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A força e a beleza da cultura indígena em registro ficcional



22/04/2019 | 09:16


O título poético, talvez um tanto assustador - Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos - indica a história de uma vocação não assumida e um luto mal realizado. O protagonista é Ihjãc, jovem indígena da etnia Krahô. Na primeira cena o vemos em uma cachoeira dirigindo-se ao pai, morto. Esse cenário voltará nas sequências finais desse belo longa dirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza.

Muito do seu encanto vem do protagonista, desenhado como ser problemático. Ele não se sente à vontade na aldeia. Teme ser levado à condição de pajé, destino que não deseja. Para escapar à sina, refugia-se na cidade, a pretexto de estar doente e precisar de tratamento médico. Na terra dos brancos será um estranho. Ninguém o compreende e seu desejo de permanecer mais tempo no abrigo governamental é visto como malandragem.

Se a história é interessante, não menos é a forma como o enredo se desenha numa visão respeitosa e profunda sobre a cultura indígena. Em muitos sentidos, Chuva é Cantoria? parece um documentário disfarçado de ficção. E vice-versa, uma história com viés documental para melhor se expressar.

O protagonista vê-se atormentado tanto pela vocação de se tornar xamã quanto por uma obrigação não realizada em relação à figura paterna. O pai morreu, mas a cerimônia fúnebre de sua despedida ainda não foi realizada. Ele não partiu de vez. Paira, como memória, sobre o filho. E sobre toda a aldeia. Será preciso realizar a cerimônia da tora. Um tronco de árvore é enfeitado pelo filho e a comunidade é convocada para chorar o homem morto pela última vez. Faz-se a cerimônia e, em seguida, a vida segue seu curso. Não se derramam mais lágrimas e não se evoca mais a lembrança do morto porque a rotina dos vivos deve seguir. Mas o filho não consegue realizar o luto e segue sentindo a presença do pai. Essa incapacidade será a sua condição trágica.

Neste momento em que a população indígena se encontra novamente ameaçada, este filme tem reforçada sua importância e atualidade. Sem falar de maneira direta em massacres (caso dos já clássicos Martírio, de Vincent Carelli, e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci), Chuva é Cantoria... acena como gesto de respeito à cultura indígena. À sua beleza e complexidade, já conhecidas há muito por etnólogos como Claude Lévi-Strauss. Não há nada de primitivo na maneira como indígenas se relacionam entre si e com a natureza. Pelo contrário, são sofisticadíssimos. Primitivos são os que ignoram essa cultura e cobiçam suas terras.



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A força e a beleza da cultura indígena em registro ficcional


22/04/2019 | 09:16


O título poético, talvez um tanto assustador - Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos - indica a história de uma vocação não assumida e um luto mal realizado. O protagonista é Ihjãc, jovem indígena da etnia Krahô. Na primeira cena o vemos em uma cachoeira dirigindo-se ao pai, morto. Esse cenário voltará nas sequências finais desse belo longa dirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza.

Muito do seu encanto vem do protagonista, desenhado como ser problemático. Ele não se sente à vontade na aldeia. Teme ser levado à condição de pajé, destino que não deseja. Para escapar à sina, refugia-se na cidade, a pretexto de estar doente e precisar de tratamento médico. Na terra dos brancos será um estranho. Ninguém o compreende e seu desejo de permanecer mais tempo no abrigo governamental é visto como malandragem.

Se a história é interessante, não menos é a forma como o enredo se desenha numa visão respeitosa e profunda sobre a cultura indígena. Em muitos sentidos, Chuva é Cantoria? parece um documentário disfarçado de ficção. E vice-versa, uma história com viés documental para melhor se expressar.

O protagonista vê-se atormentado tanto pela vocação de se tornar xamã quanto por uma obrigação não realizada em relação à figura paterna. O pai morreu, mas a cerimônia fúnebre de sua despedida ainda não foi realizada. Ele não partiu de vez. Paira, como memória, sobre o filho. E sobre toda a aldeia. Será preciso realizar a cerimônia da tora. Um tronco de árvore é enfeitado pelo filho e a comunidade é convocada para chorar o homem morto pela última vez. Faz-se a cerimônia e, em seguida, a vida segue seu curso. Não se derramam mais lágrimas e não se evoca mais a lembrança do morto porque a rotina dos vivos deve seguir. Mas o filho não consegue realizar o luto e segue sentindo a presença do pai. Essa incapacidade será a sua condição trágica.

Neste momento em que a população indígena se encontra novamente ameaçada, este filme tem reforçada sua importância e atualidade. Sem falar de maneira direta em massacres (caso dos já clássicos Martírio, de Vincent Carelli, e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci), Chuva é Cantoria... acena como gesto de respeito à cultura indígena. À sua beleza e complexidade, já conhecidas há muito por etnólogos como Claude Lévi-Strauss. Não há nada de primitivo na maneira como indígenas se relacionam entre si e com a natureza. Pelo contrário, são sofisticadíssimos. Primitivos são os que ignoram essa cultura e cobiçam suas terras.

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