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“Vivi aqui os melhores anos da minha vida”

André Henriques/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Equipe do Diário acompanhou ex-morador em visita a imóvel incendiado em Paranapiacaba


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

12/08/2019 | 07:00


O que faria um homem de 70 anos chorar? Para cada pessoa essa pergunta pode ter uma resposta, mas para o engenheiro e consultor José Luiz Martinez, um dos motivos são as lembranças de sua juventude. Não as memórias em si, porque essas, em suas próprias palavras, são muito felizes. Mas a tristeza de ver o local onde elas foram vividas, a casa onde morou com a família até os 20 anos, totalmente destruída por um incêndio. “Dos meus 70 anos, os melhores, os 20 primeiros, vivi aqui. O primeiro amor, primeiro namoro, primeiro porre, os carnavais que eram incríveis, as festas juninas, as festas no Clube (União) Lyra (Serrano)”, relembrou. Martinez morou em uma das duas casas da Vila de Paranapiacaba, em Santo André, que foram destruídas por um incêndio na noite do dia 27 de julho.

O Diário acompanhou o engenheiro na visita ao que sobrou do imóvel. Visivelmente emocionado, Martinez, que atualmente mora na Lapa, em São Paulo, relembrou os anos vividos com os pais e os irmãos; os amigos da casa vizinha à sua; e o período de apreensão durante o golpe militar de 1964, quando o Exército manteve em seu portão um tanque de guerra, de onde era possível ver a linha férrea que segue até o porto de Santos. “A ferrovia era estratégica e a visão que tínhamos daqui era privilegiada”, relatou.

O pai do engenheiro, Juventino José Lopes Martinez, veio na década de 1930 da Galícia, na Espanha, para trabalhar na São Paulo Railway, primeira ferrovia do Estado de São Paulo. Instalado na vila inglesa, atuou como mestre de obras. “Ele fazia de tudo. Consertava as coisas da cidade, na linha férrea. Pelo meu entendimento hoje, depois dos engenheiros, (o principal funcionário) era ele”, contou Martinez. Cerca de um ano após ter chegado ao Brasil, Martinez pai mandou buscar a esposa, Cecília Martinez Domingues, e o filho mais velho, Nicanor Lopez Martinez, então com 1 ano. Foi na casa que hoje não existe mais que nasceram mais dois filhos: Maria Ventura Lopez Martinez Urbanavicius, e, em 1948, José Luiz Martinez.

Ao caminhar pelos escombros, o engenheiro apontou onde ficava a sala, a cozinha, os quartos. Recordou do gramado bem cuidado, onde muitas vezes jogou partidas de futebol. Dos jardins de hortênsias cultivados pela mãe. Do depósito onde o pai guardava a lenha para a lareira e o fogão. 

Os vizinhos também foram lembrados. Na casa ao lado, idêntica à da família Martinez, morava o casal Ari e Ana Ramos, com os filhos Levi e Guy. Com idades próximas, os três garotos cresceram amigos. “O senhor Ari teve a primeira televisão da vila. Os meninos batiam na parede do meu quarto e me chamavam para ver alguns jogos, alguns programas.” 

A educação foi feita na própria região: os primeiros anos do ciclo básico na vila, o antigo ginásio (atual segundo ciclo do fundamental) em Mauá, e o científico (atual ensino médio) na EE Dr. Américo Brasiliense, no Centro de Santo André. “Quando passamos a estudar fora da vila, era uma correria. Saíamos cedo para pegar o trem e minha mãe ficava daqui de cima acompanhando a gente chegar até a estação. De lá, a gente acenava e ela ficava tranquila”, contou Martinez.

A família deixou o imóvel em 1968, após a morte da mãe. As chaves da casa foram entregues à ferrovia em 1970. “Não sobrou nada”, murmurou, incrédulo, o engenheiro.

Há cerca de dez anos, Martinez tentou comprar a antiga casa da família, mas foi informado de que não seria possível. “Uma engenheira disse que eu poderia ficar tranquilo, que o imóvel estava na programação de restauração, seria recuperado. Infelizmente, agora acabou tudo. A madeira nobre, importada. Nada disso pôde ser recuperado”, lamentou. “Se quiserem minha ajuda, tenho fotografias, dados, dá para fazer alguma coisa muito próxima. Tenho intacta na minha memória a imagem de como ela (casa) foi”, finalizou.

O vídeo da visita pode ser conferido no www.dgabc.com.br.

Restauração se arrasta desde 2013; 242 imóveis devem ser recuperados 

As obras de restauração da vila inglesa de Paranapiacaba foram anunciadas em 2013 e passaram pelo menos um ano e meio suspensas. Com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o conjunto de intervenções previa investimentos de R$ 42,4 milhões, com verbas do governo federal, incluindo a restauração de 242 imóveis da Vila Martin Smith – entre eles, os dois que foram destruídos no incêndio de 27 de julho – na parte baixa da vila histórica. 

Até junho do ano passado, foram restaurados o almoxarifado, a garagem e oficinas das locomotivas e a biblioteca. Neste ano, está prevista a restauração do campo de futebol, apontado por historiadores como o mais antigo do País, inaugurado em 1894. O investimento será de R$ 2,16 milhões. 

A vila de Paranapiacaba é tombada pelos conselhos de patrimônio municipal, estadual e nacional. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) informou que uma equipe técnica visitou o local em 31 de julho para avaliar os danos causados e as possibilidades de reconstrução dos bens. Segundo o órgão, durante a inspeção, foi constatado que todos os elementos construídos em madeira, como paredes, piso, esquadrias, forro, vigas e pilares, foram destruídos, assim como a cobertura referente às áreas. Parte da cerca de ferro também ficou retorcida. Apenas elementos em alvenaria de tijolos, como algumas paredes, duas chaminés e as fundações, ficaram parcialmente preservados.

Após a visita, foi elaborada nota técnica na qual o Iphan ressalta a necessidade da adoção de plano e de estratégias de prevenção contra incêndio desenvolvidas em parceria pelas esferas municipal, estadual e federal. “O projeto de restauro dos bens que estão localizados na vila está em fase de finalização”, relatou a nota.

Prefeitura fala em incêndio criminoso

A Prefeitura de Santo André acredita que o incêndio que atingiu duas casas na parte baixa da vila inglesa de Paranapiacaba possa ter sido criminoso. O governo informou que registrou boletim de ocorrência e pedido de perícia no 6º DP (Vila Mazzei) e que vai exigir rigor na apuração e punição dos responsáveis. “Não descartamos a hipótese de que tenha ocorrido um incêndio criminoso no casarão com viés político com o objetivo de atrapalhar o andamento do Festival de Inverno de Paranapiacaba”, completou o comunicado. O incidente foi registrado no segundo fim de semana da festa.

Segundo a Prefeitura, o imóvel está isolado e deverá ser reconstruído em sua totalidade. O delegado Luiz Henrique Artacho, titular do 6º DP, aguarda laudo pericial que vai determinar se será aberta investigação.



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“Vivi aqui os melhores anos da minha vida”

Equipe do Diário acompanhou ex-morador em visita a imóvel incendiado em Paranapiacaba

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

12/08/2019 | 07:00


O que faria um homem de 70 anos chorar? Para cada pessoa essa pergunta pode ter uma resposta, mas para o engenheiro e consultor José Luiz Martinez, um dos motivos são as lembranças de sua juventude. Não as memórias em si, porque essas, em suas próprias palavras, são muito felizes. Mas a tristeza de ver o local onde elas foram vividas, a casa onde morou com a família até os 20 anos, totalmente destruída por um incêndio. “Dos meus 70 anos, os melhores, os 20 primeiros, vivi aqui. O primeiro amor, primeiro namoro, primeiro porre, os carnavais que eram incríveis, as festas juninas, as festas no Clube (União) Lyra (Serrano)”, relembrou. Martinez morou em uma das duas casas da Vila de Paranapiacaba, em Santo André, que foram destruídas por um incêndio na noite do dia 27 de julho.

O Diário acompanhou o engenheiro na visita ao que sobrou do imóvel. Visivelmente emocionado, Martinez, que atualmente mora na Lapa, em São Paulo, relembrou os anos vividos com os pais e os irmãos; os amigos da casa vizinha à sua; e o período de apreensão durante o golpe militar de 1964, quando o Exército manteve em seu portão um tanque de guerra, de onde era possível ver a linha férrea que segue até o porto de Santos. “A ferrovia era estratégica e a visão que tínhamos daqui era privilegiada”, relatou.

O pai do engenheiro, Juventino José Lopes Martinez, veio na década de 1930 da Galícia, na Espanha, para trabalhar na São Paulo Railway, primeira ferrovia do Estado de São Paulo. Instalado na vila inglesa, atuou como mestre de obras. “Ele fazia de tudo. Consertava as coisas da cidade, na linha férrea. Pelo meu entendimento hoje, depois dos engenheiros, (o principal funcionário) era ele”, contou Martinez. Cerca de um ano após ter chegado ao Brasil, Martinez pai mandou buscar a esposa, Cecília Martinez Domingues, e o filho mais velho, Nicanor Lopez Martinez, então com 1 ano. Foi na casa que hoje não existe mais que nasceram mais dois filhos: Maria Ventura Lopez Martinez Urbanavicius, e, em 1948, José Luiz Martinez.

Ao caminhar pelos escombros, o engenheiro apontou onde ficava a sala, a cozinha, os quartos. Recordou do gramado bem cuidado, onde muitas vezes jogou partidas de futebol. Dos jardins de hortênsias cultivados pela mãe. Do depósito onde o pai guardava a lenha para a lareira e o fogão. 

Os vizinhos também foram lembrados. Na casa ao lado, idêntica à da família Martinez, morava o casal Ari e Ana Ramos, com os filhos Levi e Guy. Com idades próximas, os três garotos cresceram amigos. “O senhor Ari teve a primeira televisão da vila. Os meninos batiam na parede do meu quarto e me chamavam para ver alguns jogos, alguns programas.” 

A educação foi feita na própria região: os primeiros anos do ciclo básico na vila, o antigo ginásio (atual segundo ciclo do fundamental) em Mauá, e o científico (atual ensino médio) na EE Dr. Américo Brasiliense, no Centro de Santo André. “Quando passamos a estudar fora da vila, era uma correria. Saíamos cedo para pegar o trem e minha mãe ficava daqui de cima acompanhando a gente chegar até a estação. De lá, a gente acenava e ela ficava tranquila”, contou Martinez.

A família deixou o imóvel em 1968, após a morte da mãe. As chaves da casa foram entregues à ferrovia em 1970. “Não sobrou nada”, murmurou, incrédulo, o engenheiro.

Há cerca de dez anos, Martinez tentou comprar a antiga casa da família, mas foi informado de que não seria possível. “Uma engenheira disse que eu poderia ficar tranquilo, que o imóvel estava na programação de restauração, seria recuperado. Infelizmente, agora acabou tudo. A madeira nobre, importada. Nada disso pôde ser recuperado”, lamentou. “Se quiserem minha ajuda, tenho fotografias, dados, dá para fazer alguma coisa muito próxima. Tenho intacta na minha memória a imagem de como ela (casa) foi”, finalizou.

O vídeo da visita pode ser conferido no www.dgabc.com.br.

Restauração se arrasta desde 2013; 242 imóveis devem ser recuperados 

As obras de restauração da vila inglesa de Paranapiacaba foram anunciadas em 2013 e passaram pelo menos um ano e meio suspensas. Com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o conjunto de intervenções previa investimentos de R$ 42,4 milhões, com verbas do governo federal, incluindo a restauração de 242 imóveis da Vila Martin Smith – entre eles, os dois que foram destruídos no incêndio de 27 de julho – na parte baixa da vila histórica. 

Até junho do ano passado, foram restaurados o almoxarifado, a garagem e oficinas das locomotivas e a biblioteca. Neste ano, está prevista a restauração do campo de futebol, apontado por historiadores como o mais antigo do País, inaugurado em 1894. O investimento será de R$ 2,16 milhões. 

A vila de Paranapiacaba é tombada pelos conselhos de patrimônio municipal, estadual e nacional. O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) informou que uma equipe técnica visitou o local em 31 de julho para avaliar os danos causados e as possibilidades de reconstrução dos bens. Segundo o órgão, durante a inspeção, foi constatado que todos os elementos construídos em madeira, como paredes, piso, esquadrias, forro, vigas e pilares, foram destruídos, assim como a cobertura referente às áreas. Parte da cerca de ferro também ficou retorcida. Apenas elementos em alvenaria de tijolos, como algumas paredes, duas chaminés e as fundações, ficaram parcialmente preservados.

Após a visita, foi elaborada nota técnica na qual o Iphan ressalta a necessidade da adoção de plano e de estratégias de prevenção contra incêndio desenvolvidas em parceria pelas esferas municipal, estadual e federal. “O projeto de restauro dos bens que estão localizados na vila está em fase de finalização”, relatou a nota.

Prefeitura fala em incêndio criminoso

A Prefeitura de Santo André acredita que o incêndio que atingiu duas casas na parte baixa da vila inglesa de Paranapiacaba possa ter sido criminoso. O governo informou que registrou boletim de ocorrência e pedido de perícia no 6º DP (Vila Mazzei) e que vai exigir rigor na apuração e punição dos responsáveis. “Não descartamos a hipótese de que tenha ocorrido um incêndio criminoso no casarão com viés político com o objetivo de atrapalhar o andamento do Festival de Inverno de Paranapiacaba”, completou o comunicado. O incidente foi registrado no segundo fim de semana da festa.

Segundo a Prefeitura, o imóvel está isolado e deverá ser reconstruído em sua totalidade. O delegado Luiz Henrique Artacho, titular do 6º DP, aguarda laudo pericial que vai determinar se será aberta investigação.

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