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Agressão a professores do Estado tem alta de 55%

André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que de janeiro a julho foram registrados 106 casos


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

26/11/2018 | 07:00


A violência atinge a todos, mas algumas de suas manifestações nos parecem mais revoltantes. É o caso das agressões aos professores, profissional que vem sendo cada vez mais desvalorizado na nossa sociedade. Dados obtidos pelo Diário junto à Secretaria de Estado da Educação, por meio da Lei de Acesso à Informação, mostram que, de janeiro a julho deste ano, foram registrados 106 casos de agressões (88 verbais e 18 físicas) no Grande ABC. O número representa alta de 55% na comparação com o total de ocorrências do mesmo período do ano passado, quando houve 68 registros (12 físicas e 56 verbais).

Os números podem ser ainda maiores, avalia o professor da rede em São Bernardo e diretor estadual da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Paulo Neves, 53 anos. “Não raro, a direção da escola pressiona o docente a não registrar a queixa na secretaria, a resolver ‘internamente’”, argumentou. Neves afirmou que os dados do segundo semestre costumam ser ainda piores e que os casos estão diretamente relacionados à falta de estrutura das escolas, “à didática da mesmice” e mais acentuadamente nos últimos anos, a uma política deliberada de desrespeito à profissão. “Em outros países, o professor é um profissional tratado com o máximo respeito e isso não ocorre no Brasil”, lamentou.

A falta de recursos para deixar a aula mais atrativa, como laboratórios, datashows e material didático moderno, também é apontado pelo docente como agravantes da situação. “Hoje, na grande maioria das escolas, a mediação didática ainda é feita na base do giz, lousa e saliva”, citou.

Professora da UFABC (Universidade Federal do ABC) e pesquisadora da temática de trabalho e adoecimento, Luci Praun opinou que são diversos os fatores que contribuem para a situação de violência na escola, que é reflexo da violência da nossa sociedade. “O ambiente escolar não está apartado das relações sociais”, frisou.

A pesquisadora citou a crescente desvalorização da Educação e o sucateamento das condições estruturais de trabalho, exemplificadas desde salas lotadas e escolas com arquiteturas que lembram prisões – e sua influência na construção das relações – até os baixos salários pagos aos professores, que acumulam aulas em diferentes unidades em prol de um rendimento maior, comprometendo muitas vezes a qualidade do trabalho desempenhado. “Não dá para falar que salário não é importante, porque é”, pontuou.

Luci destacou, ainda, que o contexto atual de perseguição aos professores e incentivo à denúncias, como se o docente fosse ator dos problemas e não vítima, agrava a situação. “Precisamos de investimentos, recursos para os salários, recursos para construir um projeto educacional que resgate o ser humano como centro de tudo, em um espaço de liberdades e que atenda aos anseios dos jovens”, defendeu. “O professor é hoje quem está na ponta e recebe todas as frustrações por serviços mal prestados”, concluiu.

A Secretaria de Estado da Educação informou que São Paulo é “pioneiro no enfrentamento das questões de relacionamento entre aluno e professor, criando, em 2009, o Sistema de Proteção Escolar”.

Após ameaça, educador abandonou a sala de aula

O professor José da Silva (o nome foi trocado a pedido do entrevistado), 41 anos, dava aulas há três anos quando foi ameaçado por um aluno, dentro de uma escola estadual na periferia de Santo André. Silva lecionava História para uma turma de EJA (Ensino de Jovens e Adultos), quando foi repreender um grupo que conversava e bebia vinho no fundo da sala. Ao se abaixar para pegar a garrafa, um dos alunos levantou a blusa e mostrou a arma. “Fiquei mal, passei vários anos por acompanhamento psicológico. Trabalhei como metalúrgico, mas fiquei desempregado e, recentemente, tentei voltar a dar aulas. Em escola publica não dá.”

Após quase dez anos do ocorrido, em outubro, o professor conseguiu aulas em outra escola da periferia da cidade. Bastaram dois dias e o alerta de dois alunos de que ali não adiantava querer botar ordem para as sensações ruins do dia em que foi ameaçado voltar. Dor de estômago, dor de cabeça, suores. Tudo remetia ao outro episódio. “Admiti que isso não é mais para mim.”

Apesar do número de professores agredidos dentro das escolas estaduais do Grande ABC, não é fácil encontrar quem esteja disposto a falar abertamente sobre o assunto. O professor entrevistado pelo Diário concordou, sob anonimato, e lembrou que sequer registrou a ameaça sofrida junto à Secretaria de Estado da Educação. “Era eu quem saía da escola sozinho, tarde da noite, todos os dias”, justificou.

Para o docente, são muitos os motivos que ocasionam o problema: ausência de estrutura familiar, falta de perspectiva para os alunos, desvalorização da carreira de professor pelos governos e pela sociedade, estrutura física das escolas que intimidam e fazem o aluno se sentir em uma prisão, aprovação automática. “A escola é um parque de diversões. A molecada se reúne, não faz nada, porque vai passar de ano. Como vai cobrar?”, questionou.

“Gosto de ser professor, queria ajudar, fazer a diferença, mas não dá. O Estado cobra conteúdos que os alunos não têm condições de fazer, porque chegam ao 7º ano mal sabendo ler e escrever. O professor é pressionado a preencher relatórios que mostram evolução que não é real e assim o problema vai sendo jogado para a frente”, concluiu. Silva pretende voltar a dar aulas apenas em escolas privadas ou trabalhar como motorista de aplicativos. “Tenho vontade de estar em sala, mas não tenho condições de suportar essas coisas”, finalizou.

FREQUENTE
João Oliveira (nome fictício), 34, dava aulas de Geografia em Diadema quando foi vítima de agressão verbal. O docente foi ofendido por alunos, que foram advertidos pela direção, mas a situação de violência não cessou. “Não é realidade em apenas uma escola, é na maioria delas”, lamentou. “Infelizmente, a gente tem perdido a figura de respeito diante dos alunos”, concluiu.

João afirmou que sentiu falta de acompanhamento psicológico para lidar com as ofensas. “Foi uma época complicada, cheguei a pensar em abandonar as aulas”. Para o professor, é preciso envolver as famílias. “A escola se responsabiliza por uma Educação que deveria vir de casa.”

Trabalho acadêmico endossa o problema

Secretária da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) de São Bernardo, Lucimara Lima, 44 anos, abordou em seu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais da Universidade Metodista, no ano de 2017, a situação de professores que foram afastados do trabalho devido a problemas como a violência sofrida no exercício da profissão. “A precarização das condições de trabalho está diretamente ligada ao adoecimento dos docentes”, apontou Lucimara.

Com o trabalho Sobrevivendo ao Sofrimento e Adoecimento: a Trajetória de Professores Licenciados da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo, em Escolas do Município de São Bernardo, aliado à experiência de 25 anos de atuação na Apeoesp, Lucimara analisou as situações e dificuldades encontradas pelos profissionais, especialmente com relação à obtenção de licenças após doenças ou situações de estresse. “A negativa da licença agrava a situação de saúde mental desse trabalhador. Atualmente cursando Direito, a secretária pretende continuar pesquisando o tema, sob seus aspectos legais e jurídicos. 



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