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Olhar vazio para a natureza morta


Rodolfo de Souza

14/02/2019 | 07:00


Sem que me desse conta, fui apanhado de surpresa pela imagem do índio olhando para o rio. A cena, muito intensa, conduziu-me aos velhos livros de história que nos levavam sempre a associar índio à natureza. E isso não se perdeu no tempo.

Antes, permanece vivo na memória, como um canto ou uma dança na tribo. Não havia, pois, nada de tão surpreendente naquela foto, pois se tratava de uma foto o que me chegava aos olhos e fazia retumbar no meu peito o coração aflito por uma explicação.

O homem não vestia camisa e estava de costas. O enfeite de penas na cabeça revelava a sua origem e completava o quadro que já vi em outras publicações e em obras que nasceram das mãos habilidosas, empunhando pincéis e talento de sobra.

Um índio e um rio, um grande rio. Um completando o outro no cenário carregado de significado e poesia. Talvez pela sua história de luta pela sobrevivência é que tocou fundo, e ainda toca, a imagem que contemplei por longo tempo, na tela do computador que é tecnológico, e que pouca relação tem com índios e rios.

Causou-me até alguma inquietação não poder, naquela circunstância, observar o rosto do homem fotografado, provavelmente, sem notar que uma câmera o espreitava. É possível até que o profissional da mídia também não tenha percebido a presença daquele que assistia, desolado, à morte da natureza, a qual aprendera, desde sempre, amar e respeitar.

Ou talvez lhe fosse indiferente o ser humano e sua vida inteira dedicada às coisas da terra e dos rios. Aparentemente só lhe interessava mesmo o flagrante da água no seu curso natural, e a urgência de levar ao público a nova cara do líquido, para que dele se enternecesse e proclamasse ali a sua indignação, logo esquecida. De fato não fora mesmo o aspecto límpido da água que atraíra o fotógrafo, mas o reverso, a contramão da vida, assunto em destaque na matéria do repórter e sua câmera.

E a cena registrada naquela margem, onde um homem de costas, permanecia de olhos fixos na água de um vermelho barrento, fatalmente me inspirou a lançar mão deste papel para dizer que era possível ler seu semblante que era só desolação, frente à lama tóxica que o semelhante de cor branca houve por bem lançar no rio, e matá-lo. Definitivamente não pensou, nos bichos, no índio e nas demais pessoas simples que vivem da terra e da água, bens preciosos e sagrados, cuja destruição por certo que um dia cobrará seu preço também na mesa daquele que desdém de sua importância.

E esse olhar de tristeza que o índio dirigia ao rio, companheiro de toda uma vida, se fez traduzir também no meu olhar e talvez no olhar de gente que ainda carrega no bojo um mínimo de inteligência e sensibilidade e que, por causa disso, divide com aquele a dor de ver usurpadas suas terras e as terras de seus ancestrais. Dor capaz de fazê-lo chorar diante do inacreditável e inconcebível momento em que experimentava o amargo sabor da tragédia encomendada.



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Olhar vazio para a natureza morta

Rodolfo de Souza

14/02/2019 | 07:00


Sem que me desse conta, fui apanhado de surpresa pela imagem do índio olhando para o rio. A cena, muito intensa, conduziu-me aos velhos livros de história que nos levavam sempre a associar índio à natureza. E isso não se perdeu no tempo.

Antes, permanece vivo na memória, como um canto ou uma dança na tribo. Não havia, pois, nada de tão surpreendente naquela foto, pois se tratava de uma foto o que me chegava aos olhos e fazia retumbar no meu peito o coração aflito por uma explicação.

O homem não vestia camisa e estava de costas. O enfeite de penas na cabeça revelava a sua origem e completava o quadro que já vi em outras publicações e em obras que nasceram das mãos habilidosas, empunhando pincéis e talento de sobra.

Um índio e um rio, um grande rio. Um completando o outro no cenário carregado de significado e poesia. Talvez pela sua história de luta pela sobrevivência é que tocou fundo, e ainda toca, a imagem que contemplei por longo tempo, na tela do computador que é tecnológico, e que pouca relação tem com índios e rios.

Causou-me até alguma inquietação não poder, naquela circunstância, observar o rosto do homem fotografado, provavelmente, sem notar que uma câmera o espreitava. É possível até que o profissional da mídia também não tenha percebido a presença daquele que assistia, desolado, à morte da natureza, a qual aprendera, desde sempre, amar e respeitar.

Ou talvez lhe fosse indiferente o ser humano e sua vida inteira dedicada às coisas da terra e dos rios. Aparentemente só lhe interessava mesmo o flagrante da água no seu curso natural, e a urgência de levar ao público a nova cara do líquido, para que dele se enternecesse e proclamasse ali a sua indignação, logo esquecida. De fato não fora mesmo o aspecto límpido da água que atraíra o fotógrafo, mas o reverso, a contramão da vida, assunto em destaque na matéria do repórter e sua câmera.

E a cena registrada naquela margem, onde um homem de costas, permanecia de olhos fixos na água de um vermelho barrento, fatalmente me inspirou a lançar mão deste papel para dizer que era possível ler seu semblante que era só desolação, frente à lama tóxica que o semelhante de cor branca houve por bem lançar no rio, e matá-lo. Definitivamente não pensou, nos bichos, no índio e nas demais pessoas simples que vivem da terra e da água, bens preciosos e sagrados, cuja destruição por certo que um dia cobrará seu preço também na mesa daquele que desdém de sua importância.

E esse olhar de tristeza que o índio dirigia ao rio, companheiro de toda uma vida, se fez traduzir também no meu olhar e talvez no olhar de gente que ainda carrega no bojo um mínimo de inteligência e sensibilidade e que, por causa disso, divide com aquele a dor de ver usurpadas suas terras e as terras de seus ancestrais. Dor capaz de fazê-lo chorar diante do inacreditável e inconcebível momento em que experimentava o amargo sabor da tragédia encomendada.

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