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Em cartaz,cinebiografia de Tolkien é interessante,
mas ritmo corrido deixa lacunas

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Longa sobre a vida do escritor Tolkien, em cartaz nos cinemas, deixa lacunas importantes


Lorena S. Ávila
Especial para o Diário

27/05/2019 | 07:11


Senhor dos Anéis e O Hobbit, épicos literários que foram eternizados pela sétima arte, guiaram milhões de pessoas ao universo da Terra Média, criado de forma detalhada durante anos pelo escritor J.R.R. Tolkien. ‘O Professor’, como é chamado por seu público, é considerado o pai da fantasia, e desperta a curiosidade até dos mais leigos. Afinal, quem é o mestre por trás da grande saga de sucesso? É isso que o filme Tolkien, que acaba de chegar aos cinemas, tenta responder.

Dirigir uma cinebiografia é tarefa para poucos, já que condensar em apenas duas horas a história de uma vida, com riqueza de detalhes e informações para a construção do todo, exige uma enorme compreensão dos fatos e organização para transmiti-los em equilíbrio. O diretor finlandês Dome Karukoski provou ter sensibilidade e delicadeza ao optar por narrar as três décadas que mudariam o destino de John Ronald Reuel Tolkien (interpretado no filme por Nicholas Hoult) e impactariam diretamente em suas ideias.

A escolha do recorte foi sábia, pois nesses 30 anos o jovem Tolkien amadureceu, enfrentou a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), e finalmente encontrou as inspirações e influências necessárias para a composição de seu épico. O roteiro, a cargo de David Gleeson e Stephen Beresford, acerta na abordagem rica sobre linguagens e o seu estudo, focando no fascínio que o escritor tinha por palavras, línguas antigas, mitologias e poemas que foram determinantes para a criação de suas obras, mas peca no desenvolvimento das personagens, ignorando peças fundamentais da trajetória do escritor, bem como de sua própria personalidade.

A narrativa passa de modo acelerado pela infância de Tolkien, que tinha profunda ligação com a sua mãe, Mabel (Laura Donnelly), e sofreu um golpe brutal quando, na pré-adolescência, teve que enfrentar seu abrupto falecimento. O ritmo atrapalha, pois traz certa desconexão e frieza para um processo que foi doloroso, e não deixa tempo para o telespectador sentir e compreender o quão essencial fora, não somente ela, mas a feliz experiência que ele viveu no vilarejo de Sarehole, Inglaterra.

As bases religiosas, aspecto muito particular da vida de Tolkien, foram ignoradas. Essa ausência torna incompleta a caracterização mais fiel da sua personalidade. Católico fervoroso, Tolkien e seu irmão Hilary foram criados pelo padre Francis (Colm Meaney), personagem que não ganha destaque, protagonizando cenas curtas que são insuficientes para expor o relacionamento de pai e filho estabelecido entre os dois.

Em compensação, o envolvimento com o T.C.B.S. (Tea Club, Barrowian Society), clube literário que ele mantinha com mais três amigos, que sonhavam em contribuir com o mundo da arte, foi tão bem desenvolvido que é impossível não se emocionar quando eles sofrem uma separação diante da iminência da Primeira Guerra.

O amor por Edith Bratt (Lily Collins) e o companheirismo de ambos, bem como a personalidade forte da garota e seus anseios interpretados com rigor, encontram espaço generoso na película e são retratados com cuidado e pouquíssimas imprecisões. Porém, isso foi usado para fazer uma sutil e errônea ligação entre Tolkien e O Anel do Nibelungo, ópera de Richard Wagner, que ele negou a vida inteira que tenha lhe servido de inspiração para os seus livros.

Com o foco centralizado na guerra, dias considerados terríveis por Tolkien, que ainda foi acometido por febre de trincheira, Karukoski cria efeitos imagéticos, como delírios, para remeter às maldades presentes na criação tolkieniana. Embora essa tenha sido uma alternativa para colocar elementos alusivos à ficção, pois Tolkien, decerto, retirou dessa experiência traumática algumas ideias, essa parte em específico fica numa linha tênue entre a licença poética e o exagero.

Apesar de entregar boas atuações e uma bela fotografia, os cortes em excesso, para criar efeito de lembranças afetivas ou dar saltos temporais, acabam atrapalhando a fluidez do longa, que fica melhor da metade para o fim, mas mantém um ritmo corrido que deixa lacunas. Supondo que o público tenha um conhecimento razoável sobre a vida do escritor, será preciso preencher o vazio entre os acontecimentos.
 



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Em cartaz,cinebiografia de Tolkien é interessante,
mas ritmo corrido deixa lacunas

Longa sobre a vida do escritor Tolkien, em cartaz nos cinemas, deixa lacunas importantes

Lorena S. Ávila
Especial para o Diário

27/05/2019 | 07:11


Senhor dos Anéis e O Hobbit, épicos literários que foram eternizados pela sétima arte, guiaram milhões de pessoas ao universo da Terra Média, criado de forma detalhada durante anos pelo escritor J.R.R. Tolkien. ‘O Professor’, como é chamado por seu público, é considerado o pai da fantasia, e desperta a curiosidade até dos mais leigos. Afinal, quem é o mestre por trás da grande saga de sucesso? É isso que o filme Tolkien, que acaba de chegar aos cinemas, tenta responder.

Dirigir uma cinebiografia é tarefa para poucos, já que condensar em apenas duas horas a história de uma vida, com riqueza de detalhes e informações para a construção do todo, exige uma enorme compreensão dos fatos e organização para transmiti-los em equilíbrio. O diretor finlandês Dome Karukoski provou ter sensibilidade e delicadeza ao optar por narrar as três décadas que mudariam o destino de John Ronald Reuel Tolkien (interpretado no filme por Nicholas Hoult) e impactariam diretamente em suas ideias.

A escolha do recorte foi sábia, pois nesses 30 anos o jovem Tolkien amadureceu, enfrentou a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), e finalmente encontrou as inspirações e influências necessárias para a composição de seu épico. O roteiro, a cargo de David Gleeson e Stephen Beresford, acerta na abordagem rica sobre linguagens e o seu estudo, focando no fascínio que o escritor tinha por palavras, línguas antigas, mitologias e poemas que foram determinantes para a criação de suas obras, mas peca no desenvolvimento das personagens, ignorando peças fundamentais da trajetória do escritor, bem como de sua própria personalidade.

A narrativa passa de modo acelerado pela infância de Tolkien, que tinha profunda ligação com a sua mãe, Mabel (Laura Donnelly), e sofreu um golpe brutal quando, na pré-adolescência, teve que enfrentar seu abrupto falecimento. O ritmo atrapalha, pois traz certa desconexão e frieza para um processo que foi doloroso, e não deixa tempo para o telespectador sentir e compreender o quão essencial fora, não somente ela, mas a feliz experiência que ele viveu no vilarejo de Sarehole, Inglaterra.

As bases religiosas, aspecto muito particular da vida de Tolkien, foram ignoradas. Essa ausência torna incompleta a caracterização mais fiel da sua personalidade. Católico fervoroso, Tolkien e seu irmão Hilary foram criados pelo padre Francis (Colm Meaney), personagem que não ganha destaque, protagonizando cenas curtas que são insuficientes para expor o relacionamento de pai e filho estabelecido entre os dois.

Em compensação, o envolvimento com o T.C.B.S. (Tea Club, Barrowian Society), clube literário que ele mantinha com mais três amigos, que sonhavam em contribuir com o mundo da arte, foi tão bem desenvolvido que é impossível não se emocionar quando eles sofrem uma separação diante da iminência da Primeira Guerra.

O amor por Edith Bratt (Lily Collins) e o companheirismo de ambos, bem como a personalidade forte da garota e seus anseios interpretados com rigor, encontram espaço generoso na película e são retratados com cuidado e pouquíssimas imprecisões. Porém, isso foi usado para fazer uma sutil e errônea ligação entre Tolkien e O Anel do Nibelungo, ópera de Richard Wagner, que ele negou a vida inteira que tenha lhe servido de inspiração para os seus livros.

Com o foco centralizado na guerra, dias considerados terríveis por Tolkien, que ainda foi acometido por febre de trincheira, Karukoski cria efeitos imagéticos, como delírios, para remeter às maldades presentes na criação tolkieniana. Embora essa tenha sido uma alternativa para colocar elementos alusivos à ficção, pois Tolkien, decerto, retirou dessa experiência traumática algumas ideias, essa parte em específico fica numa linha tênue entre a licença poética e o exagero.

Apesar de entregar boas atuações e uma bela fotografia, os cortes em excesso, para criar efeito de lembranças afetivas ou dar saltos temporais, acabam atrapalhando a fluidez do longa, que fica melhor da metade para o fim, mas mantém um ritmo corrido que deixa lacunas. Supondo que o público tenha um conhecimento razoável sobre a vida do escritor, será preciso preencher o vazio entre os acontecimentos.
 

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