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Aurichio apaga marcas de Tortorello


Aline Mazzo
Do Diário do Grande ABC

21/10/2006 | 19:05


O prefeito de São Caetano José Auricchio Júnior está determinado a sumir com as marcas mais emblemáticas do governo Tortorello na cidade: os monumentos. A história corre à boca pequena entre os moradores e tomou força com o início da retirada da estátua que homenageia os imigrantes italianos de São Caetano e o portal da cidade, no mês passado, para uma obra antienchente.

Os dois monumentos formavam um dos espaços mais faraônicos idealizados por Luiz Olinto Tortorello e ficavam na principal entrada da cidade, na divisa com a Capital. “Acho que em pouco tempo não teremos mais esse monte de estátuas”, comentou uma moradora que não quis se identificar. Ela tem notado que o novo prefeito tem dado outra imagem à cidade.

O prefeito José Auricchio Júnior nega que as mudanças tenham a ver com objetivos políticos, mas assume que outros pontos podem perder os monumentos da era Tortorello. “Estamos adotando um novo conceito de cidade, e as obras que não forem compatíveis com esse perfil serão retiradas”, afirma. Auricchio faz questão de destacar que todo o processo tem sido feito com a consultoria de arquitetos e urbanistas. O objetivo é uma cidade de fácil acesso, que tenha a mobilidade preservada, melhorada e bem moderna.

A mudança tem sido levada tão a sério pela atual gestão que o prefeito até cogitou um concurso pelo monumento da cidade. “Estamos pensado em abrir inscrições para projetos de um monumento que represente São Caetano”, disse.

Antônio de Pádua Tortorello, irmão do ex-prefeito, não tem dúvida que Aurichio esteja querendo apagar a imagem da antiga gestão. “A perseguição do nome Tortorello está sendo implacável e quem paga muito caro por isso é o povo”, diz, enfático, Pádua. Ele considera o movimento completamente político e afirma que a preservação dos monumentos históricos é um medidor de educação e cultura da cidade.

Marquinho Tortorello, filho do ex-prefeito, é mais ponderado que o tio ao falar sobre o assunto. “Não acredito que ele queira acabar com o que meu pai fez. Só acho que é justo ele querer imprimir a sua marca na cidade, mas para acender um holofote não é preciso apagar outro”, filosofa.

Auricchio pode até negar, mas o imenso “T” de 12 metros de altura que fica na fachada da Fundação das Artes, no bairro Nova Gerti, foi coberto por um banner e duas placas, que parabenizam a população pela reforma da avenida Visconde de Inhaúma – feita por ele. O “T” desapareceu da fachada e a reportagem só o encontrou porque um comerciante da região mostrou que ele estava escondido atrás das propogandas da atual administração.

Para especialistas, a intenção da mudança está clara. O cientista político da Fundação Santo André e da Fundação Getúlio Vargas Marco Antônio Carvalho Teixeira explica que é normal uma nova gestão adotar logomarcas diferentes e novas nomes para políticas públicas e programas de governo, mas diz que em São Caetano existem agravantes. “Essa negação do legado anterior é comum quando algum adversário político assume e não quando é a indicação do ex-governante.”

Para Teixeira, as mudanças podem ser a tentativa de construção de uma carreira política, tendo em vista que esse é o primeiro cargo eletivo de Auricchio. Além disso, fica evidente que a marca Tortorello morreu com o ex-prefeito, em dezembro de 2004. “Ele não conseguiu transferir seu carisma político para seus familiares e também não construiu estruturas fortes, como uma forma de governo ou um partido político. Ele era apenas prestígio pessoal”, aponta.

Já o professor de Sociologia Urbana e Regional do Imes (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) Antonio Carlo Gil afirma que as cidades são conhecidas por um ou dois monumentos, no máximo, e que não são necessários tantos como há em São Caetano. “Muitos são de um extremo mal gosto, sem falar que não têm identificação com o município”, dispara.

O sociólogo também acha que tirar a marca Tortorello é uma estratégia do atual prefeito. Afinal, todos eram obrigados a aceitá-la. “É um típico caso de culto à personalidade. Ele se fazia presente até em instituições não-públicas, com a imposição de seus retratos”. Para Gil, o maior golpe para o ex-prefeito foi a morte. “Ele era uma entidade muito maior que a Prefeitura e não esperava morrer. Assim, não conseguiu passar seu legado adiante.”

Obras – Em 1999, o então prefeito Luiz Olinto Tortorello encomendou um pacote de monumentos ao artista plástico Adélio Sarro Sobrinho – que já havia feito outras obras anteriores que custaram R$ 188 mil aos cofres públicos. Na época, Sarro foi contratado pelo Departamento de Urbanismo e Obras para instalar nove esculturas monumentais em vários pontos da cidade ao custo de R$ 436 mil para a Prefeitura.

Boa parte das obras ficou concentrada no bairro Olímpico e circundam o estádio Anacleto Campanella. Cada uma traz uma modalidade esportiva como tema e destoa do bairro residencial em que estão inseridas. Na época, o alto custo e a contratação do artista sem abertura de licitação foram questionadas, mas imediatamente rebatidas pelo artista com a justificativa de que não existe limite para esse tipo de investimento, já que educação e cultura são primordiais para a população.

Sarro não era de São Caetano – mais um motivo para questionar a excessiva quantidade de monumentos de um único artista espalhadas por toda a cidade. Ele nasceu em em Andradina, interior do Estado, e radicou-se na região em 1967. Suas obras conquistaram o gosto do prefeito Tortorello, que nunca consultou a população sobre a aceitação do trabalho do artista. Sarro também costuma fazer exposições na Europa e ainda têm obras na Argentina.



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