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'Bolsonaro tenta apagar a história'

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Vítimas da ditadura militar prestam depoimento em comissão instituída em Santo André


Fabio Martins
Do Diário do Grande ABC

25/08/2019 | 07:00


Contrariando documentos oficiais, o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), tem refutado a história de repressão da ditadura militar (1964-1985) e usado o expediente do cargo para tentar apagar abusos cometidos durante os anos de chumbo no País. Já foi sugerida por apoiadores até a releitura de livros didáticos. Instituída na Câmara de Santo André, comissão de resgate da memória das vítimas do regime iniciou processo de oitivas de perseguidos à época, tendo a proposta de registrar material físico que possa precaver a recontagem do período suscitado com o golpe de Estado.

O Diário ouviu histórias de personagens que irão integrar a peça em produção pelo grupo provisório, criada também como forma de avançar à comissão municipal da verdade, Bolsonaro questionou o bloco e chamou os documentos levantados de “balela”. O capitão reformado já colocou em xeque o assassinato do jornalista Vladimir Herzog e os desaparecimentos do ex-deputado Rubens Paiva e do ex-estudante Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Determinou, por decreto, esvaziamento técnico da comissão especial de mortos e desaparecidos políticos.

Ex-secretário de Educação de Diadema, Silvio Leite da Silva, 71 anos, afirmou que “há esforço de se negar a história e, mais do que isso, apresentar versão conveniente a ele”. Professor aposentado, ele, de família de militantes de esquerda, faz referência ao livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell – o clássico narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. “Eles se revoltaram contra os humanos e tomaram o poder. Só que quem assumia, os líderes, eram os porcos. Iam pregando que ‘quatro pernas sim, duas pernas não’. Chegou um tempo que entraram em acordo com os humanos. Foram mudando a história, apagando o que era (fato) e colocando de nova forma. Hoje é um pouco disso, tentativa de apagar memória, para tirar vantagem.”

Silvio contou que foi perseguido durante o regime militar, e registra em sua biografia dois irmãos – um deles, João Batista, militou no movimento AP (Ação Popular), ao lado de Betinho, irmão de Henfil, e José Nanci, ex-vereador andreense – detidos. “Tentaram me prender na época em que eu estava me formando em psicologia. Estava levando um currículo, o diretor (da Metodista) falou que a polícia estava atrás de mim, na década de 1970. Não havia alegação: se é parente, irmão, era alvo”, pontuou, citando que se asilou no Chile no período, mas que voltou ao Brasil com a ditadura de Augusto Pinochet.

Elias Stein, 80, sustentou que Bolsonaro age, de fato, para mudar a história. “Ele quer que tudo aquilo que aconteceu (na ditadura) fique escondido e desapareça.” Ex-metalúrgico, Elias lamenta a exaltação a torturadores, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, defende que Bolsonaro teria até que ser cassado devido a essa posição e rechaça a pecha de que apenas guerrilheiros eram perseguidos no período. “Nunca joguei bomba em lugar nenhum, não sei usar arma alguma. Não era terrorista, fui preso e torturado. Fiquei quatro meses no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), minha família não sabia sequer onde eu estava durante 20 dias. Terroristas eram eles, que prendiam gente que não tinha nada a ver com a situação, e torturava, matava, desaparecia com o corpo.”

Já Derly José de Carvalho, 79, integrante da primeira composição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, avaliou que o “Brasil está muito próximo de guerra civil”. Para ele, o presidente tensiona a polarização para reforçar movimento que possa ajudá-lo a ficar mais quatro anos no poder. “(Ele) É imprevisível, e o sistema financeiro e agronegócio comandam a situação. Mostra ser peça controlada por esses setores. Sua linguagem é daquilo que tem mais atrasado.”

Então militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Derly citou que viveu boa parte do período na clandestinidade para frustrar tentativas de sua prisão. Chegou a se abrigar na China, Albânia, Chile e Argentina. Por certo tempo, teve êxito na empreitada. Deu certo até 1969. Foi detido por 2 anos sob alegação que era comunista e ligado à luta armada. “Fui preso pela equipe do Sérgio Paranhos Fleury, a tortura foi violenta. Fiquei 90 dias sem levantar do chão no Dops. Me colocaram até no pau de arara, amarrado. Tinha um codinome Antônio. Fui torturado para entregar o Antônio. Na testa tenho marcas até hoje de coronhadas de fuzil”, disse, mostrando duas cicatrizes profundas no local.

Outro ex-trabalhador metalúrgico, Saulo Roberto Garlippe, 70, acredita que a ofensiva, com grupos militares na retaguarda, se dá em momento em que movimentos de direita miram afastar eventual sobrevida de partidos de esquerda. “Estão minando as instituições, aos poucos. Tirando as cabeças progressistas de todos os órgãos do Estado”, pontuou. Militante do PCdoB, ele foi perseguido em duas ocasiões. Na primeira, era estudante da FEI, em São Bernado. Foi declarada sua prisão preventiva em 1973. Em outro momento, foi perseguido por liderar greve. Documento da ABI (Agência Brasileira de inteligência) admite que policiais ficaram no encalço de Saulo para acompanhar cada passo dado. “Ficamos 20 dias na igreja do Bonfim.”



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'Bolsonaro tenta apagar a história'

Vítimas da ditadura militar prestam depoimento em comissão instituída em Santo André

Fabio Martins
Do Diário do Grande ABC

25/08/2019 | 07:00


Contrariando documentos oficiais, o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), tem refutado a história de repressão da ditadura militar (1964-1985) e usado o expediente do cargo para tentar apagar abusos cometidos durante os anos de chumbo no País. Já foi sugerida por apoiadores até a releitura de livros didáticos. Instituída na Câmara de Santo André, comissão de resgate da memória das vítimas do regime iniciou processo de oitivas de perseguidos à época, tendo a proposta de registrar material físico que possa precaver a recontagem do período suscitado com o golpe de Estado.

O Diário ouviu histórias de personagens que irão integrar a peça em produção pelo grupo provisório, criada também como forma de avançar à comissão municipal da verdade, Bolsonaro questionou o bloco e chamou os documentos levantados de “balela”. O capitão reformado já colocou em xeque o assassinato do jornalista Vladimir Herzog e os desaparecimentos do ex-deputado Rubens Paiva e do ex-estudante Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. Determinou, por decreto, esvaziamento técnico da comissão especial de mortos e desaparecidos políticos.

Ex-secretário de Educação de Diadema, Silvio Leite da Silva, 71 anos, afirmou que “há esforço de se negar a história e, mais do que isso, apresentar versão conveniente a ele”. Professor aposentado, ele, de família de militantes de esquerda, faz referência ao livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell – o clássico narra a insurreição dos animais de uma granja contra seus donos. “Eles se revoltaram contra os humanos e tomaram o poder. Só que quem assumia, os líderes, eram os porcos. Iam pregando que ‘quatro pernas sim, duas pernas não’. Chegou um tempo que entraram em acordo com os humanos. Foram mudando a história, apagando o que era (fato) e colocando de nova forma. Hoje é um pouco disso, tentativa de apagar memória, para tirar vantagem.”

Silvio contou que foi perseguido durante o regime militar, e registra em sua biografia dois irmãos – um deles, João Batista, militou no movimento AP (Ação Popular), ao lado de Betinho, irmão de Henfil, e José Nanci, ex-vereador andreense – detidos. “Tentaram me prender na época em que eu estava me formando em psicologia. Estava levando um currículo, o diretor (da Metodista) falou que a polícia estava atrás de mim, na década de 1970. Não havia alegação: se é parente, irmão, era alvo”, pontuou, citando que se asilou no Chile no período, mas que voltou ao Brasil com a ditadura de Augusto Pinochet.

Elias Stein, 80, sustentou que Bolsonaro age, de fato, para mudar a história. “Ele quer que tudo aquilo que aconteceu (na ditadura) fique escondido e desapareça.” Ex-metalúrgico, Elias lamenta a exaltação a torturadores, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, defende que Bolsonaro teria até que ser cassado devido a essa posição e rechaça a pecha de que apenas guerrilheiros eram perseguidos no período. “Nunca joguei bomba em lugar nenhum, não sei usar arma alguma. Não era terrorista, fui preso e torturado. Fiquei quatro meses no Dops (Departamento de Ordem Política e Social), minha família não sabia sequer onde eu estava durante 20 dias. Terroristas eram eles, que prendiam gente que não tinha nada a ver com a situação, e torturava, matava, desaparecia com o corpo.”

Já Derly José de Carvalho, 79, integrante da primeira composição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, avaliou que o “Brasil está muito próximo de guerra civil”. Para ele, o presidente tensiona a polarização para reforçar movimento que possa ajudá-lo a ficar mais quatro anos no poder. “(Ele) É imprevisível, e o sistema financeiro e agronegócio comandam a situação. Mostra ser peça controlada por esses setores. Sua linguagem é daquilo que tem mais atrasado.”

Então militante do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Derly citou que viveu boa parte do período na clandestinidade para frustrar tentativas de sua prisão. Chegou a se abrigar na China, Albânia, Chile e Argentina. Por certo tempo, teve êxito na empreitada. Deu certo até 1969. Foi detido por 2 anos sob alegação que era comunista e ligado à luta armada. “Fui preso pela equipe do Sérgio Paranhos Fleury, a tortura foi violenta. Fiquei 90 dias sem levantar do chão no Dops. Me colocaram até no pau de arara, amarrado. Tinha um codinome Antônio. Fui torturado para entregar o Antônio. Na testa tenho marcas até hoje de coronhadas de fuzil”, disse, mostrando duas cicatrizes profundas no local.

Outro ex-trabalhador metalúrgico, Saulo Roberto Garlippe, 70, acredita que a ofensiva, com grupos militares na retaguarda, se dá em momento em que movimentos de direita miram afastar eventual sobrevida de partidos de esquerda. “Estão minando as instituições, aos poucos. Tirando as cabeças progressistas de todos os órgãos do Estado”, pontuou. Militante do PCdoB, ele foi perseguido em duas ocasiões. Na primeira, era estudante da FEI, em São Bernado. Foi declarada sua prisão preventiva em 1973. Em outro momento, foi perseguido por liderar greve. Documento da ABI (Agência Brasileira de inteligência) admite que policiais ficaram no encalço de Saulo para acompanhar cada passo dado. “Ficamos 20 dias na igreja do Bonfim.”

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