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Pelo sonho da maternidade, mulheres travam verdadeiras lutas

Celso Luiz/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Seja em tratamentos de fertilidade, ou aguardando adoção, elas não medem esforços para ser mães


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

12/05/2019 | 08:30


 Super heróis usam capa e uniforme e lutam contra o mal. Mas algumas batalhas não exigem roupas especiais ou força física, e sim paciência, amor e determinação. Como a peleja que algumas mulheres enfrentam para realizar o sonho de ser mãe, seja por um tratamento demorado e incerto, pelas dificuldades de uma gestação de risco ou na espera ansiosa na fila de adoção. Em homenagem ao Dia das Mães, contamos histórias de mulheres que não medem esforços para se tornarem mães.

A cabeleireira Adriana dos Santos Mello, 40 anos, moradora de São Bernardo, casada com o carteiro Alexandre de Mello, 43, por oito anos tentou engravidar, e só descobriu aos 30 que tinha endometriose (doença que atinge cerca de 15% das mulheres em idade reprodutiva, caracterizada pela presença de células do endométrio – mucosa do interior uterino – fora do útero, em órgãos como ovários, intestino e bexiga).

Um exame identificou a obstrução das trompas. “Saí do local desesperada, sem saber como contar ao meu marido que não poderia engravidar. Foi quando, por acaso, passei em frente ao local onde fiz o tratamento”, relembrou. O local era o Instituto Ideia Fertil de Saúde Reprodutiva, ligado à FMABC (Faculdade de Medicina do Grande ABC), com custos mais acessíveis do que clínicas particulares. “Falo que o meu milagre começou já na recepção, pelo bom atendimento que recebi”, relatou.

Após dois anos de tratamento, custeado pela venda do apartamento do casal, Adriana se submeteu à fertilização in vitro, e engravidou na primeira tentativa. “Foi uma emoção enorme, desde a implantação do óvulo fecundado, o exame positivo apontando a gravidez, até o nascimento do Lorenzo, que hoje tem 7 anos”, afirmou.

Em 2018, com apenas uma trompa, a cabeleireira engravidou naturalmente de Vicenzo, que agora está com 2 meses. “Realizei completamente meu sonho de maternidade”, concluiu.

 

SOLO

A gestação da microempreendedora Marina Bittencourt, 33, moradora de Suzano, não foi planejada, e em um primeiro momento nem tão comemorada, tampouco ela se alegrou quando viveu a iminência de sofrer aborto espontâneo. Com vários episódios de sangramento, Marina passou boa parte da gravidez em repouso absoluto, ao ponto de chegar a perder a sensibilidade e o movimento dos membros inferiores. Aos seis meses de gravidez, o baixo crescimento do feto apontou um infarto placentário, o que deu início a mais um período de luta da equipe médica e da mãe para manter a gestação até o bebê ter condições de sobreviver fora do útero. “Arthur foi contra tudo e contra todos, e, apesar de nascer com apenas 36 centímetros e 2,336 quilos, é esperto e sadio, e vem se desenvolvendo normalmente”, comemorou a mãe do bebê de 6 meses.

 

ESCOLHA DO CORAÇÃO

Se a espera de uma gravidez pode durar até nove meses, a de mães adotivas não tem data para acabar. A jornalista Olga Defavari, 35, moradora de Santo André, aguarda sua inclusão e a do marido, o autônomo Adilson Thieghi, 42, no cadastro nacional de adoção.

O processo teve início em janeiro, com entrevistas e palestras, após dois anos de tentativas de engravidar, apesar de nenhum exame ter apontado qualquer impedimento clínico para o casal. “Fantasio o momento em que a gente vai se encontrar, como vai ser fazer a lição de casa juntos, os passeios. Como abrimos a possibilidade de crianças maiores e até irmãos, talvez escolhermos juntos os móveis do quarto, os brinquedos”, relatou, emocionada.

A possibilidade de uma gravidez durante o processo não está descartada e, apesar de suspender os trâmites de adoção por dois anos, não muda os planos. “Um não seria substituto ao outro. Um filho adotivo também é um sonho nosso”, pontuou. Sobre possíveis dificuldades de adaptação, Olga não acha que será diferente do que seria com um filho biológico. “Amor é construção e vamos fazer isso juntos.”

 

Região tem um menor apto para adoção para cada 17 candidatos

 

No Dia das Mães, 32 crianças e adolescentes estão aptas para adoção, vivendo em uma das entidades de acolhimento da região. A proporção é de um menor para cada 17 pessoas/casais habilitados para adotar, uma vez que são 548 cadastros completos e já aguardando na fila. Em números totais, as instituições abrigam 379 menores que foram afastados de suas famílias. Os dados são do TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo).

Apesar do número bem maior de pessoas interessadas na adoção do que de menores para serem adotados, questões como a burocracia do Judiciário, falta de mão de obra para as análises dos cadastros e visitas, e restrições por parte dos pais adotivos – como preferência por crianças de até 3 anos, brancas e do sexo feminino – podem fazer da espera por esse encontro um período sem prazo para acabar.

O único tempo que é estipulado pela Justiça é o de dois anos para que a criança fique em entidade de acolhimento, quando é afastada da família por maus-tratos. “Esse é o prazo para que seja feita a devida investigação, análise de possível reintegração familiar, seja com os pais, ou com um parente. Para crianças maiores, ou com deficiência, o tempo de espera para adoção costuma ser maior, devido às restrições impostas pelos adotantes”, explicou a juíza da Vara da Infância Central, Mônica Gonzaga Arnoni.

Coordenador da Comissão da Infância e Juventude do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos), Ariel de Castro Alves apontou que a falta de mão de obra nas varas de Infância e Juventude, e até mesmo a existência de apenas uma vara por cidade, também interferem no grande tempo de espera para adoção. “Faltam profissionais para as entrevistas, para as visitas domiciliares, e varas para se dedicar exclusivamente para os processos de adoção”, defendeu.

Informações sobre as exigências para se adotar uma criança podem ser obtidas nas varas da Infância de Juventude de cada cidade ou pelo site do Cadastro Nacional de Adoção.

 

Apesar das pressões sociais, há quem escolha não ter filhos

 

Embora o Dia das Mães seja comemorado hoje, é preciso também lembrar que a maternidade não é o sonho de toda mulher. Embora a pressão social ainda cobre isso das mulheres, é grande o número de cidadãs que resolvem, de forma consciente, não ter filhos.

“O ‘instinto materno’ é um mito ainda muito resistente em todo o mundo. Em razão disso, a pressão social para as mulheres casarem e procriarem ainda é grande e significativa”, destacou a mestre em psicologia clínica e estudiosa das relações contemporâneas Lígia Baruch. “O mito do amor materno não leva em conta que existem tantos desejos femininos quanto o número de mulheres”, citou.

Lígia pontuou que a maternidade é um processo que não se constrói sem desilusões e ambivalências. “É preciso compreender que o amor nasce no dia a dia, mas que é uma possibilidade e não uma certeza. Planos ficam para trás, a própria mulher muitas vezes fica esquecida de si mesma”, concluiu.

Moradora de Santo André, a secretária Luciene Bronetti, 44 anos, sempre teve claro que não queria ter filhos. “Nunca pensei nem em casar, mas, quando comecei a namorar, isso sempre foi discutido”, relatou. Casada há 12 anos, Luciene e o marido, Eduardo Bronetti, 50, corretor de imóveis, têm uma afilhada, além de sobrinhas netas, com quem convivem com frequência. “É gostoso estar com elas, mas minha decisão é muito clara. Meu marido e eu viajamos, temos muita liberdade. A família cobra, diz que não vou ter quem cuide de mim na velhice, mas isso pode acontecer também com quem tem filhos”, minimizou.

A pressão da família em alguns casos é tão grande que as mulheres preferem não tocar no assunto perto dos parentes. É o caso de uma professora de 38 anos, casada e moradora de Ribeirão Pires e que prefere não se identificar. “Acho que para ter um filho, precisa de muita estrutura. Um bom emprego, a possibilidade de se dedicar integralmente. Não poderia fazer isso, então, prefiro não ter”, relatou.

A psicóloga ressaltou que hoje existe espaço para a diversidade de experiências. “Nos estudos acadêmicos falamos em feminilidades, ou seja, existem maneiras de ser mulher e a maternidade pode ou não estar dentro dos planos.”



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Pelo sonho da maternidade, mulheres travam verdadeiras lutas

Seja em tratamentos de fertilidade, ou aguardando adoção, elas não medem esforços para ser mães

Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

12/05/2019 | 08:30


 Super heróis usam capa e uniforme e lutam contra o mal. Mas algumas batalhas não exigem roupas especiais ou força física, e sim paciência, amor e determinação. Como a peleja que algumas mulheres enfrentam para realizar o sonho de ser mãe, seja por um tratamento demorado e incerto, pelas dificuldades de uma gestação de risco ou na espera ansiosa na fila de adoção. Em homenagem ao Dia das Mães, contamos histórias de mulheres que não medem esforços para se tornarem mães.

A cabeleireira Adriana dos Santos Mello, 40 anos, moradora de São Bernardo, casada com o carteiro Alexandre de Mello, 43, por oito anos tentou engravidar, e só descobriu aos 30 que tinha endometriose (doença que atinge cerca de 15% das mulheres em idade reprodutiva, caracterizada pela presença de células do endométrio – mucosa do interior uterino – fora do útero, em órgãos como ovários, intestino e bexiga).

Um exame identificou a obstrução das trompas. “Saí do local desesperada, sem saber como contar ao meu marido que não poderia engravidar. Foi quando, por acaso, passei em frente ao local onde fiz o tratamento”, relembrou. O local era o Instituto Ideia Fertil de Saúde Reprodutiva, ligado à FMABC (Faculdade de Medicina do Grande ABC), com custos mais acessíveis do que clínicas particulares. “Falo que o meu milagre começou já na recepção, pelo bom atendimento que recebi”, relatou.

Após dois anos de tratamento, custeado pela venda do apartamento do casal, Adriana se submeteu à fertilização in vitro, e engravidou na primeira tentativa. “Foi uma emoção enorme, desde a implantação do óvulo fecundado, o exame positivo apontando a gravidez, até o nascimento do Lorenzo, que hoje tem 7 anos”, afirmou.

Em 2018, com apenas uma trompa, a cabeleireira engravidou naturalmente de Vicenzo, que agora está com 2 meses. “Realizei completamente meu sonho de maternidade”, concluiu.

 

SOLO

A gestação da microempreendedora Marina Bittencourt, 33, moradora de Suzano, não foi planejada, e em um primeiro momento nem tão comemorada, tampouco ela se alegrou quando viveu a iminência de sofrer aborto espontâneo. Com vários episódios de sangramento, Marina passou boa parte da gravidez em repouso absoluto, ao ponto de chegar a perder a sensibilidade e o movimento dos membros inferiores. Aos seis meses de gravidez, o baixo crescimento do feto apontou um infarto placentário, o que deu início a mais um período de luta da equipe médica e da mãe para manter a gestação até o bebê ter condições de sobreviver fora do útero. “Arthur foi contra tudo e contra todos, e, apesar de nascer com apenas 36 centímetros e 2,336 quilos, é esperto e sadio, e vem se desenvolvendo normalmente”, comemorou a mãe do bebê de 6 meses.

 

ESCOLHA DO CORAÇÃO

Se a espera de uma gravidez pode durar até nove meses, a de mães adotivas não tem data para acabar. A jornalista Olga Defavari, 35, moradora de Santo André, aguarda sua inclusão e a do marido, o autônomo Adilson Thieghi, 42, no cadastro nacional de adoção.

O processo teve início em janeiro, com entrevistas e palestras, após dois anos de tentativas de engravidar, apesar de nenhum exame ter apontado qualquer impedimento clínico para o casal. “Fantasio o momento em que a gente vai se encontrar, como vai ser fazer a lição de casa juntos, os passeios. Como abrimos a possibilidade de crianças maiores e até irmãos, talvez escolhermos juntos os móveis do quarto, os brinquedos”, relatou, emocionada.

A possibilidade de uma gravidez durante o processo não está descartada e, apesar de suspender os trâmites de adoção por dois anos, não muda os planos. “Um não seria substituto ao outro. Um filho adotivo também é um sonho nosso”, pontuou. Sobre possíveis dificuldades de adaptação, Olga não acha que será diferente do que seria com um filho biológico. “Amor é construção e vamos fazer isso juntos.”

 

Região tem um menor apto para adoção para cada 17 candidatos

 

No Dia das Mães, 32 crianças e adolescentes estão aptas para adoção, vivendo em uma das entidades de acolhimento da região. A proporção é de um menor para cada 17 pessoas/casais habilitados para adotar, uma vez que são 548 cadastros completos e já aguardando na fila. Em números totais, as instituições abrigam 379 menores que foram afastados de suas famílias. Os dados são do TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo).

Apesar do número bem maior de pessoas interessadas na adoção do que de menores para serem adotados, questões como a burocracia do Judiciário, falta de mão de obra para as análises dos cadastros e visitas, e restrições por parte dos pais adotivos – como preferência por crianças de até 3 anos, brancas e do sexo feminino – podem fazer da espera por esse encontro um período sem prazo para acabar.

O único tempo que é estipulado pela Justiça é o de dois anos para que a criança fique em entidade de acolhimento, quando é afastada da família por maus-tratos. “Esse é o prazo para que seja feita a devida investigação, análise de possível reintegração familiar, seja com os pais, ou com um parente. Para crianças maiores, ou com deficiência, o tempo de espera para adoção costuma ser maior, devido às restrições impostas pelos adotantes”, explicou a juíza da Vara da Infância Central, Mônica Gonzaga Arnoni.

Coordenador da Comissão da Infância e Juventude do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos), Ariel de Castro Alves apontou que a falta de mão de obra nas varas de Infância e Juventude, e até mesmo a existência de apenas uma vara por cidade, também interferem no grande tempo de espera para adoção. “Faltam profissionais para as entrevistas, para as visitas domiciliares, e varas para se dedicar exclusivamente para os processos de adoção”, defendeu.

Informações sobre as exigências para se adotar uma criança podem ser obtidas nas varas da Infância de Juventude de cada cidade ou pelo site do Cadastro Nacional de Adoção.

 

Apesar das pressões sociais, há quem escolha não ter filhos

 

Embora o Dia das Mães seja comemorado hoje, é preciso também lembrar que a maternidade não é o sonho de toda mulher. Embora a pressão social ainda cobre isso das mulheres, é grande o número de cidadãs que resolvem, de forma consciente, não ter filhos.

“O ‘instinto materno’ é um mito ainda muito resistente em todo o mundo. Em razão disso, a pressão social para as mulheres casarem e procriarem ainda é grande e significativa”, destacou a mestre em psicologia clínica e estudiosa das relações contemporâneas Lígia Baruch. “O mito do amor materno não leva em conta que existem tantos desejos femininos quanto o número de mulheres”, citou.

Lígia pontuou que a maternidade é um processo que não se constrói sem desilusões e ambivalências. “É preciso compreender que o amor nasce no dia a dia, mas que é uma possibilidade e não uma certeza. Planos ficam para trás, a própria mulher muitas vezes fica esquecida de si mesma”, concluiu.

Moradora de Santo André, a secretária Luciene Bronetti, 44 anos, sempre teve claro que não queria ter filhos. “Nunca pensei nem em casar, mas, quando comecei a namorar, isso sempre foi discutido”, relatou. Casada há 12 anos, Luciene e o marido, Eduardo Bronetti, 50, corretor de imóveis, têm uma afilhada, além de sobrinhas netas, com quem convivem com frequência. “É gostoso estar com elas, mas minha decisão é muito clara. Meu marido e eu viajamos, temos muita liberdade. A família cobra, diz que não vou ter quem cuide de mim na velhice, mas isso pode acontecer também com quem tem filhos”, minimizou.

A pressão da família em alguns casos é tão grande que as mulheres preferem não tocar no assunto perto dos parentes. É o caso de uma professora de 38 anos, casada e moradora de Ribeirão Pires e que prefere não se identificar. “Acho que para ter um filho, precisa de muita estrutura. Um bom emprego, a possibilidade de se dedicar integralmente. Não poderia fazer isso, então, prefiro não ter”, relatou.

A psicóloga ressaltou que hoje existe espaço para a diversidade de experiências. “Nos estudos acadêmicos falamos em feminilidades, ou seja, existem maneiras de ser mulher e a maternidade pode ou não estar dentro dos planos.”

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