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MP abre inquérito para apurar erros na nau Capitânia
Do Diário do Grande ABC
26/04/2000 | 17:27
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O procurador Joao Bosco Araújo Fontes Filho, do Ministério Público Federal na Bahia, abriu inquérito nesta quarta-feira para apurar de quem é a culpa pelos sucessivos erros cometidos na construçao da réplica da nau Capitânia de Pedro Alvares Cabral. Ela custou cerca de R$ 3,85 milhoes dos quais pelo menos R$ 2,5 milhoes oriundos do governo.

No município baiano de Valença, o engenheiro naval inglês Ralph Nicholson, que construiu uma réplica da caravela Niña, de Cristovao Colombo para as comemoraçoes dos 500 anos do Descobrimento da América, disse quarta que foram cometidos erros elementares na Capitânia.

A nau nao ficou pronta a tempo para participar das comemoraçoes dos 500 anos do Descobrimento do Brasil e apresentou vários problemas quando a equipe do Clube Naval do Rio de Janeiro, que a construiu, tentou fazê-la navegar. Na terça, a embarcaçao ficou à deriva na terceira tentativa de chegar a Santa Cruz Cabrália e precisou ser rebocada para a Base Naval de Aratu, na Baía de Todos os Santos.

Agora o presidente do Clube Naval, almirante da reserva Domingos Castelo Branco, o responsável técnico pela obra, comandante Cláudio da Mata e representantes da Base Naval de Aratu, onde ela foi construída, devem se explicar à Procuradoria, que tem 40 dias para concluir o inquérito.

Nicholson disse que os construtores da Capitânia desrespeitaram os princípios básicos da construçao de réplicas. "Eles usaram fibra de vidro na estrutura do casco e acrescentaram vários equipamentos modernos, descaracterizando completamente um projeto desse tipo", disse, lembrando que o problema da falta de lastro é imperdoável por ser previsível pela altura da embarcaçao. "Creio ser uma coisa superbásica e fácil calcular o peso necessário do lastro numa embarcaçao", observou.

Nicholson também nao acha plausível a justificativa de que os construtores da Capitânia tiveram dificuldades pela falta de plantas das embarcaçoes do século 16. Grande parte dessas informaçoes foram perdidas por causa do terremoto que arrasou Lisboa na no século 18. "Quando eu construi a Niña também nao tive acesso a plantas antigas, mas pesquisei muito para executar o projeto", disse.

A réplica da Nina, foi encomendada por um inglês dono de uma estaleiro nas Ilhas Virgens. "Ele queria usá-las nas comemoraçoes do Descobrimento da América e também arrendá-la para a produçao do filme 1492", contou Nicholson.

A Niña é um barco menor que a Capitânia. Tem 19 metros de comprimento por seis de largura contra os 28 metros por oito da réplica da nau de Cabral. Na época, início dos anos 90, a Niña custou US$ 400 mil. "Mas esse valor já se pagou quatro vezes", diz o inglês.

A caravela seguiu de Salvador para o Caribe usando seu sistema de velas que funcionou perfeitamente, sem necessidade da utilizaçao do pequeno motor de emergência de 130 cavalos instalado na embarcaçao.

Nicholson chegou a ser procurado pelo Clube Naval do Rio para construir a Capitânia, mas impôs que, pelo menos o casco fosse executado no seu estaleiro em Valença. "Tenho profissionais experientes aqui que fariam o casco sem problemas, se eles tivessem que realizar o trabalho na Base Naval de Aratu, cobrariam bem mais caro", contou.

Nicholson pediu US$ 2 milhoes (cerca de R$ 3,58 milhoes) para fazer a Capitânia, mas o Clube Naval achou muito caro na época e preferiu dar o projeto para o francês Henri Schlomoff. No fim de tudo a Capitânia acabou custando quase R$ 4 milhoes.

Nicholson disse que se fosse contratado para reparar a Capitânia faria algumas modificaçoes para torná-la mais parecida com uma réplica. "Pelo menos ela seria utilizável", ironizou. Mas almirante Castello Branco nao parece disposto a chamá-lo e disse que contrataria novamente o francês Schlomoff para a empreitada.




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