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Imagens de Letizia Battaglia, 1ª fotojornalista siciliana, chegam ao IMS Paulista



17/06/2019 | 08:00


Em 1992, Palermo, uma das cidades mais lindas da Sicília, foi considerada capital da Máfia e, em 2018, já era conhecida como capital da cultura. Uma vitória de quem desceu às ruas com livros, canetas, gravadores e, acima de tudo, com uma câmera fotográfica. Este percurso começou a ser desenhado no final dos anos 1970.

À frente dele ia uma mulher, Letizia Battaglia, a primeira fotojornalista siciliana e, sem dúvida, uma das primeiras italianas. Foi ela que, entre os anos 1970-1980, como editora de fotografia do jornal LOra, publicou os mais atrozes crimes mafiosos. Parte deste trabalho chega agora ao IMS Paulista (até 22 de setembro).

Ao todo são 90 imagens, publicações, um documentário com a curadoria de Paolo Falcone, que desde o final dos anos 1980 trabalha com a fotógrafa. Dois militantes que acreditavam, como afirma o curador, que "a cultura resgata". São fotografias cruas, duras, mas em nenhum momento sensacionalistas. Imagens que também fogem do estereótipo e, infelizmente, muitas vezes romantizado do mafioso, seja pelo cinema ou pela literatura. Imagens que narram a vida naqueles anos dominados pela Máfia.

Muitos primeiros planos, cenas que chegam perto, que não se calam diante do horror. Existe dor nas fotografias de Letizia, mas existe também a beleza das mulheres, das meninas. Muitos a consideram a fotógrafa da Máfia, o que ela recusa: "A fotografia é parte da minha vida. Me salvou, mas assim como fotografei a Máfia como forma de luta também fotografei a beleza", diz Michele Smargiassi. E é desta maneira que o curador quer apresentá-la nesta mostra: "Criei esta exposição como uma obra única e polifônica. Todas as imagens têm a mesma importância. São os olhos de Letizia que contam uma cultura, uma sociedade, um terra, mas, acima de tudo, um território".

Mas a história de Letizia começou muitos anos antes, quando ainda menina, embora tendo nascido em Palermo, por causa da profissão do pai, deixou a Sicília, morou em Nápoles, em Civitavecchia e em seguida em Trieste. Aos 10 anos retornou à sua cidade natal. Numa Palermo do pós-guerra, ela encontrou o preconceito, o machismo, o fim da liberdade: "No dia em que voltei, meu pai me tirou a liberdade", costuma afirmar. Casou cedo, achando que encontraria a liberdade. Mas não foi bem assim. Então, na casa dos 30, em 1971, já mãe, abandonou a vida siciliana e foi morar em Milão, atraída pela vida cultural, pelo teatro e pela literatura. Lá, ela começou a escrever e colaborar para vários periódicos. Instigada por amigos que além da narrativa queriam ver imagens dos lugares que ela descrevia, descobriu a fotografia e se tornou correspondente do jornal LOra di Palermo, relatando como viviam os sicilianos no norte. Em 1977 retornou a Palermo para ser editora do jornal. Única mulher num mundo masculino, foi muitas vezes hostilizada pelos "colegas", mas nunca se deixou vencer e continuou à frente, fotografando de perto, muito de perto, os mortos e seus algozes, as crianças e as mulheres. A dor e o amor de uma cidade passionária: "No caso de Battaglia, a imagem não é só o resultado de uma observação mais ou menos aproximada, é um embate em que a fotógrafa está fisicamente engajada", afirma Lorenzo Mammì, consultor de programação do IMS.

Em Palermo, não só a fotografia fazia parte de sua vida. Ao longo de sua carreira, Letizia se engajou em diversas atividades culturais, seja no teatro, na fotografia ou no meio editorial, como ela mesma relembra: "Enquanto a Guerra da Máfia recrudescia, dávamos cursos para jovens fotógrafos. Franco (Franco Zecchin, fotógrafo italiano e seu companheiro) e eu abrimos a primeira galeria fotográfica siciliana, levamos para casa pacientes saídos de hospitais psiquiátricos, fundamos uma revista chamada Grandevú, divertida e politicamente corajosa." Quando as imagens pareciam já não ser o bastante, entrou na política, ingressando, em 1986, no Conselho Municipal da cidade. Posteriormente, foi eleita deputada regional. Ainda assim, a fotografia sempre esteve presente em sua vida. A partir dos anos 2000, iniciou um trabalho de reflexão sobre seu próprio arquivo, alterando e inserindo novos elementos em imagens antigas, imprimindo-as em novos formatos, que resultaram na série "Reelaborações", também exibida na mostra. Hoje, Letizia Battaglia dirige o Centro Internazionale di Fotografia (Centro Internacional da Ftografia) um lugar de reflexão, exposições e publicações fotográficas.

Imagens que, como afirma o curador da mostra em relação ao trabalho de Letizia, são "exemplo, estímulo, testemunho que, por meio da cultura e da luta, podemos devolver a beleza ao mundo". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

LETIZIA BATTAGLIA: PALERMO

Até 22 de setembro. Galeria 2. Entrada gratuita. IMS Paulista Avenida Paulista, 2424. Tel.: 2842-9120.



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Imagens de Letizia Battaglia, 1ª fotojornalista siciliana, chegam ao IMS Paulista


17/06/2019 | 08:00


Em 1992, Palermo, uma das cidades mais lindas da Sicília, foi considerada capital da Máfia e, em 2018, já era conhecida como capital da cultura. Uma vitória de quem desceu às ruas com livros, canetas, gravadores e, acima de tudo, com uma câmera fotográfica. Este percurso começou a ser desenhado no final dos anos 1970.

À frente dele ia uma mulher, Letizia Battaglia, a primeira fotojornalista siciliana e, sem dúvida, uma das primeiras italianas. Foi ela que, entre os anos 1970-1980, como editora de fotografia do jornal LOra, publicou os mais atrozes crimes mafiosos. Parte deste trabalho chega agora ao IMS Paulista (até 22 de setembro).

Ao todo são 90 imagens, publicações, um documentário com a curadoria de Paolo Falcone, que desde o final dos anos 1980 trabalha com a fotógrafa. Dois militantes que acreditavam, como afirma o curador, que "a cultura resgata". São fotografias cruas, duras, mas em nenhum momento sensacionalistas. Imagens que também fogem do estereótipo e, infelizmente, muitas vezes romantizado do mafioso, seja pelo cinema ou pela literatura. Imagens que narram a vida naqueles anos dominados pela Máfia.

Muitos primeiros planos, cenas que chegam perto, que não se calam diante do horror. Existe dor nas fotografias de Letizia, mas existe também a beleza das mulheres, das meninas. Muitos a consideram a fotógrafa da Máfia, o que ela recusa: "A fotografia é parte da minha vida. Me salvou, mas assim como fotografei a Máfia como forma de luta também fotografei a beleza", diz Michele Smargiassi. E é desta maneira que o curador quer apresentá-la nesta mostra: "Criei esta exposição como uma obra única e polifônica. Todas as imagens têm a mesma importância. São os olhos de Letizia que contam uma cultura, uma sociedade, um terra, mas, acima de tudo, um território".

Mas a história de Letizia começou muitos anos antes, quando ainda menina, embora tendo nascido em Palermo, por causa da profissão do pai, deixou a Sicília, morou em Nápoles, em Civitavecchia e em seguida em Trieste. Aos 10 anos retornou à sua cidade natal. Numa Palermo do pós-guerra, ela encontrou o preconceito, o machismo, o fim da liberdade: "No dia em que voltei, meu pai me tirou a liberdade", costuma afirmar. Casou cedo, achando que encontraria a liberdade. Mas não foi bem assim. Então, na casa dos 30, em 1971, já mãe, abandonou a vida siciliana e foi morar em Milão, atraída pela vida cultural, pelo teatro e pela literatura. Lá, ela começou a escrever e colaborar para vários periódicos. Instigada por amigos que além da narrativa queriam ver imagens dos lugares que ela descrevia, descobriu a fotografia e se tornou correspondente do jornal LOra di Palermo, relatando como viviam os sicilianos no norte. Em 1977 retornou a Palermo para ser editora do jornal. Única mulher num mundo masculino, foi muitas vezes hostilizada pelos "colegas", mas nunca se deixou vencer e continuou à frente, fotografando de perto, muito de perto, os mortos e seus algozes, as crianças e as mulheres. A dor e o amor de uma cidade passionária: "No caso de Battaglia, a imagem não é só o resultado de uma observação mais ou menos aproximada, é um embate em que a fotógrafa está fisicamente engajada", afirma Lorenzo Mammì, consultor de programação do IMS.

Em Palermo, não só a fotografia fazia parte de sua vida. Ao longo de sua carreira, Letizia se engajou em diversas atividades culturais, seja no teatro, na fotografia ou no meio editorial, como ela mesma relembra: "Enquanto a Guerra da Máfia recrudescia, dávamos cursos para jovens fotógrafos. Franco (Franco Zecchin, fotógrafo italiano e seu companheiro) e eu abrimos a primeira galeria fotográfica siciliana, levamos para casa pacientes saídos de hospitais psiquiátricos, fundamos uma revista chamada Grandevú, divertida e politicamente corajosa." Quando as imagens pareciam já não ser o bastante, entrou na política, ingressando, em 1986, no Conselho Municipal da cidade. Posteriormente, foi eleita deputada regional. Ainda assim, a fotografia sempre esteve presente em sua vida. A partir dos anos 2000, iniciou um trabalho de reflexão sobre seu próprio arquivo, alterando e inserindo novos elementos em imagens antigas, imprimindo-as em novos formatos, que resultaram na série "Reelaborações", também exibida na mostra. Hoje, Letizia Battaglia dirige o Centro Internazionale di Fotografia (Centro Internacional da Ftografia) um lugar de reflexão, exposições e publicações fotográficas.

Imagens que, como afirma o curador da mostra em relação ao trabalho de Letizia, são "exemplo, estímulo, testemunho que, por meio da cultura e da luta, podemos devolver a beleza ao mundo". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

LETIZIA BATTAGLIA: PALERMO

Até 22 de setembro. Galeria 2. Entrada gratuita. IMS Paulista Avenida Paulista, 2424. Tel.: 2842-9120.

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