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Para sair do lugar comum


Sara Saar
Especial para o Diário

13/09/2009 | 07:00


Há cerca de quatro décadas, o jornalista Humberto Werneck adquiriu o estranho hábito de colecionar expressões que as pessoas usam exaustivamente – como “estar com a macaca”, “disputar a tapa” e “a quantas anda”. E foi assim – com o perdão da expressão –, ‘de grão em grão’. que ele chegou às mais de 4.600 expressões, que agora integram seu recém-lançado livro O Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-comuns e Frases Feitas (Arquipélago Editorial, 208 páginas, R$ 29).

O trabalho começou de forma despretensiosa. “No jornal onde trabalhava, havia muita preocupação com a qualidade do texto. Sem saber o porquê, comecei a anotá-las em qualquer papel à mão”, conta.

Essa coleta foi feita até nas situações mais inusitadas. Werneck chegou a sair discretamente de velórios ao ouvir orações como “finalmente ele descansou”, para puxar uma cadernetinha e fazer o registro.

Também acordou durante madrugadas para fazer anotações. “Se você não escreve na hora, nunca mais encontra. É feito um passarinho. Pode achar outro, mas aquele não volta”, compara.

Todos os papéis eram colocados em um envelope e, mais tarde, em um envelopão. E não é que as frases feitas quase tiveram como lugar comum (sem hífen!) a lata de lixo? E não foi uma única vez, não. “Na minha casa, tem uma quantidade enorme de papéis e livros. Nessas de fazer faxina no escritório, quase joguei esse troço fora. Mas algo me dizia: deixe aí”.

O livro involuntário, talvez, passou a ganhar forma na segunda metade dos anos 1990, quando o filho Paulo pediu mesada extra e, como contrapartida, teve de digitalizar e colocar a papelada toda em ordem alfabética.

Mas quem pensa que a obra é um código de proibições se engana. A proposta é recomendar desconfiança a tudo que sai com muita facilidade durante a escrita, além de incentivar a reciclagem criativa. “Ser confrontado com as tolices que a gente fala ou escreve pode ser engraçado e instrutivo”, aponta.

Werneck logo afirma que também sofre com os automatismos. “Não estou imunizado”, brinca. “Durante a entrevista, devo ter falado várias expressões. Mas na escrita, tenho a preocupação de evitar”.

Em vez de dizer ir de vento em popa, o jornalista sugere o contrário com ir de vento em proa. “É surpreendente! Gosto de fazer cócegas na inteligência do leitor ou ouvinte”. A ideia é brincar com as palavras como quem desarticula uma figura e, com as mesmas peças, cria outra.

Depois do lançamento de O Pai dos Burros, Werneck pensou que estaria livre dos lugares-comuns e das frases feitas. Mas não. Continua obcecado em catalogar frases e mais frases. “As pessoas agora batem à minha porta. Já tenho mais 40 expressões batidas. O livro pode ganhar adendos”, adianta.  (Supervisão Gislaine Gutierre)



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Para sair do lugar comum

Sara Saar
Especial para o Diário

13/09/2009 | 07:00


Há cerca de quatro décadas, o jornalista Humberto Werneck adquiriu o estranho hábito de colecionar expressões que as pessoas usam exaustivamente – como “estar com a macaca”, “disputar a tapa” e “a quantas anda”. E foi assim – com o perdão da expressão –, ‘de grão em grão’. que ele chegou às mais de 4.600 expressões, que agora integram seu recém-lançado livro O Pai dos Burros – Dicionário de Lugares-comuns e Frases Feitas (Arquipélago Editorial, 208 páginas, R$ 29).

O trabalho começou de forma despretensiosa. “No jornal onde trabalhava, havia muita preocupação com a qualidade do texto. Sem saber o porquê, comecei a anotá-las em qualquer papel à mão”, conta.

Essa coleta foi feita até nas situações mais inusitadas. Werneck chegou a sair discretamente de velórios ao ouvir orações como “finalmente ele descansou”, para puxar uma cadernetinha e fazer o registro.

Também acordou durante madrugadas para fazer anotações. “Se você não escreve na hora, nunca mais encontra. É feito um passarinho. Pode achar outro, mas aquele não volta”, compara.

Todos os papéis eram colocados em um envelope e, mais tarde, em um envelopão. E não é que as frases feitas quase tiveram como lugar comum (sem hífen!) a lata de lixo? E não foi uma única vez, não. “Na minha casa, tem uma quantidade enorme de papéis e livros. Nessas de fazer faxina no escritório, quase joguei esse troço fora. Mas algo me dizia: deixe aí”.

O livro involuntário, talvez, passou a ganhar forma na segunda metade dos anos 1990, quando o filho Paulo pediu mesada extra e, como contrapartida, teve de digitalizar e colocar a papelada toda em ordem alfabética.

Mas quem pensa que a obra é um código de proibições se engana. A proposta é recomendar desconfiança a tudo que sai com muita facilidade durante a escrita, além de incentivar a reciclagem criativa. “Ser confrontado com as tolices que a gente fala ou escreve pode ser engraçado e instrutivo”, aponta.

Werneck logo afirma que também sofre com os automatismos. “Não estou imunizado”, brinca. “Durante a entrevista, devo ter falado várias expressões. Mas na escrita, tenho a preocupação de evitar”.

Em vez de dizer ir de vento em popa, o jornalista sugere o contrário com ir de vento em proa. “É surpreendente! Gosto de fazer cócegas na inteligência do leitor ou ouvinte”. A ideia é brincar com as palavras como quem desarticula uma figura e, com as mesmas peças, cria outra.

Depois do lançamento de O Pai dos Burros, Werneck pensou que estaria livre dos lugares-comuns e das frases feitas. Mas não. Continua obcecado em catalogar frases e mais frases. “As pessoas agora batem à minha porta. Já tenho mais 40 expressões batidas. O livro pode ganhar adendos”, adianta.  (Supervisão Gislaine Gutierre)

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