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Uma rica entrevista sobre a indústria


Jefferson José da Conceição
professor e coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano)
Gisele Yamauchi e Gustavo Monea
pesquisadores

09/05/2019 | 22:30


O fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo pode significar que 4.300 trabalhadores diretos e indiretos na planta ficarão sem emprego. O Observatório da USCS estima que, considerando-se a cadeia de fornecedores, o valor do impacto com remunerações salariais e benefícios diretos eliminados situa-se entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,4 bilhão por ano. Se aplicado o efeito multiplicador, pode-se chegar a um total de R$ 5 bilhões ao ano que deixarão de circular na economia da região, Estado e País. O Dieese calcula que aproximadamente 100 mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, serão afetados diretamente. Portanto, será grande o impacto desta decisão. Este é o momento oportuno para discutir o futuro da indústria.

Neste sentido, chamamos a atenção para a excelente e detalhada entrevista que nos foi dada por Rafael Marques, na 7ª Carta de Conjuntura da USCS (disponível em www.uscs.edu.br/sites/conjuscs). Ele é uma das lideranças que estão à frente das negociações para a continuidade da atividade industrial na planta da Ford, após o bombástico anúncio pela empresa, em fevereiro de 2019, de encerrar suas operações no Grande ABC. Sabemos o enorme impacto que esta decisão terá sobre a economia do Grande ABC, do Estado e do País. Rafael esteve na sede da Ford, em Dearborn, Estados Unidos, juntamente com outras lideranças sindicais, em março deste ano, para dialogar com a empresa, buscar reverter a decisão do fechamento ou encontrar soluções alternativas. Rafael foi presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. É também o primeiro presidente do TID-Brasil (Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento), constituído em outubro de 2017.

A pauta do instituto é o futuro da indústria no Brasil.

Entre outros pontos, Rafael relata a reunião com a empresa nos Estados Unidos: “A única abertura que eles nos deram residiu na temática de que outra empresa adquira o parque industrial da Ford em São Bernardo. Existem interessados. (...). Então, o tema de uma nova empresa para ser proprietária da planta é a possibilidade que se tem (...)”.

Argumenta que, em países avançados como a França, uma decisão como esta da Ford é tratada como questão nacional: “(O governo brasileiro) Deveria fazer semelhante ao que o governo francês fez com uma fábrica de motores que emprega 800 empregados e que tem uma dimensão muito menor que a de São Bernardo. Entretanto, se não fosse o Estado francês, há cerca de dez anos, esta planta estaria fechada há mais tempo. Ela se manteve aberta por mais dez anos, porque o Estado pressionou”.

Sobre a indústria do Grande ABC, Rafael aponta os principais desafios: “Nós padecemos por estar em uma área metropolitana, uma das mais adensadas do mundo, com alta valorização imobiliária. Temos um sistema de logística que, a despeito de todo o empenho e do volume de investimentos realizado com o Rodoanel e outras vias, ainda é um sistema que perde, quando comparado com outras regiões potenciais do Brasil. Na Alemanha, o trem chega direto no pátio da fábrica, trazendo as peças. Isso tem relevância enorme do ponto de vista da competitividade. Isso é algo que o Grande ABC não terá no curto, no médio e mesmo no longo prazos. Veja-se o caso de Santo André, que, entre o fim do século XIX e primeira metade do século XX, chegou a ter a ferrovia para atender ao café e as primeiras indústrias. Entretanto, o sistema ferroviário foi todo desestruturado. Hoje, nós dependemos de rodovias. Logística é fundamental para as operações industriais e, no Grande ABC, tornou-se fator de estrangulamento. O tempo todo tem que se reinventar e achar soluções para este problema”.

E acrescenta ainda: “Eu acredito que o Grande ABC tem que focar na tecnologia. Temos recursos humanos qualificados, uma rede de universidades. A região tem que atrair para cá o que tem de mais moderno. E a atividade deve ter uma taxa de retorno mais elevada. A Toyota está fazendo a reconversão de sua fábrica em São Bernardo, para um centro de desenvolvimento. Quase todo o desenvolvimento que é feito no Brasil vem para cá hoje. (...). Sendo um País polo, o Brasil poderia trazer as novas áreas de desenvolvimento, as novas técnicas (...). Nosso problema também é que não há política pública neste sentido. É necessário que o governo de São Paulo adote uma postura mais ativa de apoio e fortalecimento da sua estrutura industrial, e de explorar melhor seus diferenciais competitivos, como a área do conhecimento. É essencial que seja constituída e integrada a rota paulista de tecnologia conectada à indústria. Isso ajudaria inclusive a região do Grande ABC”.
 



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Uma rica entrevista sobre a indústria

Jefferson José da Conceição
professor e coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano)
Gisele Yamauchi e Gustavo Monea
pesquisadores

09/05/2019 | 22:30


O fechamento da fábrica da Ford em São Bernardo pode significar que 4.300 trabalhadores diretos e indiretos na planta ficarão sem emprego. O Observatório da USCS estima que, considerando-se a cadeia de fornecedores, o valor do impacto com remunerações salariais e benefícios diretos eliminados situa-se entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,4 bilhão por ano. Se aplicado o efeito multiplicador, pode-se chegar a um total de R$ 5 bilhões ao ano que deixarão de circular na economia da região, Estado e País. O Dieese calcula que aproximadamente 100 mil pessoas, entre trabalhadores e familiares, serão afetados diretamente. Portanto, será grande o impacto desta decisão. Este é o momento oportuno para discutir o futuro da indústria.

Neste sentido, chamamos a atenção para a excelente e detalhada entrevista que nos foi dada por Rafael Marques, na 7ª Carta de Conjuntura da USCS (disponível em www.uscs.edu.br/sites/conjuscs). Ele é uma das lideranças que estão à frente das negociações para a continuidade da atividade industrial na planta da Ford, após o bombástico anúncio pela empresa, em fevereiro de 2019, de encerrar suas operações no Grande ABC. Sabemos o enorme impacto que esta decisão terá sobre a economia do Grande ABC, do Estado e do País. Rafael esteve na sede da Ford, em Dearborn, Estados Unidos, juntamente com outras lideranças sindicais, em março deste ano, para dialogar com a empresa, buscar reverter a decisão do fechamento ou encontrar soluções alternativas. Rafael foi presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC. É também o primeiro presidente do TID-Brasil (Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento), constituído em outubro de 2017.

A pauta do instituto é o futuro da indústria no Brasil.

Entre outros pontos, Rafael relata a reunião com a empresa nos Estados Unidos: “A única abertura que eles nos deram residiu na temática de que outra empresa adquira o parque industrial da Ford em São Bernardo. Existem interessados. (...). Então, o tema de uma nova empresa para ser proprietária da planta é a possibilidade que se tem (...)”.

Argumenta que, em países avançados como a França, uma decisão como esta da Ford é tratada como questão nacional: “(O governo brasileiro) Deveria fazer semelhante ao que o governo francês fez com uma fábrica de motores que emprega 800 empregados e que tem uma dimensão muito menor que a de São Bernardo. Entretanto, se não fosse o Estado francês, há cerca de dez anos, esta planta estaria fechada há mais tempo. Ela se manteve aberta por mais dez anos, porque o Estado pressionou”.

Sobre a indústria do Grande ABC, Rafael aponta os principais desafios: “Nós padecemos por estar em uma área metropolitana, uma das mais adensadas do mundo, com alta valorização imobiliária. Temos um sistema de logística que, a despeito de todo o empenho e do volume de investimentos realizado com o Rodoanel e outras vias, ainda é um sistema que perde, quando comparado com outras regiões potenciais do Brasil. Na Alemanha, o trem chega direto no pátio da fábrica, trazendo as peças. Isso tem relevância enorme do ponto de vista da competitividade. Isso é algo que o Grande ABC não terá no curto, no médio e mesmo no longo prazos. Veja-se o caso de Santo André, que, entre o fim do século XIX e primeira metade do século XX, chegou a ter a ferrovia para atender ao café e as primeiras indústrias. Entretanto, o sistema ferroviário foi todo desestruturado. Hoje, nós dependemos de rodovias. Logística é fundamental para as operações industriais e, no Grande ABC, tornou-se fator de estrangulamento. O tempo todo tem que se reinventar e achar soluções para este problema”.

E acrescenta ainda: “Eu acredito que o Grande ABC tem que focar na tecnologia. Temos recursos humanos qualificados, uma rede de universidades. A região tem que atrair para cá o que tem de mais moderno. E a atividade deve ter uma taxa de retorno mais elevada. A Toyota está fazendo a reconversão de sua fábrica em São Bernardo, para um centro de desenvolvimento. Quase todo o desenvolvimento que é feito no Brasil vem para cá hoje. (...). Sendo um País polo, o Brasil poderia trazer as novas áreas de desenvolvimento, as novas técnicas (...). Nosso problema também é que não há política pública neste sentido. É necessário que o governo de São Paulo adote uma postura mais ativa de apoio e fortalecimento da sua estrutura industrial, e de explorar melhor seus diferenciais competitivos, como a área do conhecimento. É essencial que seja constituída e integrada a rota paulista de tecnologia conectada à indústria. Isso ajudaria inclusive a região do Grande ABC”.
 

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