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Ambulantes apostam na venda de jumbo

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Comércio de kits de mantimentos e itens de higiene para detentos movimenta CDPs da região


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

26/08/2018 | 07:29


Na falta de emprego formal, comerciantes enxergaram oportunidade de gerar renda a partir da venda de produtos específicos para detentos. Este é o caso de camelôs que se posicionam nas proximidades dos CDP’s (Centros de Detenção Provisória) da região para ofertar às famílias dos presos o jumbo – sacola com kit de alimentos, produtos de higiene e roupas para os presidiários.

Nem sempre os familiares conseguem levar de casa a sacola com os itens necessários e permitidos aos detentos, seja pela distância ou por falta de tempo. Atenta ao cenário, a ambulante Laura de Jesus Souza, 64 anos, atua na porta do CDP de Santo André há 15 anos. A Tia, como é chamada pelos familiares dos detentos, é querida. Sua tenda – há mais duas ao lado – é a mais lotada na Avenida Dom Jorge Marcos de Oliveira, na Vila Aquilino.

Mãe solo, Laura ingressou no comércio informal para conseguir sustentar o filho sozinha. “Vendi roupa em barraquinhas nas ruas há muitos anos, e também, quando adolescente, vendi bala e picolé nos faróis. Mas percebi que na frente do CDP de Santo André não tinha nada, e então pensei: vou vender os produtos que os presos precisam. Fui a primeira a chegar, tenho mais de 15 anos no mesmo local e sou amiga de todos os familiares. Aqui já vi de tudo e sofro junto com os parentes dos presos.”

Muambeira, como ela se descreve, lamenta a história triste de vida que tem, mas ressalta sua força. Laura está com câncer no reto e diz sentir muita dor, o que não a tira da lojinha improvisada, uma vez que continua sustentando o filho e os netos, Jonathan, 14, e Karolyn, 13. “Acho que de tanto trabalhar com mãe de preso, atrai isso para minha vida. Meu filho ficou detido neste CDP por dois anos. Além de vender o jumbo, fazia o kit e ia entregar para ele. Hoje ele está solto, e se libertou das drogas, mas me deu dois netos, pelos quais sou responsável legal.”

Divertida, ela contou diversas situações vivenciadas. Para ela, trabalhar em frente ao CDP é a maior experiência de vida que qualquer pessoa poderia ter. “Respiro histórias. Já carreguei mãe de preso desmaiada, já vi juíza brigar para entrar de salto na visita do filho preso, e fui alvo de malandragem. Uma vez quase fui presa, porque me pediram para entregar uma caixinha de cigarro para um detento, mas era droga.”

Além de vender, a Tia ensina os novos familiares como devem proceder. Ouve histórias e acaba servindo de orientadora, ‘psicóloga’ e ombro amigo. Laura dá conselhos, diz que vai orar pelos presos e, por muitas vezes, já deixa o kit do jumbo separado para os mais amigos.

Além de toda a simpatia, ela vende fiado aos que precisam. Com dó dos parentes que chegam perdidos e sem dinheiro, Laura tenta ajudar como pode. “Mas me dou mal. No início do ano tomei um prejuízo de R$ 8.000 porque vendi fiado.”

“Há dias em que vendo R$ 20, mas também, já pude comemorar lucro de R$ 300 (em um dia)”. Na incerteza, procura viver com economia. Os preços dos pertences são acessíveis e os mesmos nas três barracas, mesmo assim, Laura não reclama e espera viver até 100 anos para vender seus produtos e continuar compartilhando conhecimento de vida. “Somos (ela e parentes de presos) uma família. Não tem como não se envolver. Lamento o peso que carrego, porque aqui só ouvimos coisas tristes. Mas acredito que essa foi uma missão na minha vida, e vou cumprir.”


Casal constrói lojinha em Diadema

O casal de vendedores Ana Paula Silva, 26 anos, e Marcelo Coelho, 27, está há oito anos trabalhando em frente ao CDP (Centro de Detenção Provisória) de Diadema. Eles começaram com uma barraquinha improvisada, mas atualmente, construíram uma lojinha.

Além de roupas para os detentos e a sacola para entrega do jumbo, o casal vende também bolachas, refrigerante, papel higiênico, produtos de higiene, cigarro, entre outros.

Marcelo conta que o casal estava desempregado e precisava de renda o mais rápido possível. Notaram que em frente ao Centro de Detenção não havia comércio. “Começamos pequenos, mas vimos que dava para crescer.”

O casal diz gostar do que faz, e ressalta que, além de conhecimento, o trabalho humaniza. “Ouvimos muitas histórias e presenciamos diversas situações tristes, de desespero, de nervoso. Aprendemos muito, fazemos amigos e ajudamos pessoas que precisam, às vezes, só conversar.”

HISTÓRIAS - Com exceção do casal Ana Paula e Marcelo, a maioria dos vendedores que se ‘abriga’ em frente aos CDPs tem histórico de familiar preso. A equipe do Diário ouviu cinco camelôs de diferentes cidades. Quatro passaram a vender produtos para presos porque sentiram necessidade vivendo a situação.

A pedagoga Kátia Perla Tizzo, 44, está colaborando com a tenda da sogra, Nair, 72, que começou a vender jumbo quando teve seu filho preso. “Ela (Nair) vinha visitar meu cunhado, ou trazer jumbo, e sentia dificuldade tanto para comprar os produtos quanto para trazer. Ela pensou que poderia ser um fortalecimento. A maioria começa a vender jumbo assim, quando há prisão na família.”


 



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