregada), Zaragoza começa seu filme apresentando os personagens da comédia humana: Joao (Alexandre Borges), alto funcionário da Bolsa de Valores, Maria (Júlia Lemmertz), executiva de uma multinacional, Pedro (Norton Nascimento), promotor numa editora, Paulo (Marco Ricca), herdeiro de uma grande imobiliária e Lulu (Bety Goifman), uma produtora de moda. Todos nomes bíblicos, excetuando-se Lulu, também a diabólica personagem de Wedekind.

Nao é a beleza de um anjo caído pasoliniano que vai alucinar os integrantes dessa família alternativa, mas a vida numa cidade como Sao Paulo, o demoníaco território dos falsos valores, das injustiças, da violência, do vazio existencial. Num segundo momento, o cineasta desce com sua espada e começa a castigar seus personagens. O mal começa a corromper o que restou de íntegro na natureza dos cinco amigos. Joao, que rejeitou o padrastro alcoólatra e a mae pobre, recebe a visita dos dois num desses muitos dias de enchente em Sao Paulo. O encontro acaba em morte. Paulo tem seu relógio roubado e é agredido por um garoto de programa em seu apartamento. Lulu descobre que o porteiro de seu prédio está envolvido num crime. Pedro mergulha numa viagem de pó e sexo. Maria nao consegue sequer a atençao de seu gato de estimaçao. A vida continua em ritmo de tragédia.

Sao Paulo é cenário dessa parábola sobre o Sísifo moderno, condenado a redescobrir a vida em meio a esses escombros urbanos. Como publicitário, Zaragoza sabe que a fragmentaçao nao foi apenas um fenômeno estético do cubismo, mas anunciou a nova configuraçao psicológica do homem moderno. Seu filme tem exatamente essa estrutura. Nao se fixa em nenhum personagem. É difuso. Zaragoza nao aceita o ceticismo e insiste na integraçao transcendental, na comunicaçao com o outro, veículo de redençao no labirinto urbano.

Nao será o conteúdo de Até Que a Vida nos Separe que vai escandalizar o público, mas sua forma. Zaragoza jura que nao quis provocar ninguém. Acha que sua estréia como diretor, aos 66 anos, é a prova maior de que seu fascínio pelo cinema é menos profundo que o carinho pela cidade escolhida por ele para viver.



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