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Jabá, o morador da árvore

Claudinei Plaza/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Vivendo nas ruas, homem constrói casa em troncos e diz ter sonho quase realizado, mas apela por ajuda para deixar a droga


Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

29/07/2018 | 07:00


O sonho de ter uma casa na árvore, bem equipada, com direito a rede com vista para o lago e barco de passeio se tornou quase verdade para o morador de rua Luciano Gomes Ferreira, 32 anos, conhecido como Jabá pelos colegas que vivem na mesma situação. O quase é porque a moradia de madeira, adaptada entre os troncos de uma árvore, tem vista para córrego que percorre a Avenida Lauro Gomes – que liga os municípios de Santo André e São Bernardo –, e a lancha é na verdade banheira velha, a qual Jabá chama de “meu barquinho”.

O barraco, construído na altura do número 1.051, tem difícil acesso, até porque fica atrás de um muro alto, que exige o apoio de um caixote para alcançar o topo e chegar à escadinha adaptada que leva à ‘entrada’ da precária moradia.

Embora não aparente ser uma residência propriamente dita, o local é benfeito, afinal Jabá diz ser engenheiro civil. A moradia tem ripas de madeira e ferro por baixo e cordas que a amarram à árvore, equipamentos que ele diz assegurar contra queda. Por dentro ele tenta ter conforto. Tapete, armário, colchão de casal, cobertores, roupas, sapatos e pedaços de entulho que vai utilizar para melhorar o espaço.

A equipe do Diário esteve no local. Com muita educação e carisma, o usuário de crack, que vive sozinho, convidou a reportagem para entrar, e com frases como “sejam bem-vindos” e “fiquem à vontade, a casa é de vocês”, fez questão que os “novos amigos”, como ele mesmo disse, fossem bem recebidos. Preocupado, forrou espaços para assento. Pulou para mostrar que “a casa é segura e não cai”.

“Construí tudo sozinho. Não tinha aonde morar e, com o material que recolho de sucata, fui montando minha casinha. Mas ainda falta muita coisa, porque vou colocar telha e forrar todo o teto, colocar porta, fechar em volta com madeira e quero ainda uma sofá”, relata Jabá.

De acordo com ele, veio de Belo Oriente, em Minas Gerais, para trabalhar. Embora diga que chegou em Santo André para atuar em obras de avenida como engenheiro, a população vizinha conta que ele era dono de lava-rápido e perdeu tudo por se envolver com drogas.

Atualmente, viciado em crack e alcoólatra, Jabá lamenta a situação de sua vida. “Sou a maior decepção da minha própria vida. Sempre tive de tudo e dinheiro nunca foi problema. Minha família é muito bem de vida e eu era um bom profissional. Isso aqui (viver na rua) era algo que tinha nojo. Preconceituoso, sempre critiquei usuários de drogas, mendigos e pessoas que se deixaram chegar nessa situação. Hoje sou eu quem está aqui.”

Para ele, decepção por quem se tornou é o sentimento mais latente que tem. Embora ainda tenha contato com a família, somente por telefone, nunca mais voltou para casa. Triste, conta que há uma semana sua avó completou 92 anos e lamenta não poder estar com quem ama.

“Minha família é da igreja. Eu era também e tinha pavor dessa vida (na rua). Hoje falo com eles (família) por telefone, mas ninguém sabe como vivo aqui. Digo para minha mãe que conhece o filho que tem, peço bênção e sempre digo que estou trabalhando e que está tudo ótimo. Reforço que não tenho tempo de ir vê-los e que sou averso a tecnologias, por isso não as uso. Tudo mentira. Tenho repulsa, vergonha, e muito medo de que saibam o que me tornei”, explica Jabá

Emocionado, diz sentir saudade de seus parentes e afirma que se estiver recuperado, volta para sua cidade natal.

‘Preciso de incentivo, apoio e oportunidade’

Jabá reforça que na vida tudo são escolhas e diz saber ter feito a pior delas. Ele explica que recolhe, vende e vive de materiais recicláveis e que, além de nunca ter roubado, não faz mal a ninguém e somente quer seu espaço na sociedade. 

“Um dia, depois de beber muito, um cara me ofereceu o crack. Fumei e senti todos os prazeres naquele momento. Nunca mais consegui parar de fumar (o crack). Perdi tudo, fiquei na rua e me tornei um doente”, diz o morador de rua.

Ele lamenta a situação, mas afirma que a população tem de entender que não é vício, e sim doença, e apela ajuda ao poder público. “Preciso e quero ajuda. Mas não é somente virem (Prefeitura) me tirar da minha casa, levar meus sonhos e me internarem em uma clínica. Preciso de incentivo, apoio e oportunidade. Se voltar a trabalhar, vou ocupar minha cabeça e sair dessa maldição (vício).”

Para Jabá, qualquer ajuda será bem-vinda, principalmente se for para tirá-lo da rua e dar moradia, ocupação e tratamento. Mesmo assim, pede que não o tirem daquilo que tanto sonhou e construiu, que é sua casa na árvore.

‘Jabá’ tem projeto para se recuperar e ajudar os outros

Mesmo que esteja vivendo “nas trevas”, como ele descreve, a perspectiva de vida e a busca por um futuro melhor não passam longe de Jabá. Com projeto que denomina “Resgate de vidas no vale dos ossos secos” – faz alusão aos usuários de drogas, magros e mal alimentados –, sonhador, ele espera tirar a população das ruas. A esperança de Jabá é ter ajuda para se recuperar e, posteriormente, poder auxiliar os demais.

“Idealizei esse projeto com intuito de tirar as pessoas das ruas e dar abrigo, mas preciso de apoio do poder público e da população. Quero ter parceria com clínicas de reabilitação para tratar os viciados e também com a Prefeitura, com oferta de emprego e núcleos habitacionais. Preciso divulgar minha ideia para ter o apoio necessário”, apela.

No térreo de sua moradia, que fica à beira do córrego, ele pensa em construir uma academia de artes marciais, mas tem consciência de que é quase impossível. “Queria então ter um espaço para ensinar às crianças (artes marciais) e tirá-las das ruas e de perto das drogas e do crime.”

Ideias não faltam para ele. Jabá diz que vive em sofrimento e muito angustiado, mas comemora ter o principal: vontade de mudar de vida.


APOIO

A vizinhança reclama dos usuários de drogas, até porque diz que eles fazem sujeira e acumulam lixo nas ruas. Além do mau cheiro, afirma que os moradores de rua roubam para comprar crack. No entanto, apoia as ideias de Jabá e torce para que tenha a sonhada ajuda.

A principal reclamação é contra a Prefeitura, pois a população do entorno alega que em época de chuva os barracos são retirados e os deixam sem abrigo, oferecendo atendimento na Casa Amarela. Critica a lotação e falta de estrutura para atendimento.

“Se tirarem eles (usuários de drogas e moradores de rua) dos barracos que constroem, que disponibilizem abrigo, até porque a Prefeitura os tira daqui (rua) e em poucas horas eles voltam e fazem todos os barracos outra vez, pois não têm para onde ir”, reclama moradora da comunidade do entorno (Sacadura Cabral), que não quis se identificar. 

Questionada, a Prefeitura informou que acionou a equipe de abordagem de rua para monitorar o perímetro na tentativa de identificação, e que, após encontrar Jabá, será possível verificar os serviços disponíveis para oferta de ajuda.



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Jabá, o morador da árvore

Vivendo nas ruas, homem constrói casa em troncos e diz ter sonho quase realizado, mas apela por ajuda para deixar a droga

Bia Moço
Do Diário do Grande ABC

29/07/2018 | 07:00


O sonho de ter uma casa na árvore, bem equipada, com direito a rede com vista para o lago e barco de passeio se tornou quase verdade para o morador de rua Luciano Gomes Ferreira, 32 anos, conhecido como Jabá pelos colegas que vivem na mesma situação. O quase é porque a moradia de madeira, adaptada entre os troncos de uma árvore, tem vista para córrego que percorre a Avenida Lauro Gomes – que liga os municípios de Santo André e São Bernardo –, e a lancha é na verdade banheira velha, a qual Jabá chama de “meu barquinho”.

O barraco, construído na altura do número 1.051, tem difícil acesso, até porque fica atrás de um muro alto, que exige o apoio de um caixote para alcançar o topo e chegar à escadinha adaptada que leva à ‘entrada’ da precária moradia.

Embora não aparente ser uma residência propriamente dita, o local é benfeito, afinal Jabá diz ser engenheiro civil. A moradia tem ripas de madeira e ferro por baixo e cordas que a amarram à árvore, equipamentos que ele diz assegurar contra queda. Por dentro ele tenta ter conforto. Tapete, armário, colchão de casal, cobertores, roupas, sapatos e pedaços de entulho que vai utilizar para melhorar o espaço.

A equipe do Diário esteve no local. Com muita educação e carisma, o usuário de crack, que vive sozinho, convidou a reportagem para entrar, e com frases como “sejam bem-vindos” e “fiquem à vontade, a casa é de vocês”, fez questão que os “novos amigos”, como ele mesmo disse, fossem bem recebidos. Preocupado, forrou espaços para assento. Pulou para mostrar que “a casa é segura e não cai”.

“Construí tudo sozinho. Não tinha aonde morar e, com o material que recolho de sucata, fui montando minha casinha. Mas ainda falta muita coisa, porque vou colocar telha e forrar todo o teto, colocar porta, fechar em volta com madeira e quero ainda uma sofá”, relata Jabá.

De acordo com ele, veio de Belo Oriente, em Minas Gerais, para trabalhar. Embora diga que chegou em Santo André para atuar em obras de avenida como engenheiro, a população vizinha conta que ele era dono de lava-rápido e perdeu tudo por se envolver com drogas.

Atualmente, viciado em crack e alcoólatra, Jabá lamenta a situação de sua vida. “Sou a maior decepção da minha própria vida. Sempre tive de tudo e dinheiro nunca foi problema. Minha família é muito bem de vida e eu era um bom profissional. Isso aqui (viver na rua) era algo que tinha nojo. Preconceituoso, sempre critiquei usuários de drogas, mendigos e pessoas que se deixaram chegar nessa situação. Hoje sou eu quem está aqui.”

Para ele, decepção por quem se tornou é o sentimento mais latente que tem. Embora ainda tenha contato com a família, somente por telefone, nunca mais voltou para casa. Triste, conta que há uma semana sua avó completou 92 anos e lamenta não poder estar com quem ama.

“Minha família é da igreja. Eu era também e tinha pavor dessa vida (na rua). Hoje falo com eles (família) por telefone, mas ninguém sabe como vivo aqui. Digo para minha mãe que conhece o filho que tem, peço bênção e sempre digo que estou trabalhando e que está tudo ótimo. Reforço que não tenho tempo de ir vê-los e que sou averso a tecnologias, por isso não as uso. Tudo mentira. Tenho repulsa, vergonha, e muito medo de que saibam o que me tornei”, explica Jabá

Emocionado, diz sentir saudade de seus parentes e afirma que se estiver recuperado, volta para sua cidade natal.

‘Preciso de incentivo, apoio e oportunidade’

Jabá reforça que na vida tudo são escolhas e diz saber ter feito a pior delas. Ele explica que recolhe, vende e vive de materiais recicláveis e que, além de nunca ter roubado, não faz mal a ninguém e somente quer seu espaço na sociedade. 

“Um dia, depois de beber muito, um cara me ofereceu o crack. Fumei e senti todos os prazeres naquele momento. Nunca mais consegui parar de fumar (o crack). Perdi tudo, fiquei na rua e me tornei um doente”, diz o morador de rua.

Ele lamenta a situação, mas afirma que a população tem de entender que não é vício, e sim doença, e apela ajuda ao poder público. “Preciso e quero ajuda. Mas não é somente virem (Prefeitura) me tirar da minha casa, levar meus sonhos e me internarem em uma clínica. Preciso de incentivo, apoio e oportunidade. Se voltar a trabalhar, vou ocupar minha cabeça e sair dessa maldição (vício).”

Para Jabá, qualquer ajuda será bem-vinda, principalmente se for para tirá-lo da rua e dar moradia, ocupação e tratamento. Mesmo assim, pede que não o tirem daquilo que tanto sonhou e construiu, que é sua casa na árvore.

‘Jabá’ tem projeto para se recuperar e ajudar os outros

Mesmo que esteja vivendo “nas trevas”, como ele descreve, a perspectiva de vida e a busca por um futuro melhor não passam longe de Jabá. Com projeto que denomina “Resgate de vidas no vale dos ossos secos” – faz alusão aos usuários de drogas, magros e mal alimentados –, sonhador, ele espera tirar a população das ruas. A esperança de Jabá é ter ajuda para se recuperar e, posteriormente, poder auxiliar os demais.

“Idealizei esse projeto com intuito de tirar as pessoas das ruas e dar abrigo, mas preciso de apoio do poder público e da população. Quero ter parceria com clínicas de reabilitação para tratar os viciados e também com a Prefeitura, com oferta de emprego e núcleos habitacionais. Preciso divulgar minha ideia para ter o apoio necessário”, apela.

No térreo de sua moradia, que fica à beira do córrego, ele pensa em construir uma academia de artes marciais, mas tem consciência de que é quase impossível. “Queria então ter um espaço para ensinar às crianças (artes marciais) e tirá-las das ruas e de perto das drogas e do crime.”

Ideias não faltam para ele. Jabá diz que vive em sofrimento e muito angustiado, mas comemora ter o principal: vontade de mudar de vida.


APOIO

A vizinhança reclama dos usuários de drogas, até porque diz que eles fazem sujeira e acumulam lixo nas ruas. Além do mau cheiro, afirma que os moradores de rua roubam para comprar crack. No entanto, apoia as ideias de Jabá e torce para que tenha a sonhada ajuda.

A principal reclamação é contra a Prefeitura, pois a população do entorno alega que em época de chuva os barracos são retirados e os deixam sem abrigo, oferecendo atendimento na Casa Amarela. Critica a lotação e falta de estrutura para atendimento.

“Se tirarem eles (usuários de drogas e moradores de rua) dos barracos que constroem, que disponibilizem abrigo, até porque a Prefeitura os tira daqui (rua) e em poucas horas eles voltam e fazem todos os barracos outra vez, pois não têm para onde ir”, reclama moradora da comunidade do entorno (Sacadura Cabral), que não quis se identificar. 

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