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Simone Lima, jogadora de basquete de Santo André

Celso Luiz/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Anderson Fattori
Do Diário do Grande ABC

15/04/2019 | 07:00


Em março, o basquete feminino de Santo André perdeu uma de suas principais referências, a ex-treinadora Laís Elena, que morreu vítima de câncer. Mas seu legado permanece vivo, prova disso é a pivô Simone Lima, que veste a camisa andreense há 20 temporadas e continua contando. Uma das principais jogadoras da história, ela fala sobre os benefícios que a modalidade lhe trouxe e também as frustrações de ficar meses sem salário e ter de fazer bate e volta em viagens de 12 horas por falta de dinheiro. Símbolo de raça, Simone lamenta não ter tido chances na Seleção e expõe a diferença de tratamento dado aos homens e às mulheres na modalidade.

Há quanto tempo está em Santo André? Como tudo começou?
Cheguei em 1997, com 17 anos, peguei o começo do juvenil em Santo André. Nasci em Ribeirão Pires e, depois de assistir ao Mundial de 1994 na televisão, decidi que queria jogar. Meus pais foram atrás de escolinhas e iniciei na Vila Assis, em Mauá. Só saí em período curto. Em 2005 fui para São Bernardo, fiquei meio ano e depois fui para São Caetano. Retornei em 2007.

O que o basquete lhe trouxe nesses 22 anos?
Estou chegando aos 40 anos e fico pensando: ‘O que eu faço depois?’ Não fiz nada que não tenha sido o basquete. Cursei faculdade de fisioterapia, completei pós-graduação e agora me formei em educação física. Na verdade, o basquete me proporcionou isso. Alguns times tinham bolsa com faculdades. O esporte me trouxe amizades, de forma geral, de torcedores, pessoas que passaram aqui, como a Ariadna, a Ega e a Luciane, que são as minhas melhores amigas. Tem a Jaqueline, a Dominique, tenho convivência boa com todo mundo, foi isso que o basquete me trouxe.

Nesses anos jogou com atletas de todos os níveis, desde Janeth até as iniciantes, como são essas trocas de experiências?
Fui cobrada em época que não podia errar. Juvenil não fazia cesta, tinha de fazer corta luz para as mais experientes resolverem. Joguei com Paula, Janeth, sei do que eu gostei quando fui juvenil, da forma que era cobrada, como me passaram a experiência e uso muito esse filtro para saber chegar nas meninas. Posso estar explodindo, querendo dar um tapa na cabeça, mas não queria isso para mim, então eu chego e falo: ‘Não é dessa forma, tenta fazer assim’. Só que trago algumas coisas da escola da Laís, que é disciplina e hierarquia, isso para mim é fundamental. Arilza sempre foi emotiva, pegava a gente pelo braço, chamava no canto da quadra e dizia: ‘Você vai ou não vai?’ Tinha menina que ‘acendia’ e arrebentava, tinha outras que abaixavam a guarda. Por isso temos de saber com quem podemos ser mais enfáticas, com quem tem de ter calma. Mulher tem de saber lidar (risos).

Laís e Arilza, imagino que tenham representado algo semelhante à sua família pelo longo tempo de convivência. Quais marcas elas lhe deixaram?
Meu pai, que morreu há cinco meses, e minha mãe deram a base do meu caráter e da minha educação; elas fizeram todo o resto. No segundo treino contei para a Laís que estava com medo. Ela falou que isso não existe, que tinha de dominar o medo, encarar, ou ele iria me dominar. Disse que quem tem medo não joga. Isso mudou tudo para mim. Pensei que ou encarava o desafio ou desistia. Já a Arilza era diferente, falava que se a bola não estava caindo, tínhamos de demonstrar determinação e raça. Todo mundo sabe que não pontuo muito, isso por conta da Arilza, que despertou em mim paixão pela defesa, gostei desse lance de garra, de bater a cabeça na parede para lutar pelo rebote. A Laís foi mais na inteligência, mais mental. Foi o tempo inteiro razão e emoção com elas.

Quais foram suas principais referências no basquete?
Convivi muito tempo com a Leila e ela era um fenômeno em quadra que eu não sei explicar. Ela dava aquele corpo mole e do nada estava na sua frente, roubando a bola e fazendo bandeja. Uma sabedoria, tranquilidade, sabia cortar caminho, essa era a Leila. Sempre quis ter essa visão, bater no peito e pedir a bola. A Marina Ferragutti, a espanhola, foi a referência de gancho. Quando eu vi o que ela fazia, com a naturalidade, me deu referência. Mas uma pessoa que eu joguei contra, nunca fomos companheiras, é a Lisdeivi, a cubana. Essa, minha nossa, tinha hora que tinha de marcá-la, mas não sabia se defendia ou ‘pagava pau’ para o que ela estava fazendo. Ela tinha uma força, nunca foi muito rápida, nem explosiva, mas ninguém conseguia tirar a bola dela. Ela dominava a bola e te dominava em meio metro, isso que ela precisava. Eu revia o jogo para imitar as jogadas dela.

Depois de tanto tempo, o que ainda te motiva?
Olha, estamos com uma torcida que não é numerosa, mas é de uma intensidade e um carinho...Consegue abraçar cada jogadora de uma forma, com um respeito, que é fenomenal. Os pais das meninas da base conseguem cativar a gente de uma forma diferente. Esses dias eles montaram um vídeo com lances de jogos, e isso vai te motivando e te levando.

As meninas da categoria de base são suas fãs...
Tem coisas que faço na quadra que é pensando nelas. Quando penso em desistir, lembro que sou espelho para as meninas que estão na arquibancada e não posso desistir. Às vezes vou por elas. Acho que é igual ser pai e mãe, quando mostra por atitudes, é a mesma coisa.

Como está sua cabeça em relação à aposentadoria prestes a fazer 40 anos?
No começo do ano passado eu tinha decidido que seria meu último ano, mas as coisas foram em uma vertente diferente. Vi que aguentava mais, fomos campeãs do Campeonato Paulista e agora conversei com o Bruno (Guidorizzi, treinador) e não colocamos prazo. Vou até quando eu aguentar. Só que nossa comissão é ótima comigo. Eles administram a quantidade de treino. Não tenho de ter quantidade e sim qualidade. Fora da quadra eu treino mais do que todo mundo porque tenho de estar bem fisicamente. Às 6h, já estou na academia e, muitas vezes, às 23h também.

Mas pensa em fazer algo com relação à fisioterapia e à educação física?
Sinceramente, não sei responder. Minha vida inteira foi jogando basquete, penso nisso todo santo dia. Não me vejo enfiada em um escritório. Pode ser fisioterapia, mas não em clínica, não me vejo em uma escola dando aula de educação física. Pretendo ajudar Santo André de alguma forma, ser assistente do Bruno ou na preparação física, isso eu faria com muito prazer. Mas posso mudar de opinião amanhã, sou atleta ainda, quero jogar, brincar com as meninas, tenho muito prazer de vir duas vezes por dia para a quadra trabalhar.

Falamos de muitas coisas boas, mas e as frustrações que o basquete te trouxe, falta de perspectivas do futuro...
Quando perdemos o patrocínio da Polti e da Arcor (no fim da década de 1990) a gente não sabia se iria ter o próximo mês, mas uma coisa posso dizer: a Laís sempre brigou muito, literalmente, para manter o basquete feminino. Só que é triste. Minha vida é no basquete feminino, mas não é profissional, com carteira assinada. Meu salário sai daqui, você abdica de outras coisas para estar aqui e quando você depende de outras pessoas para pagar seu convênio, colocar comida dentro de casa e elas não acham que têm que pagar, acham que é só um esporte. Na última gestão da Prefeitura ficamos seis meses para receber e eu fui uma das atletas que procuraram fazer algo por fora, só não largamos por respeito à Laís e à Arilza. Aconteceram muitas coisas, como viajar 12 horas e não ter como ficar alojadas, fazer bate e volta, não ter como parar na estrada para comer, tinha de ser pão com presunto no ônibus mesmo. A parada era só para ir ao banheiro. Trazíamos coisas de casa. Ao invés de você sustentar sua família, nós pegávamos de casa para trazer para cá. Essa falta de profissionalismo é muito triste. Outra frustração como atleta foi meu corte da Seleção Brasileira. Lutei tanto para estar lá e quando fui chamada tive uma lesão séria do tendão do pé esquerdo e fui cortada. Íamos fazer pré-temporada na China e depois disputar o Sul-Americano, em 2011.

Falando nisso, acha que foi injustiçada na Seleção?
Tenho certeza. Tinha técnico que conciliava o trabalho no clube e levava o time inteiro dele para a Seleção Brasileira. Isso desmotiva num tanto! Tinha ano que eu estourava e nem fui testada. Isso é nojento, é porco, mas existiu.

Como vê essa diferença entre masculino e feminino no esporte, principalmente no basquete?
Não tenha sombra de dúvida que é diferente o tratamento de um para o outro. Sei de coisas que deixaram as meninas de lado. Na Seleção Brasileira, os homens ganham cinco vezes mais que as mulheres. Eles ficam em hotéis, um jogador por quarto, e a feminina, alojada embaixo de arquibancada. Masculino ganha tênis de marca. As meninas precisam guardar dinheiro para comprar. Masculino está sempre na mídia. O feminino precisa implorar para transmitir uma partida. Não sei por que o masculino não quer trazer o feminino. Está sobrando (dinheiro) para eles, preferem fechar entre eles e gastam em luxo. É triste demais.

Nesse tempo todo de Santo André teve oportunidades para sair?
Tive, inclusive, na Lituânia e Portugal, mas não quis por conta dos meus pais. Foi opção exclusiva minha. Aqui estou por perto, em menos de uma hora estou na casa deles (em Ribeirão Pires) se precisar.

Arrepende-se em algum momento?
Não. Foi minha escolha. Sabia que iria receber menos do salário que era me ofertado, mas eu pensava em jogar basquete perto do meu pai e da minha mãe.

RAIO X
Nome: Simone Inácio de Lima.
Estado civil: Solteira.
Idade: 39 anos.
Local de nascimento: São Paulo; atualmente mora em Santo André.
Formação: Fisioterapeuta pós-graduada e tem licenciatura e bacharelado em educação física.
Hobby: Esportes e mundo dos super-heróis.
Paixões: Meus pais.
Livro: O que estiver conveniente para o momento vivido.
Profissão: Jogadora de basquete.
Onde trabalha: Atleta da equipe andreense de basquete.



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Simone Lima, jogadora de basquete de Santo André

Anderson Fattori
Do Diário do Grande ABC

15/04/2019 | 07:00


Em março, o basquete feminino de Santo André perdeu uma de suas principais referências, a ex-treinadora Laís Elena, que morreu vítima de câncer. Mas seu legado permanece vivo, prova disso é a pivô Simone Lima, que veste a camisa andreense há 20 temporadas e continua contando. Uma das principais jogadoras da história, ela fala sobre os benefícios que a modalidade lhe trouxe e também as frustrações de ficar meses sem salário e ter de fazer bate e volta em viagens de 12 horas por falta de dinheiro. Símbolo de raça, Simone lamenta não ter tido chances na Seleção e expõe a diferença de tratamento dado aos homens e às mulheres na modalidade.

Há quanto tempo está em Santo André? Como tudo começou?
Cheguei em 1997, com 17 anos, peguei o começo do juvenil em Santo André. Nasci em Ribeirão Pires e, depois de assistir ao Mundial de 1994 na televisão, decidi que queria jogar. Meus pais foram atrás de escolinhas e iniciei na Vila Assis, em Mauá. Só saí em período curto. Em 2005 fui para São Bernardo, fiquei meio ano e depois fui para São Caetano. Retornei em 2007.

O que o basquete lhe trouxe nesses 22 anos?
Estou chegando aos 40 anos e fico pensando: ‘O que eu faço depois?’ Não fiz nada que não tenha sido o basquete. Cursei faculdade de fisioterapia, completei pós-graduação e agora me formei em educação física. Na verdade, o basquete me proporcionou isso. Alguns times tinham bolsa com faculdades. O esporte me trouxe amizades, de forma geral, de torcedores, pessoas que passaram aqui, como a Ariadna, a Ega e a Luciane, que são as minhas melhores amigas. Tem a Jaqueline, a Dominique, tenho convivência boa com todo mundo, foi isso que o basquete me trouxe.

Nesses anos jogou com atletas de todos os níveis, desde Janeth até as iniciantes, como são essas trocas de experiências?
Fui cobrada em época que não podia errar. Juvenil não fazia cesta, tinha de fazer corta luz para as mais experientes resolverem. Joguei com Paula, Janeth, sei do que eu gostei quando fui juvenil, da forma que era cobrada, como me passaram a experiência e uso muito esse filtro para saber chegar nas meninas. Posso estar explodindo, querendo dar um tapa na cabeça, mas não queria isso para mim, então eu chego e falo: ‘Não é dessa forma, tenta fazer assim’. Só que trago algumas coisas da escola da Laís, que é disciplina e hierarquia, isso para mim é fundamental. Arilza sempre foi emotiva, pegava a gente pelo braço, chamava no canto da quadra e dizia: ‘Você vai ou não vai?’ Tinha menina que ‘acendia’ e arrebentava, tinha outras que abaixavam a guarda. Por isso temos de saber com quem podemos ser mais enfáticas, com quem tem de ter calma. Mulher tem de saber lidar (risos).

Laís e Arilza, imagino que tenham representado algo semelhante à sua família pelo longo tempo de convivência. Quais marcas elas lhe deixaram?
Meu pai, que morreu há cinco meses, e minha mãe deram a base do meu caráter e da minha educação; elas fizeram todo o resto. No segundo treino contei para a Laís que estava com medo. Ela falou que isso não existe, que tinha de dominar o medo, encarar, ou ele iria me dominar. Disse que quem tem medo não joga. Isso mudou tudo para mim. Pensei que ou encarava o desafio ou desistia. Já a Arilza era diferente, falava que se a bola não estava caindo, tínhamos de demonstrar determinação e raça. Todo mundo sabe que não pontuo muito, isso por conta da Arilza, que despertou em mim paixão pela defesa, gostei desse lance de garra, de bater a cabeça na parede para lutar pelo rebote. A Laís foi mais na inteligência, mais mental. Foi o tempo inteiro razão e emoção com elas.

Quais foram suas principais referências no basquete?
Convivi muito tempo com a Leila e ela era um fenômeno em quadra que eu não sei explicar. Ela dava aquele corpo mole e do nada estava na sua frente, roubando a bola e fazendo bandeja. Uma sabedoria, tranquilidade, sabia cortar caminho, essa era a Leila. Sempre quis ter essa visão, bater no peito e pedir a bola. A Marina Ferragutti, a espanhola, foi a referência de gancho. Quando eu vi o que ela fazia, com a naturalidade, me deu referência. Mas uma pessoa que eu joguei contra, nunca fomos companheiras, é a Lisdeivi, a cubana. Essa, minha nossa, tinha hora que tinha de marcá-la, mas não sabia se defendia ou ‘pagava pau’ para o que ela estava fazendo. Ela tinha uma força, nunca foi muito rápida, nem explosiva, mas ninguém conseguia tirar a bola dela. Ela dominava a bola e te dominava em meio metro, isso que ela precisava. Eu revia o jogo para imitar as jogadas dela.

Depois de tanto tempo, o que ainda te motiva?
Olha, estamos com uma torcida que não é numerosa, mas é de uma intensidade e um carinho...Consegue abraçar cada jogadora de uma forma, com um respeito, que é fenomenal. Os pais das meninas da base conseguem cativar a gente de uma forma diferente. Esses dias eles montaram um vídeo com lances de jogos, e isso vai te motivando e te levando.

As meninas da categoria de base são suas fãs...
Tem coisas que faço na quadra que é pensando nelas. Quando penso em desistir, lembro que sou espelho para as meninas que estão na arquibancada e não posso desistir. Às vezes vou por elas. Acho que é igual ser pai e mãe, quando mostra por atitudes, é a mesma coisa.

Como está sua cabeça em relação à aposentadoria prestes a fazer 40 anos?
No começo do ano passado eu tinha decidido que seria meu último ano, mas as coisas foram em uma vertente diferente. Vi que aguentava mais, fomos campeãs do Campeonato Paulista e agora conversei com o Bruno (Guidorizzi, treinador) e não colocamos prazo. Vou até quando eu aguentar. Só que nossa comissão é ótima comigo. Eles administram a quantidade de treino. Não tenho de ter quantidade e sim qualidade. Fora da quadra eu treino mais do que todo mundo porque tenho de estar bem fisicamente. Às 6h, já estou na academia e, muitas vezes, às 23h também.

Mas pensa em fazer algo com relação à fisioterapia e à educação física?
Sinceramente, não sei responder. Minha vida inteira foi jogando basquete, penso nisso todo santo dia. Não me vejo enfiada em um escritório. Pode ser fisioterapia, mas não em clínica, não me vejo em uma escola dando aula de educação física. Pretendo ajudar Santo André de alguma forma, ser assistente do Bruno ou na preparação física, isso eu faria com muito prazer. Mas posso mudar de opinião amanhã, sou atleta ainda, quero jogar, brincar com as meninas, tenho muito prazer de vir duas vezes por dia para a quadra trabalhar.

Falamos de muitas coisas boas, mas e as frustrações que o basquete te trouxe, falta de perspectivas do futuro...
Quando perdemos o patrocínio da Polti e da Arcor (no fim da década de 1990) a gente não sabia se iria ter o próximo mês, mas uma coisa posso dizer: a Laís sempre brigou muito, literalmente, para manter o basquete feminino. Só que é triste. Minha vida é no basquete feminino, mas não é profissional, com carteira assinada. Meu salário sai daqui, você abdica de outras coisas para estar aqui e quando você depende de outras pessoas para pagar seu convênio, colocar comida dentro de casa e elas não acham que têm que pagar, acham que é só um esporte. Na última gestão da Prefeitura ficamos seis meses para receber e eu fui uma das atletas que procuraram fazer algo por fora, só não largamos por respeito à Laís e à Arilza. Aconteceram muitas coisas, como viajar 12 horas e não ter como ficar alojadas, fazer bate e volta, não ter como parar na estrada para comer, tinha de ser pão com presunto no ônibus mesmo. A parada era só para ir ao banheiro. Trazíamos coisas de casa. Ao invés de você sustentar sua família, nós pegávamos de casa para trazer para cá. Essa falta de profissionalismo é muito triste. Outra frustração como atleta foi meu corte da Seleção Brasileira. Lutei tanto para estar lá e quando fui chamada tive uma lesão séria do tendão do pé esquerdo e fui cortada. Íamos fazer pré-temporada na China e depois disputar o Sul-Americano, em 2011.

Falando nisso, acha que foi injustiçada na Seleção?
Tenho certeza. Tinha técnico que conciliava o trabalho no clube e levava o time inteiro dele para a Seleção Brasileira. Isso desmotiva num tanto! Tinha ano que eu estourava e nem fui testada. Isso é nojento, é porco, mas existiu.

Como vê essa diferença entre masculino e feminino no esporte, principalmente no basquete?
Não tenha sombra de dúvida que é diferente o tratamento de um para o outro. Sei de coisas que deixaram as meninas de lado. Na Seleção Brasileira, os homens ganham cinco vezes mais que as mulheres. Eles ficam em hotéis, um jogador por quarto, e a feminina, alojada embaixo de arquibancada. Masculino ganha tênis de marca. As meninas precisam guardar dinheiro para comprar. Masculino está sempre na mídia. O feminino precisa implorar para transmitir uma partida. Não sei por que o masculino não quer trazer o feminino. Está sobrando (dinheiro) para eles, preferem fechar entre eles e gastam em luxo. É triste demais.

Nesse tempo todo de Santo André teve oportunidades para sair?
Tive, inclusive, na Lituânia e Portugal, mas não quis por conta dos meus pais. Foi opção exclusiva minha. Aqui estou por perto, em menos de uma hora estou na casa deles (em Ribeirão Pires) se precisar.

Arrepende-se em algum momento?
Não. Foi minha escolha. Sabia que iria receber menos do salário que era me ofertado, mas eu pensava em jogar basquete perto do meu pai e da minha mãe.

RAIO X
Nome: Simone Inácio de Lima.
Estado civil: Solteira.
Idade: 39 anos.
Local de nascimento: São Paulo; atualmente mora em Santo André.
Formação: Fisioterapeuta pós-graduada e tem licenciatura e bacharelado em educação física.
Hobby: Esportes e mundo dos super-heróis.
Paixões: Meus pais.
Livro: O que estiver conveniente para o momento vivido.
Profissão: Jogadora de basquete.
Onde trabalha: Atleta da equipe andreense de basquete.

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