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NeneSurreal, grafiteira de Diadema, inspirou mulheres a se arriscarem na percussão


Miriam Gimenes
Do Diário do Grande ABC

26/05/2019 | 07:33


Os rostos desenhados nos muros pela grafiteira de Diadema NeneSurreal, 52 anos, carregam muito mais do que cores. Contêm, em cada pigmento de tinta, a história de seus ancestrais, das mulheres de sua família, da comunidade e a sua também. Ela, que já é avó, aprendeu com a sua, rendeira, a importância da arte, a qual só conseguiu se dedicar depois dos 30 anos de idade. “Não conseguia visualizar isso como profissão. Sou mulher negra, fui criada por uma mãe autoritária, que na cabeça dela a gente tinha de se formar para alcançar alguma coisa na vida”, lembra.

O fez. É instrumentadora cirúrgica, ofício com o qual criou sua única filha – e ainda exerce –, mas dedica grande parte do seu tempo para este talento, que desenvolveu desde criança. “O que acontece com a mulher neste meio é que ela começa a fazer grafite e os caras (com quem se relacionam) começam a tirar ela da rua. Vira mãe e fica quase impossível. Comigo aconteceu tudo isso, mas eu consegui voltar quando a minha filha se formou na faculdade”, lembra, acrescentando que agora ‘ganha umas moedas com a arte’. O seu marido morreu quando a menina tinha 3 anos.

Dé lá para cá, pintou por diversos pontos de São Paulo, alguns no Grande ABC e ganhou até o Prêmio Sabotage como melhor grafiteira, em 2016. “Minha avó me ensinou a desatar os nós, literalmente.”

Só que uma entrevista que deu no fim do ano passado, até por causa da repercussão do seu trabalho, lhe causou muitos inconvenientes. Depois de assumir ser lésbica – o que gerou preconceito até na sua família –, um desafeto fez comentários homofóbicos em redes sociais.

Nene não se calou. Tratou de convidar mulheres artistas a ocuparem a Casa do Hip Hop, em Diadema, para uma intervenção feminina. “Foi muito emocionante, eu não esperava tanto apoio”, lembra.

Uma das mulheres que, de pronto, saíram em defesa de Nene foi a cantora e percussionista Ana Cacimba. “Ela (Nene) foi exposta de uma maneira horrível, chegaram até a fazer memes com ela, que é uma mulher conceituadíssima na arte, muitas de nós nos inspiramos nela.” A única exigência para que Ana participasse era de que não fossem homens, já que a cantora se apresenta com seu companheiro.

“Daí fiz uma postagem no Facebook e muitas mulheres se ofereceram para tocar percussão comigo, mas não sabiam manusear nenhum instrumento. Como tinha um mês para o evento, passei a ensaiar com elas”, lembra. Do encontro, nasceu o Baque Fulô Braba. “A apresentação foi linda e rendeu frutos”, acrescenta Ana.

É que deste encontro surgiu o Baque Minas da Resistência, que toda quarta-feira faz ensaio aberto, às 20h, na Praça da Moça, sob sua tutela. “Fico muito feliz em proporcionar isso para essas mulheres, que têm de lidar com a rotina do dia a dia para estarem lá. Vejo que elas se sentem muito capazes, o lance da música traz um empoderamento muito legal para todas nós”, diz Ana.

Uma delas é Fúlvia Oliver, 32 anos. “A energia é muito forte. Estou muito empolgada, porque não sabia nada de música.” Para Nene, essa é a melhor resposta para suas escolhas. “E agora sou madrinha desta coisa maravilhosa que se formou. Somos resistência.” 



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O som delas

NeneSurreal, grafiteira de Diadema, inspirou mulheres a se arriscarem na percussão

Miriam Gimenes
Do Diário do Grande ABC

26/05/2019 | 07:33


Os rostos desenhados nos muros pela grafiteira de Diadema NeneSurreal, 52 anos, carregam muito mais do que cores. Contêm, em cada pigmento de tinta, a história de seus ancestrais, das mulheres de sua família, da comunidade e a sua também. Ela, que já é avó, aprendeu com a sua, rendeira, a importância da arte, a qual só conseguiu se dedicar depois dos 30 anos de idade. “Não conseguia visualizar isso como profissão. Sou mulher negra, fui criada por uma mãe autoritária, que na cabeça dela a gente tinha de se formar para alcançar alguma coisa na vida”, lembra.

O fez. É instrumentadora cirúrgica, ofício com o qual criou sua única filha – e ainda exerce –, mas dedica grande parte do seu tempo para este talento, que desenvolveu desde criança. “O que acontece com a mulher neste meio é que ela começa a fazer grafite e os caras (com quem se relacionam) começam a tirar ela da rua. Vira mãe e fica quase impossível. Comigo aconteceu tudo isso, mas eu consegui voltar quando a minha filha se formou na faculdade”, lembra, acrescentando que agora ‘ganha umas moedas com a arte’. O seu marido morreu quando a menina tinha 3 anos.

Dé lá para cá, pintou por diversos pontos de São Paulo, alguns no Grande ABC e ganhou até o Prêmio Sabotage como melhor grafiteira, em 2016. “Minha avó me ensinou a desatar os nós, literalmente.”

Só que uma entrevista que deu no fim do ano passado, até por causa da repercussão do seu trabalho, lhe causou muitos inconvenientes. Depois de assumir ser lésbica – o que gerou preconceito até na sua família –, um desafeto fez comentários homofóbicos em redes sociais.

Nene não se calou. Tratou de convidar mulheres artistas a ocuparem a Casa do Hip Hop, em Diadema, para uma intervenção feminina. “Foi muito emocionante, eu não esperava tanto apoio”, lembra.

Uma das mulheres que, de pronto, saíram em defesa de Nene foi a cantora e percussionista Ana Cacimba. “Ela (Nene) foi exposta de uma maneira horrível, chegaram até a fazer memes com ela, que é uma mulher conceituadíssima na arte, muitas de nós nos inspiramos nela.” A única exigência para que Ana participasse era de que não fossem homens, já que a cantora se apresenta com seu companheiro.

“Daí fiz uma postagem no Facebook e muitas mulheres se ofereceram para tocar percussão comigo, mas não sabiam manusear nenhum instrumento. Como tinha um mês para o evento, passei a ensaiar com elas”, lembra. Do encontro, nasceu o Baque Fulô Braba. “A apresentação foi linda e rendeu frutos”, acrescenta Ana.

É que deste encontro surgiu o Baque Minas da Resistência, que toda quarta-feira faz ensaio aberto, às 20h, na Praça da Moça, sob sua tutela. “Fico muito feliz em proporcionar isso para essas mulheres, que têm de lidar com a rotina do dia a dia para estarem lá. Vejo que elas se sentem muito capazes, o lance da música traz um empoderamento muito legal para todas nós”, diz Ana.

Uma delas é Fúlvia Oliver, 32 anos. “A energia é muito forte. Estou muito empolgada, porque não sabia nada de música.” Para Nene, essa é a melhor resposta para suas escolhas. “E agora sou madrinha desta coisa maravilhosa que se formou. Somos resistência.” 

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