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Alexandre Ribeiro, de Diadema, vende seus livros para custear estudos na Alemanha


Miriam Gimenes

07/01/2019 | 07:28


Todos os dias antes de dormir, Alexandre Ribeiro, 20 anos, tinha um compromisso: ler pelo menos cinco páginas de um livro. O morador do Jardim Canhema, em Diadema, recebeu essa missão do pai, Antenor, que trabalhava como segurança de uma empresa privada. Encarou este ato como obrigação, até perder o pai para a gripe suína, quando tinha 11 anos. “Com o tempo comecei a encontrar na leitura um afeto, uma maneira de sanar um pouco da saudade do meu pai. Encontrava nos livros o que me faltava e desde então estou neste caminho, o de tentar me encontrar.”

Ele não só se achou na literatura como lançou, no ano passado, de forma independente, o seu primeiro livro de poesias, o Inflorescência, que conta com 25 textos de sua autoria. Embora o título seja um termo biológico, que dá nome a parte da planta onde se localizam as flores, ele tomou a liberdade poética de ressignificá-lo. “Para mim significa florescer para dentro. Por isso, sempre falo que estou tentando encontrar as flores que habitam dentro de mim.”

Antes de saber o que plantar em seu jardim particular, Ribeiro, como qualquer jovem de periferia, passou por diversos ofícios. Trabalhou em lava rápido, em bufê infantil, como entregador de produtos de limpeza, fez curso de jornalismo, entre outras coisas. “Foi tudo uma busca de tentar entender quem eu sou. Procuro fazer sempre coisas populares, que trabalhem com a minha realidade e as pessoas iguais a mim.” E foi por meio desses elementos, impressos em seus versos, que ele tomou gosto pela poesia.

Passou a participar, há três anos, de saraus e slams, competições de poesias faladas que surgiu em Chicago, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1980, e conquistou também as ruas de São Paulo. Neste período reuniu os poemas que compõem o livro em questão, que o levou a conquistar outro sonho: o de buscar oportunidade fora do País.

Passou a vender, de mão em mão, a sua publicação artesanal. Cada um pagava o que achava que valia. “Teve quem deu R$ 0,20 e teve até quem pagou R$ 200.” O dono da quantia máxima foi o humorista Gregório Duvivier, que cruzou com Ribeiro nas ruas de Paraty, durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e se sensibilizou com a história do garoto de Diadema.

Ajudou, inclusive, a compartilhar a vaquinha virtual de Ribeiro, que tinha como objetivo custear parte da viagem que fará, em agosto, para Alemanha. Lá estudará a língua local e fará trabalho voluntário. Ganhou bolsa de 80% e terá de pagar o restante, estimado em R$ 8.500.

Para sua alegria, não só conseguiu o valor como ultrapassou: chegou a R$ 10 mil, fora o dinheiro que arrecadou com a venda dos livros. “Quero aprender e voltar cheio de bagagem, fazer conexões com outros países, contatos, estudar muito e entender a cultura estrangeira para ser um humano melhor”, prevê. Para tanto, trancou sua vaga no curso de Políticas Públicas, que estuda na UFABC (Universidade Federal do ABC).

Diz que a mãe, Silvia, está receosa com sua partida, já que são muito apegados, mas torce para que o filho conquiste o que está buscando no Exterior. Ele diz que tanto ela quanto o pai foram essenciais para que buscasse o futuro que está trilhando. “Sou uma pessoa muito privilegiada (por tudo que eles ensinaram). Tudo é uma questão de oportunidade. O jovem brasileiro só precisa de oportunidade, não precisa catar migalhas. Tive bons caminhos e bons professores. A minha única virtude é saber escutar as pessoas certas. Foi o que me levou para onde estou caminhando. A gente pode combater a desigualdade, violência, só assim, por meio de oportunidades iguais.” 

Poema ‘Acesso’ extraído do livro ‘Inflorescências’

“É complicado 

falar de política

muitas vezes se fala, 

e nós nem sabemos

ex.: nas esquinas da sua casa têm três biqueiras

e a biblioteca mais próxima fica a 3km.

Política é escolher um livro e fazer diferente.” 



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Além do horizonte

Alexandre Ribeiro, de Diadema, vende seus livros para custear estudos na Alemanha

Miriam Gimenes

07/01/2019 | 07:28


Todos os dias antes de dormir, Alexandre Ribeiro, 20 anos, tinha um compromisso: ler pelo menos cinco páginas de um livro. O morador do Jardim Canhema, em Diadema, recebeu essa missão do pai, Antenor, que trabalhava como segurança de uma empresa privada. Encarou este ato como obrigação, até perder o pai para a gripe suína, quando tinha 11 anos. “Com o tempo comecei a encontrar na leitura um afeto, uma maneira de sanar um pouco da saudade do meu pai. Encontrava nos livros o que me faltava e desde então estou neste caminho, o de tentar me encontrar.”

Ele não só se achou na literatura como lançou, no ano passado, de forma independente, o seu primeiro livro de poesias, o Inflorescência, que conta com 25 textos de sua autoria. Embora o título seja um termo biológico, que dá nome a parte da planta onde se localizam as flores, ele tomou a liberdade poética de ressignificá-lo. “Para mim significa florescer para dentro. Por isso, sempre falo que estou tentando encontrar as flores que habitam dentro de mim.”

Antes de saber o que plantar em seu jardim particular, Ribeiro, como qualquer jovem de periferia, passou por diversos ofícios. Trabalhou em lava rápido, em bufê infantil, como entregador de produtos de limpeza, fez curso de jornalismo, entre outras coisas. “Foi tudo uma busca de tentar entender quem eu sou. Procuro fazer sempre coisas populares, que trabalhem com a minha realidade e as pessoas iguais a mim.” E foi por meio desses elementos, impressos em seus versos, que ele tomou gosto pela poesia.

Passou a participar, há três anos, de saraus e slams, competições de poesias faladas que surgiu em Chicago, nos Estados Unidos, em meados dos anos 1980, e conquistou também as ruas de São Paulo. Neste período reuniu os poemas que compõem o livro em questão, que o levou a conquistar outro sonho: o de buscar oportunidade fora do País.

Passou a vender, de mão em mão, a sua publicação artesanal. Cada um pagava o que achava que valia. “Teve quem deu R$ 0,20 e teve até quem pagou R$ 200.” O dono da quantia máxima foi o humorista Gregório Duvivier, que cruzou com Ribeiro nas ruas de Paraty, durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e se sensibilizou com a história do garoto de Diadema.

Ajudou, inclusive, a compartilhar a vaquinha virtual de Ribeiro, que tinha como objetivo custear parte da viagem que fará, em agosto, para Alemanha. Lá estudará a língua local e fará trabalho voluntário. Ganhou bolsa de 80% e terá de pagar o restante, estimado em R$ 8.500.

Para sua alegria, não só conseguiu o valor como ultrapassou: chegou a R$ 10 mil, fora o dinheiro que arrecadou com a venda dos livros. “Quero aprender e voltar cheio de bagagem, fazer conexões com outros países, contatos, estudar muito e entender a cultura estrangeira para ser um humano melhor”, prevê. Para tanto, trancou sua vaga no curso de Políticas Públicas, que estuda na UFABC (Universidade Federal do ABC).

Diz que a mãe, Silvia, está receosa com sua partida, já que são muito apegados, mas torce para que o filho conquiste o que está buscando no Exterior. Ele diz que tanto ela quanto o pai foram essenciais para que buscasse o futuro que está trilhando. “Sou uma pessoa muito privilegiada (por tudo que eles ensinaram). Tudo é uma questão de oportunidade. O jovem brasileiro só precisa de oportunidade, não precisa catar migalhas. Tive bons caminhos e bons professores. A minha única virtude é saber escutar as pessoas certas. Foi o que me levou para onde estou caminhando. A gente pode combater a desigualdade, violência, só assim, por meio de oportunidades iguais.” 

Poema ‘Acesso’ extraído do livro ‘Inflorescências’

“É complicado 

falar de política

muitas vezes se fala, 

e nós nem sabemos

ex.: nas esquinas da sua casa têm três biqueiras

e a biblioteca mais próxima fica a 3km.

Política é escolher um livro e fazer diferente.” 

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