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Brasil, Oriente Médio e as sete cidades


Roberto Vital Anau*

05/04/2019 | 07:08


Nesta semana, o presidente da República realizou visita a Israel. Lá, anunciou a abertura de escritório em Jerusalém. Após o anúncio, a Autoridade Palestina condenou a decisão e afirmou que chamará o seu embaixador no Brasil para avaliar a resposta adequada. O conflito é claro.

Desde janeiro, início do atual mandato, o governo sinaliza sua disposição de acompanhar a decisão do governo dos Estados Unidos de reconhecer a cidade de Jerusalém como capital do Estado de Israel. O assunto é polêmico. Jerusalém, uma das mais antigas cidades do mundo, tem caráter sagrado para as três grandes religiões monoteístas que influenciaram as culturas europeia e ocidental: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para os fiéis dessas religiões, são símbolos de natureza histórica, transcendente e emocional: o Muro das Lamentações, remanescente do templo de Salomão, reconstruído pelos judeus após o retorno do cativeiro babilônico; a Igreja do Santo Sepulcro, à qual não se pode deixar de associar também a Via Sacra e o Monte Gólgota, profundamente relacionados à Paixão de Cristo; e a mesquita de Al-Aksa, erguida no local de onde o profeta Maomé – o maior de todos os profetas, segundo a crença muçulmana – teria ascendido aos céus.

Com tamanha carga simbólica e religiosa, a cidade foi disputada em épocas diversas, como nas Cruzadas na Idade Média e no conflito palestino-israelense desde a fundação do Estado de Israel, em 1948. O movimento nacional palestino reivindica Jerusalém como capital de seu pretendido Estado, tanto quanto Israel considera-a sua capital “una e indivisível”. Até agora, a maioria das nações-membros da ONU mantinha atitude prudente ante a disputa pela cidade histórica. O não resolvido conflito soma-se à convicção de que apenas a criação de um Estado palestino soberano poderá abrir nova página na história da região, quiçá mais pacífica.

O conflito afeta as relações internacionais, movimentos políticos e militantes, incluindo organizações terroristas e outras que recusam tal caminho, mas persistem em sua luta em defesa do povo palestino e dos direitos dos povos islâmicos em diversos países. A economia internacional sofre os efeitos dos movimentos políticos relacionados, como no impacto das altas sucessivas do preço do petróleo, na década de 1970, decretadas pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo, sob forte pressão dos países árabes, e na derrubada das torres gêmeas de Nova York, em 2011.

O Brasil manteve sempre postura neutra e se esforçou em fortalecer os mecanismos de negociação em busca da paz. Essa é uma marca histórica de nossa diplomacia. A adesão do País à beligerância pró-Israel põe em xeque as crescentes relações econômicas do Brasil com o Oriente Médio.

O tema é de interesse direto do Grande ABC e foi objeto de artigo que apresentei no Observatório da USCS. A região tem relações de comércio com o Oriente Médio. Recentemente, o próprio poder público local buscou incentivar este relacionamento, por meio do Arranjo Produtivo Local Moveleiro em São Bernardo. A comunidade islâmica é expressiva no Grande ABC. Um símbolo maior de sua identidade religiosa e cultural é a mesquita Abu Bakr Assadik, em São Bernardo. A comunidade islâmica local identifica-se muito com os interesses e posicionamentos dos países islâmicos. A nova postura do Brasil pode reduzir investimentos no Brasil, inclusive no Grande ABC.

O Oriente Médio não é irrelevante como mercado de destino para a produção local. Os países da Liga Árabe representaram 6,2% das exportações da região em 2017. Para alguns municípios, em particular, elas são bem mais expressivas: Ribeirão Pires (28,4% do total em 2017 e 15,1% do total em 2018) e São Bernardo (7,1% e 3,3%, respectivamente). As exportações para Israel ocupam peso muito inferior: 0,3% e 0,2% do total nos dois anos citados. Para Santo André e Mauá, Israel representou fração mais expressiva na receita externa, comparativamente à Liga Árabe, fato mais que compensado nos demais municípios.

O Grande ABC deve acompanhar com interesse e preocupação os próximos passos da diplomacia brasileira no Oriente Médio, se deseja ampliar, como já ocorreu em épocas recentes, as relações econômicas com a região. O assunto é de interesse geral, pois afeta emprego, renda, escalas de produção e internacionalização das empresas desta região.


* Docente e pesquisador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano)
 



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Brasil, Oriente Médio e as sete cidades

Roberto Vital Anau*

05/04/2019 | 07:08


Nesta semana, o presidente da República realizou visita a Israel. Lá, anunciou a abertura de escritório em Jerusalém. Após o anúncio, a Autoridade Palestina condenou a decisão e afirmou que chamará o seu embaixador no Brasil para avaliar a resposta adequada. O conflito é claro.

Desde janeiro, início do atual mandato, o governo sinaliza sua disposição de acompanhar a decisão do governo dos Estados Unidos de reconhecer a cidade de Jerusalém como capital do Estado de Israel. O assunto é polêmico. Jerusalém, uma das mais antigas cidades do mundo, tem caráter sagrado para as três grandes religiões monoteístas que influenciaram as culturas europeia e ocidental: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Para os fiéis dessas religiões, são símbolos de natureza histórica, transcendente e emocional: o Muro das Lamentações, remanescente do templo de Salomão, reconstruído pelos judeus após o retorno do cativeiro babilônico; a Igreja do Santo Sepulcro, à qual não se pode deixar de associar também a Via Sacra e o Monte Gólgota, profundamente relacionados à Paixão de Cristo; e a mesquita de Al-Aksa, erguida no local de onde o profeta Maomé – o maior de todos os profetas, segundo a crença muçulmana – teria ascendido aos céus.

Com tamanha carga simbólica e religiosa, a cidade foi disputada em épocas diversas, como nas Cruzadas na Idade Média e no conflito palestino-israelense desde a fundação do Estado de Israel, em 1948. O movimento nacional palestino reivindica Jerusalém como capital de seu pretendido Estado, tanto quanto Israel considera-a sua capital “una e indivisível”. Até agora, a maioria das nações-membros da ONU mantinha atitude prudente ante a disputa pela cidade histórica. O não resolvido conflito soma-se à convicção de que apenas a criação de um Estado palestino soberano poderá abrir nova página na história da região, quiçá mais pacífica.

O conflito afeta as relações internacionais, movimentos políticos e militantes, incluindo organizações terroristas e outras que recusam tal caminho, mas persistem em sua luta em defesa do povo palestino e dos direitos dos povos islâmicos em diversos países. A economia internacional sofre os efeitos dos movimentos políticos relacionados, como no impacto das altas sucessivas do preço do petróleo, na década de 1970, decretadas pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo, sob forte pressão dos países árabes, e na derrubada das torres gêmeas de Nova York, em 2011.

O Brasil manteve sempre postura neutra e se esforçou em fortalecer os mecanismos de negociação em busca da paz. Essa é uma marca histórica de nossa diplomacia. A adesão do País à beligerância pró-Israel põe em xeque as crescentes relações econômicas do Brasil com o Oriente Médio.

O tema é de interesse direto do Grande ABC e foi objeto de artigo que apresentei no Observatório da USCS. A região tem relações de comércio com o Oriente Médio. Recentemente, o próprio poder público local buscou incentivar este relacionamento, por meio do Arranjo Produtivo Local Moveleiro em São Bernardo. A comunidade islâmica é expressiva no Grande ABC. Um símbolo maior de sua identidade religiosa e cultural é a mesquita Abu Bakr Assadik, em São Bernardo. A comunidade islâmica local identifica-se muito com os interesses e posicionamentos dos países islâmicos. A nova postura do Brasil pode reduzir investimentos no Brasil, inclusive no Grande ABC.

O Oriente Médio não é irrelevante como mercado de destino para a produção local. Os países da Liga Árabe representaram 6,2% das exportações da região em 2017. Para alguns municípios, em particular, elas são bem mais expressivas: Ribeirão Pires (28,4% do total em 2017 e 15,1% do total em 2018) e São Bernardo (7,1% e 3,3%, respectivamente). As exportações para Israel ocupam peso muito inferior: 0,3% e 0,2% do total nos dois anos citados. Para Santo André e Mauá, Israel representou fração mais expressiva na receita externa, comparativamente à Liga Árabe, fato mais que compensado nos demais municípios.

O Grande ABC deve acompanhar com interesse e preocupação os próximos passos da diplomacia brasileira no Oriente Médio, se deseja ampliar, como já ocorreu em épocas recentes, as relações econômicas com a região. O assunto é de interesse geral, pois afeta emprego, renda, escalas de produção e internacionalização das empresas desta região.


* Docente e pesquisador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano)
 

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