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A voz dos refugiados



02/05/2019 | 07:00


A arte não tem fronteiras definidas para a encenadora Christiane Jatahy - as possibilidades cênicas por ela investigadas permitiram que seu trabalho unisse teatro e cinema de uma forma original e estimulante. Foi assim, por exemplo, em Corte Seco (2009), em que aconteciam intervenções ao vivo em vídeo e que alteravam a estrutura dramatúrgica em cada apresentação. Com o passar do tempo, a fricção entre a linguagem teatral e a cinematográfica permitiu que Christiane não apenas aprimorasse suas experimentações como utilizasse as tramas para refletir sobre temas políticos e sociais do mundo contemporâneo. Nessa linha, o espetáculo O Agora que Demora, que estreia nesta quinta-feira, 2, no Sesc Pinheiros, alcança um inédito requinte.

"Desta vez, é o teatro que interfere no cinema", revela a diretora que, até então, desenvolvia trabalhos em que a imagem em vídeo era um suporte para a encenação ao vivo. Agora, a experimentação toma novo rumo. "Nesta relação, o presente muda o passado - o teatro modifica, acrescenta e dialoga com o filme", explica Christiane, que viajou para diversos pontos do planeta nos últimos sete meses, quando filmou atores que vivem como refugiados no Líbano, Palestina, Grécia e África do Sul.

O material, que inclui ainda cenas gravadas em uma tribo indígena na Amazônia, deu origem a um filme, exibido durante a peça. "E essa apresentação é atravessada por uma interação teatral. O teatro complementa o filme, agindo como um coro grego, que dialoga com o que é projetado."

Homero

O Agora que Demora é a segunda parte de um projeto chamado Nossa Odisseia, que começou no ano passado com a estreia de Ítaca. Ambas são inspiradas em Odisseia, um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero. Continuação de Ilíada, narra a tortuosa travessia de volta à casa de Ulisses que, terminada a Guerra de Troia, navega durante quase duas décadas em direção à ilha de Ítaca, onde é esperado pela amada Penélope. "Inspirada" é a palavra certa: Christiane constrói uma odisseia para refletir sobre o mundo, em especial o grave problema dos refugiados.

Acompanhada de uma equipe diminuta (o cenógrafo e iluminador Thomas Walgrave, o diretor de fotografia Paulo Camacho e o produtor Henrique Mariano), ela repetiu o mesmo ritual em cada país: uma toalha branca cobria uma mesa que criava a cena de um banquete. Ali, os atores liam trechos da Odisseia em sua língua, entrecortando com relatos de experiências pessoais.

"O texto do Homero é utilizado por eles, que se apropriam da ficção para narrar as próprias histórias", conta Christiane. "A ficção invade a realidade. Levamos a ficção para a realidade e a trazemos de volta, para a realidade presente do teatro. O filme é aberto, cheio de espaços que serão completados a cada noite por nós. Nessa criação, não existe separação entre o filme e nós, entre o passado e o presente, entre o aqui e o lá."

Limbo

Para não estragar a surpresa do público, Christiane prefere não detalhar como é a participação dos atores em cena. Basta saber que será uma experiência forte. "Os refugiados vivem hoje em uma espécie de limbo, longe de sua terra natal mas sem ser abrigados por nenhuma outra." Ganha destaque, nesse sentido, a rotina das crianças, que Christiane retrata inspirada em Telêmaco, o filho de Ulisses que não vê o pai durante 20 anos. "Encontramos várias delas que crescem sem conhecer a própria família."

Somente na Amazônia, o trabalho não envolveu atores. Lá, segundo a encenadora, a história da Odisseia serviu de base para se tratar de histórias pessoais, e do que se passa no Brasil. "É por causa do momento crítico em que vivemos em nosso País que fiz questão de estrear a peça aqui", justifica a encenadora que, uma vez mais, conta com a imprescindível produção do Sesc paulista.

A originalidade de seu trabalho, no qual o cinema tem um pensamento teatral, transformou Christiane Jatahy em uma respeitada artista na Europa. Em 2017, ela se tornou a primeira brasileira a assinar uma montagem, A Regra do Jogo, na tradicional companhia parisiense Comédie Francese. E, hoje, Christiane é artista residente no Teatro Nacional de Bruxelas, na Bélgica, no Teatro Nacional de Genebra e nos franceses Odéon e Centquatre.

Depois da estreia no Brasil, O Agora que Demora inicia uma turnê agendada para mais de vinte cidades até meados de 2020, incluindo passagens pelo Festival de Avignon (França) e temporadas em Bruxelas, Paris, Estrasburgo, Santiago, Modena, Genebra, Girona, Besançon, Lisboa e Porto. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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A voz dos refugiados


02/05/2019 | 07:00


A arte não tem fronteiras definidas para a encenadora Christiane Jatahy - as possibilidades cênicas por ela investigadas permitiram que seu trabalho unisse teatro e cinema de uma forma original e estimulante. Foi assim, por exemplo, em Corte Seco (2009), em que aconteciam intervenções ao vivo em vídeo e que alteravam a estrutura dramatúrgica em cada apresentação. Com o passar do tempo, a fricção entre a linguagem teatral e a cinematográfica permitiu que Christiane não apenas aprimorasse suas experimentações como utilizasse as tramas para refletir sobre temas políticos e sociais do mundo contemporâneo. Nessa linha, o espetáculo O Agora que Demora, que estreia nesta quinta-feira, 2, no Sesc Pinheiros, alcança um inédito requinte.

"Desta vez, é o teatro que interfere no cinema", revela a diretora que, até então, desenvolvia trabalhos em que a imagem em vídeo era um suporte para a encenação ao vivo. Agora, a experimentação toma novo rumo. "Nesta relação, o presente muda o passado - o teatro modifica, acrescenta e dialoga com o filme", explica Christiane, que viajou para diversos pontos do planeta nos últimos sete meses, quando filmou atores que vivem como refugiados no Líbano, Palestina, Grécia e África do Sul.

O material, que inclui ainda cenas gravadas em uma tribo indígena na Amazônia, deu origem a um filme, exibido durante a peça. "E essa apresentação é atravessada por uma interação teatral. O teatro complementa o filme, agindo como um coro grego, que dialoga com o que é projetado."

Homero

O Agora que Demora é a segunda parte de um projeto chamado Nossa Odisseia, que começou no ano passado com a estreia de Ítaca. Ambas são inspiradas em Odisseia, um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, atribuídos a Homero. Continuação de Ilíada, narra a tortuosa travessia de volta à casa de Ulisses que, terminada a Guerra de Troia, navega durante quase duas décadas em direção à ilha de Ítaca, onde é esperado pela amada Penélope. "Inspirada" é a palavra certa: Christiane constrói uma odisseia para refletir sobre o mundo, em especial o grave problema dos refugiados.

Acompanhada de uma equipe diminuta (o cenógrafo e iluminador Thomas Walgrave, o diretor de fotografia Paulo Camacho e o produtor Henrique Mariano), ela repetiu o mesmo ritual em cada país: uma toalha branca cobria uma mesa que criava a cena de um banquete. Ali, os atores liam trechos da Odisseia em sua língua, entrecortando com relatos de experiências pessoais.

"O texto do Homero é utilizado por eles, que se apropriam da ficção para narrar as próprias histórias", conta Christiane. "A ficção invade a realidade. Levamos a ficção para a realidade e a trazemos de volta, para a realidade presente do teatro. O filme é aberto, cheio de espaços que serão completados a cada noite por nós. Nessa criação, não existe separação entre o filme e nós, entre o passado e o presente, entre o aqui e o lá."

Limbo

Para não estragar a surpresa do público, Christiane prefere não detalhar como é a participação dos atores em cena. Basta saber que será uma experiência forte. "Os refugiados vivem hoje em uma espécie de limbo, longe de sua terra natal mas sem ser abrigados por nenhuma outra." Ganha destaque, nesse sentido, a rotina das crianças, que Christiane retrata inspirada em Telêmaco, o filho de Ulisses que não vê o pai durante 20 anos. "Encontramos várias delas que crescem sem conhecer a própria família."

Somente na Amazônia, o trabalho não envolveu atores. Lá, segundo a encenadora, a história da Odisseia serviu de base para se tratar de histórias pessoais, e do que se passa no Brasil. "É por causa do momento crítico em que vivemos em nosso País que fiz questão de estrear a peça aqui", justifica a encenadora que, uma vez mais, conta com a imprescindível produção do Sesc paulista.

A originalidade de seu trabalho, no qual o cinema tem um pensamento teatral, transformou Christiane Jatahy em uma respeitada artista na Europa. Em 2017, ela se tornou a primeira brasileira a assinar uma montagem, A Regra do Jogo, na tradicional companhia parisiense Comédie Francese. E, hoje, Christiane é artista residente no Teatro Nacional de Bruxelas, na Bélgica, no Teatro Nacional de Genebra e nos franceses Odéon e Centquatre.

Depois da estreia no Brasil, O Agora que Demora inicia uma turnê agendada para mais de vinte cidades até meados de 2020, incluindo passagens pelo Festival de Avignon (França) e temporadas em Bruxelas, Paris, Estrasburgo, Santiago, Modena, Genebra, Girona, Besançon, Lisboa e Porto. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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