Fechar
Publicidade

Sexta-Feira, 18 de Outubro

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Setecidades

setecidades@dgabc.com.br | 4435-8319

Leitura que abre horizontes

André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Ação do Semasa desperta nos internos da Fundação Casa gosto pela leitura e ideal de bom futuro; geladeira reformada pelos jovens é utilizada como estante de livros


Bia Moço

23/07/2018 | 07:00


Ler para ‘sair da caixa’ e abrir novos horizontes. É assim que os meninos internos da Fundação Casa Santo André 1 descrevem o novo hábito de apreciar bons títulos. Isso porque, no último dia 28, o Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André) incluiu, nos centros 1 e 2 da instituição, a ação Livro Vivo, como parte do projeto Formar para Ressocializar – realizado pela autarquia em parceria com a Fundação Casa desde 2015. O objetivo é ensinar aos adolescentes conteúdos sobre educação ambiental, reciclagem e arte.

Os 45 jovens em medida socioeducativa no Casa Santo André 1 foram os primeiros contemplados pelo projeto e, com sorriso no rosto, dizem que passam “algumas boas horas” envolvidos com os livros. Para eles, o gosto por ‘devorar’ um exemplar surgiu do ‘sonhar’. Eles explicam que viver em medida socioeducativa é sempre “estar na mesmice” e, com as histórias, conseguem viajar e imaginar outra vida. Além disso, descobriram que, com a leitura, o tempo passa mais rápido e também conseguem “abrir a mente e pensar em novos caminhos” para quando saírem da reclusão.

Os centros já tinham biblioteca disponível aos garotos, mas nem sempre o gosto pela leitura caminhou junto. Embora ler ainda não seja escolha de todos os internos, a participação na preparação da nova estante foi o que despertou o interesse pelas diversas histórias. Alguns dos meninos participaram da grafitagem da geladeira, reaproveitada das estações de coleta de recicláveis do Semasa, que agora serve como armário para armazenar as publicações.
João (nome fictício), 17 anos, foi o principal responsável pela arte. Ele faz parte do curso de grafite disponível no regime socioeducativo. “A geladeira chegou para nós bem velha. Lixamos e fizemos um desenho que fizesse alusão ao meio ambiente. Com essa nova estante conseguimos até trazer mais colegas para ler. Transformou nossa biblioteca em espaço mais acolhedor e divertido. Foi muito bom.”

João está no centro há nove meses. O menino, que trabalhava como cabeleireiro, se envolveu no tráfico e, pelo “deslize”, como ele mesmo descreve, paga pelo que fez. Agora, lendo títulos espirituais, acredita que a liberdade está próxima, e promete mudar de vida. “Ler me abre a mente, aprendo muito, e com certeza isso vai me fazer querer ser alguém melhor. Além de passar o tempo, me dá forças para seguir firme aqui dentro”.

Ao todo, cerca de 120 jovens dos centros 1 e 2 participaram, desde maio, de série de atividades promovidas pelo Semasa em prol da conscientização ambiental, como palestra sobre reutilização de material reciclado para paisagismo. A equipe do Diário esteve no Casa 1 e conversou com os meninos. Embora todas as atividades despertem vontade de recomeçar, como a horta e o jardim suspenso, o espaço de leitura parece ser o mais acolhedor para eles.

Um pouco desconfiado, Paulo (nome fictício), de apenas 16 anos, relutou em conversar com a equipe de reportagem. De cabeça baixa e semblante sério, o menino, aos poucos, abriu o sorriso e, dizendo que “era tímido”, confessou que ler ainda não é seu principal lazer, mas foi a forma que encontrou para distrair a cabeça.

A cara de ‘menino danado’ não engana. Logo ele disse, brincando, que leu dois livros que “nem lembra o nome”. Quando questionado do porquê do desinteresse, ele diz que “acha muito chato”, mas que descobriu que com histórias pode sonhar e se imaginar fora da unidade. “Ficar aqui (Fundação Casa) é muito difícil. Sempre a mesma coisa. Cansa demais. Pelo menos quando leio consigo sonhar e pensar que, talvez, consiga uma vida diferente lá no mundão (fora da medida socioeducativa).”

Na perspectiva de ter um futuro melhor, Paulo já fez diversos cursos em seus oito meses no Casa 1. Além de todas as oportunidades na área de informática, participou de capoeira, pintura e grafite, o que fez com que ajudasse o colega João no preparo da geladeira. Orgulhoso, conta que se os livros estão arrumados foi porque ele organizou. “Depois que vi a geladeira pronta, notei que precisava estar tudo bonito. Os livros estavam bagunçados na biblioteca antiga. Os peguei (livros) e arrumei tudo dentro da nossa nova estante. Claro, depois de ver tudo assim bonito eu até fico com vontade de aprender a gostar mesmo de leitura.”

Com a promessa de saírem da unidade e buscar vida diferente, João e Paulo dizem que esperam recomeçar e construir outra vida, longe da reclusão. Não só por eles, mas também pela família, os jovens sonham com futuro promissor e apelam ao governo para que tenha ações mais empenhadas na oferta de oportunidades. “Não quero voltar para o crime. Fui pego pelo artigo 157 (roubo a mão armada) e perdi dois colegas, um de apenas 13 anos, em troca de tiros com a polícia. Mas, se sair daqui e não tiver oportunidade, vou viver do quê? Minha família não tem boa estrutura e péssima condição (financeira). Quero mudar de vida, de postura e ter futuro. Mas vou precisar de ajuda quando sair daqui”, afirma Paulo, quando explicou o porquê de os livros ajudarem a pensar em ter outra vida.

Coordenadora pedagógica do Casa 1, Alaíde Maria Dias da Costa relata, emocionada, que “ver a evolução dos meus garotos” é uma conquista. “A leitura traz conhecimento. O trabalho da biblioteca contextualizou o que eles aprendem em sala de aula. Aliás, contextualiza o conhecimento base que eles têm, e faz com que pensem em um futuro muito diferente. Depois que leem, trocam experiências, conhecimento e conversam sobre as histórias.”
Cada um dos 45 jovens tem sua particularidade e demonstram aptidão para determinada área. No entanto, todos aprenderam que ler pode ser o divisor de águas no futuro. A geladeira, como estante de livros, serviu somente como despertar. Os jovens dizem que doações de títulos, de qualquer tema, serão bem-vindas, principalmente biografias. Entusiasmados, prometem a si mesmos que vão carregar o que aprenderam com a leitura para a vida toda.


Educação ambiental na Fundação Casa visa promover transformação social

Assistente social, Cleonice Pinto é encarregada de extensão ambiental do Semasa e coordenadora do projeto Formar para Ressocializar. Ela explica que o projeto tem como objetivo levar informações e compartilhar conceitos básicos de meio ambiente, além de promover reflexões e ações sobre as problemáticas ambientais mais relevantes na comunidade, para que os socioeducandos se tornem multiplicadores de práticas sustentáveis na sociedade.

“Durante as ações desenvolvidas neste ano, os socioeducandos da Casa 2, por exemplo, tiveram exposição sobre os rios subterrâneos no Dia Mundial da Água e, em comemoração ao Mês do Meio Ambiente, palestras sobre reutilização de materiais recicláveis no paisagismo, além da prática de um jardim suspenso com plantio de espécies ornamentais denominado ‘Muro Verde’. Na Casa 1, além das atividades acima, os adolescentes realizaram plantio de mudas de hortaliças e condimentares, fizeram oficina de grafite na geladeira e a implantação do projeto Livro Vivo”, relembra Cleonice.

Dentro deste contexto, foi criada também a geladeira como estante de livros. A assistente social ressalta que, dessa forma, além do incentivo à leitura, o projeto piloto proporcionará aos adolescentes novos conhecimentos, valores e habilidades, assim como pode proporcionar novas oportunidades na vida. “Como consequência disso, que ocorra a transformação social para que eles desenvolvam uma consciência crítica e reflexiva quanto à preservação e à conservação do meio ambiente”.

Para o diretor da unidade Casa 1, Leonardo de Jesus, não somente a leitura, mas todas as ações e cursos que tiram os garotos da rotina os instiga a mudar de vida. “Eu mesmo jogo futebol com eles. Tudo que os tira da mesmice que tanto falam é inspirador. Claro que não podemos tirá-los tão fora de suas realidades lá fora, mas certamente um bom livro os encoraja a melhorar. As ações servem como busca positiva por se autoconhecerem e pensarem em ser alguém quando saírem da medida socioeducativa”.

PARCERIA
Desde 2015 o Semasa, por meio de seu departamento de gestão ambiental, gerência de Educação e Mobilização Ambiental, desenvolve ações em prol das datas comemorativas ambientais nos centros socioeducativos Casa 1 e Casa 2, com 120 adolescentes. Todas as atividades são realizadas com base na Política Municipal de Educação Ambiental de Santo André (lei 9738/ 2015) e no calendário ambiental da cidade, conforme (lei 9.151/2009). 



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Leitura que abre horizontes

Ação do Semasa desperta nos internos da Fundação Casa gosto pela leitura e ideal de bom futuro; geladeira reformada pelos jovens é utilizada como estante de livros

Bia Moço

23/07/2018 | 07:00


Ler para ‘sair da caixa’ e abrir novos horizontes. É assim que os meninos internos da Fundação Casa Santo André 1 descrevem o novo hábito de apreciar bons títulos. Isso porque, no último dia 28, o Semasa (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André) incluiu, nos centros 1 e 2 da instituição, a ação Livro Vivo, como parte do projeto Formar para Ressocializar – realizado pela autarquia em parceria com a Fundação Casa desde 2015. O objetivo é ensinar aos adolescentes conteúdos sobre educação ambiental, reciclagem e arte.

Os 45 jovens em medida socioeducativa no Casa Santo André 1 foram os primeiros contemplados pelo projeto e, com sorriso no rosto, dizem que passam “algumas boas horas” envolvidos com os livros. Para eles, o gosto por ‘devorar’ um exemplar surgiu do ‘sonhar’. Eles explicam que viver em medida socioeducativa é sempre “estar na mesmice” e, com as histórias, conseguem viajar e imaginar outra vida. Além disso, descobriram que, com a leitura, o tempo passa mais rápido e também conseguem “abrir a mente e pensar em novos caminhos” para quando saírem da reclusão.

Os centros já tinham biblioteca disponível aos garotos, mas nem sempre o gosto pela leitura caminhou junto. Embora ler ainda não seja escolha de todos os internos, a participação na preparação da nova estante foi o que despertou o interesse pelas diversas histórias. Alguns dos meninos participaram da grafitagem da geladeira, reaproveitada das estações de coleta de recicláveis do Semasa, que agora serve como armário para armazenar as publicações.
João (nome fictício), 17 anos, foi o principal responsável pela arte. Ele faz parte do curso de grafite disponível no regime socioeducativo. “A geladeira chegou para nós bem velha. Lixamos e fizemos um desenho que fizesse alusão ao meio ambiente. Com essa nova estante conseguimos até trazer mais colegas para ler. Transformou nossa biblioteca em espaço mais acolhedor e divertido. Foi muito bom.”

João está no centro há nove meses. O menino, que trabalhava como cabeleireiro, se envolveu no tráfico e, pelo “deslize”, como ele mesmo descreve, paga pelo que fez. Agora, lendo títulos espirituais, acredita que a liberdade está próxima, e promete mudar de vida. “Ler me abre a mente, aprendo muito, e com certeza isso vai me fazer querer ser alguém melhor. Além de passar o tempo, me dá forças para seguir firme aqui dentro”.

Ao todo, cerca de 120 jovens dos centros 1 e 2 participaram, desde maio, de série de atividades promovidas pelo Semasa em prol da conscientização ambiental, como palestra sobre reutilização de material reciclado para paisagismo. A equipe do Diário esteve no Casa 1 e conversou com os meninos. Embora todas as atividades despertem vontade de recomeçar, como a horta e o jardim suspenso, o espaço de leitura parece ser o mais acolhedor para eles.

Um pouco desconfiado, Paulo (nome fictício), de apenas 16 anos, relutou em conversar com a equipe de reportagem. De cabeça baixa e semblante sério, o menino, aos poucos, abriu o sorriso e, dizendo que “era tímido”, confessou que ler ainda não é seu principal lazer, mas foi a forma que encontrou para distrair a cabeça.

A cara de ‘menino danado’ não engana. Logo ele disse, brincando, que leu dois livros que “nem lembra o nome”. Quando questionado do porquê do desinteresse, ele diz que “acha muito chato”, mas que descobriu que com histórias pode sonhar e se imaginar fora da unidade. “Ficar aqui (Fundação Casa) é muito difícil. Sempre a mesma coisa. Cansa demais. Pelo menos quando leio consigo sonhar e pensar que, talvez, consiga uma vida diferente lá no mundão (fora da medida socioeducativa).”

Na perspectiva de ter um futuro melhor, Paulo já fez diversos cursos em seus oito meses no Casa 1. Além de todas as oportunidades na área de informática, participou de capoeira, pintura e grafite, o que fez com que ajudasse o colega João no preparo da geladeira. Orgulhoso, conta que se os livros estão arrumados foi porque ele organizou. “Depois que vi a geladeira pronta, notei que precisava estar tudo bonito. Os livros estavam bagunçados na biblioteca antiga. Os peguei (livros) e arrumei tudo dentro da nossa nova estante. Claro, depois de ver tudo assim bonito eu até fico com vontade de aprender a gostar mesmo de leitura.”

Com a promessa de saírem da unidade e buscar vida diferente, João e Paulo dizem que esperam recomeçar e construir outra vida, longe da reclusão. Não só por eles, mas também pela família, os jovens sonham com futuro promissor e apelam ao governo para que tenha ações mais empenhadas na oferta de oportunidades. “Não quero voltar para o crime. Fui pego pelo artigo 157 (roubo a mão armada) e perdi dois colegas, um de apenas 13 anos, em troca de tiros com a polícia. Mas, se sair daqui e não tiver oportunidade, vou viver do quê? Minha família não tem boa estrutura e péssima condição (financeira). Quero mudar de vida, de postura e ter futuro. Mas vou precisar de ajuda quando sair daqui”, afirma Paulo, quando explicou o porquê de os livros ajudarem a pensar em ter outra vida.

Coordenadora pedagógica do Casa 1, Alaíde Maria Dias da Costa relata, emocionada, que “ver a evolução dos meus garotos” é uma conquista. “A leitura traz conhecimento. O trabalho da biblioteca contextualizou o que eles aprendem em sala de aula. Aliás, contextualiza o conhecimento base que eles têm, e faz com que pensem em um futuro muito diferente. Depois que leem, trocam experiências, conhecimento e conversam sobre as histórias.”
Cada um dos 45 jovens tem sua particularidade e demonstram aptidão para determinada área. No entanto, todos aprenderam que ler pode ser o divisor de águas no futuro. A geladeira, como estante de livros, serviu somente como despertar. Os jovens dizem que doações de títulos, de qualquer tema, serão bem-vindas, principalmente biografias. Entusiasmados, prometem a si mesmos que vão carregar o que aprenderam com a leitura para a vida toda.


Educação ambiental na Fundação Casa visa promover transformação social

Assistente social, Cleonice Pinto é encarregada de extensão ambiental do Semasa e coordenadora do projeto Formar para Ressocializar. Ela explica que o projeto tem como objetivo levar informações e compartilhar conceitos básicos de meio ambiente, além de promover reflexões e ações sobre as problemáticas ambientais mais relevantes na comunidade, para que os socioeducandos se tornem multiplicadores de práticas sustentáveis na sociedade.

“Durante as ações desenvolvidas neste ano, os socioeducandos da Casa 2, por exemplo, tiveram exposição sobre os rios subterrâneos no Dia Mundial da Água e, em comemoração ao Mês do Meio Ambiente, palestras sobre reutilização de materiais recicláveis no paisagismo, além da prática de um jardim suspenso com plantio de espécies ornamentais denominado ‘Muro Verde’. Na Casa 1, além das atividades acima, os adolescentes realizaram plantio de mudas de hortaliças e condimentares, fizeram oficina de grafite na geladeira e a implantação do projeto Livro Vivo”, relembra Cleonice.

Dentro deste contexto, foi criada também a geladeira como estante de livros. A assistente social ressalta que, dessa forma, além do incentivo à leitura, o projeto piloto proporcionará aos adolescentes novos conhecimentos, valores e habilidades, assim como pode proporcionar novas oportunidades na vida. “Como consequência disso, que ocorra a transformação social para que eles desenvolvam uma consciência crítica e reflexiva quanto à preservação e à conservação do meio ambiente”.

Para o diretor da unidade Casa 1, Leonardo de Jesus, não somente a leitura, mas todas as ações e cursos que tiram os garotos da rotina os instiga a mudar de vida. “Eu mesmo jogo futebol com eles. Tudo que os tira da mesmice que tanto falam é inspirador. Claro que não podemos tirá-los tão fora de suas realidades lá fora, mas certamente um bom livro os encoraja a melhorar. As ações servem como busca positiva por se autoconhecerem e pensarem em ser alguém quando saírem da medida socioeducativa”.

PARCERIA
Desde 2015 o Semasa, por meio de seu departamento de gestão ambiental, gerência de Educação e Mobilização Ambiental, desenvolve ações em prol das datas comemorativas ambientais nos centros socioeducativos Casa 1 e Casa 2, com 120 adolescentes. Todas as atividades são realizadas com base na Política Municipal de Educação Ambiental de Santo André (lei 9738/ 2015) e no calendário ambiental da cidade, conforme (lei 9.151/2009). 

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;