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Tito Costa: ‘Lula tem de ser candidato para perder no voto’

André Henriques/DGABC  Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Raphael Rocha

16/07/2018 | 07:00


As histórias de Tito Costa e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se misturam. Um era prefeito de São Bernardo quando o outro liderava as grandes greves sindicais no Grande ABC, em plena ditadura militar. A relação de um advogado que veio à região pelas mãos de Lauro Gomes e de um sindicalista se estreitou à medida em que o regime partia para cima de Lula. Ao Diário, Tito relembra alguns episódios do período que fez Lula se tornar um líder nacional. Mas também ressalta, quase 40 anos depois, que o petista precisa ser derrotado no voto, para mostrar que não é imbatível, a despeito de acreditar em um “complô de classes dominantes” para mantê-lo preso. 

O senhor tem conhecida relação com o ex-presidente Lula. Como as suas histórias se cruzaram?
Na minha campanha de prefeito, pelo MDB (em 1976). Só havia Arena e MDB, e o Sindicato dos Metalúrgicos me apoiou. O Lula era presidente (do sindicato), mas não costumava ir a reuniões minhas, mandava o Mauricio Soares (ex-prefeito de São Bernardo). O Mauricio frequentava os encontros, depois transmitia para ele (Lula). O Mauricio era advogado do sindicato. Conheci o Lula, de perto, já como prefeito.

E como essa relação com ele se intensificou?
Quando era prefeito, ajudei muito o Lula. Ele ficou um mês em uma chácara minha em Torrinha, onde nasci. Meus familiares o receberam lá. Ajudei também o sindicato. O Lula tinha muita informação ou era feeling aguçado. Às vésperas da intervenção no sindicato (em 22 de março de 1979, a primeira das diversas intervenções militares na entidade) ele ligou para meu gabinete, dizendo que tinha material, comida e que precisava tirar de lá. Mandei os caminhões buscarem, mas avisei que não iria guardar na Prefeitura. Eles levaram para a Igreja Matriz. Tempos depois fui chamado em Brasília para conversar com Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do (Ernesto) Geisel (ex-presidente do País no regime militar), e lá estava também o chefe da Casa Militar, cujo nome não me lembro. Fui chamado e fiquei numa sala, só nós três. Eles me falaram que eu estava colocando muita lenha na fogueira em São Bernardo. Falei que não, que colocava água na fervura. Nos embates que tivemos no estacionamento da Prefeitura, se houvesse um morto, eles sabem muito bem como a história iria render dentro dos protestos. Eles intervieram no sindicato numa madrugada, quando fui chamado pelo Lula.

Como um sindicalista foi virar tão próximo de um prefeito de São Bernardo?
Depois da história da intervenção, eles sentiram (confiança). Primeiro pela minha campanha de oposição ao regime militar, com as devidas cautelas. O sindicato abraçou e me ajudou, não tinha saída, embora não tivesse ido para a rua (fazer campanha). A partir da intervenção a relação se estreitou. A ponto de levar o Lula para Torrinha, na minha chácara.

Qual foi sua impressão quando viu Lula?
Tive impressão de um cara inteligente, sagaz. Às vezes ele ficava parado, pensando, fumando, no meio das correrias daqueles dias. No Estádio da Vila Euclides, há fotos dele sempre muito observador de tudo. Lula é muito inteligente. É uma das grandes lideranças que o Brasil teve ao longo de sua história. Naquela carta aberta que fiz disse, entre outras coisas: ‘Lula, você poderia ser o operário estadista, mas preferiu outros caminhos’.

Como foi sua relação nos anos de Lula como presidente da República?
Pouco falei com ele nos oito anos em que foi presidente. Conversamos duas vezes apenas: na posse do (Ricardo) Lewandowski (como ministro do Supremo Tribunal Federal, em 2006), em Brasília. O Lewandowski é meu amigo dos tempos antigos. Estavam o Lula e a Marisa (Letícia, ex-primeira-dama, morta em 2017), e a elogiei. A Marisa foi funcionária da Prefeitura, trabalhou como servente. Era muito amiga do Luiz Massa, que foi vereador, padre. O Luiz era vigário de uma paróquia onde ela trabalhava. O outro encontro que tive com o Lula foi no lançamento da pedra fundamental da Universidade Federal do ABC. Conversei com ele mais à vontade. Brinquei: ‘Você passou dias em Torrinha, ficou apertado por lá?’. ‘Claro que não! Peguei até uma cobrinha venenosa e mandei ao Instituto Butantan’. Depois desses episódios nunca mais vi o Lula pessoalmente.

Acabando seu mandato de prefeito, a relação com o Lula diminuiu?
Continuou boa. Tive alguns encontros com o Lula depois disso (saída do Paço, em 1982). Quando foi homenageado na Câmara de São Bernardo, com título de cidadão são-bernardense, compareceu com o Márcio Thomaz Bastos. Eles estavam na sala da presidência e eu entrei. Cumprimentei os dois e ele comentou com o Márcio que iria me trazer para o PT. Ficou nisso só. Se tivesse convidado não iria.

Sua atuação no auge do regime militar trouxe prejuízos à sua carreira política?
Nunca me incomodou. A não ser a vez que tive de ir para Brasília falar com o Golbery. Eles sabiam com quem deveria mexer. Passei de rabo erguido, como diz o caboclo. Não me arrependo de nada que fiz, faria de novo. Até porque me consagrou como prefeito. Eu assumi de corpo e alma. Nunca neguei, sempre estive junto ao Lula. Não é bravata minha. Tinha consciência da importância de um prefeito, como chefe de um poder, eu era eleito. Com o perdão da imodéstia, fui uma pessoa que concentrou no Grande ABC uma posição de independência, não de agressividade nem de confronto. Esse episódio do Golbery mostrou isso, que eles me respeitavam e eu também respeitei. Passei ileso pelos militares.

Nesse dia da intervenção, houve uma grande reunião no Paço de São Bernardo e o senhor foi protagonista daquele encontro. Ali emergiu sua figura. Como foi aquele dia?
Neste mesmo dia da intervenção houve uma reunião do sindicato no pátio da Prefeitura, no Paço. Era gente gritando, polícia lá. Ligaram para meu apartamento em São Bernardo, na Chácara Inglesa, estava almoçando. Fui ao sindicato, mas ele (Lula) ainda não estava preso. Fiz o que poderia. O delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social, braço armado do regime militar) de São Bernardo me levou também para o sindicato. Chegamos de mãos dadas, rezamos um Pai-Nosso. Lula saiu e foi parar numa igreja. Nesse dia houve reunião do sindicato no Paço porque o Estádio de Vila Euclides, que eu tinha dado a eles (sindicalistas) se reunirem, o governador (Paulo) Maluf mandou fechar. Pela manhã, na intervenção no sindicato, havia um major com braço engessado. Mal o cumprimentei. À tarde, quando houve o pega-pega no Paço, me chamaram. Entrei na contramão para chegar ao Paço e me lembro perfeitamente de um trabalhador que gritou: ‘Há um chapa branca do lado do trabalhador!’. Entrei no meio do rolo, queria falar com o comandante da operação. O major do braço engessado queria me conter. ‘Eu sou prefeito de São Bernardo, quero ver o que posso fazer’, bradei. Chamaram o comandante Rigonatto, que cuidava da operação. Conversei com ele. Subi no carro da polícia, no capô do carro, passei a mão no microfone e consegui acalmar o pessoal. Foi aquela prosa de acalmar as multidões. O Édison Motta,que era meu assessor da Prefeitura (e também trabalhou como jornalista do Diário), me chamou: ‘Prefeito, convoque uma reunião para amanhã, um sábado, aqui’. Foi boa ideia, eu segui. Me levaram carregado até a porta da Prefeitura. Chega o sábado. E agora? Saí do meu apartamento em São Bernardo no carro de um irmão meu, na parte de trás, escondido, porque estava cheio de repórter rondando meu apartamento. Fui a São Paulo para falar com o comandante do Segundo Exército. Ele me recebeu às 11h, no sábado. ‘General, o senhor precisa me ajudar lá’. Ele me disse que eu era prefeito, saberia me virar, ele tirou o corpo fora. Falei que era para não permitir o comparecimento de nenhum policial na reunião, já me ajudaria bastante. Saí, voltei para São Bernardo e às 15h começou a ameaçar a chuva. O Djalma Bom era vice-presidente do sindicato. Ele estava em São Bernardo. Falei para o Djalma que eu iria abrir a sessão que convoquei, mas ele precisaria presidir. Não poderia presidir uma assembleia de trabalhadores como prefeito. Ele concordou e foi.

Como houve o distanciamento do senhor e de Lula?
No dia em que o Lula recebeu o título de cidadão de São Bernardo, estava lá, na mesa principal. Quando anunciaram meu nome, surgiu uma vaia enorme nas galerias. O Lula falou e agradeceu o prefeito Tito Costa. Aplaudiram de pé. La donna è mobile qual piuma al vento (A mulher é volúvel como pluma ao vento, na tradução livre do italiano). Ele recebeu muita influência do pessoal do PT, em especial do Zé Dirceu (ex-ministro da Casa Civil). Ninguém tira da minha cabeça que o PT tinha plano de poder e não projeto de Brasil. Isso foi o Frei Betto quem falou e eu acredito nisso. O PT, se continuasse avançando como queria, iria transformar o Brasil em uma Venezuela. Não tenho dúvida nenhuma. Porque eram muitos radicais, alguns deles radicalíssimos.

Mas esse era o pensamento do Lula que o senhor conheceu?
O Lula nunca manifestou, pessoalmente para mim, qualquer idiossincrasia ou favorecimento a alguém.

Como o senhor vê o Lula hoje, condenado e preso?
Acho que há um complô, um movimento das classes dominantes, no sentido de afastá-lo.

O senhor vê falhas no processo que o condenou?
Não conheço nada do processo. Não me interessa conhecer também. Anunciam que há muita prova nessa história do triplex. Eu duvido que um juiz desse a sentença se não houvesse provas. Há provas que são chamadas indiciárias, que indicam você a uma conclusão. Ela não fala diretamente sobre o fato. Acho que o que acontece aí é um pouco de... sei lá. Marcaram ele. Nunca votei nele, mas acho isso.

Há movimento para derrubá-lo?
É.

E de quem seria?
Das classes dominantes, vamos dizer.

Qual sentimento que traz ao senhor vendo tudo que acontece com o Lula atualmente?
O Lula é grande liderança, grande mesmo. Ele está preso a um entorno do PT, que queria e quererá botar fogo no circo, transformar isso aqui numa Venezuela. O Lula sempre cortejou muito as classes dominantes, quase uma contradição, não é? Os bancos nunca ganharam tanto quanto com ele como presidente. O Lula, não sei se não quis ou não teve condições, de parar com isso. Agora está com discurso um pouco diferente.

O senhor acha que ele deveria ser candidato a presidente?
O Lula poderia ser candidato, deveria, aliás. Para ser derrotado. Porque ele tem muita convicção de que é imbatível, mas não é imbatível. Se ele fosse candidato, ou se vier a ser, ele vai sofrer ataques tremendos e provavelmente iria para um segundo turno. Com quem? Não se sabe.

A chance de ele perder é grande no segundo turno?
Perderia. Independentemente do adversário. Ele precisaria perder no voto. Para acabar com essa história de que não querem deixá-lo ser candidato.

 

RAIO X

Nome: Antônio Tito Costa

Estado civil: Viúvo

Idade: 95 anos

Local de nascimento: Torrinha e mora em São Paulo

Formação: Faculdade de Direito do Largo São Francisco

Hobby: Leitura

Local predileto: Cama, com leitura

Livro que recomenda: O Velho Que Acordou Menino, de Rubem Alves 

Artistas que marcaram sua vida: Orlando Silva (música) e Fernanda Montenegro (teatro)

Profissão: Advogado

Onde trabalha: Escritório de advocacia e tribunais eleitorais



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Tito Costa: ‘Lula tem de ser candidato para perder no voto’

Raphael Rocha

16/07/2018 | 07:00


As histórias de Tito Costa e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se misturam. Um era prefeito de São Bernardo quando o outro liderava as grandes greves sindicais no Grande ABC, em plena ditadura militar. A relação de um advogado que veio à região pelas mãos de Lauro Gomes e de um sindicalista se estreitou à medida em que o regime partia para cima de Lula. Ao Diário, Tito relembra alguns episódios do período que fez Lula se tornar um líder nacional. Mas também ressalta, quase 40 anos depois, que o petista precisa ser derrotado no voto, para mostrar que não é imbatível, a despeito de acreditar em um “complô de classes dominantes” para mantê-lo preso. 

O senhor tem conhecida relação com o ex-presidente Lula. Como as suas histórias se cruzaram?
Na minha campanha de prefeito, pelo MDB (em 1976). Só havia Arena e MDB, e o Sindicato dos Metalúrgicos me apoiou. O Lula era presidente (do sindicato), mas não costumava ir a reuniões minhas, mandava o Mauricio Soares (ex-prefeito de São Bernardo). O Mauricio frequentava os encontros, depois transmitia para ele (Lula). O Mauricio era advogado do sindicato. Conheci o Lula, de perto, já como prefeito.

E como essa relação com ele se intensificou?
Quando era prefeito, ajudei muito o Lula. Ele ficou um mês em uma chácara minha em Torrinha, onde nasci. Meus familiares o receberam lá. Ajudei também o sindicato. O Lula tinha muita informação ou era feeling aguçado. Às vésperas da intervenção no sindicato (em 22 de março de 1979, a primeira das diversas intervenções militares na entidade) ele ligou para meu gabinete, dizendo que tinha material, comida e que precisava tirar de lá. Mandei os caminhões buscarem, mas avisei que não iria guardar na Prefeitura. Eles levaram para a Igreja Matriz. Tempos depois fui chamado em Brasília para conversar com Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil do (Ernesto) Geisel (ex-presidente do País no regime militar), e lá estava também o chefe da Casa Militar, cujo nome não me lembro. Fui chamado e fiquei numa sala, só nós três. Eles me falaram que eu estava colocando muita lenha na fogueira em São Bernardo. Falei que não, que colocava água na fervura. Nos embates que tivemos no estacionamento da Prefeitura, se houvesse um morto, eles sabem muito bem como a história iria render dentro dos protestos. Eles intervieram no sindicato numa madrugada, quando fui chamado pelo Lula.

Como um sindicalista foi virar tão próximo de um prefeito de São Bernardo?
Depois da história da intervenção, eles sentiram (confiança). Primeiro pela minha campanha de oposição ao regime militar, com as devidas cautelas. O sindicato abraçou e me ajudou, não tinha saída, embora não tivesse ido para a rua (fazer campanha). A partir da intervenção a relação se estreitou. A ponto de levar o Lula para Torrinha, na minha chácara.

Qual foi sua impressão quando viu Lula?
Tive impressão de um cara inteligente, sagaz. Às vezes ele ficava parado, pensando, fumando, no meio das correrias daqueles dias. No Estádio da Vila Euclides, há fotos dele sempre muito observador de tudo. Lula é muito inteligente. É uma das grandes lideranças que o Brasil teve ao longo de sua história. Naquela carta aberta que fiz disse, entre outras coisas: ‘Lula, você poderia ser o operário estadista, mas preferiu outros caminhos’.

Como foi sua relação nos anos de Lula como presidente da República?
Pouco falei com ele nos oito anos em que foi presidente. Conversamos duas vezes apenas: na posse do (Ricardo) Lewandowski (como ministro do Supremo Tribunal Federal, em 2006), em Brasília. O Lewandowski é meu amigo dos tempos antigos. Estavam o Lula e a Marisa (Letícia, ex-primeira-dama, morta em 2017), e a elogiei. A Marisa foi funcionária da Prefeitura, trabalhou como servente. Era muito amiga do Luiz Massa, que foi vereador, padre. O Luiz era vigário de uma paróquia onde ela trabalhava. O outro encontro que tive com o Lula foi no lançamento da pedra fundamental da Universidade Federal do ABC. Conversei com ele mais à vontade. Brinquei: ‘Você passou dias em Torrinha, ficou apertado por lá?’. ‘Claro que não! Peguei até uma cobrinha venenosa e mandei ao Instituto Butantan’. Depois desses episódios nunca mais vi o Lula pessoalmente.

Acabando seu mandato de prefeito, a relação com o Lula diminuiu?
Continuou boa. Tive alguns encontros com o Lula depois disso (saída do Paço, em 1982). Quando foi homenageado na Câmara de São Bernardo, com título de cidadão são-bernardense, compareceu com o Márcio Thomaz Bastos. Eles estavam na sala da presidência e eu entrei. Cumprimentei os dois e ele comentou com o Márcio que iria me trazer para o PT. Ficou nisso só. Se tivesse convidado não iria.

Sua atuação no auge do regime militar trouxe prejuízos à sua carreira política?
Nunca me incomodou. A não ser a vez que tive de ir para Brasília falar com o Golbery. Eles sabiam com quem deveria mexer. Passei de rabo erguido, como diz o caboclo. Não me arrependo de nada que fiz, faria de novo. Até porque me consagrou como prefeito. Eu assumi de corpo e alma. Nunca neguei, sempre estive junto ao Lula. Não é bravata minha. Tinha consciência da importância de um prefeito, como chefe de um poder, eu era eleito. Com o perdão da imodéstia, fui uma pessoa que concentrou no Grande ABC uma posição de independência, não de agressividade nem de confronto. Esse episódio do Golbery mostrou isso, que eles me respeitavam e eu também respeitei. Passei ileso pelos militares.

Nesse dia da intervenção, houve uma grande reunião no Paço de São Bernardo e o senhor foi protagonista daquele encontro. Ali emergiu sua figura. Como foi aquele dia?
Neste mesmo dia da intervenção houve uma reunião do sindicato no pátio da Prefeitura, no Paço. Era gente gritando, polícia lá. Ligaram para meu apartamento em São Bernardo, na Chácara Inglesa, estava almoçando. Fui ao sindicato, mas ele (Lula) ainda não estava preso. Fiz o que poderia. O delegado do Dops (Departamento de Ordem Política e Social, braço armado do regime militar) de São Bernardo me levou também para o sindicato. Chegamos de mãos dadas, rezamos um Pai-Nosso. Lula saiu e foi parar numa igreja. Nesse dia houve reunião do sindicato no Paço porque o Estádio de Vila Euclides, que eu tinha dado a eles (sindicalistas) se reunirem, o governador (Paulo) Maluf mandou fechar. Pela manhã, na intervenção no sindicato, havia um major com braço engessado. Mal o cumprimentei. À tarde, quando houve o pega-pega no Paço, me chamaram. Entrei na contramão para chegar ao Paço e me lembro perfeitamente de um trabalhador que gritou: ‘Há um chapa branca do lado do trabalhador!’. Entrei no meio do rolo, queria falar com o comandante da operação. O major do braço engessado queria me conter. ‘Eu sou prefeito de São Bernardo, quero ver o que posso fazer’, bradei. Chamaram o comandante Rigonatto, que cuidava da operação. Conversei com ele. Subi no carro da polícia, no capô do carro, passei a mão no microfone e consegui acalmar o pessoal. Foi aquela prosa de acalmar as multidões. O Édison Motta,que era meu assessor da Prefeitura (e também trabalhou como jornalista do Diário), me chamou: ‘Prefeito, convoque uma reunião para amanhã, um sábado, aqui’. Foi boa ideia, eu segui. Me levaram carregado até a porta da Prefeitura. Chega o sábado. E agora? Saí do meu apartamento em São Bernardo no carro de um irmão meu, na parte de trás, escondido, porque estava cheio de repórter rondando meu apartamento. Fui a São Paulo para falar com o comandante do Segundo Exército. Ele me recebeu às 11h, no sábado. ‘General, o senhor precisa me ajudar lá’. Ele me disse que eu era prefeito, saberia me virar, ele tirou o corpo fora. Falei que era para não permitir o comparecimento de nenhum policial na reunião, já me ajudaria bastante. Saí, voltei para São Bernardo e às 15h começou a ameaçar a chuva. O Djalma Bom era vice-presidente do sindicato. Ele estava em São Bernardo. Falei para o Djalma que eu iria abrir a sessão que convoquei, mas ele precisaria presidir. Não poderia presidir uma assembleia de trabalhadores como prefeito. Ele concordou e foi.

Como houve o distanciamento do senhor e de Lula?
No dia em que o Lula recebeu o título de cidadão de São Bernardo, estava lá, na mesa principal. Quando anunciaram meu nome, surgiu uma vaia enorme nas galerias. O Lula falou e agradeceu o prefeito Tito Costa. Aplaudiram de pé. La donna è mobile qual piuma al vento (A mulher é volúvel como pluma ao vento, na tradução livre do italiano). Ele recebeu muita influência do pessoal do PT, em especial do Zé Dirceu (ex-ministro da Casa Civil). Ninguém tira da minha cabeça que o PT tinha plano de poder e não projeto de Brasil. Isso foi o Frei Betto quem falou e eu acredito nisso. O PT, se continuasse avançando como queria, iria transformar o Brasil em uma Venezuela. Não tenho dúvida nenhuma. Porque eram muitos radicais, alguns deles radicalíssimos.

Mas esse era o pensamento do Lula que o senhor conheceu?
O Lula nunca manifestou, pessoalmente para mim, qualquer idiossincrasia ou favorecimento a alguém.

Como o senhor vê o Lula hoje, condenado e preso?
Acho que há um complô, um movimento das classes dominantes, no sentido de afastá-lo.

O senhor vê falhas no processo que o condenou?
Não conheço nada do processo. Não me interessa conhecer também. Anunciam que há muita prova nessa história do triplex. Eu duvido que um juiz desse a sentença se não houvesse provas. Há provas que são chamadas indiciárias, que indicam você a uma conclusão. Ela não fala diretamente sobre o fato. Acho que o que acontece aí é um pouco de... sei lá. Marcaram ele. Nunca votei nele, mas acho isso.

Há movimento para derrubá-lo?
É.

E de quem seria?
Das classes dominantes, vamos dizer.

Qual sentimento que traz ao senhor vendo tudo que acontece com o Lula atualmente?
O Lula é grande liderança, grande mesmo. Ele está preso a um entorno do PT, que queria e quererá botar fogo no circo, transformar isso aqui numa Venezuela. O Lula sempre cortejou muito as classes dominantes, quase uma contradição, não é? Os bancos nunca ganharam tanto quanto com ele como presidente. O Lula, não sei se não quis ou não teve condições, de parar com isso. Agora está com discurso um pouco diferente.

O senhor acha que ele deveria ser candidato a presidente?
O Lula poderia ser candidato, deveria, aliás. Para ser derrotado. Porque ele tem muita convicção de que é imbatível, mas não é imbatível. Se ele fosse candidato, ou se vier a ser, ele vai sofrer ataques tremendos e provavelmente iria para um segundo turno. Com quem? Não se sabe.

A chance de ele perder é grande no segundo turno?
Perderia. Independentemente do adversário. Ele precisaria perder no voto. Para acabar com essa história de que não querem deixá-lo ser candidato.

 

RAIO X

Nome: Antônio Tito Costa

Estado civil: Viúvo

Idade: 95 anos

Local de nascimento: Torrinha e mora em São Paulo

Formação: Faculdade de Direito do Largo São Francisco

Hobby: Leitura

Local predileto: Cama, com leitura

Livro que recomenda: O Velho Que Acordou Menino, de Rubem Alves 

Artistas que marcaram sua vida: Orlando Silva (música) e Fernanda Montenegro (teatro)

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