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No topo da Europa


Heloísa Cestari
Enviada à Suíça

03/02/2011 | 07:00


Uma das histórias infantis mais famosas, escrita pela suíça Johanna Spyri em 1880, conta a vida da doce orfãzinha Heidi. Depois de perder os pais e passar uns tempos com um avô carrancudo que cuidava de cabras no topo dos Alpes, a menina é levada pela tia para morar na casa de Clara, uma garota loira, que não podia andar. As duas viraram melhores amigas, mas Heidi adoece de saudade dos Alpes. Fica tão mal que a tia não vê outra alternativa a não ser levá-la de volta ao topo da cadeia montanhosa, onde Heidi recupera a saúde e ainda realiza o milagre de ensinar Clara a andar. A história - sucesso de vendas em países como Portugal e Japão - é baseada em acontecimentos reais. E quem visita os picos suíços logo entende os motivos que levaram a menina a cair acamada. Quem não morreria de saudade dos Alpes depois de vislumbrar bucólicas paisagens que contornam os picos nevados, em meio a lagos e pastos a perder de vista?

Como diria o filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau, "a razão molda o homem, mas é o sentimento que o conduz". Por isso, esqueça o frio e o mito de que os preços são salgados no país - atualmente, até quem faz a conversão não se assusta tanto com o valor do franco, cotado a R$ 1,78 - e siga para o paraíso de Heidi.

Comece a viagem às alturas por Interlaken, cidade que mantém o autêntico charme suíço, entre o azul-turquesa dos lagos Brienz e Thun. É de lá que partem as excursões de turistas rumo aos imponentes picos Eigger, Mönch e Jungfrau, de 3.970, 4.099 e 4.158 metros de altura, respectivamente. Não só pelo slogan Top of Europe (na tradução, Topo da Europa) ou pelo título de Patrimônio Mundial concedido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) como também pela grande quantidade de opções de lazer. Devido à enorme altitude, a neve é farta por lá, mesmo em pleno verão.

O trem da centenária Jungfrau Railway sobe devagarzinho, quase parando, mas ninguém tem pressa de chegar. Pelo contrário: a vontade é de ficar parado, contemplando a beleza das cachoeiras que despencam de gigantescos paredões alternada com o bucólico panorama de casinhas tipicamente suíças erguidas ao pé da montanha. Algumas quedas d'água chegam a ter 400 metros de altura.

Um visual tão inesquecível que, quando se chega à primeira parada para baldeação, a vontade é de continuar estático, não só pelo êxtase da paisagem como pelo medo de encarar o frio lá fora... Mas acredite: os indicadores dos termômetros ainda vão despencar mais. Por isso, aproveite esse pit stop estratégico para munir-se de luvas, gorros, cachecóis e tudo mais que estiver faltando na bolsa.

Também não esqueça de levar água: ela ajudará a evitar as tonturas e dores de cabeça típicas dos locais de grande altitude. E você nem terá de colocá-la no freezer para mantê-la geladinha.

De volta ao trem, um novo cenário surge nas janelas dos vagões. A locomotiva penetra por um túnel, de sete quilômetros, com direito a duas paradas, de dez minutos cada, para que os passageiros possam fotografar os Alpes a partir de grandes mirantes encravados na rocha.

Vista do alto, a estação bem que se assemelha a um observatório, com sua cúpula arredondada e um sem-número de janelas de vidro. É lá o ponto final da viagem e o começo da diversão propriamente dita.

Inicie o passeio explorando os túneis do Palácio de Gelo, construído a 20 metros de profundidade, dentro da montanha. Como o próprio nome indica, tudo lá é gelo: o chão, as paredes, teto e, para decorar, claro, imagens esculpidas em grandes blocos de gelo. Não é preciso muito tempo ali para sentir-se uma delas. Até as baterias das máquinas fotográficas e filmadoras costumam congelar. Por isso, faça a visita durar apenas o tempo necessário para se locomover com segurança pelo piso escorregadio - e não faça pouco dos corrimãos.

Depois, tome um autêntico chocolate quente suíço, com direito a uma dose de destilado para ‘esquentar' os ossos - a delícia custa 6,50 euros (R$ 15) na cantina - e siga para outro desafio à circulação sanguínea: o mirante ao ar livre, que deixará seus dedos, cabelos e até a alma petrificados.

Pisar a neve fofa e abundante que garante ao Jungfrau a vantagem de se esquiar até nos meses mais quentes do ano, no entanto, vale cada um dos 184 francos pagos pelo passeio (R$ 327,50). Lembrando que quem visita o Corcovado, no Rio de Janeiro, tem desconto para subir o Jungfrau e vice-versa.

Não à toa, a estação recebe entre 4.000 e 6.000 visitantes por dia. Na sua maioria, asiáticos. E esse é apenas um dos mais de 200 complexos que atraem à Suíça milhares de turistas ávidos por calçar um par de esquis e deslizar montanha abaixo.

Se este não é o seu caso, destine o resto da tarde para conhecer a cidade de Interlaken propriamente dita. Carruagens puxadas por cavalos fazem o city tour pelos principais pontos do município, considerado um dos mais fiéis à imagem que fazemos da Suíça, com casinhas de telhado anguloso e canteiros floridos nas janelas. Tudo impecável, acolhedor e organizado, como um autêntico vilarejo suíço.

Mas não se deixe levar pelas aparências. Apesar do clima de interior, Interlaken é farta em danceterias e pubs badalados, lojas de grife - todas as principais marcas de relógios possuem filial lá, de Swatch a Rolex - e restaurantes sofisticados. Tem até um cassino, o Kursaal, construído em 1859, embora com fachada recatada e florida, bem diferente dos letreiros luminosos a que estamos acostumados.

Opções de esportes de aventura também não faltam nas agências locais. Mas se você prefere ganhar a perder calorias, prefira visitar o número 56 da Rua Höheweg. É lá que funciona a doceria Schuh, a mais antiga de Interlaken. Todos os dias, das 17h às 18h, o estabelecimento realiza o Chocolate Show, em que um chocolatier ensina aos visitantes os segredos do cacau (o boliviano é o melhor), as técnicas para preparar o doce, sua história e, claro, abre as portas de seus refrigeradores para o momento mais esperado: a degustação.

Foi entre uma forma de trufas e outra de pralinés que conheci o suíço Jean-Pierre Golay, um dos confeiteiros da Schuh, que anunciou: "Em junho, devo inaugurar uma fábrica de chocolates com ingredientes tipicamente brasileiros na cidade de Icaraí de Amontada, no Ceará. Fica a uns 100 quilômetros de Jericoacoara. Vai se chamar Padaria & Pastelaria Golay. Será que vai dar certo?". A resposta vem à cabeça enquanto saboreio um bombom de gianduia: "Se o sabor for o mesmo, meu caro Jean-Pierre, não há dúvidas, vai ser o maior sucesso!".



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