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Galerias urbanas

André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Professor da USCS mostra roteiro cheio de história por trás da arquitetura desses ambientes da Capital


Enio Moro Junior*

13/03/2019 | 22:11


Parece improvável conhecer e se apaixonar por novas espacialidades em um território tão castigado: o Centro de São Paulo. Conforme as diretrizes pedagógicas do curso de arquitetura e urbanismo da USCS (Universidade de São Caetano), reunimos nossos estudantes, seus professores e ainda convidamos profissionais de destaque regional para uma incursão na região central da Capital.

Nosso tema foi promover o encantamento por modelo de intervenção urbana tão querido da arquitetura em várias partes do mundo mas que, no Brasil, sucumbiu à insipidez dos shoppings: as galerias urbanas do Centro de São Paulo, tão instigadoras e provocantes, que conseguem resistir, com a dignidade de velhas senhoras, nesses tempos tão inversos que vivemos.

Que cidade é essa que esconde suas belezas? A força incansável da transformação urbana em São Paulo, que trata igualmente, com o mesmo desprezo, tanto os projetos ruins como também aqueles que possuem uma qualidade arquitetônica mais refinada, apresenta sua melhor tradução no Centro de São Paulo.

Para fruir, desarme seu olhar. Esqueça o olhar do zelador. Releve calçadas quebradas, sua prevenção aos moradores de rua, ambulantes e vozeirões dos pregadores religiosos. Superado isso (que é muito fácil perante a beleza arquitetônica da cidade), vamos tematizar e conhecer as galerias urbanas e outros ícones do Centro de São Paulo.

A partir da década de 1940, o chamado Centro Novo de São Paulo caracterizou-se pela construção de edifícios modernos e abertura de grandes avenidas, como foi o caso das avenidas Ipiranga e São Luís. Nesses locais, as calçadas generosas para pedestres valorizavam o alto e constante fluxo de pessoas, propiciando encontros a várias gerações e usos compartilhados de trabalho, moradia e diversão. Esses locais liberavam o uso do térreo como espaço público, abrindo para a circulação e propiciando congraçamento, criando comércios e serviços, como restaurantes, cafés, livrarias, espaços expositivos. Começava mudança de hábitos dessa população do Centro Novo, propiciando olhar mais cosmopolita da pós-colonial São Paulo. Nesta senda, a implantação das galerias urbanas e suas possibilidades de conexão de espaços, proteção contra intempéries, organização de percursos e oferecimento de novos olhares e sensações foram marcantes na cidade.

PERCURSO - O roteiro da visita foi organizado pelos professores Luis Octávio Rocha (História da Arte) e Jackson Dualibi (Projeto de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo) e tivemos cerca de 30 investigadores, com especial adesão dos estudantes.

Em amena manhã de sábado, começamos pelo Edifício Copan, projeto de 1951 do arquiteto Oscar Niemeyer, na Avenida Ipiranga, onde na galeria, além do comércio, convivia o saudoso Cine Copan (hoje espaço religioso fechado), importante sala de cinema até os anos 1990. Saímos pela Avenida São Luís, onde visitamos o Edifício Louvre, projeto de Artacho Jurado de 1958, não antes passeando pela Galeria Zarvos, do arquiteto Julio Neves (1961), e ainda pela Biblioteca Municipal de São Paulo, do arquiteto Jacques Pilon. Tudo isso em poucos metros.

Atravessamos até a Praça Dom Jose Gaspar para nos conectar à Galeria Metrópole, projeto dos arquitetos Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia, de 1960, que tem como característica grande vão central possibilitando iluminação natural e convivência, como se fosse uma praça interna.

Seguimos até a Rua Bráulio Gomes onde percorremos três galerias vizinhas, unindo à Rua Sete de Abril: Galeria Ipê (de 1951), Galeria Sete de Abril (1962) e Galeria das Artes (1956), saindo em frente à Galeria Rua Nova Barão. Esse último espaço é totalmente aberto, como uma rua interna. Foi construído em 1962, dentro de um edifício residencial e comercial, como se fosse um pátio interno, ligando a rua Sete de Abril à Rua Barão de Itapetininga e fazendo com que o pedestre, ao atravessá-la, caminhe sem pressa e reduza seu ritmo, permitindo-se observar a cidade com tranquilidade.

Ao sairmos pela Rua Barão de Itapetininga, caminhamos em direção às galerias Itá e R. Monteiro, que formam, juntas uma única passagem. Percebemos essa sutil transição pela diferença de piso e materiais, característica genial do arquiteto Rino Levi, que também nos brinda com um painel projetado pelo também arquiteto e paisagista Burle Marx.


Quatro espaços exibem painéis de Buffoni

Quase todas as galerias urbanas têm um trabalho conjunto entre o arquiteto e o artista plástico, tendência do modernismo brasileiro em várias construções deste período.

A próxima parada, saindo da R. Monteiro e atravessando a Rua 24 de Maio, é no Shopping Center Grandes Galerias, como é conhecida a Galeria do Rock. O projeto é de 1962, construído por Alfredo Mathias e projetado por Siffredi e Bardelli, responsáveis também pelas galerias Sete de Abril, Presidente e Nova Barão – as quatro têm painéis do artista plástico italiano Bramante Buffoni. Mathias, aliás, é responsável pela construção do primeiro shopping center de São Paulo, o Iguatemi, na Avenida Faria Lima, o que trouxe uma nova fase para a vida na cidade: o confinamento.

Ao passarmos por dentro da Galeria do Rock, saímos em direção à Avenida São João para nossa última visita, uma releitura dessas galerias como espaço público e privado – a Praça das Artes. Os autores do projeto de 2012 são Marcos Cartum, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, realizado como extensão do Teatro Municipal de São Paulo para abrigar as sedes das orquestras sinfônicas municipal e experimental de repertório, dos coros líricos e paulistano, do Balé da Cidade de São Paulo, o Centro de Documentação Artística e a Sala de Concertos e Exposições.

A Praça das Artes, como o próprio nome diz, quer restabelecer o convívio das praças, penetrar o miolo da quadra onde foi implementada, conectar ruas, construir passagens para subverter a rotina e realizar a vitória da cidade cada vez mais escassa nos embates entre o espaço público e os espaços privados em São Paulo, promovendo espaços de convivência plena, diversa e dinâmica. Um dos autores da Praça das Artes, Ferraz foi auxiliar da arquiteta Lina Bo Bardi no projeto do Sesc Pompeia, trazendo o mesmo conceito de sociabilização.

Todos esses espaços, observados por um olhar instruído, revelam-se emocionantes e inovadores. Dá até uma saudade – com um pouquinho de melancolia – de um futuro urbano possível que infelizmente não replicamos em outros locais das cidades.

O Centro de São Paulo é lição prática de história da arquitetura: edifícios, espaços, calçadas. Parece que o tempo assume nova dimensão. As revelações urbanas que se descortinam, como a fiação subterrânea, os calçadões, os térreos abertos dos edifícios, as pessoas ocupando espaços públicos com qualidade. Tudo isso é lição inesquecível e, infelizmente, mostra que nossos gestores públicos não ouvem os arquitetos e urbanistas e se rendem a um urbanismo de mercado de péssima qualidade, com gradis, recuos, negação de espaço público.

O traçado urbano do Centro de São Paulo foi construído e reconstruído, sobrepondo quase 465 anos de história, completados em 25 de janeiro. Algumas dessas sobreposições foram traumáticas, mas ainda há uma unidade arquitetônica e urbanística de rara e misteriosa beleza.

As galerias urbanas são exemplos que confirmam a qualidade de espaços e arquitetura que conectam pessoas, espaços e emoções. A descoberta – ou ainda o ressignificado – desses intensos tesouros despercebidos revelam-se para nós com rompimento do nosso olhar domesticado do senso comum, em especial aquele que só percebe as falhas de segurança e zeladoria.

A ruptura desse olhar é o segredo da incerteza da surpresa. Umas das visões mais instigantes do Centro de São Paulo é do sempre contemporâneo Tom Zé, que poetizou uma São Paulo que “crescem flores de concreto, céu aberto ninguém vê”.

A USCS irá realizar nova visita às galerias urbanas, provavelmente em abril, e desta vez abrirá cinco vagas aos leitores. Quem quiser participar deve enviar e-mail para imprensa@uscs.edu.br.


* Gestor do curso de arquitetura e urbanismo da USCS, conselheiro suplente eleito do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo e diretor da Abea (Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo).
 



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Galerias urbanas

Professor da USCS mostra roteiro cheio de história por trás da arquitetura desses ambientes da Capital

Enio Moro Junior*

13/03/2019 | 22:11


Parece improvável conhecer e se apaixonar por novas espacialidades em um território tão castigado: o Centro de São Paulo. Conforme as diretrizes pedagógicas do curso de arquitetura e urbanismo da USCS (Universidade de São Caetano), reunimos nossos estudantes, seus professores e ainda convidamos profissionais de destaque regional para uma incursão na região central da Capital.

Nosso tema foi promover o encantamento por modelo de intervenção urbana tão querido da arquitetura em várias partes do mundo mas que, no Brasil, sucumbiu à insipidez dos shoppings: as galerias urbanas do Centro de São Paulo, tão instigadoras e provocantes, que conseguem resistir, com a dignidade de velhas senhoras, nesses tempos tão inversos que vivemos.

Que cidade é essa que esconde suas belezas? A força incansável da transformação urbana em São Paulo, que trata igualmente, com o mesmo desprezo, tanto os projetos ruins como também aqueles que possuem uma qualidade arquitetônica mais refinada, apresenta sua melhor tradução no Centro de São Paulo.

Para fruir, desarme seu olhar. Esqueça o olhar do zelador. Releve calçadas quebradas, sua prevenção aos moradores de rua, ambulantes e vozeirões dos pregadores religiosos. Superado isso (que é muito fácil perante a beleza arquitetônica da cidade), vamos tematizar e conhecer as galerias urbanas e outros ícones do Centro de São Paulo.

A partir da década de 1940, o chamado Centro Novo de São Paulo caracterizou-se pela construção de edifícios modernos e abertura de grandes avenidas, como foi o caso das avenidas Ipiranga e São Luís. Nesses locais, as calçadas generosas para pedestres valorizavam o alto e constante fluxo de pessoas, propiciando encontros a várias gerações e usos compartilhados de trabalho, moradia e diversão. Esses locais liberavam o uso do térreo como espaço público, abrindo para a circulação e propiciando congraçamento, criando comércios e serviços, como restaurantes, cafés, livrarias, espaços expositivos. Começava mudança de hábitos dessa população do Centro Novo, propiciando olhar mais cosmopolita da pós-colonial São Paulo. Nesta senda, a implantação das galerias urbanas e suas possibilidades de conexão de espaços, proteção contra intempéries, organização de percursos e oferecimento de novos olhares e sensações foram marcantes na cidade.

PERCURSO - O roteiro da visita foi organizado pelos professores Luis Octávio Rocha (História da Arte) e Jackson Dualibi (Projeto de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo) e tivemos cerca de 30 investigadores, com especial adesão dos estudantes.

Em amena manhã de sábado, começamos pelo Edifício Copan, projeto de 1951 do arquiteto Oscar Niemeyer, na Avenida Ipiranga, onde na galeria, além do comércio, convivia o saudoso Cine Copan (hoje espaço religioso fechado), importante sala de cinema até os anos 1990. Saímos pela Avenida São Luís, onde visitamos o Edifício Louvre, projeto de Artacho Jurado de 1958, não antes passeando pela Galeria Zarvos, do arquiteto Julio Neves (1961), e ainda pela Biblioteca Municipal de São Paulo, do arquiteto Jacques Pilon. Tudo isso em poucos metros.

Atravessamos até a Praça Dom Jose Gaspar para nos conectar à Galeria Metrópole, projeto dos arquitetos Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia, de 1960, que tem como característica grande vão central possibilitando iluminação natural e convivência, como se fosse uma praça interna.

Seguimos até a Rua Bráulio Gomes onde percorremos três galerias vizinhas, unindo à Rua Sete de Abril: Galeria Ipê (de 1951), Galeria Sete de Abril (1962) e Galeria das Artes (1956), saindo em frente à Galeria Rua Nova Barão. Esse último espaço é totalmente aberto, como uma rua interna. Foi construído em 1962, dentro de um edifício residencial e comercial, como se fosse um pátio interno, ligando a rua Sete de Abril à Rua Barão de Itapetininga e fazendo com que o pedestre, ao atravessá-la, caminhe sem pressa e reduza seu ritmo, permitindo-se observar a cidade com tranquilidade.

Ao sairmos pela Rua Barão de Itapetininga, caminhamos em direção às galerias Itá e R. Monteiro, que formam, juntas uma única passagem. Percebemos essa sutil transição pela diferença de piso e materiais, característica genial do arquiteto Rino Levi, que também nos brinda com um painel projetado pelo também arquiteto e paisagista Burle Marx.


Quatro espaços exibem painéis de Buffoni

Quase todas as galerias urbanas têm um trabalho conjunto entre o arquiteto e o artista plástico, tendência do modernismo brasileiro em várias construções deste período.

A próxima parada, saindo da R. Monteiro e atravessando a Rua 24 de Maio, é no Shopping Center Grandes Galerias, como é conhecida a Galeria do Rock. O projeto é de 1962, construído por Alfredo Mathias e projetado por Siffredi e Bardelli, responsáveis também pelas galerias Sete de Abril, Presidente e Nova Barão – as quatro têm painéis do artista plástico italiano Bramante Buffoni. Mathias, aliás, é responsável pela construção do primeiro shopping center de São Paulo, o Iguatemi, na Avenida Faria Lima, o que trouxe uma nova fase para a vida na cidade: o confinamento.

Ao passarmos por dentro da Galeria do Rock, saímos em direção à Avenida São João para nossa última visita, uma releitura dessas galerias como espaço público e privado – a Praça das Artes. Os autores do projeto de 2012 são Marcos Cartum, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, realizado como extensão do Teatro Municipal de São Paulo para abrigar as sedes das orquestras sinfônicas municipal e experimental de repertório, dos coros líricos e paulistano, do Balé da Cidade de São Paulo, o Centro de Documentação Artística e a Sala de Concertos e Exposições.

A Praça das Artes, como o próprio nome diz, quer restabelecer o convívio das praças, penetrar o miolo da quadra onde foi implementada, conectar ruas, construir passagens para subverter a rotina e realizar a vitória da cidade cada vez mais escassa nos embates entre o espaço público e os espaços privados em São Paulo, promovendo espaços de convivência plena, diversa e dinâmica. Um dos autores da Praça das Artes, Ferraz foi auxiliar da arquiteta Lina Bo Bardi no projeto do Sesc Pompeia, trazendo o mesmo conceito de sociabilização.

Todos esses espaços, observados por um olhar instruído, revelam-se emocionantes e inovadores. Dá até uma saudade – com um pouquinho de melancolia – de um futuro urbano possível que infelizmente não replicamos em outros locais das cidades.

O Centro de São Paulo é lição prática de história da arquitetura: edifícios, espaços, calçadas. Parece que o tempo assume nova dimensão. As revelações urbanas que se descortinam, como a fiação subterrânea, os calçadões, os térreos abertos dos edifícios, as pessoas ocupando espaços públicos com qualidade. Tudo isso é lição inesquecível e, infelizmente, mostra que nossos gestores públicos não ouvem os arquitetos e urbanistas e se rendem a um urbanismo de mercado de péssima qualidade, com gradis, recuos, negação de espaço público.

O traçado urbano do Centro de São Paulo foi construído e reconstruído, sobrepondo quase 465 anos de história, completados em 25 de janeiro. Algumas dessas sobreposições foram traumáticas, mas ainda há uma unidade arquitetônica e urbanística de rara e misteriosa beleza.

As galerias urbanas são exemplos que confirmam a qualidade de espaços e arquitetura que conectam pessoas, espaços e emoções. A descoberta – ou ainda o ressignificado – desses intensos tesouros despercebidos revelam-se para nós com rompimento do nosso olhar domesticado do senso comum, em especial aquele que só percebe as falhas de segurança e zeladoria.

A ruptura desse olhar é o segredo da incerteza da surpresa. Umas das visões mais instigantes do Centro de São Paulo é do sempre contemporâneo Tom Zé, que poetizou uma São Paulo que “crescem flores de concreto, céu aberto ninguém vê”.

A USCS irá realizar nova visita às galerias urbanas, provavelmente em abril, e desta vez abrirá cinco vagas aos leitores. Quem quiser participar deve enviar e-mail para imprensa@uscs.edu.br.


* Gestor do curso de arquitetura e urbanismo da USCS, conselheiro suplente eleito do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo e diretor da Abea (Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo).
 

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