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Vera Cruz abriga estreia


Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

20/08/2010 | 07:01


Para o teatro, não haveria melhor maneira de celebração. Dentro das festas de 457 anos de São Bernardo, os antigos estúdios Vera Cruz recebem a estreia de O Hóspede Secreto, com Cacá Carvalho - apresentado hoje para convidados e a partir de amanhã com entrada franca ao público em geral, até dia 29.

Com texto do italiano Stefano Geraci, baseado nos escritos do diretor teatral francês Louis Jouvet, sobre reflexões e recomendações do ofício do ator, a obra é um compêndio dos tipos que compuseram a história do teatro. Faz parte da parceria entre Casa Laboratório para as Artes do Teatro, de Cacá e a Fondazione Pontedera Teatro da Itália.

Permeando o roteiro, um ator (Cacá) contempla o vazio de dar vida a tantas histórias e não ter dado atenção a si próprio. É acossado por um jovem (Joana Levi), que no cotidiano lhe dá mostras do seu drama.

"Todos assumimos personagens. Geralmente para tocar e se relacionar com o outro. Tem o do bancário, do gerente... mas o que a peça discute não é somente a questão do teatro, mas também os personagens que nos povoam e que não permitem que nos assumimos enquanto persona", disse Cacá, depois do ensaio acompanhado pelo Diário anteontem.

"Entre o ator e os outros homens, a diferença está na consciência de assumir os personagens. No palco, o ator mostra sua construção, aquilo que na vida normal é escondido pela cotidianidade e automatismo", contou o diretor italiano Roberto Bacci, acrescentando que entre esses papéis forjados socialmente algo de verdadeiro e único de cada ser humano se perde: "Cresceu a máscara e encerrou as pessoas dentro de um invólucro. Isso não nos permite mais nos encontrarmos para falar como seres humanos."

"No teatro podemos observar como nasce, se desenvolve e como podemos interrogá-lo, despí-lo, para vê-lo em sua possibilidade completa", finaliza Carvalho.

INICIATIVA
"O primeiro estudo do espetáculo foi em agosto do ano passado. Em outubro nos apresentamos na Itália. Desde lá até sexta não havíamos conseguido apoio para sua estreia", comentou Cacá, que revelou que o convite aconteceu com sincronismo. "Ao mesmo tempo em que procurávamos, fomos procurados. Quando o Leopoldo (Nunes, secretário de Cultura de São Bernardo) disse que seria na Vera Cruz, senti que era o lugar certo. É onde os personagens ainda estão vagando", disse o ator.

O Hóspede Secreto - Teatro. Nos Estúdios Vera Cruz - Avenida Lucas Nogueira Garcez, 769, São Bernardo. Amanhã, dom. e dias 25, 26, 27, 28 e 29. 4ª a sáb., às 21h; dom., às 19h. Grátis.

Do aplauso ao vazio
O Hóspede Secreto, ao contrário da tradição, começa nos aplausos e termina no vazio.
O grande ator, atormentado pela hipocrisia e maldade que povoam o cotidiano dos homens, larga os fantasmas do grande teatro, que lhe suscitavam a representação corrompida das vicissitudes encenadas.

Solitário, é perseguido pela sombra de um vivaz e rudimentar jovem, que, no mínimo, demonstra - nos pequenos gestos em que se dá para o outro - o quanto o pouco é muito na busca da verdade.

Sempre hóspede de si mesmo, nas caronas que pega através dos grandes clássicos que encena, o personagem confronta o sonho e a realidade. Os outros que se apaixonam, que roubam, que matam contra si próprio, que deseja a vida em todo seu potencial, mas não quer desgastá-la numa busca mais humanizada (errante).

Moliére, mestre da comédia, ecoa nesta busca. Sob inspiração do cômico, a tragédia é erigida. Só a pincelada do riso é capaz de desnudar e pôr em roupas comuns os grandes dramas que, nas tragédias, assolam tudo menos a moral da sociedade aristocrática corrompida.

Elementos cênicos não faltam para retratar esse confronto. Manequins sem cabeça, espelhos, cama com o colchão atravessado compõem o clássico, que através de exemplos desse estilo resvalam para questões atuais.

Quem está fora da cena se inclui na abordagem. Procura, por rastros de sua identidade, identificar no quê representa e quando verdadeiramente se apresenta.

Os sonhos do personagem vão desvanescendo, a moça desejada some como um espectro ao abandonar o vestido. Logo, ele se depara com o vazio de ter visto toda sua vida passar pelo lado de fora.

Negando ser como os outros, humano, ele deixou de fazer parte da vida.

Espaço recebe exposição
Completando a programação, junto às apresentações de O Hóspede Secreto, abre-se exposição sobre a parceria entre o ator e diretor Cacá Carvalho e a Fondazione Pontedera Teatro, da Itália.

Vídeos, objetos cenográficos e textos compõem a trajetória do grupo, que já realizou cinco espetáculos.

"A ideia é instaurar a Casa Laboratório neste lugar. O público entra por uma grande fechadura e encontra um lounge e a exposição sobre os trabalhos realizados lá. É a trajetória de conhecer o espaço, sorver o universo e desembocar no espetáculo, que é o fruto mais recente desta união", conta o produtor Zé Renato. Informações sobre os horários de visita e reserva de ingressos devem ser obtidas pelo telefone 3031-7138 ou pelo e-mail para rsvp@corporastreado.com

Juntos há seis anos, os grupos mantêm centro de pesquisa e produção artística que engloba a troca de experiências e práticas teatrais entre os dois países. "Cacá é uma pessoa que procura constantemente o sentido da própria profissão.Teatro é busca, onde cada um se exprime de forma diferente. Ele traz a verdadeira pergunta sobre os porquês da vida", diz o diretor Roberto Bacci, sobre a parceria, que não encontra diferenças na maneira de fazer teatro, mas semelhanças na busca de realizá-lo. (Thiago Mariano)



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Vera Cruz abriga estreia

Thiago Mariano
Do Diário do Grande ABC

20/08/2010 | 07:01


Para o teatro, não haveria melhor maneira de celebração. Dentro das festas de 457 anos de São Bernardo, os antigos estúdios Vera Cruz recebem a estreia de O Hóspede Secreto, com Cacá Carvalho - apresentado hoje para convidados e a partir de amanhã com entrada franca ao público em geral, até dia 29.

Com texto do italiano Stefano Geraci, baseado nos escritos do diretor teatral francês Louis Jouvet, sobre reflexões e recomendações do ofício do ator, a obra é um compêndio dos tipos que compuseram a história do teatro. Faz parte da parceria entre Casa Laboratório para as Artes do Teatro, de Cacá e a Fondazione Pontedera Teatro da Itália.

Permeando o roteiro, um ator (Cacá) contempla o vazio de dar vida a tantas histórias e não ter dado atenção a si próprio. É acossado por um jovem (Joana Levi), que no cotidiano lhe dá mostras do seu drama.

"Todos assumimos personagens. Geralmente para tocar e se relacionar com o outro. Tem o do bancário, do gerente... mas o que a peça discute não é somente a questão do teatro, mas também os personagens que nos povoam e que não permitem que nos assumimos enquanto persona", disse Cacá, depois do ensaio acompanhado pelo Diário anteontem.

"Entre o ator e os outros homens, a diferença está na consciência de assumir os personagens. No palco, o ator mostra sua construção, aquilo que na vida normal é escondido pela cotidianidade e automatismo", contou o diretor italiano Roberto Bacci, acrescentando que entre esses papéis forjados socialmente algo de verdadeiro e único de cada ser humano se perde: "Cresceu a máscara e encerrou as pessoas dentro de um invólucro. Isso não nos permite mais nos encontrarmos para falar como seres humanos."

"No teatro podemos observar como nasce, se desenvolve e como podemos interrogá-lo, despí-lo, para vê-lo em sua possibilidade completa", finaliza Carvalho.

INICIATIVA
"O primeiro estudo do espetáculo foi em agosto do ano passado. Em outubro nos apresentamos na Itália. Desde lá até sexta não havíamos conseguido apoio para sua estreia", comentou Cacá, que revelou que o convite aconteceu com sincronismo. "Ao mesmo tempo em que procurávamos, fomos procurados. Quando o Leopoldo (Nunes, secretário de Cultura de São Bernardo) disse que seria na Vera Cruz, senti que era o lugar certo. É onde os personagens ainda estão vagando", disse o ator.

O Hóspede Secreto - Teatro. Nos Estúdios Vera Cruz - Avenida Lucas Nogueira Garcez, 769, São Bernardo. Amanhã, dom. e dias 25, 26, 27, 28 e 29. 4ª a sáb., às 21h; dom., às 19h. Grátis.

Do aplauso ao vazio
O Hóspede Secreto, ao contrário da tradição, começa nos aplausos e termina no vazio.
O grande ator, atormentado pela hipocrisia e maldade que povoam o cotidiano dos homens, larga os fantasmas do grande teatro, que lhe suscitavam a representação corrompida das vicissitudes encenadas.

Solitário, é perseguido pela sombra de um vivaz e rudimentar jovem, que, no mínimo, demonstra - nos pequenos gestos em que se dá para o outro - o quanto o pouco é muito na busca da verdade.

Sempre hóspede de si mesmo, nas caronas que pega através dos grandes clássicos que encena, o personagem confronta o sonho e a realidade. Os outros que se apaixonam, que roubam, que matam contra si próprio, que deseja a vida em todo seu potencial, mas não quer desgastá-la numa busca mais humanizada (errante).

Moliére, mestre da comédia, ecoa nesta busca. Sob inspiração do cômico, a tragédia é erigida. Só a pincelada do riso é capaz de desnudar e pôr em roupas comuns os grandes dramas que, nas tragédias, assolam tudo menos a moral da sociedade aristocrática corrompida.

Elementos cênicos não faltam para retratar esse confronto. Manequins sem cabeça, espelhos, cama com o colchão atravessado compõem o clássico, que através de exemplos desse estilo resvalam para questões atuais.

Quem está fora da cena se inclui na abordagem. Procura, por rastros de sua identidade, identificar no quê representa e quando verdadeiramente se apresenta.

Os sonhos do personagem vão desvanescendo, a moça desejada some como um espectro ao abandonar o vestido. Logo, ele se depara com o vazio de ter visto toda sua vida passar pelo lado de fora.

Negando ser como os outros, humano, ele deixou de fazer parte da vida.

Espaço recebe exposição
Completando a programação, junto às apresentações de O Hóspede Secreto, abre-se exposição sobre a parceria entre o ator e diretor Cacá Carvalho e a Fondazione Pontedera Teatro, da Itália.

Vídeos, objetos cenográficos e textos compõem a trajetória do grupo, que já realizou cinco espetáculos.

"A ideia é instaurar a Casa Laboratório neste lugar. O público entra por uma grande fechadura e encontra um lounge e a exposição sobre os trabalhos realizados lá. É a trajetória de conhecer o espaço, sorver o universo e desembocar no espetáculo, que é o fruto mais recente desta união", conta o produtor Zé Renato. Informações sobre os horários de visita e reserva de ingressos devem ser obtidas pelo telefone 3031-7138 ou pelo e-mail para rsvp@corporastreado.com

Juntos há seis anos, os grupos mantêm centro de pesquisa e produção artística que engloba a troca de experiências e práticas teatrais entre os dois países. "Cacá é uma pessoa que procura constantemente o sentido da própria profissão.Teatro é busca, onde cada um se exprime de forma diferente. Ele traz a verdadeira pergunta sobre os porquês da vida", diz o diretor Roberto Bacci, sobre a parceria, que não encontra diferenças na maneira de fazer teatro, mas semelhanças na busca de realizá-lo. (Thiago Mariano)

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