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Investir na indústria ou em títulos financeiros?


Jefferson José da Conceição*

03/08/2018 | 07:29


Em 15 de julho, o Diário publicou matéria sobre o estudo que fizemos no Observatório da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) a respeito das margens de lucro em indústrias do Grande ABC comparadas com a rentabilidade em aplicações financeiras. Detalhemos um pouco mais o estudo.

A financeirização é atualmente um dos grandes desafios no campo econômico. E é ainda maior em países como o Brasil, que possui os juros mais altos do planeta. A financeirização é o processo no qual a rentabilidade das aplicações em títulos financeiros sobrepõe-se à rentabilidade no setor produtivo. O investidor ganha mais dinheiro no mercado financeiro do que quando investe na produção. Se isto persiste por longo período, torna-se um grande problema para o País. Para regiões industriais, como o Grande ABC, este quadro vira dramático, em função dos desinvestimentos, do fechamento de fábricas e do desemprego.

O fenômeno é global. Ocorre nos países avançados e nos emergentes. O economista Ha-Joon Chang, em obra de 2013, apontou que a GE, a GM e a Ford, três gigantes da indústria, tornaram-se corporações financeiras por meio da contínua expansão das suas subsidiárias financeiras, cujo contraponto foi o declínio das suas atividades industriais. No início do século 21, a maior parte do lucro dessas empresas vinha das suas atividades financeiras, e não do seu segmento industrial. Em 2003, 45% do lucro da GE era gerado pela GE capital (braço financeiro da empresa). Em 2004, 80% dos lucros da GM tinham como origem a sua subsidiária financeira, a GMAC. Entre 2001 e 2003, a Ford Finance foi responsável pela totalidade dos lucros da Ford.

Nossa pesquisa, baseada em dados secundários, levantou que, em um conjunto de empresas industriais do Grande ABC que estavam ranqueadas entre as 1.000 maiores do País entre 2012 e 2016, a margem de lucro anual média foi bem inferior à taxa Selic, que é a remuneração financeira básica. Em 2012, a remuneração da taxa Selic foi de 8,62% contra 1,94% de margem de lucro média das indústrias; em 2013, respectivamente, 8,06% contra 2,28%; em 2014, 10,81% contra 2,98%; em 2015, 13,24% contra -4,62%; em 2016, 14% contra -0,43%.

Em 2016, o lucro líquido do Itaú Unibanco foi de R$ 21,6 bilhões; Bradesco, R$ 15,1 bilhões; Banco do Brasil, R$ 8 bilhões; Santander, R$ 5,5 bilhões. Isto gerou margens de lucro de 41% para Itaú Unibanco; 28,3% para o Bradesco; 25,2% para o Banco do Brasil; 20,7% para o Santander.

Os montantes e as margens de lucro muito elevadas dos bancos mostram a acentuada discrepância entre a rentabilidade financeira e a produtiva no Brasil. O resultado é o contínuo fechamento de indústrias, desemprego industrial e perda de know-how tecnológico.

O local em que o capital se multiplica migrou da fábrica para o banco. É simbólico que muitos diretores e gerentes industriais estejam sendo atraídos pelos bancos. Isto também acontece com os jovens talentos egressos de áreas como Administração, Economia, Contábeis, Direito e até mesmo Engenharia.

O enfrentamento da financeirização, com a valorização da produção, do know-how tecnológico e do emprego deve fazer parte do rol de bandeiras mobilizadoras da sociedade. No estudo, defendemos como propostas:

a) Promover efetiva política industrial que incremente a rentabilidade em todos os setores, mas que seja acompanhada de rígidas contrapartidas no cumprimento de metas de produção, inovação, exportações e empregos;

b) Aumentar o número de integrantes do Conselho Monetário Nacional para permitir a participação de representantes da atividade produtiva e de outras instâncias da sociedade (como universidades), não só na definição da taxa de juros e no alcance da meta de inflação, mas também na busca de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) e expansão dos empregos;

c) Regulamentar visando que os bancos apoiem (com taxas de juros mais baixas) projetos estratégicos na área industrial, especialmente associado à inovação, exportações e substituição de importações;

d) Estabelecer maior percentual de crédito dirigido dos bancos para apoio às micro, pequenas e médias empresas, especialmente da indústria;

e) Fortalecer os recursos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) para viabilizar crédito mais barato às pequenas, médias e grandes empresas industriais;

f) Fixar restrições nas movimentações de capital entre os países, com a criação de taxação sobre operações financeiras internacionais.

Com isso, o Observatório busca cumprir o seu papel de fomentar o debate sobre os rumos do desenvolvimento regional e do País. 


* Professor e coordenador do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS.



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