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Um dos maiores expoentes da cultura mexicana, Frida Kahlo transformava frustração e amor à vida em arte


Soraia Abreu Pedrozo
Do Diário do Grande ABC

06/09/2018 | 07:20


“Devemos celebrar tudo. Batismos, aniversários e participar de todas as festas populares, religiosas e profanas – e até dançar com a morte”, dizia Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, ou simplesmente Frida Kahlo, guerreira mexicana que por meio das telas deu vazão à sua dor e frustração, e transformou-se em uma das maiores pintoras do século 20.

Ela tinha apenas 1,60 metro de altura, mas uma sede de viver e se expressar por meio da arte que a tornava gigante. Fez dos quadros o espelho de seu sofrimento. Sem filtros, sem máscaras. Os pincéis imortalizaram temas intensamente vividos por ela, como aborto – ela sofreu três; casamento – uniu-se duas vezes ao mesmo homem, o muralista Diego Rivera, um dos maiores nomes da arte mexicana, e com ele viveu relacionamentos intensos, marcados por amor visceral, porém conturbado, cheios de idas e vindas e traições; angústia – sentia dores constantemente, passava muito tempo na cama e em boa parte de sua vida teve de usar colete de gesso; medo – ao todo, passou por 35 cirurgias e teve de amputar a perna.

Aos 6 anos, ela contraiu poliomielite (paralisia infantil) e ficou com uma perna mais fina e menor do que a outra. Aos 18, quando voltava da escola, sofreu grave acidente de bonde, e teve barra de metal do veículo atravessada em seu corpo, que deixou sequelas irreversíveis na coluna, bacia e pernas. Diariamente, Frida buscava força na tragédia e a transformava em arte. O que se refletia também em seu modo de vestir, com roupas tehuana, da região de Oaxaca, coloridas e cheias de textura. Com penteado de tranças e flores, e adornos como colares e brincos, ela chamava atenção para seu rosto e desviava de seu corpo, o que era auxiliado pelas saias longas e rodadas.

Mulher à frente de seu tempo, militante comunista e agitadora cultural, Frida viveu romance extraconjugal com Leon Trótski, intelectual marxista e revolucionário bolchevique, organizador do Exército Vermelho. Após a morte de Vladimir Lenin, ele tornou-se rival de Josef Stalin na disputa pela hegemonia do Partido Comunista da União Soviética e foi perseguido pelo ditador. Por isso, passou um tempo escondido na Casa Azul – onde ela nasceu e morreu –, em nome do Partido Comunista Mexicano, o que favoreceu o envolvimento dos dois, mesmo com idades tão distintas, ela com menos de 30 e ele com mais de 60 anos.

O relacionamento entre eles, inclusive, deu origem ao romance baseado em cartas, diários, e textos jornalísticos: Frida e Trótski – A História de uma Paixão Secreta, Gérard de Cortanze. Apesar da semelhança das diretrizes ideológicas de ambos, um dia o revolucionário confidenciou à pintora: “Se eu não estivesse lá em 1917, em São Petesburgo, a Revolução de Outubro não teria acontecido”. Isso fez com que ela lhe pedisse que não entrassem no terreno político, mas que fizessem trocas mais íntimas e amistosas. Certa vez, no entanto, ela também revelou que tinha emoção ainda intacta em sua lembrança da Revolução Mexicana, que a impelira a entrar para a juventude comunista aos 13 anos. Ao ser repreendida por ele, Frida disse que não se tratava de política, mas de emoção. O affair, porém, culminou com a morte de Trótski. Depois que sua mulher, Natalia Sedova, o descobriu, eles se mudaram para casa no mesmo bairro, Coyoacán, na Cidade do México, onde foram fuzilados. Não há dúvidas de que a hoje pacata vizinhança, que conserva ar provinciano, com ruas arborizadas e muitas casas, guarda roteiro delicioso para vivenciar a história de Frida, melhor personificação da cultura mexicana.


Início do romance de Diego e Frida

O itinerário para se aprofundar na história de Frida Kahlo começa pelo centro histórico da Cidade do México, conhecido como Zócalo, onde estão o Palácio Nacional e alguns murais de seu marido, Diego Rivera, que ilustram a luta do povo mexicano desde a conquista pelos espanhóis até o domínio da Igreja Católica. A entrada é gratuita.

Quem assistiu ao filme Frida, de Julie Taymor, vai reconhecer o local, onde Frida conversou pela primeira vez com Diego, quando, cheia de coragem, pediu que ele descesse até o pátio para analisar algumas de suas obras e dizer se tinha talento, e o chamou de Panzón (Pançudo). Sua audácia foi o começo de tudo. E este seria apelido carinhoso até o fim de seus dias.

Perto dali, cerca de 20 minutos de caminhada, no Museu Mural Diego Rivera está uma de suas obras-primas: Sonho de Uma Tarde de Domingo na Alameda Central, em que ele e Frida estão retratados, e onde é feita reflexão sobre a história e a sociedade de seu país, em painel de 4,17 metros de altura por 15,67 metros de comprimento. São cobrados 35 pesos mais cinco pesos para fotografar.


Casa Azul é muito mais que um museu

O passo seguinte para se aprofundar à história de Frida e Diego é tomar o Metrô até o bairro de Coyoacán, onde está a Casa Azul, em que os dois viveram. Se tiver coragem, pode experimentar os chapolins (grilos) fritos vendidos em barracas na saída da estação. É possível ir caminhando, por uns 20 minutos, até o local.

Os 200 pesos (mais 30 para poder fotografar) valem cada centavo, pois tudo é absurdamente conservado, e o tour faz com que o visitante se sinta parte da casa, passando por todos os cômodos, como pela cozinha colorida e alegre; pelo seu quarto e sua cama com espelho no teto, para que pudesse fazer os autorretratos; pelo quarto de Diego, com seu macacão habitual ainda sujo de tinta; e pelo ateliê de ambos. Ali fica mais fácil de entender porquê da opção de Frida por retratar a si mesma, devido ao tempo em que passava na cama. Ela costumava dizer: “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha, e porque sou o assunto que conheço melhor”.

É como entrar num túnel do tempo. Trata-se de verdadeiro deleite para os fãs de Friducha, como Diego a chamava. E é imersão em sua história aos que pouco a conhecem, com grande possibilidade de saírem do local como admiradores. A diversidade de itens da loja de souvenires também é de enlouquecer até mesmo os mais céticos dos fãs.

Desde 2012, há na Casa Azul uma mostra de suas vestimentas, que encantam e impressionam pela qualidade. Isso se deve ao fato de que, embora Frida tenha morrido em 1954, uma semana depois de completar 47 anos, Diego as guardou, junto a outros objetos pessoais, e em seu leito de morte pediu à amiga Dolores Olmedo, uma colecionadora de arte, que só os mexesse no acervo, assim como em seus pertences, dali a 15 anos. Ela, porém, se recusou a entregar os itens ao Museu Frida Kahlo, e eles só começaram a ser catalogados quando ela morreu, em 2002.

A morte de Frida foi justificada por embolia pulmonar. Há rumores, porém, de que ela teria se suicidado. É certo que, um pouco antes do ocorrido, ela escreveu: “Espero alegre a minha partida – e espero não retornar nunca mais”. Ela também havia pedido para ser cremada, pois dizia que já tinha passado boa parte da vida deitada. Sua última obra, exposta na Casa Azul, é de melancias, natureza-morta que adorava retratar, com os dizeres: Viva la Vida (Viva a Vida).

O ingresso também dá acesso ao museu Anahuacalli, que expõe 50 mil peças de coleção do casal do período pré-colombiano. Era sonho deles deixar ao povo herança museológica.

CASA-ESTÚDIO - No bairro de San Ángel, vizinho a Coyoacán, está a Casa-Estúdio de Diego e Frida, local em que moravam em espaços separados, ligados por uma ponte. Foi por meio dela, inclusive, que ela flagrou Diego transando com sua irmã Cristina.

Ele era extremamente mulherengo e geralmente se envolvia com as mulheres que posavam para ele ou cruzavam seu caminho. Para Diego, fazer “sexo era como urinar”, dizia ele, ao tentar minimizar o peso das traições.

A entrada custa 35 pesos e são cobrados outros 30 pesos para pode fotografar. 



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