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Novas dificuldades impostas aos sindicatos

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Inovação tecnológica, mudança no perfil dos empregos e fim de contribuição forçam reinvenção


Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

01/09/2019 | 07:35


Em tempos de redes sociais, em que as informações estão disponíveis na tela de um smartphone, o perfil da sociedade e do trabalhador passa por mudanças. Essa alteração, somada à transformação do mercado de trabalho e às perdas no financiamento, viraram os principais desafios do sindicatos, que precisam se reinventar, em especial no Grande ABC, berço do movimento sindical dos 1980.

O professor convidado da USCS (Universidade de São Caetano) Aristogiton Moura elaborou estudo abordando principalmente a questão tecnológica na oitava edição da carta de conjuntura do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS). Citou entre os principais desafios do sindicalismo atual a representação do trabalhador individualmente. “Antigamente você representava uma massa coletiva. Hoje, os trabalhadores querem que a sua opinião individual seja ouvida.”

O especialista afirmou que até 2021, cerca de 5 milhões de empregos vão desaparecer e 2 milhões serão criados. “Essas novas vagas serão relacionadas à tecnologia, como a internet das coisas e robótica. Não será o trabalhador que sai da montadora ou do escritório. São diferentes dos locais onde o sindicato tem a sua perícia. Como representar essas pessoas que não reconhecem sindicato e atuam em plataformas, como IFood e Uber? Esse novo empregado atua em uma plataforma entre o empregador, que fatura, e quem consume. A necessidade desse trabalhador é diferente da o trabalhador de uma montadora.”

Os próprios líderes sindicais reconhecem os desafios. Uma das categorias mais representativas e importantes da região, os metalúrgicos também sentem a mudança do perfil do trabalhador de hoje, que já não é o mesmo do que participou das históricas assembleias. 

Para o secretário geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Aroaldo Oliveira da Silva há mudança na forma de comunicação. “Eles não têm aquela ligação histórica com as grandes lutas das décadas de 1970 e 1980. Ao contrário dos pais, boa parte teve mais acesso aos estudos, inclusive a nível superior, o que acabou formatando outra cabeça. A gente vê um período muito forte na sociedade em geral, de individualismo e da pregação da meritocracia, e muitos acabam perdendo a solidariedade. Além disso, hoje a informação chega mais rápido, sem tempo de apurar se é fato ou não.”

Segundo ele, a entidade debate as novas formas de contrato e como incluir o trabalhador que não é CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). “Atualmente estão crescendo os PJs (Pessoas Jurídicas) dentro das fábricas e isso não é outra empresa, é um trabalhador individual que se torna uma empresa dele mesmo, tendo que executar o trabalho. Legalmente o sindicato não precisa representá-lo, mas tem o contrato mais frágil”, afirmou. “Estamos em um período de transformação do emprego e o sindicato tem que pensar em como dar conta dessa transformação e atender os anseios dessa nova classe trabalhadora, mas sabendo que esses novos tipos são trabalhos mais precários”, finalizou.

“Antes o trabalhador só sabia da proposta na assembleia. Hoje está na mesa a proposta e o trabalho já está sabendo pelo WhatsApp. Temos que redobrar o trabalho e os esforços para mobilizar, utilizando as redes sociais, mas também com caminhão de som. Você pode usar todas ferramentas, mas o caminhão de som é a grande referência de que o sindicato está na porta ta fábrica”, disse o presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, Raimundo Suzart Lima.

Além disso, há a questão da redução no número de trabalhadores da base. Dados levantados pelo Conjuscs com base na Rais (Relação Anual de Informações Sociais) do Ministério da Economia, mostram que, em 1989, a região mantinha 363,3 mil trabalhadores na indústria. Neste ano, a estimativa é a de que o setor possua 166,1 mil vagas de trabalho.

“Tem menos gente (nas assembleias) em virtude da quantidade de trabalhadores que perderam emprego. Só para ter uma noção, a GM (General Motors) tinha 12 mil trabalhadores há seis anos, hoje não chega a 9.000. Existe perda significativa”, disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, Aparecido Inácio da Silva, o Cidão.

No contexto dessa nova realidade dos sindicatos, o enfraquecimento financeiro das entidades é outro ponto alertado no estudo. A professora Maria da Consolação Vegi da Conceição critica a investida do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em acabar com a contribuição sindical compulsória. “O modelo calçado no tripé imposto sindical, unicidade sindical e monopólio sindical na negociação coletiva começou a ser desmantelado da pior forma possível: em um contexto de contraofensiva por parte dos segmentos conservadores e de busca de fragilização do movimento sindical. Sem a contribuição compulsória muitos sindicatos tendem a desaparecer.” Como alternativa, a docente sugere que os sindicatos criem condições atrativas para que os trabalhadores contribuam voluntariamente. Para tanto, só usufruiriam dos direitos negociados aqueles que optarem por pagar as mensalidades. “Alguns trabalhadores até contribuiriam com o sindicato, por entender a sua importância econômica, política e social, ou, até mesmo, por dever moral. Mas certamente haverá aqueles – e, infelizmente, estes tendem a ser maioria – que ‘pegarão carona’ nos acordos e benefícios, sem precisar contribuir”.

“Estamos acreditando que no Congresso a gente consiga discutir alguma mudança. Acredito que cada sindicato tem uma realidade, mas, nos últimos anos, perdemos cerca de 50% (em faturamento) para a manutenção do sindicato”, revelou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino Martinha, sem detalhar os números. (Colaborou Júnior Carvalho)



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Novas dificuldades impostas aos sindicatos

Inovação tecnológica, mudança no perfil dos empregos e fim de contribuição forçam reinvenção

Yara Ferraz
Do Diário do Grande ABC

01/09/2019 | 07:35


Em tempos de redes sociais, em que as informações estão disponíveis na tela de um smartphone, o perfil da sociedade e do trabalhador passa por mudanças. Essa alteração, somada à transformação do mercado de trabalho e às perdas no financiamento, viraram os principais desafios do sindicatos, que precisam se reinventar, em especial no Grande ABC, berço do movimento sindical dos 1980.

O professor convidado da USCS (Universidade de São Caetano) Aristogiton Moura elaborou estudo abordando principalmente a questão tecnológica na oitava edição da carta de conjuntura do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS). Citou entre os principais desafios do sindicalismo atual a representação do trabalhador individualmente. “Antigamente você representava uma massa coletiva. Hoje, os trabalhadores querem que a sua opinião individual seja ouvida.”

O especialista afirmou que até 2021, cerca de 5 milhões de empregos vão desaparecer e 2 milhões serão criados. “Essas novas vagas serão relacionadas à tecnologia, como a internet das coisas e robótica. Não será o trabalhador que sai da montadora ou do escritório. São diferentes dos locais onde o sindicato tem a sua perícia. Como representar essas pessoas que não reconhecem sindicato e atuam em plataformas, como IFood e Uber? Esse novo empregado atua em uma plataforma entre o empregador, que fatura, e quem consume. A necessidade desse trabalhador é diferente da o trabalhador de uma montadora.”

Os próprios líderes sindicais reconhecem os desafios. Uma das categorias mais representativas e importantes da região, os metalúrgicos também sentem a mudança do perfil do trabalhador de hoje, que já não é o mesmo do que participou das históricas assembleias. 

Para o secretário geral do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Aroaldo Oliveira da Silva há mudança na forma de comunicação. “Eles não têm aquela ligação histórica com as grandes lutas das décadas de 1970 e 1980. Ao contrário dos pais, boa parte teve mais acesso aos estudos, inclusive a nível superior, o que acabou formatando outra cabeça. A gente vê um período muito forte na sociedade em geral, de individualismo e da pregação da meritocracia, e muitos acabam perdendo a solidariedade. Além disso, hoje a informação chega mais rápido, sem tempo de apurar se é fato ou não.”

Segundo ele, a entidade debate as novas formas de contrato e como incluir o trabalhador que não é CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). “Atualmente estão crescendo os PJs (Pessoas Jurídicas) dentro das fábricas e isso não é outra empresa, é um trabalhador individual que se torna uma empresa dele mesmo, tendo que executar o trabalho. Legalmente o sindicato não precisa representá-lo, mas tem o contrato mais frágil”, afirmou. “Estamos em um período de transformação do emprego e o sindicato tem que pensar em como dar conta dessa transformação e atender os anseios dessa nova classe trabalhadora, mas sabendo que esses novos tipos são trabalhos mais precários”, finalizou.

“Antes o trabalhador só sabia da proposta na assembleia. Hoje está na mesa a proposta e o trabalho já está sabendo pelo WhatsApp. Temos que redobrar o trabalho e os esforços para mobilizar, utilizando as redes sociais, mas também com caminhão de som. Você pode usar todas ferramentas, mas o caminhão de som é a grande referência de que o sindicato está na porta ta fábrica”, disse o presidente do Sindicato dos Químicos do ABC, Raimundo Suzart Lima.

Além disso, há a questão da redução no número de trabalhadores da base. Dados levantados pelo Conjuscs com base na Rais (Relação Anual de Informações Sociais) do Ministério da Economia, mostram que, em 1989, a região mantinha 363,3 mil trabalhadores na indústria. Neste ano, a estimativa é a de que o setor possua 166,1 mil vagas de trabalho.

“Tem menos gente (nas assembleias) em virtude da quantidade de trabalhadores que perderam emprego. Só para ter uma noção, a GM (General Motors) tinha 12 mil trabalhadores há seis anos, hoje não chega a 9.000. Existe perda significativa”, disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano, Aparecido Inácio da Silva, o Cidão.

No contexto dessa nova realidade dos sindicatos, o enfraquecimento financeiro das entidades é outro ponto alertado no estudo. A professora Maria da Consolação Vegi da Conceição critica a investida do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) em acabar com a contribuição sindical compulsória. “O modelo calçado no tripé imposto sindical, unicidade sindical e monopólio sindical na negociação coletiva começou a ser desmantelado da pior forma possível: em um contexto de contraofensiva por parte dos segmentos conservadores e de busca de fragilização do movimento sindical. Sem a contribuição compulsória muitos sindicatos tendem a desaparecer.” Como alternativa, a docente sugere que os sindicatos criem condições atrativas para que os trabalhadores contribuam voluntariamente. Para tanto, só usufruiriam dos direitos negociados aqueles que optarem por pagar as mensalidades. “Alguns trabalhadores até contribuiriam com o sindicato, por entender a sua importância econômica, política e social, ou, até mesmo, por dever moral. Mas certamente haverá aqueles – e, infelizmente, estes tendem a ser maioria – que ‘pegarão carona’ nos acordos e benefícios, sem precisar contribuir”.

“Estamos acreditando que no Congresso a gente consiga discutir alguma mudança. Acredito que cada sindicato tem uma realidade, mas, nos últimos anos, perdemos cerca de 50% (em faturamento) para a manutenção do sindicato”, revelou o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá, Cícero Firmino Martinha, sem detalhar os números. (Colaborou Júnior Carvalho)

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