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Olha a coxinha, coxinha fresquinha!


Rodolfo de Souza

19/09/2019 | 07:00


A mulher vendia coxinha na cidade grande, quando teve sua cesta apreendida pela fiscalização, que alegou o restrito cumprimento da lei. A vendedora, ao que tudo indica, não tinha licença para o comércio da iguaria.

Muito justo, de acordo com o que determina o conjunto de regras criado para que tudo ande dentro dos conformes aqui ou em qualquer parte do mundo. Não fosse, claro, a miséria dessa gente sem emprego e sem perspectiva, que assiste à derrocada do seu imenso rincão, Pátria das mais injustas deste pequeno e redondo planeta azul.

Não que o fiscal devesse ignorar as normas do seu trabalho e fazer vistas grossas no caso específico da pessoa que comercializava coxinha. Isso não. Mas correu pela mente inquieta deste escritor, ao acompanhar o relato jornalístico, que bom-senso é mercadoria escassa na prateleira desta sociedade que sempre cobra bom comportamento das pessoas pobres, de quem já não tem mais nada. À nata, contudo, é dado escolher o caminho a seguir, seja ele lícito ou não. Sem aporrinhação de qualquer natureza que venha a arranhar a sua integridade e roubar-lhe o sono. Mesmo porque, não se tem notícia de vendedora de classe alta, em prantos pela rua, por ter perdido sua cesta de quitutes, confiscada, mesmo que de forma educada e elegante, pelos agentes municipais.

Mas não me entenda mal, parceiro. Não é intenção minha defender aqui, neste espaço de convivência amiga e sincera, o procedimento incorreto, imperdoável e inafiançável da mulher que vendia coxinha ilegal em área movimentada da metrópole. Mesmo porque, ela sabia que, para levar a cabo tal empreendimento, deveria antes ter se sujeitado à burocracia do município, que não a pouparia de gastar dinheiro com papelada, suportar filas, muita espera, algumas negativas, para quem sabe, um dia, deixar a repartição, carregando, feliz e exausta, o diabo da licença. Papel valioso que faria dela refém dos impostos que logo comeriam pelas beiradas seus ganhos, sem dó. Afinal, é preciso engordar a receita da cidade, que, apesar de mega, não dispensa uns trocados.

Cabe aqui, porém, uma reflexão acerca do grau de dificuldade para se conseguir a documentação necessária, mais a falta de iniciativa para se correr atrás, característica um tanto comum de pessoa humilde, desprovida de recursos quaisquer. Esta para quem talvez soe estranho perceber-se vítima de um sistema opressor, que privilegia uma minoria em detrimento da extensa maioria da população. É possível até que a vendedora nem se dê conta do tamanho do abismo que a separa da pessoa que mandou recolher sua cesta de coxinhas.

Mas ela não guarda rancor, só aceita. Assim como aqueles que, noutro dia, sofreram ataque, da mesma forma, impiedoso, e viram suas mercadorias desaparecerem dentro dos carros oficiais. Era tudo ilegal, motivo suficiente para que fosse recolhido pela Justiça severa, que esbanja competência se o assunto diz respeito a pessoas pobres. 

Só restou, pois, àquela gente o desalento e as lágrimas de quem não pode reclamar, afinal, é preciso seguir corretamente os preceitos da lei, que fora caprichosamente elaborada com vista a manter na linha o povo que sofre, e que não tem a quem recorrer. Nem mesmo a ela, paradoxo dos paradoxos, pensada e concebida exclusivamente para o seu bem-estar! 

Quanto privilégio!

Rodolfo de Souza, nasceu e mora em Santo André. 

É professor e autor do blog cafeecronicas.com



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Olha a coxinha, coxinha fresquinha!

Rodolfo de Souza

19/09/2019 | 07:00


A mulher vendia coxinha na cidade grande, quando teve sua cesta apreendida pela fiscalização, que alegou o restrito cumprimento da lei. A vendedora, ao que tudo indica, não tinha licença para o comércio da iguaria.

Muito justo, de acordo com o que determina o conjunto de regras criado para que tudo ande dentro dos conformes aqui ou em qualquer parte do mundo. Não fosse, claro, a miséria dessa gente sem emprego e sem perspectiva, que assiste à derrocada do seu imenso rincão, Pátria das mais injustas deste pequeno e redondo planeta azul.

Não que o fiscal devesse ignorar as normas do seu trabalho e fazer vistas grossas no caso específico da pessoa que comercializava coxinha. Isso não. Mas correu pela mente inquieta deste escritor, ao acompanhar o relato jornalístico, que bom-senso é mercadoria escassa na prateleira desta sociedade que sempre cobra bom comportamento das pessoas pobres, de quem já não tem mais nada. À nata, contudo, é dado escolher o caminho a seguir, seja ele lícito ou não. Sem aporrinhação de qualquer natureza que venha a arranhar a sua integridade e roubar-lhe o sono. Mesmo porque, não se tem notícia de vendedora de classe alta, em prantos pela rua, por ter perdido sua cesta de quitutes, confiscada, mesmo que de forma educada e elegante, pelos agentes municipais.

Mas não me entenda mal, parceiro. Não é intenção minha defender aqui, neste espaço de convivência amiga e sincera, o procedimento incorreto, imperdoável e inafiançável da mulher que vendia coxinha ilegal em área movimentada da metrópole. Mesmo porque, ela sabia que, para levar a cabo tal empreendimento, deveria antes ter se sujeitado à burocracia do município, que não a pouparia de gastar dinheiro com papelada, suportar filas, muita espera, algumas negativas, para quem sabe, um dia, deixar a repartição, carregando, feliz e exausta, o diabo da licença. Papel valioso que faria dela refém dos impostos que logo comeriam pelas beiradas seus ganhos, sem dó. Afinal, é preciso engordar a receita da cidade, que, apesar de mega, não dispensa uns trocados.

Cabe aqui, porém, uma reflexão acerca do grau de dificuldade para se conseguir a documentação necessária, mais a falta de iniciativa para se correr atrás, característica um tanto comum de pessoa humilde, desprovida de recursos quaisquer. Esta para quem talvez soe estranho perceber-se vítima de um sistema opressor, que privilegia uma minoria em detrimento da extensa maioria da população. É possível até que a vendedora nem se dê conta do tamanho do abismo que a separa da pessoa que mandou recolher sua cesta de coxinhas.

Mas ela não guarda rancor, só aceita. Assim como aqueles que, noutro dia, sofreram ataque, da mesma forma, impiedoso, e viram suas mercadorias desaparecerem dentro dos carros oficiais. Era tudo ilegal, motivo suficiente para que fosse recolhido pela Justiça severa, que esbanja competência se o assunto diz respeito a pessoas pobres. 

Só restou, pois, àquela gente o desalento e as lágrimas de quem não pode reclamar, afinal, é preciso seguir corretamente os preceitos da lei, que fora caprichosamente elaborada com vista a manter na linha o povo que sofre, e que não tem a quem recorrer. Nem mesmo a ela, paradoxo dos paradoxos, pensada e concebida exclusivamente para o seu bem-estar! 

Quanto privilégio!

Rodolfo de Souza, nasceu e mora em Santo André. 

É professor e autor do blog cafeecronicas.com

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