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Retrato de armazém


Rodolfo de Souza

25/04/2019 | 07:00


Vi, noutro dia, uma cena que tocou-me como duvido que tocaria qualquer outra pessoa. Assim, com a mesma intensidade. Não, não se trata de guerra, desabamento de prédio ou mar de lama. Somente três pessoas que compunham o quadro que me pareceu até fotografado em preto e branco. Coisa antiga, sabe? Talvez pelo elemento de singeleza, nada comprometido com a modernidade e com a realidade dos fatos, é que minha mente a viu assim, destituída de envolvimento com o mundo. Nem percebi, aliás, o quanto da sua essência é possível que haja na vida, ao redor de todos nós.

Três mulheres sentadas sobre um carrinho, utilizado para transporte de mercadorias em armazéns, liam e discutiam qualquer coisa. Percebi que portava um livro, cada qual. Eles estavam abertos sobre seus colos, e pareciam revelar, em segredo, novidades acerca desta vida de percalços, qualquer coisa de intrigante, que também me instigava a curiosidade. E elas se olhavam indagadoras. O que haveria de tão novo e interessante naquelas páginas? Senti até que competiam entre si, uma na ânsia de falar primeiro às outras sobre o que descobrira naquele momento em que se toma conhecimento de algo, até então, envolto numa bruma de mistério. Logicamente que não se deram conta da presença do meu olhar atento, embora disfarçado. Envolvido com elas, quase cometi, inclusive, o desatino de me apresentar para uma conversa a respeito de livros e dos tesouros escondidos nos meandros de suas linhas. Por certo que causaria estranheza, constatação esta que me obrigou a reconsiderar.

O cenário também era de aconchego e tranquilidade. Não sei bem o porquê de vê-lo assim. Uma simples porta arriada de mercado de cidade pequena, na frente de uma praça com árvores que me ofereciam refúgio do sol quente, era o retrato pintado, realçado ainda pela brisa leve de início de tarde. Nenhuma paisagem havia que servisse para impressionar-me e, quem sabe, valorizar ainda mais estas palavras. Na verdade, somente a fachada do prédio velho e as mulheres de meia idade, subtraindo as ideias encontradas em seus livros, eram suficientes.

Flagrei-me, pois, demasiadamente curioso, sem entender a razão de tudo aquilo. Afinal, não havia nada de absurdo em se deparar com pessoas lendo e comentando os assuntos retirados de páginas impressas. Talvez a ausência de celulares ali, peça que fatalmente supera o livro na preferência popular, é que me levou a mergulhar fundo nesta reflexão que olha com carinho o ser humano capaz de abster-se de apreciar as falcatruas diárias, carregadas de futilidades, em prol de um passeio literário.

Acho mesmo que toda essa conversa tem origem no fato de eu sempre me ocupar com assuntos pertinentes à leitura, que conduzem o indivíduo a uma posição privilegiada em relação aos demais, de pouca ou nenhuma afinidade com a palavra escrita. Deve ser isso. 



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Retrato de armazém

Rodolfo de Souza

25/04/2019 | 07:00


Vi, noutro dia, uma cena que tocou-me como duvido que tocaria qualquer outra pessoa. Assim, com a mesma intensidade. Não, não se trata de guerra, desabamento de prédio ou mar de lama. Somente três pessoas que compunham o quadro que me pareceu até fotografado em preto e branco. Coisa antiga, sabe? Talvez pelo elemento de singeleza, nada comprometido com a modernidade e com a realidade dos fatos, é que minha mente a viu assim, destituída de envolvimento com o mundo. Nem percebi, aliás, o quanto da sua essência é possível que haja na vida, ao redor de todos nós.

Três mulheres sentadas sobre um carrinho, utilizado para transporte de mercadorias em armazéns, liam e discutiam qualquer coisa. Percebi que portava um livro, cada qual. Eles estavam abertos sobre seus colos, e pareciam revelar, em segredo, novidades acerca desta vida de percalços, qualquer coisa de intrigante, que também me instigava a curiosidade. E elas se olhavam indagadoras. O que haveria de tão novo e interessante naquelas páginas? Senti até que competiam entre si, uma na ânsia de falar primeiro às outras sobre o que descobrira naquele momento em que se toma conhecimento de algo, até então, envolto numa bruma de mistério. Logicamente que não se deram conta da presença do meu olhar atento, embora disfarçado. Envolvido com elas, quase cometi, inclusive, o desatino de me apresentar para uma conversa a respeito de livros e dos tesouros escondidos nos meandros de suas linhas. Por certo que causaria estranheza, constatação esta que me obrigou a reconsiderar.

O cenário também era de aconchego e tranquilidade. Não sei bem o porquê de vê-lo assim. Uma simples porta arriada de mercado de cidade pequena, na frente de uma praça com árvores que me ofereciam refúgio do sol quente, era o retrato pintado, realçado ainda pela brisa leve de início de tarde. Nenhuma paisagem havia que servisse para impressionar-me e, quem sabe, valorizar ainda mais estas palavras. Na verdade, somente a fachada do prédio velho e as mulheres de meia idade, subtraindo as ideias encontradas em seus livros, eram suficientes.

Flagrei-me, pois, demasiadamente curioso, sem entender a razão de tudo aquilo. Afinal, não havia nada de absurdo em se deparar com pessoas lendo e comentando os assuntos retirados de páginas impressas. Talvez a ausência de celulares ali, peça que fatalmente supera o livro na preferência popular, é que me levou a mergulhar fundo nesta reflexão que olha com carinho o ser humano capaz de abster-se de apreciar as falcatruas diárias, carregadas de futilidades, em prol de um passeio literário.

Acho mesmo que toda essa conversa tem origem no fato de eu sempre me ocupar com assuntos pertinentes à leitura, que conduzem o indivíduo a uma posição privilegiada em relação aos demais, de pouca ou nenhuma afinidade com a palavra escrita. Deve ser isso. 

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