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'Arbitragem feminina acompanha crescimento do futebol feminino', diz árbitra



20/07/2019 | 06:00


Em dois meses, a árbitra Edina Alves Silva viveu duas situações marcantes em sua carreira. No dia 14 de abril, ela apitou CSA e Goiás pelo Campeonato Brasileiro e se tornou a primeira mulher a atuar na Série A em 14 anos. A última havia sido Silvia Regina de Oliveira em 2005. No dia 11 de junho, ela conduziu Holanda e Nova Zelândia pelo Mundial Feminino, na França.

"A responsabilidade é a mesma", compara a paranaense de Goioerê ao Estado. Depois de apitar a semifinal da Copa ao lado de Neuza Back e Tatiane Camargo, a árbitra de 38 anos acredita que o crescimento da arbitragem feminina está acompanhando o avanço do futebol feminino. Ao todo, a equipe brasileira apitou quatro jogos na Copa do Mundo, recorde ao lado da equipe francesa, dona da casa. No domingo, Edina vai atuar no jogo entre Atlético-MG e Fortaleza, pelo Brasileirão.

Como foi a experiência de apitar o torneio mais importante do futebol feminino?

Foi um sonho realizado e uma honra muito grande poder representar nosso País. A gente vê nosso nome e a bandeira do Brasil. Eu, a Neuza e a Tati estávamos nos preparando, dando o máximo. A CBF nos ajudou a evoluir nos pilares físico, técnico e mental. Fizemos quatro jogos. Algumas árbitras apitaram apenas um jogo; outras não apitaram nenhum. Nossa seleção brasileira de arbitragem fez quatro jogos, inclusive a semifinal. Não deu para fazer a final, mas eu vou correr atrás no próximo evento. O jogo entre Inglaterra e Estados Unidos foi uma final antecipada, na opinião da imprensa. Era um dos jogos mais esperados. O Colina disse que não era um presente, era o reconhecimento do nosso trabalho. Fizemos uma primeira fase, nós nos saímos bem e nos deram a semifinal. É uma responsabilidade a mais. Gostaram e fizemos um bom Mundial.

Qual foi o jogo mais difícil?

O mais difícil foi Inglaterra x Estados Unidos. A partida entre China e Itália também foi muito boa, com várias decisões. A Neuza e a Tati tiveram lances difíceis. Também tive um lance de interpretação de pênalti bem difícil. Mas eu tive um ângulo de visão bom e vi que não houve um contato. Passei tudo para o VAR como estava no campo e mantive a minha decisão e, graças a Deus, ela estava acertada. Os jogos foram muito bem jogados tecnicamente também.

Como é a rotina de uma árbitra na Copa do Mundo?

Só treinamento. Nós vamos para o campo todos os dias. Temos que assistir aos jogos e analisamos todos os lances importantes das partidas. Nós só não treinamos no campo um dia depois do jogo, pois é o dia de recuperação, com aquecimento leve, hidroginástica e massagem para relaxar a musculatura. É um acompanhamento muito bom, de outro mundo. A Fifa trata os árbitros muito bem.

Quais as diferenças entre apitar um jogo do Mundial e um jogo do Campeonato Brasileiro?

Eu amo o nosso País, eu amo o Campeonato Brasileiro. É o melhor futebol do mundo. Mas a responsabilidade é a mesma. Nós queremos ir bem dentro das quatro linhas e dar o melhor para continuar trabalhando. A gente vive de rendimento. Somos seres humanos que estão sujeitos a erros como qualquer outro. Não é a nossa vontade errar, mas as coisas acontecem às vezes. Por um mau posicionamento ou um ângulo diferente de visão. Agora, o VAR é uma nova chance de olhar novamente e tomar uma decisão.

Como a senhora avalia o VAR?

O VAR é uma ferramenta boa, que é preciso saber usá-lo e na hora certa. Estamos em um processo de aprendizado. Com o tempo, as coisas vão entrar nos eixos. Quando a gente começa a andar, a gente cai nos primeiros passos. Depois, você consegue andar normalmente. É a mesma coisa com o VAR. A gente tem de saber usar o VAR na hora certa. É uma nova chance de corrigir um eventual erro. De todo jeito, ainda é o árbitro que decide. Com o tempo, as coisas vão caminhar de maneira correta e estaremos adaptados ao VAR.

Qual é o segredo para usar bem o VAR?

Temos de seguir o protocolo. Se seguir, vai dar certo. Mas estamos aprendendo a andar e ainda não dá para sair correndo. Não é o só o futebol brasileiro que vive esse processo. É o mundo todo. Não é só no Brasil que há aquela divergência de opiniões. E o Brasil saiu na frente de vários países com o VAR no seu campeonato principal. Alguns países ainda não têm VAR. É no mundo inteiro. Com o tempo, as coisas vão se acertar.

Existem diferenças entre a maneira como jogador e uma jogadora se relacionada com a arbitragem?

Tem de ter respeito. Eles precisam respeitar o árbitro e nós precisamos respeitar os atletas. Está tudo bom caminhando para a linha do respeito. No Mundial, eu tenho um jeito meio forte no gestual, não tive problema nenhum. Sabemos conversar e sabemos nos impor. Com o VAR, os jogadores estão respeitando algumas coisas a mais que não estavam respeitando.

Por quê?

Eles sabem que o erro acontece por um mau posicionamento, por exemplo, e sabem que vai ter uma checagem. Depois da checagem, todos ficam mais tranquilos.

Os homens reclamam mais?

Sim, é normal. Está no sangue quente do brasileiro. É a adrenalina.

Qual é expectativa para o jogo entre Atlético e Fortaleza?

Estou muito feliz. É meu segundo jogo na Série A do Campeonato Brasileiro. Muitas coisas boas estão acontecendo na minha carreira. Só tenho de agradecer às pessoas que acreditaram no meu potencial e deram oportunidade para mostrar meu trabalho. Quero fazer um grande trabalho no jogo, junto com minha equipe de arbitragem, para seguir em frente.

A senhora vive da arbitragem ou tem atividade paralela?

Estou me dedicando somente à arbitragem. Eu queria ir para o Mundial e representar bem o nosso País. Dividir o tempo impede você de se dedicar integralmente. Tinha o inglês, a parte física, a técnica e a mental. Se você não se dedicar ao extremo, você pode não conseguir dar o seu melhor. Hoje, eu me dedico exclusivamente à arbitragem. Quero ter a oportunidade de representar nosso País na Olimpíada. Fiz um planejamento da minha carreira para mais cinco ou seis anos. É uma responsabilidade muito grande. Eu não quero ir para lá só para ser mais uma. Quero fazer jus ao nosso País, que tem o melhor futebol.

A senhora disse que tem um plano de carreira?

Quero ir para a Olimpíada no ano que vem, ir a mais um Mundial e talvez na Olimpíada seguinte. Depois, eu poderia encerrar minha carreira com duas Copas e duas Olimpíadas. É disso que eu corro atrás. Eu vou batalhar para representar nosso Brasil com qualidade.

A arbitragem feminina está acompanhando o movimento de crescimento do futebol feminino?

Sim, está. Hoje, vemos várias meninas trabalhando na Série B e mais duas na Série A neste final de semana. Leonardo Gaciba (chefe de arbitragem da CBF), juntamente, com a comissão, está dando oportunidade para as mulheres. Agora, depende de nós. A gente precisa se dedicar. É preciso estar bem fisicamente, mentalmente, tecnicamente. O futebol é um mundo concorrido e você precisa estar em alto nível. O futebol feminino cresceu, as competições aumentaram. Esse é o caminho. Vai vir o patrocínio em cima disso.

Esse avanço está inserido no contexto de avanço da mulher na sociedade?

A mulher está buscando seu espaço, mas o homem também busca outros espaços nos quais há predomínio da mulher. Se você fizer com amor e dedicação, você consegue, independentemente do sexo. A mulher está conseguindo seus sonhos. Antes era impossível.

O homem está ocupando espaço das mulheres... Como assim?

Existem dançarinos que buscam um espaço que era só das mulheres. A sociedade está aberta. Existem homens que cuidam dos filhos de um jeito igual ou melhor do que as mulheres. Isso impressiona. Qualquer um consegue fazer o que quiser, desde que tenha dedicação, determinação e amor.

O que é fundamental para ser uma boa árbitra?

Dedicação, assistir aos jogos, preparo físico, parte técnica e ter a cabeça aberta para corrigir seus erros. Existem críticas que fazem a gente crescer. Existem pessoas com cabeça fechada. Eu tenho uma autoavaliação da minha partida. Para ser um árbitro, também é preciso se dedicar ao máximo. Se você não estiver preparada, você pode tomar decisões erradas. Um erro pode encerrar a carreira. É preciso estar preparada para a oportunidade. Se você não estiver bem, outro vai pegar o seu lugar.

A senhora tem planos para depois da carreira?

Eu amo a arbitragem. Não sei o que vou fazer depois. Quero apitar. Adoro essa adrenalina.



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'Arbitragem feminina acompanha crescimento do futebol feminino', diz árbitra


20/07/2019 | 06:00


Em dois meses, a árbitra Edina Alves Silva viveu duas situações marcantes em sua carreira. No dia 14 de abril, ela apitou CSA e Goiás pelo Campeonato Brasileiro e se tornou a primeira mulher a atuar na Série A em 14 anos. A última havia sido Silvia Regina de Oliveira em 2005. No dia 11 de junho, ela conduziu Holanda e Nova Zelândia pelo Mundial Feminino, na França.

"A responsabilidade é a mesma", compara a paranaense de Goioerê ao Estado. Depois de apitar a semifinal da Copa ao lado de Neuza Back e Tatiane Camargo, a árbitra de 38 anos acredita que o crescimento da arbitragem feminina está acompanhando o avanço do futebol feminino. Ao todo, a equipe brasileira apitou quatro jogos na Copa do Mundo, recorde ao lado da equipe francesa, dona da casa. No domingo, Edina vai atuar no jogo entre Atlético-MG e Fortaleza, pelo Brasileirão.

Como foi a experiência de apitar o torneio mais importante do futebol feminino?

Foi um sonho realizado e uma honra muito grande poder representar nosso País. A gente vê nosso nome e a bandeira do Brasil. Eu, a Neuza e a Tati estávamos nos preparando, dando o máximo. A CBF nos ajudou a evoluir nos pilares físico, técnico e mental. Fizemos quatro jogos. Algumas árbitras apitaram apenas um jogo; outras não apitaram nenhum. Nossa seleção brasileira de arbitragem fez quatro jogos, inclusive a semifinal. Não deu para fazer a final, mas eu vou correr atrás no próximo evento. O jogo entre Inglaterra e Estados Unidos foi uma final antecipada, na opinião da imprensa. Era um dos jogos mais esperados. O Colina disse que não era um presente, era o reconhecimento do nosso trabalho. Fizemos uma primeira fase, nós nos saímos bem e nos deram a semifinal. É uma responsabilidade a mais. Gostaram e fizemos um bom Mundial.

Qual foi o jogo mais difícil?

O mais difícil foi Inglaterra x Estados Unidos. A partida entre China e Itália também foi muito boa, com várias decisões. A Neuza e a Tati tiveram lances difíceis. Também tive um lance de interpretação de pênalti bem difícil. Mas eu tive um ângulo de visão bom e vi que não houve um contato. Passei tudo para o VAR como estava no campo e mantive a minha decisão e, graças a Deus, ela estava acertada. Os jogos foram muito bem jogados tecnicamente também.

Como é a rotina de uma árbitra na Copa do Mundo?

Só treinamento. Nós vamos para o campo todos os dias. Temos que assistir aos jogos e analisamos todos os lances importantes das partidas. Nós só não treinamos no campo um dia depois do jogo, pois é o dia de recuperação, com aquecimento leve, hidroginástica e massagem para relaxar a musculatura. É um acompanhamento muito bom, de outro mundo. A Fifa trata os árbitros muito bem.

Quais as diferenças entre apitar um jogo do Mundial e um jogo do Campeonato Brasileiro?

Eu amo o nosso País, eu amo o Campeonato Brasileiro. É o melhor futebol do mundo. Mas a responsabilidade é a mesma. Nós queremos ir bem dentro das quatro linhas e dar o melhor para continuar trabalhando. A gente vive de rendimento. Somos seres humanos que estão sujeitos a erros como qualquer outro. Não é a nossa vontade errar, mas as coisas acontecem às vezes. Por um mau posicionamento ou um ângulo diferente de visão. Agora, o VAR é uma nova chance de olhar novamente e tomar uma decisão.

Como a senhora avalia o VAR?

O VAR é uma ferramenta boa, que é preciso saber usá-lo e na hora certa. Estamos em um processo de aprendizado. Com o tempo, as coisas vão entrar nos eixos. Quando a gente começa a andar, a gente cai nos primeiros passos. Depois, você consegue andar normalmente. É a mesma coisa com o VAR. A gente tem de saber usar o VAR na hora certa. É uma nova chance de corrigir um eventual erro. De todo jeito, ainda é o árbitro que decide. Com o tempo, as coisas vão caminhar de maneira correta e estaremos adaptados ao VAR.

Qual é o segredo para usar bem o VAR?

Temos de seguir o protocolo. Se seguir, vai dar certo. Mas estamos aprendendo a andar e ainda não dá para sair correndo. Não é o só o futebol brasileiro que vive esse processo. É o mundo todo. Não é só no Brasil que há aquela divergência de opiniões. E o Brasil saiu na frente de vários países com o VAR no seu campeonato principal. Alguns países ainda não têm VAR. É no mundo inteiro. Com o tempo, as coisas vão se acertar.

Existem diferenças entre a maneira como jogador e uma jogadora se relacionada com a arbitragem?

Tem de ter respeito. Eles precisam respeitar o árbitro e nós precisamos respeitar os atletas. Está tudo bom caminhando para a linha do respeito. No Mundial, eu tenho um jeito meio forte no gestual, não tive problema nenhum. Sabemos conversar e sabemos nos impor. Com o VAR, os jogadores estão respeitando algumas coisas a mais que não estavam respeitando.

Por quê?

Eles sabem que o erro acontece por um mau posicionamento, por exemplo, e sabem que vai ter uma checagem. Depois da checagem, todos ficam mais tranquilos.

Os homens reclamam mais?

Sim, é normal. Está no sangue quente do brasileiro. É a adrenalina.

Qual é expectativa para o jogo entre Atlético e Fortaleza?

Estou muito feliz. É meu segundo jogo na Série A do Campeonato Brasileiro. Muitas coisas boas estão acontecendo na minha carreira. Só tenho de agradecer às pessoas que acreditaram no meu potencial e deram oportunidade para mostrar meu trabalho. Quero fazer um grande trabalho no jogo, junto com minha equipe de arbitragem, para seguir em frente.

A senhora vive da arbitragem ou tem atividade paralela?

Estou me dedicando somente à arbitragem. Eu queria ir para o Mundial e representar bem o nosso País. Dividir o tempo impede você de se dedicar integralmente. Tinha o inglês, a parte física, a técnica e a mental. Se você não se dedicar ao extremo, você pode não conseguir dar o seu melhor. Hoje, eu me dedico exclusivamente à arbitragem. Quero ter a oportunidade de representar nosso País na Olimpíada. Fiz um planejamento da minha carreira para mais cinco ou seis anos. É uma responsabilidade muito grande. Eu não quero ir para lá só para ser mais uma. Quero fazer jus ao nosso País, que tem o melhor futebol.

A senhora disse que tem um plano de carreira?

Quero ir para a Olimpíada no ano que vem, ir a mais um Mundial e talvez na Olimpíada seguinte. Depois, eu poderia encerrar minha carreira com duas Copas e duas Olimpíadas. É disso que eu corro atrás. Eu vou batalhar para representar nosso Brasil com qualidade.

A arbitragem feminina está acompanhando o movimento de crescimento do futebol feminino?

Sim, está. Hoje, vemos várias meninas trabalhando na Série B e mais duas na Série A neste final de semana. Leonardo Gaciba (chefe de arbitragem da CBF), juntamente, com a comissão, está dando oportunidade para as mulheres. Agora, depende de nós. A gente precisa se dedicar. É preciso estar bem fisicamente, mentalmente, tecnicamente. O futebol é um mundo concorrido e você precisa estar em alto nível. O futebol feminino cresceu, as competições aumentaram. Esse é o caminho. Vai vir o patrocínio em cima disso.

Esse avanço está inserido no contexto de avanço da mulher na sociedade?

A mulher está buscando seu espaço, mas o homem também busca outros espaços nos quais há predomínio da mulher. Se você fizer com amor e dedicação, você consegue, independentemente do sexo. A mulher está conseguindo seus sonhos. Antes era impossível.

O homem está ocupando espaço das mulheres... Como assim?

Existem dançarinos que buscam um espaço que era só das mulheres. A sociedade está aberta. Existem homens que cuidam dos filhos de um jeito igual ou melhor do que as mulheres. Isso impressiona. Qualquer um consegue fazer o que quiser, desde que tenha dedicação, determinação e amor.

O que é fundamental para ser uma boa árbitra?

Dedicação, assistir aos jogos, preparo físico, parte técnica e ter a cabeça aberta para corrigir seus erros. Existem críticas que fazem a gente crescer. Existem pessoas com cabeça fechada. Eu tenho uma autoavaliação da minha partida. Para ser um árbitro, também é preciso se dedicar ao máximo. Se você não estiver preparada, você pode tomar decisões erradas. Um erro pode encerrar a carreira. É preciso estar preparada para a oportunidade. Se você não estiver bem, outro vai pegar o seu lugar.

A senhora tem planos para depois da carreira?

Eu amo a arbitragem. Não sei o que vou fazer depois. Quero apitar. Adoro essa adrenalina.

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