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O início de Joe Sacco, pai da HQ jornalística


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

25/04/2006 | 14:20


Realismo e arte seqüencial convivem no mesmo traço e a forma alternativa de reportar histórias em O Derrotista (Conrad,224 págs.,R$ 38),de Joe Sacco. Ao new journalism dos anos 60 e 70 de Truman Capote,Tom Wolfe e Gay Talese, em que a observação do repórter e a narrativa emprestada da literatura prevalece, ao jornalismo gonzo de Hunter S.Thompson nos anos 60 e 70, em que a pauta é o que menos importa na reportagem, soma-se o jornalismo gráfico de Sacco dos anos 80 e 90.Todos eles são jornalistas e escritores norte-americanos –exceção a Sacco,que nasceu em Malta e mudou-se para os Estados Unidos em 1980 –que adotaram a narrativa em primeira pessoa como forma de expressão e a literatura de não-ficção para fugir da padronização da mídia jornalística.O diferencial da obra de Sacco para os demais está nas imagens que ele produz desenhando suas reportagens em quadrinhos.

O Derrotista traz histórias dos anos 80 que são a gênese desse autor que fundou o jornalismo gráfico em 1993 ao publicar Palestina –Uma Nação Ocupada ,relato de sua experiência em Israel e a Faixa de Gaza usando técnicas de reportagem e um desenho inspirado na crueza underground de Robert Crumb.Sua particularidade, contudo,é fazer um retrato realista e detalhista de cenas observadas e pessoas entrevistadas.A obra tem um título depressivo,mas não se assuste com isso.“Derrotista ”sugere perdedor (loser ,o padrão american way of life ), aquele que não conquistou fama ou fortuna e se autopenitencia por isso.O autor não se preocupa com afortunados ou os grandes nomes.Relata sobre gente comum,as que mais sofrem com as guerras.

Há momentos sérios em O Derrotista –como a narrativa inspirada em relatos de sua mãe,sobrevivente de bombardeio alemão na Ilha de Malta, no Mediterrâneo –, há momentos cômicos,como a viagem de Sacco junto com uma banda de rock pela Europa, e há a cobertura da cobertura da mídia televisiva sobre a Guerra do Golfo.Há bastante humor em suas hachuras grotescas, linguagem coloquial e caricaturas da vida de um sujeito que entrou para a faculdade de Jornalismo o Estado do Oregon,em 1981, e especializou-se em relatos de guerra.Sua descoberta foi insistir em fazer jornalismo usando papel e lápis,desenhando numa fronteira entre reportagem e trabalho artístico.

O que faz do trabalho de Sacco um marco não é sua exclusividade.No século XIX, Angelo Agostini (1843-1910) desenhou reportagens em quadrinhos na imprensa brasileira e o jornal norte-americano The Police Gazette publicou reportagens desenhadas.No quesito narrativa realista e autobiográfica, Maus (1991), de Art Spiegelman, é um bom exemplo, assim como as obras do fundador do gênero graphic novel ,Will Eisner (1917-2005),como Um Contrato com Deus (1978),e seu tom narrador-observador.O espanhol Zestas (2002),de Joaquim Resano e Ernesto Murillo,relato-reportagem do ponto de vista da juventude basca reprimida pela ação antiterrorismo do governo espanhol é outro exemplo recente.

No Brasil,Fabiano Gorila,em 1999,publicou Fealdade ,histórias nas quais o drama humano (a morte de Getúlio Vargas,por exemplo)é pano de fundo do ponto de vista de personagens anônimos.

Sacco não reinventou o jornalismo, mas o levou aos quadrinhos.Sem mocinhos,heróis ou vilões,ou bichinhos cômicos e satíricos, legitimou esta linguagem com um estatuto de documentário sério.Palestina venceu o American Books Awards de 1996 e o prêmio brasileiro HQ Mix de Me-

lhor Graphic Novel Estrangeira,em 2000.Depois, publicou Área de Segurança Gorazde (2000)sobre sua visita em 1995 a uma das zonas de proteção criadas pela ONU para impedir que sérvios massacrassem vilarejos muçulmanos durante a guerra na Bósnia.Igualmente premiada, foi lançada no Brasil em 2001.O Derrotista seria um espelho imperfeito dessas obras. Ao mesmo tempo em que sugere onde o jornalista começou e onde o artista poderia chegar, tem fronteiras menos definidas que os demais.Sacco desenha como quem não vê o amanhã, angulações ousadas e diagramação que dita o ritmo da leitura.Um ensaio do que fundaria anos depois.


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