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Todos gritam, ninguém tem razão


Carlos Brickmann

19/05/2019 | 07:07


A fala do ministro Weintraub sobre menos verbas para universidades federais foi um desastre político (embora pudesse até ser defensável). E a oposição, ainda desnorteada, ganhou fôlego para grandes manifestações. Pela educação? Não: falava-se mais em Lula livre do que em universidades. E não ficaria bem falar no tema, quando a principal universidade pública do País, a USP, paga a 2.000 servidores mais que o teto estadual, R$ 23 mil. Um professor recordista ganha R$ 60 mil mensais. E a universidade gasta toda a verba disponível, 5% do ICMS do Estado, em pagamento de pessoal.

Idiotas úteis? Bolsonaro poderia, especialmente fora do País, controlar o vocabulário. Falar da má distribuição das verbas públicas, que privilegiam o ensino superior e esquecem o fundamental, do desperdício de promover seminário com dinheiro público sobre filosofia do sexo anal. Preferiu xingar.

O País está em crise, mas o Supremo fecha contrato para banquetes com lagosta e vinhos premiados, o Senado contrata mais assessores, a Câmara diz que tem boa vontade, mas a marcha da reforma da Previdência continua lenta. Bolsonaro discute se nazismo é de esquerda, avalia nos Estados Unidos a situação da Argentina e da Venezuela, e não mergulha na luta pela reforma. A Câmara, depois de ouvir o ministro Guedes informar que logo enviará um projeto de reforma tributária, vota nesta semana outro projeto – aliás, bem redigido, mas não é o do governo. E os adeptos do governo brigam uns com os outros.

Deixa conosco
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que vive entre tapas e beijos com Bolsonaro, disse em Nova York que o governo atrapalha, mas o Congresso vai fazer a reforma da Previdência. Ironia: Bolsonaro fala contra a “velha política”, mas como não se mexe deixa o Centrão fazer o que acha preciso.

Fogo amigo
A comunicação do governo é subordinada à Secretaria de Comunicação. O comunicador Fábio Wajngarten não se entende com o ministro, general Santos Cruz. Entende-se com Carlos, o filho ‘02’, e com o polemista Olavo de Carvalho, que, dos Estados Unidos, dispara insultos contra o general (e outros militares). Mas é o general quem libera a verba. Contra sua opinião, nada anda. Surgiu então uma fofoca brava: uma transcrição de WhatsApp em que ao general é atribuído o uso de adjetivos desrespeitosos contra Bolsonaro. A mensagem, que terminava dizendo que a solução seria o vice Mourão, foi levada, sem investigação, diretamente ao presidente. Isso dá ideia do clima no poder.

Cartas na mão
Bolsonaro herdou o País com inflação reduzida, os juros mais baixos que o Banco Central já pagou, encaminhou a reforma da Previdência e a lei de combate ao crime organizado. Graças ao agronegócio tem superavit comercial. Mas, com a barafunda política (e as investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro, o filho ‘01’), a economia está parada: cresceu o número de desempregados (hoje maior que no período Dilma), o crescimento do PIB é reavaliado periodicamente para baixo, o dólar bate recordes de alta. Há uma boa notícia: Olavo de Carvalho disse que não vai mais dar palpites. Com isso, o tiroteio deve ficar menos intenso. Se Bolsonaro puder livrar-se de todos os que tentam tutelá-lo, pode errar, mas serão erros só seus, sem ajuda.

E os planos?
Há uma questão séria, que ainda não foi mencionada: Bolsonaro falou sobre Cristina Kirchner, criticou Maduro, mencionou Israel como país que, com diminutos recursos naturais, conseguiu se desenvolver, chamou os que se manifestaram contra o contingenciamento de verbas para Educação de “massa de manobra” e “idiotas úteis”, brigou com uma repórter da Folha de S.Paulo (e espalhou o vídeo da briga pela internet), pediu que o ataquem, em vez de atacar seu filho Flávio, disse que as brigas entre as diversas alas bolsonaristas são “página virada”, mas não falou nada a respeito de planos para a criação de empregos (nem quais suas ideias para a educação e a saúde, áreas em que, por mais que prospere a agenda liberal do ministro Paulo Guedes, a ação do Estado é fundamental). O bolsonarismo pode por algum tempo discutir a opção pela bomba atômica de Eduardo, o filho ‘03’, ou a balbúrdia que o ministro Weintraub aponta em universidades federais. Mas, se não houver emprego, não há discussão que resista. Chegará a hora em que emprego e salário serão os temas predominantes, por mais ideologizada que se tenha tornado luta política. Sem pão, todos brigam, ninguém tem razão.

A aposta
Não houve jeito: condenado a oito anos e dez meses, em segunda instância, José Dirceu recebeu ordem de prisão. Fez uma reunião com pouco mais de 300 militantes, prometeu continuar lutando na Justiça para se livrar da pena, garantiu que, preso, irá ler mais, acelerar o segundo volume de suas memórias, exercitar-se, cuidar da saúde, acompanhar a política.

E a aposta: em quanto tempo o caro leitor acha que Dirceu será solto? 



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Todos gritam, ninguém tem razão

Carlos Brickmann

19/05/2019 | 07:07


A fala do ministro Weintraub sobre menos verbas para universidades federais foi um desastre político (embora pudesse até ser defensável). E a oposição, ainda desnorteada, ganhou fôlego para grandes manifestações. Pela educação? Não: falava-se mais em Lula livre do que em universidades. E não ficaria bem falar no tema, quando a principal universidade pública do País, a USP, paga a 2.000 servidores mais que o teto estadual, R$ 23 mil. Um professor recordista ganha R$ 60 mil mensais. E a universidade gasta toda a verba disponível, 5% do ICMS do Estado, em pagamento de pessoal.

Idiotas úteis? Bolsonaro poderia, especialmente fora do País, controlar o vocabulário. Falar da má distribuição das verbas públicas, que privilegiam o ensino superior e esquecem o fundamental, do desperdício de promover seminário com dinheiro público sobre filosofia do sexo anal. Preferiu xingar.

O País está em crise, mas o Supremo fecha contrato para banquetes com lagosta e vinhos premiados, o Senado contrata mais assessores, a Câmara diz que tem boa vontade, mas a marcha da reforma da Previdência continua lenta. Bolsonaro discute se nazismo é de esquerda, avalia nos Estados Unidos a situação da Argentina e da Venezuela, e não mergulha na luta pela reforma. A Câmara, depois de ouvir o ministro Guedes informar que logo enviará um projeto de reforma tributária, vota nesta semana outro projeto – aliás, bem redigido, mas não é o do governo. E os adeptos do governo brigam uns com os outros.

Deixa conosco
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que vive entre tapas e beijos com Bolsonaro, disse em Nova York que o governo atrapalha, mas o Congresso vai fazer a reforma da Previdência. Ironia: Bolsonaro fala contra a “velha política”, mas como não se mexe deixa o Centrão fazer o que acha preciso.

Fogo amigo
A comunicação do governo é subordinada à Secretaria de Comunicação. O comunicador Fábio Wajngarten não se entende com o ministro, general Santos Cruz. Entende-se com Carlos, o filho ‘02’, e com o polemista Olavo de Carvalho, que, dos Estados Unidos, dispara insultos contra o general (e outros militares). Mas é o general quem libera a verba. Contra sua opinião, nada anda. Surgiu então uma fofoca brava: uma transcrição de WhatsApp em que ao general é atribuído o uso de adjetivos desrespeitosos contra Bolsonaro. A mensagem, que terminava dizendo que a solução seria o vice Mourão, foi levada, sem investigação, diretamente ao presidente. Isso dá ideia do clima no poder.

Cartas na mão
Bolsonaro herdou o País com inflação reduzida, os juros mais baixos que o Banco Central já pagou, encaminhou a reforma da Previdência e a lei de combate ao crime organizado. Graças ao agronegócio tem superavit comercial. Mas, com a barafunda política (e as investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro, o filho ‘01’), a economia está parada: cresceu o número de desempregados (hoje maior que no período Dilma), o crescimento do PIB é reavaliado periodicamente para baixo, o dólar bate recordes de alta. Há uma boa notícia: Olavo de Carvalho disse que não vai mais dar palpites. Com isso, o tiroteio deve ficar menos intenso. Se Bolsonaro puder livrar-se de todos os que tentam tutelá-lo, pode errar, mas serão erros só seus, sem ajuda.

E os planos?
Há uma questão séria, que ainda não foi mencionada: Bolsonaro falou sobre Cristina Kirchner, criticou Maduro, mencionou Israel como país que, com diminutos recursos naturais, conseguiu se desenvolver, chamou os que se manifestaram contra o contingenciamento de verbas para Educação de “massa de manobra” e “idiotas úteis”, brigou com uma repórter da Folha de S.Paulo (e espalhou o vídeo da briga pela internet), pediu que o ataquem, em vez de atacar seu filho Flávio, disse que as brigas entre as diversas alas bolsonaristas são “página virada”, mas não falou nada a respeito de planos para a criação de empregos (nem quais suas ideias para a educação e a saúde, áreas em que, por mais que prospere a agenda liberal do ministro Paulo Guedes, a ação do Estado é fundamental). O bolsonarismo pode por algum tempo discutir a opção pela bomba atômica de Eduardo, o filho ‘03’, ou a balbúrdia que o ministro Weintraub aponta em universidades federais. Mas, se não houver emprego, não há discussão que resista. Chegará a hora em que emprego e salário serão os temas predominantes, por mais ideologizada que se tenha tornado luta política. Sem pão, todos brigam, ninguém tem razão.

A aposta
Não houve jeito: condenado a oito anos e dez meses, em segunda instância, José Dirceu recebeu ordem de prisão. Fez uma reunião com pouco mais de 300 militantes, prometeu continuar lutando na Justiça para se livrar da pena, garantiu que, preso, irá ler mais, acelerar o segundo volume de suas memórias, exercitar-se, cuidar da saúde, acompanhar a política.

E a aposta: em quanto tempo o caro leitor acha que Dirceu será solto? 

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