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Hora de ler as mulheres

Divulgação  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Projeto que fomenta leitura de obras de autoras pode ser conferido em três cidades da região


Vinícius Castelli

29/07/2018 | 07:00


 É sabido que o brasileiro, em sua maioria, não tem o hábito da leitura. E as razões podem ser inúmeras: seja pelo fato de a população ter outras necessidades, por muitas pessoas não se formarem na escola ou até mesmo pelo preço praticado nas vendas dos exemplares. Além de o brasileiro ler pouco – em 2015 apenas 50% da população, segundo o Instituto Pró-Livro – , o mercado literário de autores homens é, desde sempre, mais forte do que o das mulheres, ou seja, autoras são prestigiadas em menor quantidade.

Foi isso o que notou, ao olhar para sua própria estante, a funcionária pública formada em Letras Ivone Mariano, 31 anos. “Lemos o que nos mais é oferecido, o do gênero masculino. A mulher não escreve menos. A maneira como o mercado editorial trabalha é assim. Os homens recebem verba maior até”, explica.

Ivone é responsável e mediadora do projeto Leia Mulheres – Mauá, clube de leitura que debate as produções femininas e o papel da mulher na literatura. Não se trata de algo exclusivista, segundo ela. Ao contrário. “Não acredito que exista literatura feminina. Literatura é literatura. Prefiro acreditar que as autoras escrevem com tanta qualidade quanto qualquer autor”, diz.

Uma vez ao mês, desde 2017, é realizado encontro para que os participantes – homem também pode interagir – falem sobre a obra lida. A escolha do título a ser debatido é feita no coletivo e não há cobrança de entrada. A ideia é, de fato, fomentar a leitura e apreciar o que as mulheres escreveram ao longo do tempo e seguem escrevendo.

A última leitura foi de textos da andreense Solange Dias. A diademense Sheyla Smanioto está na lista. “A gente lê tudo. Romance, obras independentes, autoras renomadas e da região. Leremos em breve uma sul-coreana. Queremos sair da zona de conforto. São contos de autoras que pouco ouvimos falar”, explica Ivone.

O projeto nasceu inspirado na ideia da escritora britânica Joanna Walsh que, em 2014, mobilizou usuários do Twitter com a hashtag #readwomen2014 (leiamulheres2014). A campanha questionava a desigualdade nos hábitos de leitura.

PIONEIRA NA REGIÃO
Além de Mauá, o projeto percorre outras cidades daqui. A primeira do Grande ABC a adotar a prática, que começou na Capital, foi São Bernardo. Em 2016 a editora de texto Thaís Vitale, 31, teve contato com o projeto por meio das redes sociais. Percebeu a possibilidade de realizar na região a mediação do clube como forma de fomentar a leitura.

“Estamos no terceiro ano de projeto em São Bernardo com grupo que sempre vai aos encontros. Neles, as participantes sempre relatam como as discussões enriquecem seu olhar sobre as obras e como o projeto mudou a relação delas com a literatura por ajudá-las a ampliar o repertório cultural e descobrir escritoras que, sem a indicação do Leia Mulheres, provavelmente não conheceriam”, explica Thaís.

Na versão andreense, criada neste ano, uma das mediadoras é a assistente social Camilla Dias, 35. “Senti a necessidade de trazer o projeto quando percebi que não tínhamos nenhum coletivo de leitura em Santo André e o grande deficit de incentivo nesta área. Existem iniciativas pontuais. mas que não atendem a necessidade de alguns leitores”, diz.

Ela explica que o mercado editorial é, em sua maioria, formado por homens, por isso, existem mais publicações de autores, heterossexuais e brancos. “Quando consumimos obras de mulheres brasileiras e de outras etnias, criamos demandas para que as editoras publiquem mais”, afirma. Todas as reuniões são independentes e as edições podem mudar de endereço, por isso é sempre bom consultar o grupo de cada cidade no Facebook (Leia Mulheres).

Ivone acha que a mudança, para que mais mulheres sejam lidas, começa pela tomada de consciência de que o patriarcado existe, inclusive na literatura. Ela cita Lygia Fagundes Telles, considerada a primeira dama da Literatura Brasileira e primeira mulher indicada ao Prêmio Nobel de Literatura em 2016, aos 92 anos. “Não faz sentido ela não estar na lista das grandes faculdades. Temos de ampliar o que lemos e nos perguntar a razão de escolhermos os autores que estão nas nossas cabeceiras”, encerra.

Capital deu início ao clube, hoje presente em 23 Estados
Presente hoje em 23 Estados brasileiros, o Leia Mulheres teve início em São Paulo, em 2015. A iniciativa partiu de Juliana Gomes, que convidou Juliana Leuenroth e Michelle Henriques. Pouco tempo depois fizeram o convite para que amigas do Rio de Janeiro e Curitiba organizassem os próprios clubes. “Aos poucos mulheres de diversas cidades entraram em contato mostrando interesse. Hoje estamos em mais de 85 lugares”, conta Michelle, 31 anos, que trabalha como assistente de marketing.

“Os livros escritos por homens sempre ficaram em maior destaque nas livrarias, ganharam mais espaço na mídia e também mais credibilidade, especialmente em gêneros ditos como ‘masculinos’, como terror e ficção científica. O mercado editorial é só um reflexo da nossa sociedade machista”, analisa Michelle.

O desejo dela é que algo mude com o projeto. Michelle gostaria que o trabalho produzido por mulheres pare de ser identificado como ‘literatura feminina’. “As mulheres não são iguais e escrevem os mais diversos gêneros possíveis. Espero que as pessoas leiam mais mais e livros assinados por autoras.”



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Hora de ler as mulheres

Projeto que fomenta leitura de obras de autoras pode ser conferido em três cidades da região

Vinícius Castelli

29/07/2018 | 07:00


 É sabido que o brasileiro, em sua maioria, não tem o hábito da leitura. E as razões podem ser inúmeras: seja pelo fato de a população ter outras necessidades, por muitas pessoas não se formarem na escola ou até mesmo pelo preço praticado nas vendas dos exemplares. Além de o brasileiro ler pouco – em 2015 apenas 50% da população, segundo o Instituto Pró-Livro – , o mercado literário de autores homens é, desde sempre, mais forte do que o das mulheres, ou seja, autoras são prestigiadas em menor quantidade.

Foi isso o que notou, ao olhar para sua própria estante, a funcionária pública formada em Letras Ivone Mariano, 31 anos. “Lemos o que nos mais é oferecido, o do gênero masculino. A mulher não escreve menos. A maneira como o mercado editorial trabalha é assim. Os homens recebem verba maior até”, explica.

Ivone é responsável e mediadora do projeto Leia Mulheres – Mauá, clube de leitura que debate as produções femininas e o papel da mulher na literatura. Não se trata de algo exclusivista, segundo ela. Ao contrário. “Não acredito que exista literatura feminina. Literatura é literatura. Prefiro acreditar que as autoras escrevem com tanta qualidade quanto qualquer autor”, diz.

Uma vez ao mês, desde 2017, é realizado encontro para que os participantes – homem também pode interagir – falem sobre a obra lida. A escolha do título a ser debatido é feita no coletivo e não há cobrança de entrada. A ideia é, de fato, fomentar a leitura e apreciar o que as mulheres escreveram ao longo do tempo e seguem escrevendo.

A última leitura foi de textos da andreense Solange Dias. A diademense Sheyla Smanioto está na lista. “A gente lê tudo. Romance, obras independentes, autoras renomadas e da região. Leremos em breve uma sul-coreana. Queremos sair da zona de conforto. São contos de autoras que pouco ouvimos falar”, explica Ivone.

O projeto nasceu inspirado na ideia da escritora britânica Joanna Walsh que, em 2014, mobilizou usuários do Twitter com a hashtag #readwomen2014 (leiamulheres2014). A campanha questionava a desigualdade nos hábitos de leitura.

PIONEIRA NA REGIÃO
Além de Mauá, o projeto percorre outras cidades daqui. A primeira do Grande ABC a adotar a prática, que começou na Capital, foi São Bernardo. Em 2016 a editora de texto Thaís Vitale, 31, teve contato com o projeto por meio das redes sociais. Percebeu a possibilidade de realizar na região a mediação do clube como forma de fomentar a leitura.

“Estamos no terceiro ano de projeto em São Bernardo com grupo que sempre vai aos encontros. Neles, as participantes sempre relatam como as discussões enriquecem seu olhar sobre as obras e como o projeto mudou a relação delas com a literatura por ajudá-las a ampliar o repertório cultural e descobrir escritoras que, sem a indicação do Leia Mulheres, provavelmente não conheceriam”, explica Thaís.

Na versão andreense, criada neste ano, uma das mediadoras é a assistente social Camilla Dias, 35. “Senti a necessidade de trazer o projeto quando percebi que não tínhamos nenhum coletivo de leitura em Santo André e o grande deficit de incentivo nesta área. Existem iniciativas pontuais. mas que não atendem a necessidade de alguns leitores”, diz.

Ela explica que o mercado editorial é, em sua maioria, formado por homens, por isso, existem mais publicações de autores, heterossexuais e brancos. “Quando consumimos obras de mulheres brasileiras e de outras etnias, criamos demandas para que as editoras publiquem mais”, afirma. Todas as reuniões são independentes e as edições podem mudar de endereço, por isso é sempre bom consultar o grupo de cada cidade no Facebook (Leia Mulheres).

Ivone acha que a mudança, para que mais mulheres sejam lidas, começa pela tomada de consciência de que o patriarcado existe, inclusive na literatura. Ela cita Lygia Fagundes Telles, considerada a primeira dama da Literatura Brasileira e primeira mulher indicada ao Prêmio Nobel de Literatura em 2016, aos 92 anos. “Não faz sentido ela não estar na lista das grandes faculdades. Temos de ampliar o que lemos e nos perguntar a razão de escolhermos os autores que estão nas nossas cabeceiras”, encerra.

Capital deu início ao clube, hoje presente em 23 Estados
Presente hoje em 23 Estados brasileiros, o Leia Mulheres teve início em São Paulo, em 2015. A iniciativa partiu de Juliana Gomes, que convidou Juliana Leuenroth e Michelle Henriques. Pouco tempo depois fizeram o convite para que amigas do Rio de Janeiro e Curitiba organizassem os próprios clubes. “Aos poucos mulheres de diversas cidades entraram em contato mostrando interesse. Hoje estamos em mais de 85 lugares”, conta Michelle, 31 anos, que trabalha como assistente de marketing.

“Os livros escritos por homens sempre ficaram em maior destaque nas livrarias, ganharam mais espaço na mídia e também mais credibilidade, especialmente em gêneros ditos como ‘masculinos’, como terror e ficção científica. O mercado editorial é só um reflexo da nossa sociedade machista”, analisa Michelle.

O desejo dela é que algo mude com o projeto. Michelle gostaria que o trabalho produzido por mulheres pare de ser identificado como ‘literatura feminina’. “As mulheres não são iguais e escrevem os mais diversos gêneros possíveis. Espero que as pessoas leiam mais mais e livros assinados por autoras.”

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